Sunday, November 02, 2008

Prostituição e chiquismo

Vi uma ex-prostituta falando com voz esganiçada alguma coisa sobre a regulamentação da prostituição. A mulher falava tão rápido que não dava para entender coisa nenhuma. Ela até tirou um latim da bolsinha para explicar (errado) a etimologia da palavra "prostituta". (Nem lembro mais o que ela disse. Só sei que achei estranho e fui checar no dicionário.)

Mas que mania de regulamentação esse povo tem! A palavra tem um efeito mágico. As pessoas ficam mais felizes se se sentirem regulamentadas. Será que elas não se perguntam: "Mas quem vai regulamentar e garantir o que for estabelecido?" Só pode ser um poder acima das partes. Qualquer regulamentação implica enfraquecimento das partes. E por que neguinho acha tão gostoso ver o salário mordido por um burocrata? É provável que as prostitutas lucrem mais do jeito que estão. Sem contar essa mania de formalidade. Por que tudo precisa ser formal/juramentado? Até prostituição?

Para falar a verdade, não estou nem aí. Só acho estranha essa mania de botar tudo debaixo das asas mocorongas do Estado.

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Um monte de blog adotou o Amaury Jr.'s way of life. É a mania de chiquismo. Você toma coisas chiques, viaja para lugares chiques, come em lugares chiques. Tudo é esplendoroso. Expressões bregas como "viagem dos sentidos", "educação do paladar" e tais são usadas. Mas ainda tem a Tosquice Suprema. O chiquismo se torna parte integrante da formação humana! Então você imagina um Pitecantropo tomando caviar e queijinho sofisticado. De repente, pimba! O pitecantropo vira o Conde d'Eu por causa do processo digestivo. (Parece até um episódio da Pucca. Uns homens das cavernas daqueles bem rudes vêem uma roda e pá!, começam a tomar chazinho.) A Maria Antonieta tinha razão com aquela história de brioche. Mas não só acabaria com a fome. A França seria civilizada de vez. A Revolução Francesa só aconteceu porque os revolucionários não tiveram uma paidéia de brioches.

Ok, uma bebida pode ser uma maravilha. Comida idem. Mas pelamordedeus, é só isso. Uma comida, uma bebida gostosas. Você não vai virar um lorde porque foi a uma degustação. Se você era idiota, depois da degustação vai continuar sendo um idiota, só que mais feliz. E isso se você não achar nojento o pessoal provando vinho daquele jeito. Não racionalize da maneira mais fabulosa gostos pessoais.

E olha só uma coisa. Mesmo tonta eu sei que paladar não é nem o sentido mais, hm, elevado que temos. Só não faço citação pedante do Aristóteles porque estou com preguiça. Mas acho que é uma coisa que não precisa da alta filosofia grega para entender. Pense na quantidade de conhecimentos adquiridos pelo paladar (e pelo tato e olfato) e compare com os outros sentidos. Pense nas obras artísticas que você pode conhecer lambendo, tocando ou cheirando; compare com as que você conhece vendo ou ouvindo. Pense nos sentidos cuja privação mais prejudicariam a sua vida. Se deslumbrar com o paladar é uma espécie de revolução suburbana dos sentidos. Depois você não pode reclamar se alguém for mais além e se deslumbrar com o toque, o esfrega-esfrega, o rala-e-rola...

Essa exaltação do Amaury Jr.'s way of life é uma presepada. Sem contar que você fica parecendo uma daquelas pessoas de 53 anos que curtem Kenny G. Sai pra lá, jacaré.

2 comments:

R. B. Canônico said...

Olá, Tanja!

Há no Brasil uma tendência estatólatra impressionante. Até a Ditadura, 'acusada' pelos 'intelequituais' de ser de Direita (afinal, ser de Direita no Brasil é quase crime...) foi estatista demais. Não é à toa que Delfim Neto está aí, hoje, apoiando os corruPTos. E o resultado é esse: todo mundo quer que o Estado resolva tudo. E o Estado tenta... por isso é o Brasil é o Brasil - e não vai muito pra frente heheheh.

O chiquismo é tão antigo quanto à riqueza. Isso me fez até lembrar o que Jesus disse sobre os alimentos 'impuros'... aquilo sim é que é condenar com dureza o erro oposto a esse. Uns idolatram essas coisas; outros, demonizam.

Enfim, Tanja, sempre que possível, publique por aqui! Afinal, só sai texto bom hehehe. Ótima semana!

Tanja Krämer said...

Obrigada, Rodolfo! Mas vou dar outra sumidinha. Sabe como é. Não tenho o Estado para me bancar. :-)

"O chiquismo é tão antigo quanto à riqueza. Isso me fez até lembrar o que Jesus disse sobre os alimentos 'impuros'... aquilo sim é que é condenar com dureza o erro oposto a esse. Uns idolatram essas coisas; outros, demonizam." Ótimo ponto! Isso até explica algumas coisas no Brasil. É sempre a briguinha entre chiquismo e pobretismo (culto ao Pobre Abstrato). Um ressentido com o outro.

Ótima semana também!