Saturday, May 31, 2008

World No Tobacco Day, 31 May 2008

Os totalitários adoram se meter na sua vida. Eles acham que sabem o que é melhor para você.





Seja politicamente correto. Deixe o governo cuidar da sua vida.

World No Tobacco Day, 31 May 2008

Muitas pessoas acham que fumar envelhece e emburrece. Olha só como eles têm razão.




Eles sabem direitinho o que dizem, não é?

World No Tobacco Day, 31 May 2008

Eu odiar as Zigarreten! Eu odiar as Zigarreten! Eu dar uma große Lektion nesses verdammten Schweinhunde quando eu virar Führer da ONU! ONU über Alles!

Thursday, May 29, 2008

Novas européias

Antes eu pensava que fosse estranha. Não, tem gente pior. Segundo a London School of Hygiene and Tropical Medicine, os gordinhos são um dos culpados pelo aquecimento global. É isso aí. Se você for gordinho, você é mau, muito mau. Está destruindo o equilíbrio do planeta! Só digo que agora me deu vontade de ser enorme de gorda. Solidariedade aos gordinhos já! (*com punho levantado e tudo.)

(Falando em gente quase excluída do convívio humano, domingo passado até fiquei surpresa. Dez pessoas numa mesa. Um cara fumando. NINGUÉM fez cara feia. Repito: NINGUÉM. Fumante: "Olha, tem algum problema se eu acender um cigarro?" Alguém: "Claro que não." Pronto. É tão bom estar ao lado de gente normal...)

Agora uma outra notícia. Ativistas na Áustria estão lutando para que Matthew seja reconhecido como pessoa. Legal, né? Só que tem uma coisa. Ele é um chimpanzé. É verdade. Olha a fotinha dele, que gracinha. Então o negócio é o seguinte. Enquanto tem gente que jura que feto não é pessoa, outros acham que macaco é. Ponto para o filme O planeta dos macacos. Vão discutir o caso na Corte Européia de Direitos Humanos. Depois dizem que era em Constantinopla que discutiam coisas à toa enquanto a casa caía.

(Bizarrices assim vira e mexe aparecem na Áustria. Como a desse novo Moosbrugger.)

A coisa também está ruim mais para o norte. Lá na Inglaterra, um policial obrigou um cara a tirar a bandeira do país que ele usava no carro. Motivo: He saw the flag and said it was racist towards immigrants and if I refused to take it down I would get a £30 fine. Sacou? Aposto que daqui a pouco até as cinzas do Hitler vão conquistar a Inglaterra. Parece coisa de Monthy Python. Isso aconteceu no mesmo país onde o governo já propôs esterilização de moças e educação sexual obrigatória para crianças de 5 anos. Até fiquei feliz de ser una chica brasileña. (Isso durou 5 segundinhos.)

Melhor terminar bem. All's well that ends well. O Paul Belien diz coisas muito, muito legais nesse texto. O capitalismo e a noção de limited government têm uma origem geográfica comum. Nasceram bem na região onde ficava a Lotaríngia (Lotharii Regnum). Ela comportava a Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Suíça, leste da França, oeste da Alemanha e norte da Itália. Era uma região muito descentralizada. As cidades eram autônomas. Não havia cobranças de impostos pesadas para sustentar algum poderoso governante. Se tornaram prósperas logo. Essa autonomia fez com que as pessoas tivessem uma identidade local/regional muito forte. Nada de ser governado por gente morando em capitais distantes. P. Belien chama essa região de "espinha da Europa". Ele observa que vem dela os maiores protestos contra a União Européia, aculturação e entrada de imigrantes. Por isso a "espinha da Europa" é a maior arma de defesa do cristianismo e da própria cultura européia. 1200 anos de tradição não somem fácil.

Tuesday, May 27, 2008

Para Marília

Senhora (ou senhorita) Marília (sou senhorita), a resposta vai como um outro post. Vai ser até bom, porque eu tinha dito que escreveria mesmo mais algumas coisas. Antes da resposta, de novo o que você disse nos comentários:

Prezada Senhora Espectadora.

Gostaria de dizer algumas palavras.
Primeiro, de bons modos internáuticos.
A senhora até pode me linkar, me citar, me criticar... Mas a uma, eu gostaria de ter ciência disso e, a duas, me chamar de monstrinho não foi legal.
A senhora pode até se sentir à vontade para achar que o mundo é cor de rosa.
Mas, aos doze anos, quando escrevi aquilo, mal saída da infância e já tendo tido oportunidade de me deparar com a violência e com a injustiça, achei que podia reclamar.
E reclamei.
E vou continuar reclamando sempre que me deparar com coisas feias e erradas. As lentes dos meus óculos não são cor de rosa. Felizmente.
Vejo o mundo por lentes transparentes e enxergo muitas coisas.
Não apenas ouço Mozart, mas também ouço samba e repente. Por que aí a realidade fica mais clara.
Amar a vida e o mundo não significa não querer mudá-lo, não se insurgir, se cegar com um ópio qualquer.
Me reservo o direito de ser ranzinza.
Hoje em dia, já não tenho o mesmo estilo de quando escrevia pequenos monólogos para teatro (que é exatamente de que trata o texto tão veementemente contestado pela senhora). Já não sou tão dramática ou empolada como quando tinha doze anos...
Sou mais simples, escrevo versos, criticas, bobagens...
Mas, repito – continuo sendo, muitas vezes, ranzinza – porque afinal, às vezes é preciso um ranzinza pra abrir o olho de um deslumbrado. E aí a gente encontra, quem sabe, o meio termo budista ou o equilíbrio aristotélico...
Eu vejo o passarinho na minha janela e muitas outras coisas para além do meu jardim. Se isso faz de mim um monstrinho, nem por isso a senhora pode dizer isso de mim pelas costas...
Quanto à vida ser boa – concordamos nesse ponto. A vida é boa sim. E se poderia ser pior e não é, a gente tem mesmo de agradecer enquanto identifica o que é ruim, afinal, também podia ser melhor...


Olha, Marília, não fiz nada pelas suas costas. Reclamei em público. Escrevi um texto mencionando o seu (meti um link) e o publiquei. Foi tão público que você logo o encontrou. Depois leu e se defendeu. Se ficou parecendo que fiz tudo na encolha, é porque meu blog é obscuro mesmo. Agora, eu não sabia que tinha que pedir licença para criticar!

