Monday, March 31, 2008

Napalm Death (versão curta)

(Estava relendo o post Napalm Death. Resolvi repostar o trecho que mais gostei.)

Há gente que sente nojinho da religião. Há quem sinta nojinho da Igreja. Todo mundo é muito limpinho e puro, amigão. Dizia o bom cidadão 1995 circa: "Olha, gosto de Deus e tal, mas Igreja é outra coisa". Claro. Para você ser assim tão bonzinho hoje, usando a camisa verde pólo que custou R$79, as gentes mais hardcore da cristandade tiveram que aturar César, leão, Ário, germanos pancadões, mouros, canibais, Napoleão, Stálin, Hitler e o diabo a quatro. Depois dessa dança maligna, aí sim você pode ir lá na loja todo felizão e comprar a camisa verde. Quem sabe até ouvir depois alguém dizer um "vai com Deus" ou "Feliz Natal", depois mandar um cartãozinho ou telefonar pro amigo pra saber se ele está bem? Ou perdoá-lo se ele fez alguma coisa? Ou ser perdoado se você fez alguma coisa?

Cuspiram na cara de santos, esquartejaram outros tantos, mais alguns literalmente comeram pó... Outros lamberam as feridas de leprosos. Já você... Hm, você talvez tenha a sua marca preferida de perfume e vai ao cinema rir com seus amigos. Se tiver "um lado espiritual independente de religiões " (acho que li isso no Orkut), vai rezar um pouquinho. Lindo. Sempre olha os dois lados da questão, desde que, claro, isso não implique (como ser diz?) radicalismos. Vive como se estivesse com uma placa na cabeça dizendo: SAÍDA EM CASO DE FANATISMO.

Wow! Que mané subir degrau para cumprir promessa o quê! Fazer caminhada para Santiago de Compostela, pfui! "Esse negócio de pagar penitência é coisa de velha beata" (comentário seguido de sorriso superior).

Certa vez tiveram que colocar um osso da perna do Santo Inácio de Loyola no lugar. Sem anestesia. Ele agüentou sem dar um pio. Hoje, na primeira dorzinha de dente, a gente chora. Sim, você é mais limpinho.

Agora vem cá que o negócio é comigo, rapá, porque não sou grande mas compenso sendo faladora. Na dúvida, chego de bicuda na canela. A Igreja teve que se ferrar toda, seu manezão, para você hoje ter o bumbum limpo e cheirosinho. É muita sacanagem você querer empinar esse narizinho aí e bater no peito dizendo: "A Igreja está ERRADA". Errado é você, cara. Mas você não é sacana, é cordato. Não fala nada por mal. Essa parada de ser mal só é vero na novela das 8 ou outra coisa kitsch... (O público aliás admira.) Você, cara bonzinho, dá bom dia ao porteiro, dá presentes aos amigos, cumprimenta a todos, paga seus impostos, é boa praça. É contra a guerra, acha sacanagem proibir a opinião de alguém. Você não teria coragem de pisar na cabeça de um gatinho, não é mesmo? Quanto mais pisar na cabeça de um velhinho! Um absurdo, um absurdo... Mas quer saber de uma coisa? Você não faz nada disso porque há tempos atrás um sujeito hardcore fez questão de morrer para provar que isso é errado. E ele morreu (e ressuscitou). Pára com essa mania ridícula de ser a Professorinha Helena do mundo, toda boazinha e coitadinha. Se joga debaixo do tanque em Pequim. Dá tudo que tem na geladeira para o mendigo. Se mata de tanto ajudar o outro. Vá lamber as feridas dos mendigos. Seja santo mesmo, cacete! Só não vem com papo mole.

Saturday, March 29, 2008

estudar a filosofia é coisa de gente revoltada?

O título é uma palavra-chave de alguém que acabou no meu blog. Divertido. Talvez seja do mesmo cara que digitou filosofia: gente-revoltada-que-não-gosta-de-religião. Dá para imaginar Marco Aurélio de toga rasgadinha, escrito atrás Imperium merda es, com a imagem do Enéias mostrando o dedo?

Mas sabe o que é coisa de gente revoltada? A primeira paixão. Musil:

Pois a primeira paixão adolescente não é amor por uma pessoa, e sim o ódio a todas as pessoas. Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não é o efeito de uma primeira paixão, mas sua causa. A paixão é apenas um refúgio, no qual estar com o outro significa solidão duplicada.


Espera. Tem outra coisa legal aqui:

Quase sempre a primeira paixão pouco perdura e deixa um ressaibo amargo. Trata-se de um logro, uma decepção. Quando ela passa, não compreendemos como fomos capazes de tudo aquilo, nem sabemos a quem culpar. Isso acontece porque as personagens desse drama em geral se encontram por acaso: eventuais companheiros de uma fuga enlouquecida. Apaziguados, não se reconhecem mais. Percebem que são diferentes, porque já não se dão conta do que têm em comum.


Acho que isso acontece com amizade também. Você pensa:"Caraca, por que fui quase atropelada quando andava com essa gente mesmo, hein?" É algo que acaba caindo na conta das "tosquices juvenis". Não fica amargo demais porque dá a sensação de termos feito a porcaria na época certa. Como se juventude fosse um passe-livre para fazer merdas. Tipo patrocínio do Ministério da Cultura.

Minha dúvida é a seguinte. Se Romeu e Julieta vivessem mais um pouco, será que, quando tudo se acalmasse, eles pensariam de repente: "Mas hein? Por que a gente fez tudo isso mesmo?" A pergunta vale também para Tristão e Isolda.

Thursday, March 27, 2008

Fitna

Agora a moda é Fitna. É um documentáro do político holandês Geert Wilders sobre o Corão. Ou seja, vai falar da intolerância islâmica. É claro que os muçulmanos vão negar que são intolerantes. Prova disso serão as ameaças de morte a Geert Wilders, demonização da Holanda e do mundo ocidental todo. Vão fazer que nem os turcos, quando rolou a história de serem condenados pelo massacre dos armênios. (Para quem não sabe ou se lembra, os turcos saíram queimando carros e espancando pessoas na Holanda e Bélgica. Na Alemanha, até onde eu seu, ficaram na deles. A propósito, os judeus na França tem sido várias vezes agredidos pela arraia-miúda islâmica.)

