Thursday, September 18, 2008

Ciência moderna

(Meio resfriada; mas vamos lá.)

Vez ou outra alguma múmia manca aparece com a história de que a ciência moderna e o cristianismo são que nem água e óleo. Alto lá. Descartes era um carola. Copérnico e Nicolau de Cusa eram padres. Galileu era cristão. Mesmo quando aparecia um porra-louca tipo Giordano Bruno, era gente do meio eclesiástico. (Ok, herege. Teje excomungado. Isso não invalida meu ponto.) E Kepler? O homem chegou a estudar para se tornar pastor. Você pensa que foi delírio de juventude? Ele publicou aos 40 anos De Vero Anno quo Aeternus Dei Filius Humanam Naturam in Utero Benedictae Virginis Mariae Assumpsit (cujo título não vou traduzir porque sou esnobe e acho que está na cara o que significa).

Filiação religiosa não significa repetição doutrinária ipsis litteris (mais latim moleza). Tudo bem. Mas será que esses cientistas eram tão manés que nunca desconfiaram que faziam algo anti-religioso ou "original"? Essa hipótese é cachorra demais. O único que pensou nisso (Bruno) era meio pancada. (Para falar a verdade, ele nem era lá um cientista.)

O ponto fundamental é o seguinte. O cristianismo é uma doutrina cosmológica? Neca de pitibiriba*. O conhecimento cosmológico (seja qual for) é uma doutrina religiosa? Não (ou não deveria ser). Então cadê a contradição entre ciência moderna e cristianismo? Na cabeça das múmias mancas!

O problema da ciência moderna é (pelo menos em aparência) com o Sr. Aristóteles. Mesmo assim, sabe-se lá Deus até que ponto ele era compreendido.

Como hoje em dia quase ninguém leu o dito cujo (entenda-se: a Física, Do Céu... Ptolomeu é outro que quase ninguém leu, menos ainda que Aristóteles), ninguém sabe direito sobre o que os cientistas modernos falavam (ou deixavam de falar, o que é importante também). O jeito é apelar para aqueles chavões do tipo: "Passaram da visão teocêntrica para antropocêntrica". Como todo chavão, ele tem lá a sua verdade. O problema é entender direitinho qual é.

(Por sinal, acho que desconhecer a Física e o Almagesto torna a própria ciência moderna ininteligível do ponto de vista histórico. Como você vai entender seu surgimento, seu desenvolvimento, se não conhece nada daqueles livros? Nem me venha com a história de que o Almagesto é muito técnico. Até parece que você achou conferiu tranqüilão todos os cálculos do Copérnico e do Kepler.)

*Se bem que alguns dados da Revelação podem influenciar certas especulações cosmológicas. Um que me lembro agora é a questão da criação do mundo.

7 comments:

idelfonso said...

Incluindo nessa lista, não dá pra esquecer Gregor Mendel, que além de cientista era padre e foi o fundador dos estudos genéticos modernos....

Prayana Kale said...

Ou Pavel Florensky, brilhante matemático, físico e engenheiro mecânico, e também padre ortodoxo, fuzilado pela revolução. Ou o Bispo Alexander Mileant, recém-falecido, bispo russo e cientista da NASA, engenheiro do nada complicado setor de propulsor para foguetes.

Eduardo Araújo said...

Tanja, O heliocentrismo copernicano não surgiu de forma "revolucionária", conforme a posteridade consagrou.

O De Revolutionibus pode tranqüilamente ser analisado na perspectiva de uma seqüência iniciada ainda com os pré-socráticos, ganhando corpo com Aristóteles, Ptolomeu e culminando no seio da Escolástica.

A rigor, a única inovação trazida pelo heliocentrismo exposto no livro foi propor uma base matemática para um sistema centrado num ponto distinto da Terra, no caso o Sol Médio copernicano. No mais, esse sistema ainda é bastante aristotélico e ptolomaico (até os epiciclos são utilizados).

Por outro lado, muito do antagonismo forjado entre religião e ciência inspira-se no processo movido pelo Santo Ofício contra Galileu.

É preciso que se diga, no entanto, que tanto Bruno - que de fato não foi cientista - como Galileu talvez sequer conhecessem o sistema de Copérnico e mesmo que soubessem o que estavam defendendo estariam, como o cônego, equivocados.

Porém o mais notável é que foi justamente a Igreja quem mais se aproximou daquilo que entendemos hoje por espírito científico. O cientista lançou todas as suas convicções; a Igreja disse-lhe: prove! Claro, não estou dizendo que o norte dessa determinação fosse a interrogação científica. Mas o fato é que, conscientemente ou não, ela o foi.

De outra parte, Galileu defendia com intransigência um sistema absurdo, não admitindo uma mínima contestação, atitude que hoje seria condenada pelos que hoje o reverenciam.

R. B. Canônico said...

Olá, Tanja! É a primeira vez que leio seu blog e gostei bastante do conteúdo! Parabéns!

Quanto a esse assunto, é importante lembrar o complicado (pelo menos para mim...) tema da epistemologia. A epistemologia aristotélica-tomista começou a ser substituída por um certo racionalismo desde Guilherme de Ockham, sendo o principal marco dessa linha de pensamento, sem dúvida alguma, Descartes. Gustavo Corção, em sua magnífica obra "Dois amores, duas cidades" destrincha o assunto de forma brilhante. É uma leitura que recomendo.