É verdade que não fui nenhum pouco delicada. Você também não foi nenhum pouco delicada naquele texto. Minha grosseria foi dirigida àquilo que você escreveu. A sua foi dirigida para meio mundo. Dói mais a minha, porque foi dirigida a uma pessoa específica... (E nem foi minha intenção descer a lenha em você, por mais que não pareça.) Na verdade, o problema não é a (falta de) delicadeza. Não é o jeito ranzinza. Se fosse só isso, eu não diria nada. O negócio todo é que seu texto é envenenado.

Ser o acusador do mundo e querer modificá-lo é vaidade. Eu mesma já caí nessa tentação. Esse é o papel típico do... demônio. Sim, o próprio. Acusar e desejar modificar o mundo é um sentimento satânico. O fato de você, eu e de várias pessoas terem sentido uma coisa dessas tão novas é muito assustador. Por isso eu disse e repito: coisa de monstrinho.

O veneno da vaidade faz a gente se sentir especial. Você escreveu alguma coisa como: "A humanidade é inviável" lá no post. É inviável por que é ruim demais? Claro. Se você emitiu esse julgamento, é porque está do lado da promotoria. Mas você é gente que nem nós? É. Tem defeitos? Tem. Você sabe disso? Deve saber. Então por que está fazendo o trabalho da promotoria? É porque num breve instante você se achou melhor que todos. Mais especial. Uma pessoa pura bradando contra a feiúra do mundo. Beleza, você escreveu aquelas coisas quando tinha 12 anos. Seu estilo hoje é outro. Só que o próprio tom que você usou é de quem lança acusações terríveis contra o mundo. Não importa em qual circunstância você escreveu aquilo. Você buscou um tom grandiloqüente porque queria algo mais à altura daquelas acusações enormes. Hoje o seu tom pode ser diferente. Não importa. O ponto é que o sentimento continua o mesmo. É vaidade.

(En passant: quando eu digo "vaidade", digo "orgulho". Acho que os dois não são a mesma coisa.)

Só para não esquecer: meu telhado é de vidro. Não estou dando uma de santinha ofendida. Já pensei as mesmas coisas. Sei essa história de trás para frente. Uma vez escrevi um negócio mais ou menos assim: "Um apocalipse é mais do que bem-vindo neste mundo podre, no qual todos pisam no olho do próximo para adquirir o que desejam." Acho que nem poupei o Natal em outro texto. Escrevi algo no estilo "tantos comem, e tantos ainda passam fome". Eu não era tão novinha quando escrevi isso (17 anos). Me dá vergonha dizer essas coisas hoje, mas enfim. O que interessa é que eu estava com muita minhoca na cabeça. Eu estava dando uma de gostosona. A ficha caiu um dia. Demorou. Fiquei massageando o ego até dizer chega! Não dá. Palhaçada tem limite.

Do ponto de vista pessoal, eu não tinha do que reclamar. Ninguém tinha pisado no meu olho. Ninguém tinha me mandado para Sobibor. Ninguém me jogou pedras porque anunciei o nome do Cristo. Nada, nada. Vivia muito bem, obrigada. Se vi coisas erradas, não foi nada que nunca ninguém já viu. O que justificava a minha revolta? Meu ódio? Isso mesmo: nada. Era uma raiva gratuita. Pensando bem, nada justifica uma revolta dessas. Só que era mais bonito eu transferir essa raiva gratuita para uma coisa que parecesse válida. Claro. Não pegaria bem dizer que a razão de tudo era minha vaidade. O (falso) sentimento de justiça serviu de escadinha para meu erro. A falsidade nesse ponto é radical. Eu sabia, só não tinha coragem de admitir. Era melhor me sentir a gostosona do pedaço. Como é falso, você sempre sente o espinho na carne. Aí raiva vem duplicada. Mas como eu disse, um dia a ficha caiu. Hoje estou imune? Lógico que não. O único consolo é que hoje tenho mais consciência de como isso funciona. Antes não.

Você diz que reclama para ver se desperta alguém. Está de olhos bem abertos? Sorry, mas comigo não cola. Essa "utopia de não ter utopias" (by Ortega y Gasset) é manjadinha que só. A única coisa que você está dizendo mesmo é o seguinte: "Olha para mim, sou melhor que muita gente porque conheço mais as coisas." Por "as coisas", leia "a maldade do mundo". Conhece o bem e o mal? Olha, essa história é tão velha que vem da época do Adão e Eva. É engraçado, mas você não parece se dar conta disso. Você parece acreditar mesmo que seu desejo de justiça é autêntico. Você gostaria que fosse. Não, não é. Seu desejo de justiça é vaidade (mal) disfarçada. É só afirmação de si mesma. Leia sine ira et studio o que você mesma escreveu quando tinha 12 anos e o que você diz agora! Isso sim é ingenuidade. Não sei quem é seu oculista, mas ele trocou as lentes cor-de-rosa por um par de lentes arco-íris!

Citei o Ortega. Vou citar de novo, de cabeça, porque ele disse uma coisa legal sobre a vida: "É preciso viver como aqueles mergulhadores que, uma vez tendo mergulhado até as profundezas, conseguem voltar à superfície com a mais preciosa pérola entre os dentes." Depois ele esclarecia: sim, é importante notar a dimensão dramática da nossa existência. Mas a vida exige que não sejamos esmagados. Quem vive triste sente o mundo nas costas, oprimindo. A vida de alguém feliz é o contrário. Ele não se sente oprimido. Não é mera coincidência que alegria e alígera sejam palavras aparentadas. Viver é estar mais leve. Não que uma pessoa feliz não sinta a pressão do mundo. A diferença é a seguinte. Tem gente que fica logo doente ou sofre de velhice precoce. Para outras pessoas, essa pressão é serve como exercício. Você sai mais inteiro, mais saudável. É por isso que ele dizia também: "A vida ideal consiste em conciliar a concepção cristã de um mundo como 'vale de lágrimas' com a concepção pagã de um mundo como um imenso stadium".