O filme vinha provocando auê antes de ser lançado. O governo da Holanda estava bastante temeroso. (Uma observação. Já ouviram falar em finlandização? É o que vem acontecendo com a Europa em relação aos muçulmanos. Creep.) Alguns muçulmanos já deram uma de bebês chorões e reclamaram mil e uma coisas.

Não vi ainda o documentário. Foi lançado na Internet. Vai um link aí para o freguês? Só não me responsabilizo. Não vi nadinha. (Uma coisa: está em inglês. Mas quem souber holandês, pode assisti-lo nessa língua.)

UPDATE (sexta-feira, de noite): Não dá mais para assistir o filme no Liveleak. Eles retiraram devido a ameaças. Eu e a torcida do Flamengo já prevíamos isso. (Se você clicar no link que dei, ao invés de ver o filme você verá a explicação da retirada dele.) Mas ainda dá para vê-lo no The Brussels Journal. Ou no Youtube, em duas partes. Se eu fosse você, veria rapidinho ou então salvava (como eu fiz) no computador.

Só vi os primeiros 8 minutos (ele tem por volta de 15). Tem cenas bem chocantes.

O filme (até onde vi) são citações do Corão de um lado e cenas de terrorismo do outro. Por "cenas de terrorismo", entenda-se também incitações ao ódio. Há discursos (como de um carinha que de repente puxa uma espada dizendo que é preciso cortar a cabeça dos judeus) e cartazes (como no que está escrito "God bless Hitler"). É curioso ver também uns caras dizendo que querem dominar o mundo. Parece coisa de Pink e o Cérebro. Dizem até mais. Falam que querem dominar o mundo de novo. Lembra quando os muçulmanos tomaram a China, a América e a Europa? Pois é, eu também não. Só que com louco não se discute. Olha só o que deu terem discutido com respeito com os defensores do aborto...

Filípicas III

Hoje eu estava falando com um amigo sobre aquele ministro que fez o maior embromation para no fim dizer um montão de besteiras sobre os embriões. Ministro em latim (minister) pode significar escravo, lacaio ou cúmplice. Então eu disse que não havia termo melhor para designá-lo. Ele se comportou mesmo como servente de abortista. E de vez em quando eu xingava o lacaio. Aí o meu amigo me disse para respeitá-lo. O termo hoje em dia tem outro sentido, o cara deve ter feito alguma coisa para merecer o cargo, ataques pessoais não adiantavam nada... Eu disse ok. Mas tinha um problema. Como é que ele me pedia para ter mais respeito com um cara que diz que gente não é gente? Aproveitei e disse que tomava aquilo (o que o ministro tinha dito) como insulto pessoal. Meu amigo quis saber o motivo. Era claro, ué! Na opinião do ministro, teve uma época que eu não era gente. Era algo que nem ele sabia explicar. Mas gente eu não era. Se eu não era gente, então eu só poderia ser coisa. Pô! Se o cara vira para mim e fala que não sou gente (falando sério), ou que tem gente que não é gente, como é que eu não vou tomar isso como insulto pessoal? Esse cara só pode ter brita na cabeça! Ademais (expressão meio chique), o cara não é nenhum barnabé. É ministro do STF. Todo mundo espera que alguém nesse cargo não diga tronchices. Posso não ter qualquer governo em alta estima, mas sei que ser juiz de uma coisa dessas é algo sério. Se eu estou dizendo que esse ministro é pilantra, não é por falta de respeito. Ao contrário! É que tenho profundo respeito pelo cargo desse trouxa. (Na Bíblia, os juízes são comparados a deuses. Repito, é algo sério.) Aproveitei para dizer que alguém tinha que dar um "pedala Robinho" bem dado no ministro Ayres Britto. Por respeito ao cargo, lógico. E para ele deixar de ser bestão também.

(Um carinha, depois do voto do ministro, disse que ele (o voto) foi "antológico". Nada disso. Foi outra coisa. Voto de anta, é lógico!)


Update: Muita gente tem escrito coisas legais sobre esse assunto. Júlio Lemos foi um. Se bem que o post todo (cheio de outros assuntos) está legal. Só não conheço a banda Labradford.

Wednesday, March 26, 2008

Karl Marx liberal (I)

Pergunta aí o que acho do livre-comércio. Não sei o que dizer. Mas Karl Marx achava bacana. Em um aspecto pelo menos:

Mas em geral, em nossos dias, o sistema protecionista é conservador, enquanto o sistema do livre-comércio é destruidor. Ele dissolve as antigas nacionalidades e impele ao extremo o antagonismo entre a burguesia e o proletariado. Em uma palavra, o sistema de liberdade comercial acelera a revolução social. É somente neste sentido revolucionário, senhores, que eu voto a favor do livre-comércio. (Miséria da filosofia, anexo III)


Em outra mão, Karl Marx diz que

sabemos todos [bem, se ele diz...] que a concorrência foi engendrada do monopólio feudal. Assim, primitivamente a concorrência foi o contrário do monopólio, e não o monopólio o contrário da concorrência. Portanto, o monopólio moderno não é uma simples antítese, é ao contrário a verdadeira síntese.

Tese: O monopólio feudal anterior à concorrência.

Antítese: A concorrência.

Síntese: O monopólio moderno, que é a negação do monopólio feudal enquanto supõe o regime da concorrência, e que é a negação da concorrência enquanto é mono.

Assim, o monopólio moderno, o monopólio burguês, é o monopólio sintético, a negação da negação, a unidade dos contrários [vou fingir que não li isso]. É o monopólio no estado puro, normal, racional. (op. cit., II, 3)


Sei lá onde entra o protecionismo nessa história. Mas vamos em frente. Na cabeça do Marx, raciocinando por esse processo de negação (tese-antítese-síntese), o livre-comércio seria uma etapa (necessária) para a revolução. E o "monopólio burguês" seria uma fase mais avançada. Estamos esperando desde 1847 (data da Miséria de Marx, com trocadilhos) a revolução. Não vivemos há 150 anos na "era do monopólio"? Então?

