Saturday, January 05, 2008

Rousseau

(Após Os Intelectuais, de Paul Johnson.)

Robespierre dixit: “Rousseau é o único homem que, graças à altivez de sua alma e à grandeza de seu caráter, mostrou ter méritos para desempenhar o papel de professor da humanidade”. Lendo um negócio desses a gente logo pensa que o Rousseau era um cara no mínimo super fodão. Jesus era chamado de “Pedagogo” por alguns (ex.: Eusébio de Cesaréia). E olha o que o Rousseau dizia de si mesmo: “Ninguém tem tanto talento para amar”. Ou: “Se houvesse um único governo esclarecido na Europa, ele mandaria erigir estátuas em minha homenagem”. Mistura de Jesus Cristo com Sócrates! Escreveu constituições para Córsega e Polônia. Escreveu um ensaio que foi idolatrado (“uma das maiores provas jamais vistas da estupidez humana” – Jules Lamaître). Todo mundo o considerava quase um deus. Pedagogo da humanidade.

Mas aí você descobre que o “Pedagogo da humanidade” adorava mostrar a bunda para as mulheres de Turim quando mais novo: “O prazer descomunal que eu sentia expondo-as diante de seus olhos não pode ser descrito” . Pô, na minha escola havia uns caras que pegaram suspensão uma vez porque mostraram a bunda na rua e com uniforme. Mas Rousseau é Rousseau. Depois você descobre que o sujeito que tinha tanta “grandeza de caráter” adorava se masturbar e falar bem disso por aí: “esse vício, que os envergonhados e os tímidos acham tão cômodo, tem mais de um atrativo para aqueles que têm imaginação [isto é, Rousseau]: ele os torna capazes de sujeitar todas as mulheres aos seus caprichos e faz com que a mulher bonita satisfaça o seu desejo sem o consentimento dela [Dãã]." Achava que havia uma conspiração internacional contra ele. Os governos conspiravam contra ele. Fazia chantagem emocional para ter dinheiro e hospedagens ao seu dispor. Sobre Thérèse Levasseur, com quem teve relações por mais de 30 anos até resolver se casar: “Nunca senti por ela o menor lampejo de amor (...) as necessidades sexuais que satisfiz com ela eram puramente sexuais e não se relacionavam com ela como indivíduo.” Quem disse isso foi o mesmo cara que também disse em outra oportunidade sobre si mesmo: “Ninguém teve tanto talento para amar.” Ainda tem o pior. O mesmo cara que escreveu sobre educação para crianças não quis saber de cuidar de nenhum de seus filhos. Quando a mulher dele tinha filhos, mandava-os a um orfanato. Não deu sequer um nomezinho para os cinco filhos que teve e que mandou dá-los. As taxas de mortalidade em orfanatos eram muito altas.

Pois é.

Thursday, January 03, 2008

Brevidade

As rosas pétalas embriagadas na passagem sussurram o pesado desleixo da beleza. Por violência retiradas de sua mais bela vida, caem e jazem. A passagem se converte em ruína melancólica do que outrora foi vivo e exuberante. As árvores, tronco das rosas pétalas, somente observam seus frutos estirados no solo. Consentem ao passo do vento. Gemem. Como essas gigantes assistem assim aos pisões que suas rebentas sofrem, rosas pétalas?

Não posso deixar de acolhê-las em minhas mãos. Desejo oferecê-las como pequeno tributo àquele para quem criei um santuário no meu coração e venero todos os dias. É o último recurso do que ainda resta de sua beleza, servir como adorno do meu amor. Mas o amor também é fugaz.

É razão deste baixo mundo a erva morrer e cair sua flor. Poetas, a beleza é um frágil sussurro...