Antes de pedir a conta para o garçom:

1) Não vejo nada cor-de-rosa. Minha cor preferida é roxo. Mas enfim, não vejo tudo cor-de-rosa. Até porque todo mundo sabe que o demônio é o príncipe deste mundo. O que não quer dizer que ele seja o criador do mundo;

2) Não entendi o comentário do samba e repente. Essas coisas (e Mozart) ajudam a clarificar a realidade? Como assim?

3) Nunca quis tomar o seu direito de ser ranzinza;

4) Não entendo nada de budismo. Também não sei qual é o meio-termo aristotélico;

5) Eu disse que a vida é boa num sentido radical. É que o fundamento da vida é bom. Ela não foi me dada pronta. Mas só de eu ter sido colocada no palco do mundo é maravilhoso! Tanto que a gente nem encontra explicação, o que torna tudo mais maravilhoso ainda. Agora, vida enquanto execução de uma vocação pode ser boa ou ruim. Depende de como você a vive. Se você vive afastada da sua vocação, então sua vida é falsa. Um fracasso. Vida melhor ou pior só pode ser pensada nesse sentido. Ficar imaginando se Deus podia ter feito um mundo melhor, aí não é comigo.

Sei lá se os "bons modos internáuticos" exigem despedidas. Deixa. Vai um "até logo" bem espontâneo.

Monday, May 26, 2008

[Re-post] A vida é boa (embora às vezes ela possa parecer um saco)

Resolvi republicar esse texto por dois motivos. Um é que me deu vontade de reapresentar o que escrevi faz um tempinho já. O outro motivo foi ter lido esse texto. Não gostei nada. Pior que já pensei daquele jeito. Parece mesmo que eu escrevi aquilo. Até do ponto de vista estilístico! Bizarro. Mas agora penso que é coisa de monstrinho. Adolescência não é desculpa para esse tipo de coisa.

Vou publicar depois o que escrevi a respeito.


Eu queria dizer uma coisa bem pessoal. Um dos primeiros efeitos que senti ao levar a sério o Cristianismo foi uma mudança bem radical a respeito da minha circunstância (do ponto de vista orteguiano mesmo). O mundo/circunstância não me pareceu mais hostil. Não era pesado. Perdeu o sentido considerá-lo um corpo estranho. Ele faz parte da gente. Ele é mesmo bom! (É para levar a sério a frase: Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo. Não é uma sacação. Não é uma metáfora.) Me senti mais viva do que nunca quando descobri isso (sou meio burra, demoro para entender as coisas). Ele não era tão escroto como eu pensava. Escrota era eu por ter pensado que ele fosse assim. A bondade fundamental das coisas é a razão deste mundo.

Você vai notar rapidinho como o espírito desse meu texto é diferente daquele. Mas eu já disse que parece até que escrevi aquele texto a long time ago. Então é como se você visse um daqueles antes-e-depois. Meus cabelos continuam (em parte) os mesmos. Os sentimentos mudaram...

O texto é de 26/11/06.


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Ai, o Paraíso... Dizem que é muito bom. Como não sei como é por lá, digo que gosto deste mundinho aqui. É sério. Quando dizem que isso aqui é uma bosta, sou a primeira a dizer que não é bem assim, não. Coisas pequenininhas são maravilhosas. Sorvete. Andar na chuva. Rir. Conversar. Pintar o cabelo. Falar mal do calor de hoje (meu esporte preferido é falar mal do calor). Ouvir agorinha o Mozart. Bater perna.

A gente reclama de muitas coisas. Agora, se você pensar bem, não há tantos motivos assim pra reclamação. Quem sou eu para ter sorvete? Quem sou eu para ouvir uma piada e rir? Quem sou eu para receber o que há de bom? Viver é bom, embora às vezes a gente fique puta. Mas fica puta nem tanto com a vida, mas por causa das sacanagens que fazem com ela. Isso é de lascar. Não digo que a gente tem que ficar que nem hiponga deslumbrado com o pôr-do-sol. Lá em Ipanema tem gente que fica aplaudindo quando o sol se põe. Ieca! Digo que é só uma impressão sobre o que de bom acontece sem eu saber a razão de desfrutar de tanto.

Para quem agradeço? A quem eu posso dar um "valeu"? Já dá para imaginar a minha resposta, né?

A vida é estranha. Me sinto bem com ela (ou nela?), mas ao mesmo tempo meio que não sei se há motivo para tê-la. Não faço paradoxos. Não estou dizendo nas entrelinhas que no fundo tenho tendências suicidas. Sou boba demais para dizer alguma coisa nas entrelinhas. Prefiro dizer claro, no máximo em tom brincalhão. Mas para mim é fato. Agradeço, agradeço, mas no fundo tenho a sensação de que essas coisas boas no fundo não são minhas. De repente estou aqui (obrigado quem me colocou aqui!), brinco com tudo, mas nada é meu, embora eu goste. Mereço tanto? E ainda tem quem reclame de tudo! Wow! Como poderíamos querer mais, se não dá nem para saber se na verdade teríamos que ter o que temos? Como é que vou ficar querendo ter oito namorados, quando já é estranho que de repente apareça um que me ame?

Viver é bom. Mas as coisas ao nosso redor não são nossas. Nem dá para saber direito se a vida é nossa mesma. O meu filósofo de cabeceira dizia que a vida nos foi dada, mas não dada pronta. O como ela será fica por nossa própria conta e risco. E quanto risco! Quase às cegas, a gente projeta a nossa vida.