O ponto na verdade é outro.

Levar o livre-comércio para o Iraque, Brasil e outros países tem um potencial revolucionário tremendo (do ponto de vista marxista). O "monopólio burguês" não é o livre-comércio degenerado. É a sua superação. A partir daí vem a revolução. É por isso que a idéia de abrir mercados no mundo inteiro está de acordo com o que o Marx escreveu a respeito. O globalismo é uma etapa da revolução mundial.

Por motivos diferentes, o liberal e o marxista defendem a mesma coisa.

Tuesday, March 25, 2008

O lobo e o cordeiro

Tradução MUITO livre e tosca. Quem tiver sugestão melhor, avisa. (Pode reclamar também da minha tradução tosca de uma parte da História eclesiástica da nação dos anglos, do Beda, o Venerável. O trecho conta a reação do Papa Gregório Magno quando viu uns anglos pela primeira vez. Ele ficou tão impressionado que enviou Santo Agostinho da Cantuária para evangelizar o povo deles. Amo essa história! Mas putz, ô negócio ruim de traduzir.) Ah, o original é do Fedro, para quem não sabe.


O lobo e o cordeiro

O lobo e o cordeiro iam juntos para o rio movidos pela sede. O lobo estava na parte superior do rio, enquanto o cordeiro ia mais abaixo. Só que o ladrão, incitado por sua voracidade, logo pretextou uma rixa:

- Diga-me, por que turvaste minha água enquanto bebo?

O cordeiro, temeroso:

- Ó lobo, como poderia? A água que bebo corre daí.

Constrangido pela verdade, tentou outra vez o lobo:

- Há seis meses me maldisseste!
- Pois é certo que nato eu não era - teve como resposta.

O lobo, irritado:

- Por Héracles! Então foi teu pai quem me maldisse! - e logo agarrou e trucidou o cordeiro, dando-lhe morte injusta.

A razão desta fábula é que o pretexto é ocasião do malvado para oprimir o inocente.


O original:

Ad rivum eundem lupus et agnus venerant,
Siti compulsi; superior stabat lupus,
Longeque inferior agnus. Tunc fauce improba
Latro incitatus, jurgii causam intulit.
"Cur, inquit, turbulentam fecisti mihi
Aquam bibenti?" Laniger contra timens:
"Qui possum, quaeso, facere quod quereris, lupe?
A te decurrit ad meos haustus liquor".
Repulsus ille veritatis viribus:
"Ante hos sex menses", ait, "maledixisti mihi".
Respondit agnus: "Equidem natus non eram".
- "Pater hercle tuus", ille inquit, "maledixit mihi".
Atque ita correptum lacerat, injusta nece.
Haec propter illos scripta est homines fabula,
Qui fictis causis innocentes opprimunt.

Saturday, March 15, 2008

Livros (II) - Paidéia: A formação do homem grego


Comecei tosca. Indiquei um livro bobo só para ilustrar uma fase da minha vida. Mas aí veio uma dúvida. Seria melhor eu indicar em seguida a leitura que me serviu de antídoto ou escrever sobre algum outro livro? Escolhi a desordem. Até combina com o jeito que topei com esse livro que vou comentar hoje.

Uma voltinha. Sou uma pessoa mais ou menos curiosa. Minha curiosidade está bastante ligada ao que me dá na telha no momento. O que me dá na telha é muito, muito caprichoso. Um exemplo. Pode acontecer de repente me dar vontade de saber fazer um tipo de bolo enquanto estudo. Me dá o maior comichão até eu saber como fazê-lo! A curiosidade pode ser atiçada de fora também. Se você me indicar um livro legal, se der eu vou lê-lo. (Internet é boa nisso. Dá para pesquisar um pouquinho.) Pode de repente não dar. Ele vai ficar na minha cabeça. Qualquer tema serve. Agora, se eu achar que o livro é a maior viagem, esquece. É quase impossível para mim ler (e escrever) um assunto que não me interesse. Pode ser o assunto mais fácil do mundo. A minha má-vontade fará questão de me emburrecer. (Não reclamo. Louvo.) Um amigo me emprestou um livro que dizia alguma coias sobre Jesus ter ligações com Buda. Não li. Tenho raiva de quem leu. O assunto não me pareceu razoável. Não é qualquer coisa que vou ler, né? Você pode pensar: "Ai, que preconceito!" Respondo via Dom Ortega. Só os bichos é que encaram uma coisa como se fosse a maior novidade do mundo. Sem prevenções. (Dom Ortega dizia que era coisa de orangotango (é sério, ele fez essa comparação bem legal) encarar uma coisa com a cabeça "desanuviada".) Soy tonta pero no monita! Mas vamos lá. Por acaso, durante uma conversa, alguém falou de um tal de Werner Jaeger. Falaram que era um cara que tinha escrito uns negócios legais sobre os gregos. Só essa referência vaga ficou na minha cabeça. Eu estava começando a me interessar pela cultura grega sem muito motivo. Aí um dia eu estava perambulando na rua quando vi vendendo um livrão preto chamado Paidéia: a formação do homem grego. R$70. Folheei. Quase babei no livro. Tinha pouca grana. Eu estava com um amigo na hora. Fiz carinha de pidona. Deu certo. Juntamos a grana e compramos.

Cara, vou te contar... Só de deitar na cama e folhear de novo esse livro, fiquei enfeitiçada. Agora já são quase dez anos de relacionamento estável.

Olha, posso garantir que esse é um dos livros que mais me influenciaram. Tem gente que acha isso esquisito. "Pô, um livro acadêmico influenciar a vida de alguém? Como assim?" Na minha opinião, não existe isso de "livro acadêmico" X "livro pessoal". O que importa é se ele é bem foda. Fora que a própria estrutura do livro pode influenciar também. Não sei se fui clara. Eu só sei que nunca mais larguei o osso. Quer dizer, o tijolão. Mais de mil páginas. Cada uma vale a pena. Esse livro foi uma tremenda auctoritas (naquele sentido de expandir os horizontes) para mim.

Qual é a desse livro?

