Saturday, August 30, 2008

Lugares inviáveis

Vi um trechinho de um programa sobre terrorismo. Tinha rolado mais um fuzuê num desses lugares que só tem baixaria. Gente berrando pela destruição dos EUA, fuzil na mão. Às vezes bazuca. Coisas assim. (Variação da baixaria. Um cara morre; um monte de gente fica andando na rua dando tiro para o alto.) Os policiais (ou o exército, sei lá) tinham cara de coadjuvantes do Chaves. Sobravam bigodudos. Meu Deus, não confio em bigodudos. Um diplomata dos EUA disse algo como "95% da população não é confiável."

Esse lugar não é só ruim. Ele é inviável.

Nem uma sociedade maori era viável. O canibalismo e infanticídio rolavam soltos. Uma gente ótima:

Infanticide was also widely practised because tribes wanted men to be warriors, and mothers often killed their daughters by smothering them or pushing a finger through the soft tissue of the skull. The widespread practice of cannibalism was part of a post-battle rage. 'One of the arguments is really if you want to punish your enemy killing them is not enough. If you can chop them up and eat them and turn them into excrement that is the greatest humiliation you can impose on them,' says Moon. 'The amount of evidence is so overwhelming it would be unfair to pretend it didn't happen. It is too important to ignore.'


Veja. Os maoris eram uma gente que comia os inimigos só pelo prazer de transformá-los em merda. Isso sem contar o infanticídio. Êta povinho escroto.

Outros povos eram tão escrotos quanto. Como os maias:

'Archaeologists for a long time believed the ancient Maya to be gentle and peaceful people. We now know that Maya warfare was intense, chronic, and unresolvable, because limitations of food supply and transportation made it impossible for any Maya principality to unite the whole region in an empire, in the way the Aztecs and Incas united Central Mexico and the Andes, respectively….Captives were tortured in unpleasant ways depicted clearly on the monuments and murals (such as yanking fingers out of sockets, pulling out teeth, cutting off the lower jaw, trimming off the lips and fingertips, pulling out the fingernails, and driving a pin through the lips), culminating (sometimes several years later) in the sacrifice of the captive in other equally unpleasant ways (such as tying the captive up into a ball by binding the arms and legs together, then rolling the balled-up captive down the steep stone staircase of a temple).'


E os astecas:

The practice of human sacrifice was common not just in Mesoamerica but in South America and elsewhere. The motivation was to repay the debt to the gods. Among the Aztecs, after it had been cut out by an obsidian blade, the still beating heart would be held out in front of the victim and towards the sky. Eating pieces of the victim's body afterwards was not uncommon.


Um momento. Vira e mexe alguém diz: "Os povos pré-colombianos [astecas, maias, incas] eram sofisticados. Mais que os europeus." Você leu o tipo de sofisticação deles. Por essas e outras, sempre vale a pena lembrar de Santo Agostinho. Uma passagem célebre de A cidade de Deus:

Onde não há justiça, não pode haver direito, e nenhum povo, mas apenas uma multidão que não merece o nome de povo.


Não tinham povos nas Américas. Tinham aglomerados de gente. Dá vontade de ter uma camisa do Cortés e Pizarro.

Aconteceu no séc. XX um revival maia-asteca. Pelo menos na Alemanha. As crueldades dos nazis às vezes lembram os povos pré-colombianos. Veja o exemplo da Ilse "Filha do Capeta" Koch:

During World War 2 the infamous Ilse Koch was known as the Bitch of Buchenwald for her bestial cruelty and sadistic behavior. She was the wife of Karl Koch, the Kommandant of Buchenwald, and struck fear into the inmates daily. She was especially fond of riding her horse through the camp, whipping any prisoner who attracted her attention. Her hobby was collecting lampshades, book covers, and gloves made from the skins of specially murdered concentration camp inmates, and shrunken human skulls.


A própria I. Koch se achava parecida com alguém das tribos canibais do sul:

'It is more interesting that Frau Koch had a lady's handbag made out of the same material. She was just as proud of it as a South Sea island woman would have been about her cannibal trophies.'


Não que os nazis tenham sido os únicos a adotar o estilo maia-asteca de governar. A URSS, Cuba, China e outros países comunas foram até piores. O livro negro do comunismo está repleto de fatos terríveis.