Pegando essa idéia, fico pensando no seguinte. E se na verdade a vida de cada um, como ela tem que ser, na verdade já estiver planejada na cuca de Deus, se é que Deus tem cuca? Ele podia pensar assim: Tanja será médica. Esse é o primeiro ponto. O segundo é a minha atitude. Embora Ele queira que eu seja médica, embora tudo em mim carregue uma médica em potencial, eu posso dizer outra coisa: não, não quero ser isso, vou ser manicure. Não serei o que eu deveria ser. Serei falsidade de mim mesma. Não estarei ouvindo a minha vocação. Só que há um terceiro ponto. É que Deus quer (eu acho) que sejamos algo não só no sentido profissional, mas pessoal. Tenho que ser uma pessoa bem desenvolvida. Ok, soa vago. Mas a vida é vaga, só dá para fazer aproximações. Tem mais. Não dá para saber até que ponto o que acontece comigo acontece com outro. A gente conhece tudo por analogias com o que se passa conosco. O que cada um tem que ser é problema entre cada um e Deus. Cada um paga a sua própria conta. Então há uma espécie de Tanja do mundo das idéias (by Platão) na mente divina (eu acho). E e eu aqui deveria me assemelhar na medida do possível a ela. As circunstâncias da vida podem ajudar ou atrapalhar. O que seremos no final das contas é o que deu mais ou menos para ser. Imagine um aluno tendo que fazer o dever de casa. Quando é aplicado, ele faz o dever direitinho. Quando é relaxado, faz tudo em cima das coxas. A nossa vida também tem um pouco disso. No dia do Juízo, (acho que) Deus, o Mestre acima de todos os mestres, irá pesar até que ponto fomos quem deveríamos ser, levando em consideração os prós e contras. Da mesma maneira que realmente às vezes o PC quebrou e não deu para imprimir nosso trabalho, Deus sabe bem das dificuldades e fraquezas de cada um. Se redimidos, lá no Paraíso a gente seria quem tinha que ser em toda a sua plenitude. Sem nada profissional. Não num sentido só formal. Só que aí eu já estaria falando de coisas que realmente nem imagino como seja.

Isso tudo dá um pouco de medo.

Ô digressão do cacete! E a confusão dessa minha cabecinha? Será que ficou claro o que estou dizendo? Digo o seguinte. A vida, se bem que boa, não é propriamente nossa. Isso não significa fazer tudo em cima das coxas. Acho errado mandar um foda-se para tudo. Também não é certo ficar enchendo o saco que nem velho rabugento. Talvez não fosse nem para a gente existir. mas o camarada de repente existe. Está vivo. É gente. Não sabe como nem por quê. E ainda fica se achando o rei da cocada preta? C'mon! Se existo, mesmo toda troncha, só por isso, por esse, hm, dado primário, tenho mais é que ser grata e achar tudo bom no final das coisas.

Conselho da Espectadora

Depois de ler tudo, dou uma dica. Esquece tudo o que está fazendo e vá ouvir o Concerto para Piano 23 do Mozart. Vai por mim, é o espírito desse texto.

Friday, May 23, 2008

Super-homem-religioso

Existe o super-homem-religioso. Versão religiosa do Übermensch nietzcheano. É o cara que se acha acima de todas as religiões. Resolveu dar uma de demiurgo e forjar a sua própria, baseado nas idéias de sua cabeça. Lá do Olimpo ele olha, cheio de dó, para mim, para você e para todo mundo. Lógico, não é? Esse negócio de ter uma religiãozinha é coisa de gente tapada, não-evoluída, não-iluminada. Ele, muito limpinho, está em, com e sobretudo acima de todas. Cada uma das religiões tem um treco bacaninha aqui e ali. Quem vai fazer a sopa gostosa da salvação será o super-homem-religioso.

Pessoas assim são como esses esnobes cujo aspecto de pobretão não os abandonará nunca. Nem se estiverem chiques. (Uma exceção de pobretona que ganhou classe: Eliza Doolittle.) Quanto mais o cara fala que todas as religiões são lindas, que ele é o Tarcísio Meira da religiosidade, mais você percebe que ele é jeca.

Olha, não estou exagerando nada. O cara que se acha acima de todas as religiões pensa que é mesmo o gostosão. Tanto faz se ele for quietinho ou não. Às vezes até calha de a variante "mineirinha" (come-quieto) do super-homem-religioso ser a pior. Parece paradoxal? Nada. O cara fica na dele porque se acha bonzão demais para ficar esperneando por aí. Ele acha que a gente, o pessoal que só tem uma religião, que tem fé nos clérigos, é um bando de bobinhos, tanto no campo religioso como no campo moral. Como ele está lá no Olimpo, todo cheio de si, ele só consegue enxergar palhaçada ao redor dele. Todo mundo é hipócrita, mesquinho, sacana, fdp, vagabundo... Todo mundo quer acabar com ele porque ele é fa-bu-lo-so. Pode ser que de repente ele tope com alguém que nem parece tão ruim. Só que esse alguém ainda é um espírito canhestro, que tem que evoluir, ser iluminado e tal. Você pode incluir nessa lista desde o fiel mais humilde até o papa. (Se bem que os super-homens-religiosos tendem a enquadrar o clero no artigo 171 do código penal. O clero é composto de picaretas cujo objetivo de vida há milhares de anos é esconder a verdade das gentes humildes.) Quando eles encontram por acaso alguém que parece ser muito bom, eles: 1) vão pensar que é um par; 2) vão pensar que é um santo/criatura de luz/avatar intergalático.

Quem disse que o esnobe religioso é sempre ultrababaca? Ele pode ser legal. Nem sempre eles nos esnobam sem mais nem menos. Alguns podem ficar com dó da gente. Vão jogar as sobras do chá das 5h que tomaram com Deus em pessoa para nós. (Sabe como é, a agenda de Deus está sempre mais livre para eles.) Se não forem tão simpáticos, aí vão ignorar mesmo, plebe rude. Pobretão não participa da sociedade, comprenez-vous?

Dica para lidar com um super-homem-religioso

A dica que nunca falha é: seja grosseirão. Quando ele começar com o papo de "só a metafísica salva" ou "todas as religiões são lindas", diga: "Ah, tô cagando e andando." (Outro dia ouvi a expressão "peida na farofa". Acho que ela pode ser aplicada.) A vantagem dessa dica é que o super-homem-religioso vai parar de encher o saco na hora. Ele achará que você é inferior demais para sequer imaginar o que ele sabe. Já você continuará com a sua religião bem tranqüilo. E ainda por cima vai tirar um sarro da cara dele. Mas tem uma dica complementar. Se você for católico, repita várias vezes para ele: "Ok, mas nada disso está no Credo, por isso não levo nada do que você me diz a sério." Isso fará com que ele pense que você é só um robô teleguiado do Papa. Aí ele vai parar de encher o saco também.

(Uma dica bem hardcore: arremesse na cabeça dele a Bíblia, a patrística latina e grega, os concílios ecumênicos e mais um monte de outras coisas. Ou peça para o Espírito Santo fazer o trabalho. É mais fácil.)