É o seguinte. O título e subtítulo já são uma belezinha. Já dá para ter uma noção do assunto do livro. O Werner Jaeger enxergou o esforço pedagógico constante na história dos gregos. Eles sempre consideraram o problema da educação como uma das coisas mais fundamentais. Mas se fosse só por isso, não haveria uma diferença tão radical entre o esforço que eles fizeram e o de outros povos sobre o assunto. O problema então é mais complicado. O ponto era a formação do homem a partir de um ideal de homem. Povo nenhum desenvolveu esse tema. Muito menos teve consciência dele. O assunto pode ser encontrado nos épicos mais antigos (Homero), nos poetas arcaicos (Tirteu, Píndaro), nos políticos (Sólon, Demóstenes), nos médicos e filósofos (Hipócrates, Platão), nos dramaturgos (Sófocles, Ésquilo), nos retóricos (Isócrates), nos historiadores (Tucídides, Xenofonte)... em qualquer grego que fosse culto. Jaeger lembra que homem culto, segundo Frínico, é um sujeito maduro que ama as letras. Esse ideal pedagógico não foi considerado desde o início tão às claras como foi depois. O termo "paidéia" não é encontrado em nenhum documento anterior ao séc V a.C. que chegou até nós. E a noção mais antiga desse termo se refiria à educação de meninos. Quer dizer o Jaeger forçou a barra? Não. A idéia de formação pode ser encontrado no termo areté, que vem dos tempos da Grécia heróica. (A formação do Homem arcaico ou pré-clássico tem como ideal o kalos kagathos. É o nobre grego. Esse ideal estava fundado na noção de areté. A kalokagathia é a cereja do bolo de qualquer nobre. A noção de formação estava implícita nisso tudo. A paidéia compreende isso. É por esse motivo que dá para traçar a história da educação já no período arcaico.) Pode-se dizer que o cume (ou um dos) desse pensamento seria Platão. Seria possível decompor o ideal educativo platônico de um jeito que cadas parte indicaria um episódio da história do desenvolvimento espiritual da Grécia. Platão seria o máximo do processo. Abriria também trilhas nunca exploradas. O livro pode ser lido como um ensaio introdutório a Platão. E pode ser também a história do desenvolvimento espiritual grego.


É bom deixar uma coisa clara. Pode ser um desenvolvimento espiritual. Mas é um processo histórico. Não dá para esquecer disso. É que sempre existe a tendência de se petrificar as idéias gregas. Como se tudo já nascesse prontinho. Também existe a confusão entre as descobertas de idéias eternas e os processos que conduziram a elas. Uma coisa é tomada pela outra muitas vezes. A história grega acaba virando uma história petrificada. É o choque de retorno de encarar a Antigüidade como clássica. É verdade que ela tem muito a oferecer. Mas só o Elvis morreu. O processo espiritual ainda está vivo. Com a óbvia diferença de estar vivo em e para nós. É por isso que é necessário encarar esse desenvolvimento espiritual grego (o problema da formação) como tensão entre fatos concretos e leis eternas. Seria melhor dizer que é uma tentativa de harmonia. Para os gregos, era um consenso contemplar essa tensão e buscar soluções. É como Fênix uma vez disse a Aquiles sobre a findalidade da educação: "Proferir palavras e praticar ações." Isso quer dizer que a formação do grego tinha que ser plena nesses dois campos. Não eram coisas separadas. (Dá até tristeza pensar nas coisas como são hoje...) E ainda tem mais. Essa tarefa foi encarada de frente por livre-pensadores. Todos a serviço da comunidade. Não era função de sacerdotes. Isso também separa os gregos de todos os povos orientais. Esse esforço só faria sentido se fosse em nome do bem comum. Isso explica em parte o que levou Platão a considerar a educação tão importante para a república. Mas em situações históricas bem concretas e perigosas os gregos sempre fizeram o possível para educar o povo. Demóstenes fez das tripas coração para conscientizar o povo (por favor, não entendam isso num sentido pejorativo) das ameaças das tramóias de Filipe da Macedônia. Como ele era político de verdade, tinha que ser ao mesmo tempo educador. Não que ficasse ensinando o pessoal a contar ou recitar uns poemas enquanto o Filipe fazia o possível para conquistar a Grécia. Demóstenes não era um babaca. Ele buscava explicar ao povo a situação para que ele pudesse ter consciência do que estava havendo. A educação tem por fim o aperfeiçoamento da comunidade.

Como sou toda "explicadinha", quero ainda dizer o que é paidéia. Só para deixar mais claro. Ela não é apenas educação, no sentido de desenvolver a inteligência, formação erudita ou aquisição de uma técnica. Ela é a formação do homem como um todo. O desenvolvimento máximo de suas potencialidades é o seu objetivo. Ela busca torná-lo de fato aquilo que ele é, através de um processo pedagógico. É um esforço enorme. O objetivo não é formar o homem para ele agir isolado. O homem só poderia viver isolado se fosse um deus ou um selvagem (copyright by Aristóteles). A paidéia não tem nada de individualista. (Por isso o Platão está por cima da carne seca. Ele deu um tratamento grandioso nele. Juntou o que havia de mais elevado na condução da comunidade (o político) e no saber (o filósofo) e bolou a idéia do rei-filósofo. A formação deveria ser rigorosa também com os outros cidadãos. Acho que dá para sacar uma coisa implícita nisso tudo. Os gregos sempre tiveram atenção para o homem e para as leis da realidade. Até as suas teorias físicas vão desembocar nesse problema da formação do homem.)

No livrinho Cristianismo primitivo e paidéia grega, W. Jaeger disse que desejava investigar os desenvolvimentos da paidéia nas obras dos autores cristãos antigos . A contribuição grega foi tão grande que os padres da Igreja a absorveram. O assunto daria muito pano para manga. Ele publicou o livrinho para dar algumas indicações sobre o tema. É Pequeno e excelente. É dividido em poucos capítulos. Ele trata no começo de São Paulo. É a coisa mais legal do mundo perceber de fato o helenismo de São Paulo. No post Atendendo aos leitores comento bem de leve esse livro.

Taí o assunto do livro.