Perto dessas baixarias, a Inquisição não passava de uma reunião da Tiara Tea Society.

O Brasil pode estar cheio de escrotidões. Ok. Mas caraca! Compara com certos lugares. Uns países parecem filmes policiais de baixo orçamento. Outros parecem coisa do H.P. Lovecraft. (Tem país tão estranho que dá até para desconfiar que está cheio de zumbis, harpias, goblins, essa coisa toda.) O Brasil não chegou a esse ponto. Ainda.


###


50 mil homicídios por ano no Brasil. Bem que isso nos faz "uma multidão que não merece o nome de povo". Quem anda tranqüilo na rua? A coisa anda tão feia que às vezes, quando somos roubados, tem quem diga que a culpa é nossa. "Ah, ela fica andando com celular, bem feito". Daqui a pouco, só de a gente ter dois braços e duas pernas vai ser motivo de roubo.

Vale discutir o valor da liberdade numa situação dessas? Tenho um blog chamado Conversas Bizantinas. Mas uma discussão dessas é que parece bizantina! É como debater as contribuições de Ulpiano enquanto Alarico saqueia Roma. Não dá! E por falar em romano, as palavras imortais do Cícero: "Mais vale morrer mil vezes do que não poder andar na própria cidade sem a escolta de gente armada."

É uma situação deprimente.

Se é para discutir alguma coisa, acho melhor o seguinte: é possível haver liberdade em meio ao vício? Não é uma questão beata. É um problema sério. Antes de pensar na liberdade, a gente precisa pensar na justiça.

A justiça ainda é norma no Brasil. Ainda dá para apelar à ordem. Olha o caso das bizarrices dos maoris, maias, astecas, nazis e comunistas. A justiça não valeria nada para eles. A mesma coisa naquelas buracos onde se acha bonito mandar foguetes na cabeça dos outros. A situação está feia? Está. Mas existe ainda a possibilidade de justiça.

A criminalidade é a escrotice que mais dói.

Uma historinha real para fechar a conta. Uma amiga procurava onde morar. Foi ver uma casa no Catumbi (um lugar esquisito aqui no Rio). Estava baratinha. Ela perguntou a um cara que morava ao lado:

- Moço, essa casa tá a venda?
- Tá sim.
- Aqui é tranqüilo?
- Se a senhora acha que tiroteio é tranqüilo, todo dia aqui é muito tranqüilo. A senhora não vê jornal? Aqui aparece todo dia!

Ela não quis saber mais de Catumbi nenhum.

20 comments:

O Comentarista said...

Outro dia me deparei com a seguinte passagem, que fala alguma coisa mais ou menos parecida com esse post:

"O mal existe para além de quem os comete. Ao mesmo tempo, todos somos, em certa medida, e com as devidas proporções, maldosos; todos, sem exceção, participamos do fenômeno do mal. É parte da condição humana pecar. (É por isso que, sempre que se pretende extirpar todo o mal da sociedade - personificando-o nos judeus ou nos burgueses -, produz-se um mal maior.) Mas se é verdade que todos participamos do mal, nem todos praticamos o mal, muito menos com brutalidade.

Sempre houve, todavia, em todas as eras, em todas as sociedades, quem escolhesse o mal.

Apesar disso, raríssimas vezes no curso da história humana, a civilização ocidental conseguiu momentos de paz individual como ocorre hoje nas democracias liberais capitalistas. É provável que em nenhum período da história o homem pode, como hoje pode, nas democracias liberais, viver tanto tempo em paz, sem ameaças de tribos, de genocídios, de escravidão, de perseguições puramente ideológicas e religiosas, isso para não falar das pestes, da mortalidade infantil e da expectativa de vida. O brasileiro médio (mesmo considerando a pobreza, a violência e os períodos de autoritarismo) nos últimos talvez cem anos vive muito melhor do que viveu imensa parte da humanidade durante toda a história."

Concorda?

Mauricio said...

Tanja?
Como se entra em contato com vc?
Não tem email para contato visivel.

Eduardo Araújo said...

Tanja, maravilhosa!