[Re-post] A Andaluzia é aqui

Publiquei aqui esse texto faz quase um ano e meio. O tempo voa! Como as citações do Borrow têm muito a ver com o Brasil, não custa nada relembrá-las para os amigos.


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George Borrow foi um desses ingleses típicos do séc. XIX. Anglicano, escritor, viajante e observador dos países por onde passou. Adorava em especial os ciganos, da Rússia à Espanha. Aqui tivemos também os nossos andarilhos: von Martius, Debret, von Humboldt, conde de Gobineau, todos deixando uma ou outra observação a respeito da nossa terrinha.

As observações do inglês a respeito da Andaluzia são bastante interessantes. Menos para seus habitantes. Até porque eles não devem gostar nenhum pouco da fama de indolência que há tanto tempo os caracteriza. Borrow também deu fé a isso e a muito mais.

Indolência é a marca do brasileiro. Ele parece até gostar dessa qualidade. Todo mundo pensa que se de repente bater um pandeiro e tocar um cavaquinho o brasileiro começa a sambar, enquanto as mulheres rebolam sem parar. Aqui no Rio as pessoas fazem questão de confirmar essa idéia, que de preconceituosa não tem nada. Antes é uma observação acurada da realidade. Há mesmo um funk onde a cantora fica berrando: "rebola até o chão, rebola sem parar!" As "tchutchucas" rebolam mesmo! Quem não rebola acaba pagando o pato. E a fama de malandro? Outro dia eu conversava por telefone com alguém do Norte e me perguntaram... na verdade afirmaram que todo o carioca é malandro. Assim mesmo, uma proposição tão universal como "todo homem é mortal". Ora, se Tanja é carioca, então Tanja é malandra. Não me sinto envaidecida por ser considerada 171 por aí. Mas meus concidadãos pensam de outro jeito. Sem contar a folga na vestimenta. Não sei o que houve, mas os homens daqui resolveram andar sem camisa para tudo que é lado. No meu prédio escreveram até um aviso: "É proibido andar em trajes de banho ou sem camisa nas dependências". No metrô acho que tem aviso semelhante. Pedem até para que ninguém se manifeste "em altos brados", supondo, lógico, que há quem o faça.

Nem todo brasilero é carioca, alguém pode dizer. Ok. Mas o que há aqui é provável que haja em todo o país. Até porque, para o bem ou para o mal, e talvez mais para o mal, Rio de Janeiro, caidinho que está, é ainda uma das principais referências nacionais. A cidade é símbolo, querendo ou não. É das mais importantes do país. Então o que acontece por essas bandas se espalha como praga, ao mesmo tempo que aqui é uma espécie de termômetro da nação. Se eu fosse alemã do séc. XIX e adoradora de teorias filosóficas românticas, eu diria que o espírito da Nação (com N mesmo) é representado, ao menos em boa parte, aqui. (No fundo, se eu fosse alemã do séc. XIX, ia mais é ficar cantando bonito, para orgulho do meu pai, ou leria cartas de amor de pretendentes apaixonados.)

Dei muitos floreios para dizer apenas que o andaluz de Borrow é o carioca (e brasileiro, por extensão) que eu sempre topo. Se sou também carioca, e por conseguinte brasileira, então é claro que padeço da indolência e do espírito de oba-oba e do liberou geral. É verdade. Mas isso não me torna incapaz de observar o meu em torno com alguma objetividade.

Borrow diz por exemplo o seguinte a respeito da Andaluzia:

Viven bajo el sol más espléndido y el cielo más benigno de Europa y su país es de natural rico y fértil, a pesar de lo cual no hay provincia en España donde haya más mendicidad y miseria, puesto que la mayor parte de la tierra está sin cultivar y no produce más que espinos y malezas.

Parece com algum lugar bem familiar, né? Para o bem da verdade, nem tudo isso seria certo a nosso respeito. Se não fosse o campo, o Brasil nunca teria sido tão grande como é. Grande parte de nossa riqueza vem lá do interior. Então há quem produza. E produz muito, porque é gente pra burro que vive no país, sem contar o tanto que vai lá para fora e vira riqueza, que por sua vez também sustenta a população inteira. E há a figura do sertanejo, homem desbravador, que Zweig tanto louvou em seu livro Brasil, Um País do Futuro. (Esse livro me deixou otimista em relação ao Brasil por uns três ou quatro dias.) Mas todo mundo fica sempre admirado é com a nossa beleza natural. A gente mesmo sempre diz que o Brasil é lindérrimo. Zweig mesmo não escapou disso. Tem até aquela piada de Deus ter dado uma terra linda para um povinho bem titica. Só que existe uma coisa curiosa. É que um dos primeiros a escrever sobre a nossa terrinha, Pero Vaz de Caminha, fez uma observação diferente. Embora elogiasse a formosura da terra também, o que mais parece ter lhe chamado a atenção foi o potencial da gente que habitava nela. Segundo o escrivão, eles viviam em inocência, sem idolatria, prontos para abraçar a fé. Alguns podem achar essa opinião ingênua. Pode ser. Mas é preciso levar em consideração que se o sujeito ficou assim tão deslumbrado, foi porque tinha como pressuposto que é difícil encontrar gente assim no mundo. A experiência com certeza já havia lhe mostrado como existiam povos hostis à fé. Portugal mesmo tinha bastante experiência nas costas a esse respeito. Encontrar gente dócil como os índios que ele conheceu parecia promissor. Não acho que haja motivos para duvidar muito da sinceridade do Pero. Talvez a carta seja menos convencional que pareça. Enfim, a maior e mais preciosa das riquezas desta terra seriam as pessoas. Opinião bem cristã. É por isso que, já pelo fim da famosa carta, diz:

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
Concluindo, a intenção era ajudar ao próximo. Repito: pode parecer convencional. Não sei. Mas isso só poderia ter sido escrito por um cristão.

Os índios de ontem somos nós? Ou nada temos a ver com eles? Nem tanto nem tão pouco. Boa parte da nossa indolência era antigamente atribuída aos índios e aos pretos. Era também atribuída ao nosso estilo de vida. O modo de vida civilizado deveria acabar com tudo isso. Alguns escritos do José Bonifácio eram bem claros sobre isso. Eram contrários à escravidão e favoráveis ao ajuntamento dos índios à nação. Enquanto esses problemas não fossem resolvidos, continuaríamos sendo pouco civilizados. A escravidão seria um câncer de largas conseqüências. Ele a chamava de "cancro moral". Os índios por si apenas se arruinariam e o país nunca teria unidade. (É interessante comparar isso com o que escreveu von Martius, tempos depois, sobre os índios daqui. Havia uma teoria que dizia que os índios brasileiros eram os restos arruinados de uma outrora grande civilização.)