Ele teve uma influência tremenda em mim. Dá para dizer influências.

Vou começar pela mais superficial. É que tomei jeito e fui ler alguma coisa dos gregos. Mas aí você de repente pode perguntar: "Ah, estudar clássicos é superficial, é?" O negócio é o seguinte. Precisa do Jaeger para começar a ler literatura grega? Pois é, não precisa. O contrário pode ser. Talvez ajude um pouquinho ter alguma noção da literatura grega. Pelo menos saber alguma coisa do alfabeto grego. Mas não é nenhuma sangria desatada. Eu não tinha lido quase nada daquele povo antes. Foi por causa da Paidéia que acabei me interessando. Serviu de incentivo. Seria uma beleza se a gente já conhecesse, sei lá, Xenofonte ou Demóstenes desde a escola. Não é isso o que acontece. Então o livro me ajudou a sair do marasmo. Fui ler as obras de alguns dos caras citados ao longo das páginas. Algumas dessas "leituras gregas" foram fundamentais.

A segunda influência ainda é meio circunstancial. Acho que eu disse no outro texto da série eu mencionei que gosto de saber a história do que gosto. Pois é, com os gregos foi a mesma porcaria. Eu não sabia quase merda nenhuma deles. Fora que o Jaeger mesmo disse que a paidéia não era uma coisa exterior ao Homem. Quer dizer, ela tinha os pés fincados na história. (Uma curiosidade. Os gregos achavam que o Alexandre era mais filósofo que o Zenão. Por quê? Não é difícil de entender. Alexandre fez na prática o que Zenão só concebeu na teoria. Esse negócio de viver no mundo da lua sozinho não é o que os gregos entendiam como vita contemplativa.) A história dos gregos e a paidéia caminharam juntos. (Por sinal, noção de história atrelada à política é muito grega. É reflexo da paidéia.) Essa perspectiva me ajudou (e tem me ajudado) horrores enquanto eu lia (e leio) algumas coisas da literatura grega.

Uma outra influência. O livro do Jaeger apresenta um monte de idéias que os gregos foram descobrindo. Areté, sophrosyne, hybris, diké, ate, tyche, kairós, kalos kagathos... e paidéia. Tudo isso ficou girando dentro da minha cabeça. Algumas leituras (Sófocles, Ésquilo, Platão, Homero...) me ajudaram a compreender melhor essas idéias. Ler numa peça de Eurípides referência claras a ate é bem mais legal que saber tudo abstrato. A idéia que pegou mesmo foi (podia ser diferente?) paidéia. Estou dizendo com tudo isso o seguinte. Certas categorias do pensamento grego foram se tornando familiares para mim. Outro dia mesmo eu estava vendo um filme e ficava dizendo: "Ih, olha, isso tem cara de hybris". (Mas se você não tiver cuidado, você não vai sair impune da festa. Se você levar até as últimas conseqüências um negócio como a Necessidade, está ferradaço.) Também aconteceu de eu entender certos fenômenos históricos como readaptações de alguma coisa grega. Acho que foi a primeira vez que eu tive mesmo consciência história (mas no sentido de fazer comparações entre várias épocas). Um exemplo. O prudhomme medieval (no séc. XI) tem algumas semelhanças com o kalos kagathos da época da Odisséia (e posterior). É engraçado que a evolução semântica desses termos é um pouco parecida. Aconteceu uma mudança durante a Idade Média parecida com a que aconteceu na Grécia arcaica. O "cavalheirismo" se tornou o ideal de qualquer homem educado, mesmo quando os nobres cederam lugar aos burgueses. Uma universalização semelhante ocorreu com a kalokagathia na Grécia. Esse ideal elevado de homem se deslocou de uma pequena aristocracia para grupos maiores. A época guerreira cedeu espaço para a época cortesã. A noção de cortesia se generalizou depois. (O homem ideal das damas provençais ("valente e cortês", "prou et courtois") lembra demais também o nobre grego. (Menelau seria um bom partido no séc. XII.) E Jaeger diz que o kalos kagathos está bem próximo do gentleman do séc. XVIII.)

A principal influência foi mesmo o problema da formação. Ele me chamou demais a atenção. Antes eu vou dizer um negócio. É que foi um problema bem sensível para mim. O pessoal da minha geração de repente é o que tem mais consciência da porcaria que é a nossa formação. Falar mal de escola e faculdade já está virando piada batida. Quem já topou com filosofia hardcore (estou falando de Platão, Aristóteles, gente que nem esses velhinhos) percebeu que educação faz parte da formação. Isso vai muito além dessa história de ir bem no vestibular e tirar um diploma. Vira e mexe eu topo com algum blog de alguém da minha idade dizendo mais ou menos a mesma coisa. Reclama com razão. O chato é que virou moda falar mal da educação. Esse falatório acaba confundindo tudo. Lugar-comum pode ser bem escroto. Mas meu ponto é o seguinte. Se eu estiver certa, o pessoal da minha geração está percebendo que tem que dar um jeito num problema muito complicado. A gente não tem papai nem mamãe para nos ajudar. Vamos ter que resolver isso na marra. Ninguém quer nem tem que inventar nada. O trabalho é colocar as coisas nos trilhos. É uma questão de sobrevivência. Vou dar mais pitaco. Nós, estudantes, sofremos na pele o problema da formação. Moral e intelectual. É um problema que a gente se deparou e que precisamos dar um jeito. Natural que a gente se sinta sensível a qualquer coisa que pareça boa nessa via. Agora que preparei o caminho, posso dizer o seguinte. Esse livro foi muito bom para mim porque é ótimo e gostei. Mas existia (e existe) essa circunstância que acabei de comentar. Não tem como. Surfei nesse Zeitgeist numa boa. Ainda surfo. (Taí um termo legal de usar. No ônibus: "Aí, surfei no maior Zeitgeist." Depois fumar.) De um jeito ou de outro, fui empurrada para esse livro. Aceitei. Adorei. Mas não que ele vai de repente salvar a cocada-preta. Mas é gostoso ver formação espiritual dos gregos passar de página e página como se fosse um desfile. Abre pelo menos a cabeça para uma coisa que aconteceu e ao mesmo tempo é ideal. (Ser histórico e ideal foi uma coisa que só os gregos souberam fazer.) Aí, depois de fazer essa "segunda navegação", retornar para o Brasil-2008 com algum tipo de coisa na cabeça como projeto esboçado. (Método de exorcismo: mostrar a Paidéia para algum pedagogo.)