O fato é que a mentalidade moderna é profundamente cartesiana. O método científico foi responsável sim por grandes avanços para a humanidade, mas seu campo de atuação é restrito. O problema é que essa mentalidade cartesiana impregnou o pensamento de tal forma que qualquer forma de investigação que não se utilize do método seja descartada. Isso é um absurdo, pois joga disciplinas como Filosofia e Teologia para escanteio. A verdade é que para buscar a Verdade é preciso muito mais do que laboratórios e repetições.

Quanto ao comentário do amigo Eduardo, concordo plenamente. O fato é que, nesse incidente de Galileu, as ponderações do Cardeal Bellarmino são preciosíssimas e muito atuais do ponto de vista da filosofia da ciência. Pena que, por preconceito, as pessoas ignorem o que disse esse grande teólogo - ao menos nesse tema.

Há ainda outra questão: a vã pretensão humana de explicar tudo. Hoje mesmo li um ateu escrevendo que "morremos, por enquanto..." e fiquei horrorizado. Para mim, esse tipo de superstição científica é pior do que alguém que espera encontrar a mula-sem-cabeça para assar marshmelows em seu pescoço fumegante.

Por fim, não posso deixar de citar duas magistrais encíclicas do Papa João Paulo II que abordam o tema: "Veritatis Splendor" e "Fides et Ratio" (notadamente esta última).

Tanja Krämer said...

Eduardo, você comentou algumas coisas interessantes. Vou pegar só esse tema da revolução copernicana. Só ele já é complicado demais!

Parece que botar o sol no meio do sistema é apenas uma esquisitice de referencial. E o Copérnico está mesmo por dentro da tradição científica. Os argumentos que ele usa para demonstrar a esfericidade da Terra são velhos que só. Mais: ele mesmo diz que a idéia do sol no centro do mundo não é original. Como se não bastasse, ele tinha o apego velho à idéia do movimento circular dos astros (e até Galileu pensava assim).

Por que o Copérnico pensou em botar o sol no centro do sistema? Por que ele não pensou num sistema como do Tycho Brahe? Sei lá. Ele até diz algumas coisas no De revolutionibus. Nada muito claro. Pode ser que tenha alguma coisa a ver com um tipo de adoração do sol (não estou dizendo que o homem era pagão).

O sol no centro do sistema e os movimentos da Terra simplificam muito sistema do Ptolomeu. Tornam-no até desnecessário do ponto de vista astronômico. E aqui está um ponto importante. Quando o Ptolomeu inventou aquela história da equante, ele introduziu uma noção matemática no mundo celeste. Ele acabou matematizando o céu. Isso cindiu a realidade física em dois mundo distintos. O lado bom foi a facilitação do sistema. O ruim é que tornou tudo artificial. Sem contar, claro, a cisão.

Veja. Até o Copérnico, quase ninguém achava que as coisas que aconteciam no mundo sublunar também aconteciam mais além. Ninguém nem cogitava ser possível um movimento errático no mundo supralunar, ou pelo menos tão imperfeito quanto aqui. Posso dizer de outro modo. Até o Copérnico, a metafísica era a explicação dos fenômenos físicos. (Pega a Física do Aristóteles, por exemplo.) Já a astronomia era briga entre matemáticos.

O Copérnico não foi mudou apenas um referencial. Botar o sol no centro do mundo vai mais além. Você não pode esquecer que, na física do Aristóteles, a Terra ocupa o centro do sistema por causa de uma disposição natural própria (é pesada). Como é que o sol ocuparia o centro? Não dava. Então o sistema do Copérnico não partia das mesmas bases do Aristóteles.

Se você botar na conta os movimentos da Terra, aí que tudo fica mais complicado ainda! O movimento da Terra economiza muitas explicações, mas... como manter a economia se as conseqüências desse movimento soam absurdas? E a paralaxe das estrelas fixas? Se a Terra se move, como é que você não vê paralaxe nenhuma? Não parece fazer sentido algum. Do ponto de vista aristotélico, não faz mesmo!

O Galileu topou com tudo isso. Levou adiante. Mas as sementes está lá no Copérnico. É nesse sentido que você pode dizer que aconteceu mesmo uma revolução copernicana.

Tanja Krämer said...

Oi, Canônico. Que bom que gostou do blog!

Ei, você leu mesmo o Dois amores? É tão difícil de achar que parece até o Graal. :-)

O Ortega chamava de "imperialismo da física" considerar tudo pelo método físico-matemático. É até compreensível neguinho ter ficado deslumbrado por causa das descobertas desse método. Mas já deu no saco.

Aturar beatos da ciência é a coisa mais enjoada do mundo. E agora que eles se tornaram autoridade pública? Tudo o que biólogos, médicos, físicos e o diabo a quatro disserem, a gente só pode responder "amém"! A ditadura da ciência é mais uma bizarrice moderna.

R. B. Canônico said...

POis é, Tanja. Eu tenho minhas - excepcionais - fontes hehehe. Ali, aliás, tenho muitos outros livros do Corção. Tenho que aproveitar, né?