Seja como for, se devido à escravidão ou não, a malemolência permaneceu no espírito de todo mundo. Se houve um dia algum potencial de elevação, é bem provável que agora ele esteja bem corrompido, depois de tantos tombos. A indolência acaba deixando o espírito fechado e o joga ao desregramento. É conseqüência do amor-próprio.

Se a gente levar em consideração como as coisas andam hoje em dia, tudo parece já ter ido por água abaixo. Mesmo quem é jovem, quem deveria mostrar alguma esperança, parece já quase liquidado espiritualmente. O mais triste é que logo quem deveria dar exemplo é o primeiro a cuspir no prato. Claro que não estou fazendo alusão aos políticos. Político é em geral um baita puxa-saco e dissimulado, cujo objetivo é não ser ele mesmo. Ele quer ser quem as pessoas querem que ele seja, a fim de ter poder só pelo prazer pelo poder. Quando um deles foge dessa regra, chama até a atenção. Na Bíblia, o bom juiz (o bom líder do povo, o legislador) chega a ser comparado a um deus. Nada mais angélico ou demoníaco, portanto, que a política. São todos eles um mal necessário. Muito superiores aos políticos são os intelectuais. Eles são os verdadeiros guias espirituais do povo. Não é por acaso que antigamente "clérigo" era sinônimo de letrado, e "leigo" de iletrado. O francês conservou o uso antigo; o português só em parte. O que o "clérigo" considerar bom, o político vai também considerar, e por tabela o povão. Há também a classe dos endinheirados, o sustento dos políticos e uma das fontes da riqueza do povo, embora aqui no Brasil quase ninguém entenda mais isso.

O intelectual põe as coisas em movimento, o político mexe com os meios e o endinheirado cuida do suporte necessário. Qualquer um cuja ação tenha relevância na sociedade faz parte da elite, seja advogado, professor, diplomata, jornalista, empresário, escritor de novela e, last but not least, político. Só que o político faz as coisas mais aparentes. Eu, por exemplo, querendo ou não faço parte da elite, embora aquele retardado do Lula faça ainda mais. Não é que eu tenha dinheiro. Não tenho nada. Faço por causa da minha função: ver, refletir e escrever, mesmo tão amadora. Pois é a elite (e eu no meio dessa bagunça toda) que está porca até não poder mais. Quem tem estudo não faz por onde. Como vai ficar o resto do povão? As pessoas que acabam tendo algum estudo acabam se atendo a ninharias, falando besteiras cheias de uma pompa que em algumas épocas ou lugares valeriam um tremendo pé na bunda. Essa gente, por mais estranho que seja, não nasceu indolente. Essa gente se fez assim. Com orgulho. Acham superior esculhambar o que é nobre e colocar em seu lugar qualquer baixeza que lhes agrade. Agem assim porque são baixos. São adoradores de baixezas e personificam o verso de Hölderlin: "só agrada ao servo o violento". Foi isso que o Brasil se tornou.

Aí está o motivo de a gente estar cada vez mais longe da realidade. Por que agora chamar alguém de macaco ou viado causa tanta polêmica ao mesmo tempo que ninguém nem tem idéia dos 50 mil homicídios anuais? Não sei como foi que aos poucos ficamos assim. A situação é degradante demais para ser analisada com minúcia...

O sr. Borrow, inspiração do texto, parece até que escreveu pensando no Brasil de hoje. Coisa impressionante! Veja só:

Los andaluces de clase alta son, probablemente, los seres más necios y vanos de la especie humana, sin otros gustos que los goces sensuales, la ostentación en el vestir y las conversaciones obscenas. Su insolencia solo tiene igual en su bajeza y su prodigalidad en su avaricia. Las clases bajas son por lo general más corteses y, con seguridad, no más ignorantes.
A afirmação de Borrow estaria errada se fosse a nosso respeito? Se você liga a TV, feita pela zélite, uma novela por exemplo, que é que você vai ver? "Goces sensuales, la ostentación en el vestir y las conversaciones obscenas". Se perambular pelas ruas, com o que você vai se deparar? Com "su insolencia". Não sou nenhuma donzelinha frescurenta. Só que isso não me permite elevar a baixeza à oitava maravilha do mundo. E tem gente que pauta a vida nisso! Há um desfile de "los seres más necios y vanos de la especie humana" em todos os cantos, exigindo que você aceite suas babaquices como algo elevadíssimo. Chegam a querer elevá-las ao plano do direito, criminalizando quem pense contra. São os señoritos que o Ortega descreveu em A Rebelião das massas. E a zélite virou máquina de fazer señoritos. São eles os líderes dessa bagunça toda.

Será, meu pai do céu, que essa joça de país ainda vai ter salvação? Mesmo depois de tantos anos de liberou geral? É possível ter aquela animação do Pero Vaz de Caminha, típica dos pioneiros? Ou do fundador do nosso país, José Bonifácio? Mesmo depois de tanta gente ter feito questão de emporcalhar tudo? Será? A indolência que parece natural agora se tornou artigo manufaturado e até de luxo! Só consigo pensar que só Jesus Cristo salva!

Thursday, May 22, 2008

Trio parada dura

O primeiro vídeo é do Tom Palmer debatendo com o Ciro Gomes no Fórum da Liberdade. Uma maravilha ver o gringo demonstrando a hipocrisia e pilantragem desses beatos estatais (like Ciro). Falam que o mercado é malvado, que precisam defender o coitado do povo, mas adoram aproveitar tudinho o que o mercado lhes oferece. O Ciro chegou a sentir um comichão danado quando o Palmer disse que ele vive com bastante grana para os padrões brasileiros. (Meu diagnóstico: comichão causado pela hipocrisia desmascarada.) Palmas, palmas.