Esse negócio de formação acabou me interessando mesmo. Existe uma ligação direta entre esse meu interesse e Mortimer J. Adler. (Pois é. Adler foi outra baita influência. O ideal que ele tinha de formar cidadãos de alto nível está bem na linha da paidéia grega.) Gilson entra na roda, mas não de um jeito direto. Podia citar outros caras legais. Mas chega. Não vou ficar citando um monte de livros que tenham a ver com história da educação. Quero só dizer que essa trilha foi aberta para mim graças ao Jaeger.

Danke schön, mein liebster Jaeger!

Friday, March 14, 2008

Aconteceu (versão 2.0)

A impressão causada por quem a gente ama é sempre duradoura. Se fecho meus olhos, posso reimaginar experiências amorosas... Basta levar a minha atenção às depressões e vales que foram criados em mim. É estranho. Levo pelas mãos um eu diferente de mim mesma. Nós duas caminhamos por um ambiente que foi uma circunstância de outrora. Essa experiência está hoje dentro da minha imaginação. Só que eu não a recrio. Apenas a contemplo. Revivo todas as passagens. Não mais como protagonista. Só percebo como espectadora.

Quando você ama? Você enxerga por um instante os fios que unem as pessoas entre si. Também pode enxergar os que se cruzam e ligam toda as coisas entre si. Às vezes percebemos que todos esses fios na verdade não se originam nas coisas. Nem nas pessoas. O amor os ilumina de um jeito que a gente enxerga uma coisa estranha. Eles parecem vir e ter um fim em algo que ninguém consegue entender muito bem. Só que esse algo é que dá o sentido. Se olharmos direito, vamos ver fileiras de diamantes que se dobram no horizonte do mundo. Ninguém sabe para onde elas vão depois. Nem de onde elas vêm antes. Não importa desvendar esse enigma! Apenas é preciso 0bservar a teia formada por tantos cruzamentos. Ali é que aparece tecida a razão da nossa existência. Feita por um artista sensível. Essa é a melhor das contemplações!

E tudo começa com uma pessoa em especial tendo apenas que ser ela mesma...

Thursday, March 13, 2008

Raiva cósmica

(Tentativa de expressão.)

Ah! Existem horas frias. Uns intervalos escuros que criam pequenos buracos na camada mais dura e profunda da nossa pessoa. (Se é que houve tempo para a formação da rocha!) O ao redor parece feio. A realidade se esfarela. A poeira nos cobre. Viramos para lá e para cá, incomodados. O coração ofendido murmura uma sensação de pobreza. Os dentes se chamam, apertados. Tudo se desdobra numa indignação genérica. Dá vontade de gritar qualquer coisa. Um pensamento ímpar aparece sem grande educação: "Este mundo é bom mesmo?" A ordem do mundo... ela não parece nos acomodar. Neste momento, que é queda, parecemos mais belos que tudo o que nos cerca. Só que isso tudo, agora mera circunstância enviesada de nós mesmos, nos imobiliza em paradoxo. É mais fácil apenas aquecermos a nossa garganta com um grito de dor. Disfarçamos o gelado que nos tomou.

A repetição desses momentos desgasta a raiz da nossa pessoa. A sensibilidade é perdida. Mas compensamos com uma força aparente. Primitiva.

Não há nada mais perigoso para nós que permanecer em atrito com tudo o que nos cerca.

Wednesday, March 12, 2008

Adolescência

Porque outro dia lembrei do Musil. Sobre o que ele dizia da influência sensível de leituras de Schiller, de Göthe, de Shakespeare (eu digo: de Hölderlin). Leituras que produzem um estado encantatório quando somos mais jovens. Elas não nos deixam colocar nossos pés no chão. Pairamos no éter como os deuses de outrora. É verdade. Nos embrigamos (nós, os jovens que leram essas coisas na juventude) na beleza. No futuro despejaremos nas páginas poesia sentimental. Traços ingênuos. Como a ação do fluxo sangüíneo debaixo da nossa pele, as impressões daquelas belezas têm influência discreta. Sensivel, mas presente e modeladora. Só que a gente (estamos ainda com Musil) vive às cegas! As impressões ajudam a amortecer o caráter esquisito do mundo. São o nosso primeiro dedilhar na lira do mundo. Ainda estamos nos preparando para formar o nosso caráter. Está cedo para amadurecer!

E se tirarem de repente a poesia sentimental de nós? E se mostrarem muito rápido a dureza do chão? Nós (os jovens) não teremos para onde ir.

Adolescentes (ainda estamos com Musil), vocês são bobos! Se alguém jogar fora essa frágil proteção de vocês, sabem o que acontecerá? Vocês vão caminhar como bêbados. Esperem, não será assim. Será pior. Vocês vão caminhar feito idiotas!

Monday, March 10, 2008

Sempre esqueço

Sempre esqueço de dizer um negócio. Dessa vez, vai. É que gosto de fazer citações. Em texto não-literário eu indico a fonte. (Aquele by-não-sei-quem) Não faço isso em outros. É plágio? Tomara que não. =)

Filípicas II

Monarquia? My ass!

Cidadão de verdade é livre. Esse negócio de ser súdito é escravidão natural disfarçada de virtude.
A única coisa boa da Revolução Francesa e Russa foi que acabaram com essa bananada. (Ainda acho que tinham que prender esses revolucionários, apesar de. O Brasil foi muito mais civilizado. Já que faltou simancol para o Dom Pedro, convidaram-no a se retirar. Aí ele pensou: "Pô, tô pagando mico". Foi embora. Só faltava ter um imperador agora da TFP. (É chato esse saudosismo por um império católico. Já chega de religião de estado...) Se bem que é menos pior que um presidente puxa-saco de traficante. Fora que ter nomezão é muito escroto. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Habsburgo. Imagina aí o tamanho da carteira de identidade para caber esse nomezão. Outra coisa. Ouvi falar que ele tinha voz fina. Altão, barbudão, voz fina. Devia ser um cara engraçado.)