No vídeo seguinte, o Roberto Campos reclama do nosso nacionalismo bizarro, amparado num "fetichismo com o produto físico" (palavras dele). É que todo mundo adora dizer que produto x salvará o Brasil. Isso vem desde o tempo do ronca. Se o Roberto Campos estivesse vivo, veria que a bola da vez é... a cana-de-açucar. Regredimos para os tempos do Brasil-Colônia (assista ao vídeo e entenderá melhor o que eu quis dizer). Putz, sempre é alguma presepada nova. (Citaram no programa do Olavo um tal de Alborghetti: "No Brasil, tudo o que pinta de novo, pinta na bunda do povo." Pior que é verdade!)





Para terminar, veja como o Jair Bolsonaro trata com a doçura que merece o Tarso Genro. (Ele já disse coisas mais legais em outras ocasiões. Exemplo: "Genuíno não levou um tapa, um piparote sequer, de um militar para entregar todos os seus companheiros." E outras coisas que você sempre quis dizer no Congresso mas nunca teve oportunidade.) Um deputado puxa-saco tentou aquietá-lo. O Bolsonaro deu logo um chega-pra-lá. Repare como o terrorista aposentado (by Olavo de Carvalho) ficou de cabeça baixa quietinho. Com certeza estava puto da vida.


Saturday, May 10, 2008

Arte babaca: La Grande Arche

La Grande Arche de la Défense (ou La Grande Arche) é um monumento parisiense criado na década de 80 pelo arquiteto Johann Otto von Spreckelsen. Como você pode ver, é uma espécie de dado gigante e vazado. Para quem ama arquitetura geométrica, pretty cool.


Tem alguma coisa de surreal nisso, não tem?

O nome pode enganar os não-iniciados. La Défense é só o nome do bairro onde ele está. O "arco" é por conta da relação com o Arco do Triunfo. É que La Grande Arche é a versão moderna do Arco do Triunfo. Mas o espírito é outro. É que pretende simbolizar uma janela aberta a todos. É homenagem à filantropia, humanitarismo e coisas assim. Por acaso calhou de ser inagurado no mesmo ano das comemorações do bicentenário da Revolução Francesa.


La Grande Arche ao fundo, entre os prédios.

La Grande Arche é um arco que não é arco e não tem nada a ver com La Défense, tirando a categoria lugar. Mas é grande. Levou quase a década de 80 inteira para ser contruído.

Uma ótima frase que resume bem esse negócio todo? Much ado about nothing.

Friday, May 09, 2008

Portugal

Portugal é engraçado. Melhor, é chorão. Já teve choradeira por causa de Sião. Por causa do Dom Sebastião. Por causa do Tratado de Methuen. Por causa da decadência histórica. Por causa da Revolução dos Cravos. Por causa do PS. Sabe Deus até quando vai ter choradeira.

O estilo gótico português o Carpeaux resolveu chamar de "gótico choroso". A música nacional é chorosa, o fado. O Madredeus é um grupo português legal e é meio choroso.

Muito natural um país tão chegado às lágrimas ter criado um império enorme através das águas.

Friday, May 02, 2008

Leite derramado

Disse o Canônico (não o direito, mas uma pessoa):

Não é possível, por exemplo, que uma família eduque completamente seus próprios filhos – sistema chamado “homeschooling”, inexistente por aqui. Não venho aqui defender tal método, o qual não analisei com profundidade, mas questiono a sua inexistência por aqui.


Depois ele reclamou de o Estado impor, à revelia dos pais, a tal da educação sexual.

Antes de prosseguir, uma voltinha. Coisa pessoal.

Se quiserem conhecer alguém que é produto da educação mudernosa, aqui estou. Meus pais me deram um livrinho chamado Mamãe, como eu nasci? quando eu tinha 10 dez anos. Livro breve. Li tudo. (Tinha uns deseínhos. Tipo o de um espermatozóide com uma carinha sorrindo para um óvulo sem cara. Mas tinha coisa menos estranha também.) Aos 12 caiu em minhas mãos o (parece que cascateiro) Relatório Hite. Esse era um catatau. Li só algumas partes. E nenhum desses livros me jogou na esbórnia. Como não tinha muito interesse no assunto, ele resvalou. Achava-os no máximo engraçados. Aula de educação sexual mesmo nunca tive. Mas eu e minhas amigas conversávamos sobre essas coisas. Fora conversas que tinha com meus pais. Se bem que só mais para frente isso tudo me chamou atenção.

Disso não se conclui que sou alguém "liberal" ou palhaçadas do tipo. Só comentei minha "formação".

Em relação ao sexo, acho muito, muito estranho quem elogia horrores. Parece coisa de capial deslumbrado. Até de um ponto de vista pagão por completo é bobo. Não precisam acreditar em mim. Leiam Aristóteles. Se a felicidade humana é a vida contemplativa, uma qualidade divina, a vida "sensível" então é o oposto. Aproxima o homem da fera. É a educação do escravo.

Não estranho quem reclama do sexo. O motivo é simples. Não conheço ninguém assim. Só em folhetins bobinhos existe aquela tia beata que odeia sexo. Ou a religiosa hipócrita. Fazer desse artifício prova da realidade é besteira.

Tudo isso é bobagem. Não houve descoberta maravilhosa do sexo coisa nenhuma. O que existe é a promoção do desregramento casada com uma naturalização postiça do corpo. Noutras palavras, esse "maravilhamento" é coisa de velhos tarados.

De volta ao artigo do Canônico. Não tenho como discordar do argumento principal. O Estado passar por cima da vontade dos pais em matéria de formação familiar já é um negócio horroroso. Ensinar bizarrices é muito pior. Uma vez indiquei uma notícia sobre a educação sexual em escolas em Massachusetts. As criancinhas aprendiam que meter o punho em alguém (sentido literal; essa tosquice se chama fisting) era bacanérrimo. Os pais reclamaram; parece que um grupo ativista gay estava metido nisso. Como usual. Ah, só para constar, era tudo com dinheiro do contribuinte.