Filípicas

Dia da mulher é o caralho. Danke, nein! É claro que sou contra celebrar um dia escolhido por caras de terninho de um mega-governo. Pega e enfia no fiofó, burocrata safado!

(Agora tem dia que vem nego e diz: "Ah, lembrei de você porque é Dia da mulher." Ah, corta essa! Lembre-se de mim quando estiver a fim. Sem essa de celebração oficial. Por quê? Precisa de mega-governo para lembrar você? Pede aí para celebrarem o dia do pum. Aí você só solta pum quando os caras de terninho do mega-governo quiserem. Olha só! Agora o pessoal só pensa na gente se tiver alguma coerçãozinha estatal. PQP!)

(Legal, mais um parêntese. Anota aí. Vai chegar o dia que o pessoal só vai transar quando o governo deixar. Vai ser assim. Todo mundo vai estar a-pa-vo-ra-do com esse negócio de DST. (Já está.) O governo vai assumir o monopólio das camisinhas. (Países comunistas devem ser assim.) Vai colocar o maior terror. (Já coloca.) Também tocará terror sobre esse negócio de ter filhos. (Já toca.) Aí só vai transar quem a) pegar a camisinha do governo (em escolas deve ser assim. No Carnaval, o governo serve para isso), b) for examinado pelo SUS, c) for esterilizado (eufemismo: "fazer exame pelo SUS") ou d) tiver permissão especial. (Existirá a opção de molhar a mão dos caras do governo. Nada oficial. Só negócios.) O governo vai ser tão parceirão que vai liberar as neuroses em certos dias, como em 1984. Um dia para cuspir no pôster do Collor ou jogar tomate na estátua dos fumantes. (Nota pessoal. Detesto quem detesta fumante.) Pode abrir um dia especial, tipo um "Dia da sauna gay". Tenho certeza absoluta de que já pensaram em alguma coisa assim.)

Tuesday, March 04, 2008

Livros (I) - Punk - Anarquia Planetária e a Cena Brasileira


Já estou um tempinho sem escrever sobre livros. Só escrevi rapidinho sobre um do John Lukacs e um do Paulo Francis. Vou fazer uma coisa diferente e igual ao mesmo tempo. Vou escrever sobre livros que me influenciaram. Não só isso. Vou escrever também sobre algum que tenha a ver comigo em alguma época. Claro, um que eu tenha lido, né? O critério não vai ser a qualidade. É tudo subjetivo. Vai ser mais desculpa para eu falar de mim mesma.

Não vou seguir nenhum critério cronológico. É por isso que resolvi começar com um livro besta que li quando tinha uns 17 anos. Na época achei muito legal. O nome dele é Punk - Anarquia Planetária e a Cena Brasileira. Pode dizer, você fez uma carinha de nojo. Por que fui logo arrumar esse livro? Porque na época eu adorava essas coisas, ué!

Quando a gente é mais jovem, quase sempre tem algum fanatismo. Quase sempre uma babaquice. Meu fanatismo era punk rock. Nem sei como comecei a gostar. Minhas recordações são vagas. Sei que numa época eu nem ligava muito para música. De repente ouvi Queen por causa de uma amiga (eu tinha, sei lá, uns 15 anos). Aí pluft! Do nada fiquei só ouvindo punk rock. Eu era a típica fã do quanto-mais-toscão-melhor. Achava que era coerente. Se o estilo era sujo, então polir demais estragaria tudo. O caminho que me levou até bandas de hardcore finlandesas tipo Kaaos foi coerente. É por isso que tipos como Avril Lavigne eu jamais agüentaria. Blink 182 eu achava podre, e olha que estava parando de gostar tanto de punk rock.

Calhou de um amigo meu comprar o livro. Meu olho cresceu. Não comprei. Peguei emprestado. Eu sempre tive a mania de gostar de organizar as coisas na minha cabeça. De preferência partindo de um ponto de vista histórico de tudo. Você vai perceber conforme eu for citando alguns livros depois. Assim, meu gosto por esse tipo de música me fazia procurar sua história. Caraca, eu não o largava! Achava tudo bom pra cacete. (Comentário na época: "Visceral!") Conheci mais um monte de bandas por causa dele. Conheci melhor o "cenário nacional". (Confissão paralela (rá, não parece nome de banda?): quando uma aula era chata, eu pegava um caderno e começava a rabiscar nomes de bandas. Putz, gastava páginas...) O livro parecia mais legal por causa de umas coincidências. Rolou na mesma época um documentário sobre punk rock num cineminha no Leblon. Fiquei lá assistindo e pensando: "Pô, que nem no livro, que legal!" (Ok, não é a reflexão mais profunda já feita.) Passaram na mesma época num canal de TV por assinatura um especial apresentado por um guitarrista que nem sei mais quem era. Era um programa sobre um show que reuniu uma porrada de bandas. Tinha lá Sex Pistols, The Clash, Siouxsie and The Banshees, The Buzzcocks... Isso tudo aí é o equivalente punk da literatura do século de ouro de Roma. O básico estava todo ali. Concentrado. (Nunca gostei muito dos Sex Pistols. Só gostava de umas fotos do Sid Vicious, porque eu achava o cara engraçado. Quem não sabe quem é, ele está na capa do livro. As outras bandas eu gostava demais.)

Hoje penso o seguinte. Meio esquisito essa coisa de um fenômeno aparecer tão concentrado. Depois vêm os epígonos. É como se no auge de uma coisa você já sacasse o fim, entende? Ah, mas deixa isso para lá.

O cara que escreveu o livro se chama Silvio Essinger. (Acabou escrevendo um livro sobre a história do funk. Tanja mais nova iria detestar o que vou dizer. Acho coerente. Depois de um tempo, concluí que o punk tem coisas muito parecidas com o funk. (Não estou me referindo ao estilo musical, seu burrinho!) Sei lá se o Silvio pensou assim também. De repente quis faturar uma grana. Mas não estou a fim de dizer as semelhanças. Não agora.) Ele é jornalista. O livro é de introdução. Leitura rápida. Leve. Dá para notar que foi escrito com prazer. Isso é bom. Tem gente que escreve parecendo que está com dor de barriga. Como se estivesse quase fazendo nas calças. Fica se contorcendo, todo preso. (2/3 do estilo empolado acadêmico pode ser explicado pela teoria da dor de barriga.) O Silvio não era assim. O assunto já não era complicado. Querendo então informar o básico e com vontade... Era uma beleza! De repente hoje (pô, são quase 10 anos desde que o li) eu acharia uma bosta o livro. Escrevo com as impressões da época. Quase um trabalho de memória.

Olha, parar eu não parei de ouvir esse tipo de música. Não por completo. A diferença é que hoje ela está na periferia do meu espírito. Eu sei, parece uma expressão meio enjoada essa "periferia do meu espírito". Só que não tem outra melhor. Posso dizer de outro jeito. É chiclete. Masco, jogo fora, fica por isso mesmo. No pacote não vem a "ideologia punk". Mas peraí. Quero dizer uma coisa antes de comentar esse negócio de "ideologia punk". Minha, hm, "atenção musical" foi deslocada porque passei a ouvir coisa melhor. Sim, é verdade. Vou dizer por experiência própria. Educação tem muito a ver com hábito sim. Esse negócio de aprender a gostar é verdade. Se você não criar o hábito, está lascado (eufemismo para o fodid..., sabe como é). Não sei explicar muito bem. Esse hábito é engraçado. Você precisa se conformar com o que está lidando. Se você não for uma pessoa aberta, não vai conseguir entender o que faz uma coisa ser melhor que a outra. Se você sabe o que significa ser moldado por uma coisa sabe o que estou dizendo. O chato de usar esses termos ("pessoa aberta", "criar o hábito", "ser moldado") é que viraram chavão. Ninguém mais sabe do que se trata. Mas parece tão bunitcho! Fazer o quê? Temos que nos virar. A gente precisa recriar dentro de nós muitas das experiências que envolvem essas coisas para entendê-las. Isso significa ter alguma consciência do que faz isso ser bom e aquilo uma merda. (Vou dizer um negócio. Essa história de ouvir música ou ler com o coração é a maior furada.)

Êta parágrafo confuso! Adiante.

"Ideologia punk". A influência foi dupla. A principal é o lema "do it yourself". Sei que não precisa de punkismo nenhum para entendê-lo. Só que é bem característico do movimento punk (e pré-punk). Todo mundo que participa disso pensa assim: "Pô, se quero fazer uma música, vou lá e faço." Pode sair tudo uma titica. Não importa. Se você puder fazer, faça. É por isso que é comum esse pessoal se juntar, criar banda, revista, showzinhos e tal. Você pode reclamar porque tem horas que é melhor não fazer nada do que fazer um lixo. Ok. Mas o ponto é outro. Ninguém com esse pensamento na cabeça fica choramingando, querendo que tudo caia prontinho do céu. Esse negócio de chegar e criar um blog sem nem querer saber de nada é bastante punk. "Do it yourself". Só não digo que é uma atitude libertária porque esse termo é equívoco pacas.

A outra influência tem ligação com isso. Se você leva a sério o "do it yourself", você vai acabar desconfiando da política. Essa história dos Sex Pistols dizerem "God save the Queen/Her facist regime/They made you a moron" ou do Dead Kennedys fazer uma música chamada "California Über Alles" (dois hits eternos do estilo) tem a ver com essa desconfiança. Governo parece uma porcaria que só serve para encher o saco. (Os caras do LewRockwell são uns punks de terninho.) É por isso que eu acho que o movimento punk pode ter relação com um liberalismo hardcore. Não precisa ser anarquista. Mas aí é que está. A coisa desanda porque nego acha que o problema no fundo é a autoridade em si. Na vida política, a autoridade estatal. Na vida privada, a autoridade do papai e da mamãe. Isso é a liberdade hipostasiada! Ela se torna independente de tudo. Cai na categoria dos primeiros princípios. É loucura!

Estou enrolando. A influência secundária foi o seguinte. O que passou a me incomodar era a autoridade pública. A idéia de o Estado ser um homem enorme (by Hegel) me parecia grotesca. (Sonho: The Stooges tocando lá onde Hegel dava aula até ele mudar de idéia.) Não é que o Estado me parecesse malvadão. Ele me parecia uma coisa meio estúpida. (Outra confissão: digo para meus amigos que se o Estado for um homem enorme, é que nem aquele grandão do Mad Max III. Um cara enorme, musculoso e retardado, controlado por algum anão.)

O Estado e o político montado nele. À esquerda, ao fundo, o cidadão oprimido.

Claro, o problema da autoridade em si também me incomodava. Isso foi uma bela merda. Falo sem nenhum exagero que essa história de ser contra autoridade envenena a alma. Demorou um pouco para eu entender que autoridade é vital. Repito: vital. (Assunto para um outro post.)

Como é que um estilo musical se torna uma maneira de viver? Bizarro. É ídolo naquele sentido da Bíblia. "Mais que um estilo de música, punk é atitude" é uma frase babaca... Outra coisa. Como é que se pode levar a sério umas merdas dessas? Eu devia estar muito chapada. Não é possível. É aquela história do pacote. Você carrega um gosto musical E uma postura de vida. Er, postura de vida? Nada. É uma caricatura de vida!

Sempre lembro do São Paulo: "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom." Pois é. Se eu continuasse nessa onda, eu enlouqueceria. Veja a Madonna. Ela não é punk. Mas olha só como ficou! Outra coisa. Pode ter sido uma bizarrice minha assumir toda essa postura. Só que foi quando era mais nova. Não é desculpa. Até demorei para sair dessa. Agora, seria bem pior para a minha cara se eu entrasse nissa hoje. Pô, não sou nenhuma coroa, mas também já passei dos 17 anos faz um tempinho! Conheço umas pessoas que só com 20 e muitos desbundaram. Aí vira a bizarrice da bizarrice.