Não acho que a educação sexual será a responsável pela esbórnia juvenil. A esbórnia já existe. Ali é menos pior, aqui é piorzinha. Mas que existe, existe. O problema será o status oficial. Uma instituição pública oferecendo camisinhas a menores será a oficialização da sacanagem. Não deixa de haver uma pedofilia dissimulada nisso tudo. Afinal, quem é que vai ensinar as belezuras do sexo? Não serão os pais. Não serão pessoas da mesma idade dos alunos. Serão adultos, agentes estatais. E criminoso mesmo será incutir na cabeça das crianças que é bonito ser gay ou qualquer outra "modalidade sexual". Na verdade, incutir sexo na cabeça de crianças já é criminoso em si. Não faz o menor sentido ensinar prazeres sexuais a alguém que sequer tem a capacidade anatômica de usufrui-los. E ainda que possua, não significa que então tudo está permitido. É como dizer que só porque você agüenta segurar um fuzil, então pode estourar a cabeça de quem quiser. Sexo é uma coisa. Falta de temperança é outra.

Você pode notar que nem estou usando argumentos cristãos. Essas coisas todas poderiam ser ditas por qualquer pagão. Falta de temperança é um defeito grave que o Platão já reclamava. Tranformar a crítica à educação sexual em sintoma de fanatismo religioso não é só falso. É coisa de gente sem caráter.

Até aqui, não tenho o que discordar do Canônico. O que não quer dizer que o acompanho em todos os pontos.

Já a primeira frase não me apetece: "Uma das funções notórias do Estado é oferecer educação aos membros de determinada nação." Não, não. Isso é discutível. Se existiu o Estado como educador na Antiguidade, foi apenas na realidade platônica. No mundo real, quando houve algo desse tipo, foi algo bem tímido. Na Idade Média a situação foi igual ou até piorou. O ensino estatal, enfim, é criação moderna. Como disse o Lorenzo Luzuriaga, no livro História da educação pública:

(...) A educação criada, dirigida e mantida pelas autoridades oficiais é de origem relativamente moderna. Seu começo, com efeito, não deve ser procurado antes do século XVI, no qual se inicia com a Reforma religiosa. Antes disso, houve certamente diversos tipos de educação organizada, como a mantida pelas "politeia" gregas, pelo império romano ou pela Igreja medieval. Mas, de intervenção sistemática e continuada das autoridades públicas na educação, só se pode falar nos começos da época moderna.


Esse livro é meia-boca, mas nesse ponto tem razão. A educação pública estatal foi quase um concerto, porque teve três movimentos. Primeiro a educação foi secularizada. Depois veio a estatização. Enfim, ela foi nacionalizada e democratizada. Isso tudo em mais ou menos um século, o XVIII. Obra do Iluminismo. Então é um anacronismo considerar a intromissão estatal na educação uma coisa corriqueira. A intromissão não foi uma descoberta. Foi um artifício tosco criado há pouco tempo na história.

Não só aquela frase não me apetece. O parágrafo todo é, no geral, esquisito:

Uma das funções notórias do Estado é oferecer educação aos membros de determinada nação. Sendo as famílias a célula básica da sociedade, uma educação pública de qualidade oferece um auxílio precioso na formação dos cidadãos. Ainda mais no contexto moderno, no qual o trabalho profissional muitas vezes exige dos pais um razoável distanciamento do lar.


Não dá para inferir que, a partir da noção aristotélica de a célula da sociedade ser a família (v. Política), "uma educação pública de qualidade oferece um auxílio precioso na formação dos cidadãos." Isso não é nenhum pouco evidente! Uma coisa não tem a ver com a outra. É como se eu dissesse assim: "Sendo o caule a parte que sustenta a flor, um bom jardineiro pode ajudar na formação dos elementos da flor." Esquisitão.

Tem mais. A idéia de que uma educação estatal boa ajuda na formação do cidadão é discutível. Ajuda mesmo? Em que sentido? Como? Pior ainda é considerar bacana o Estado-babá! Vem disso aí o problema de mais tarde alguém meter no currículo uma matéria contrária aos princípios da família! Não adianta nada reclamar se você aceita numa boa a ingerência estatal limitada. O problema é questão de princípio.

Essa é a razão de eu não concordar também com a primeira frase do parágrafo seguinte: "O problema é quando o Estado pretende ir além do auxílio devido às famílias e passa a querer agir como formador principal das pessoas." O problema já apareceu antes disso! Se você convida um vampiro para sua casa, não vai poder reclamar de ele chupar o seu sangue... Outra coisa. Por que a educação estatal é um auxílio e é algo devido? Mais uma coisa discutível. Não me parece verdade isso. Começo pelo "devido". Você pode até pensar que o Estado tem uma cacetada de deveres. Não vou discutir que deveres são esses. Mas quem é que vai obrigar o Estado a cumpri-los? O próprio Estado? Você pode pensar no conjunto dos cidadãos. Certo. Mas se você também acha que o Estado deve auxiliá-los em determinadas coisas, e se essas determinadas coisas são preciosas, então surge aí um problema. Como os cidadãos vão pressioná-lo se ele mesmo lhes oferece uma ajuda preciosa? Se essa é a ajuda do Estado, significa que a balança pesou para o lado dele. Só ajuda quem é mais capaz. Recebe ajuda quem é mais necessitado. O poder do Estado seria o real poder. A gente poderá gritar, a gente poderá espernear. Mas quem poderá fazer alguma coisa é o Estado. As forças não estariam equilibradas. E mais uma coisa. Pensando em auxílios devidos, haverá mais obrigações do Estado. Quanto mais obrigações você lhe dá, ele ficará maior e mais difícil de controlar. Podem ser obrigações só nominais, do tipo "é dever do Estado conferir se todo mundo está com o bumbum limpinho." Não seria possível nem bom que o Estado conferisse uma coisa dessas. Mas você estaria tornando-o mais poderoso só de lhe dar mais uma atribuição. Ele pode não conferir sempre, mas terá o poder de um dia checar o traseiro dos cidadão...

Tudo sempre começa por uma brechinha. Mas é de brechinhas assim que mais tarde surgem coisas como a porcaria da educação totalitária.

O "Estado colaborador" ou "educador" é já uma solução totalitária. O fato de ele piorar é conseqüência de um princípio ruim. É por isso que ele ensinar alguma coisa que as famílias não gostam não é o principal problema. Por acaso seria ótimo se agentes estatais ensinassem os evangelhos direitinho? O problema é ele poder ensinar.

Chorar pelo leite derramado não dá!

Update, 14h12: Reescrevi o post. Estava uma porcaria. Se alguém o leu antes, foi mal aí.