Endosso até os pontos dos is deste tópico. Hoje em dia, a onda politicamente correta, embebida até á medula de um marxismo dos mais imbecis mantém essa figura de respeito exacerbado ante a memória dos povos pré-colombianos, máxime astecas, incas e maias. Ressaltam sempre o progresso técnico desses povos e nunca mencionam a noite de terror que cobria as Américas enquanto sob sua hegemonia.
Habitualmente se lê em livros didáticos de história que os europeus, por vezes mencionados apenas por "os cristãos" (num sutil anticlericalismo), invadiram as terras de maias, incas e astecas e cometeram as maiores atrocidades inomináveis, destruindo civilizações (que alguns autores, mais imbecilizados, sustentam terem sido mais avançadas que a própria civilização europeía ...!).
Aqui no Brasil, os estoriadores (com "e" mesmo) marxistas elegeram os tupinambás para figurarem como os oprimidos dos portugueses opressores, que teriam encetado um verdadeiro genocício. Mas nunca reportam-se ao genocídio promovido pelos tupinambás, dizimando tupiniquins, outras tabas tupis e inúmera tapuias. A antropofagia, defendia sordidamente como elemento cultural era habitual não pelo motivo "romântico" de se apreender as virtudes dos guerreiros devorados. Era habitual porque eles gostavam de carne humana! Fosse esta de homens, mulheres, crianças, de qualquer idade ou etnia. Que piada! Qual a virtude que os índios enxergavam nos portugueses que tanto desprezavam? Seria o Bispo D. Sardinha um bravo e destemido guerreiro cheio de qualidades desejadas pelos caetés?
A versão da história desse pessoal é horrível, mas sobretudo mentirosa, muito mentirosa.

Abraços

Tanja Krämer said...

Nicolau, acho que concordo. Mas é aquela coisa que te disse não sei quando. Certos aspectos atuais são mais horripilantes. O mal latente é monstruoso. A panela não está bem tampada. Olha o caso do aborto. Ok, estou imitando Heráclito. Estou sendo obscura. Mas pera lá, é madrugada e estou cansada! :-)

Maurício, meu e-mail é tanjakrm@gmail.com

Eduardo, obrigada! Dá uma lida no longo artigo do Fjordman no The Brussels Journal que citei. Você vai gostar. Adorei o "estoriadores". Posso roubar de você essa expressão? :-)

Eduardo Araújo said...

Tanja, darei uma lida no artigo recomendado, com prazer.

Quanto ao "estoriadores", fique à vontade. Use e abuse :)) Não é minha expressão, é nossa.

Prayana Kale said...

As práticas de sacrifícios humanos eram fruto da decadência dessas civilizações. Com o desaparecimento de uma cosmovisão tradicional, e da correta interpretação dos símbolos, ocorreu a transformação de antigos símbolos e rituais em show dos horrores. Mas quanto ao canibalismo e sadismo, não há o que condenar ou motivo para se chocar. A sacralização do sadismo e o ascetismo de guerra são valores tradicionais.

Tanja Krämer said...

Olha, eu estava concordando contigo. A partir do "Mas quanto ao canibalismo...", o negócio pegou. Eating people is wrong. Tem certeza mesmo que você não tem nenhuma, mas nenhuma objeção ao canibalismo (e sadismo)?

"A sacralização do sadismo e o ascetismo de guerra são valores tradicionais." Ei, soa bizarra a frase. Me explica melhor.

Tanja Krämer said...

Para falar a verdade, também não sei se rolou um "desaparecimento de uma cosmovisão tradicional, e da correta interpretação dos símbolos" nessas sociedades.

O Comentarista said...

Prayana, desculpe, mas os rituais sacrificiais não são decorrência de decadência da cosmovisão e da consequente decadência das estruturas sociais não. São, muitas vezes, elementos indispensáveis à própria manutenção da ordem estabelecida.

A propósito, recomendo vivamente René Girard, a "Violência e o Sagrado" (foi reeditado recentemente).

Valeu.

Prayana Kale said...

Primeiro, respondo as damas:

Tenho objeções ao canibalismo, sim. Mas não tenho objeções (pelo menos, morais) a encolher a cabeça dos adversários mortos ou utilizá-las como colar.

Agora, a você e ao comentarista:

Obviamente, a tese de "desapercimento de uma cosmovisão tradicional" nessas sociedades pode parecer estranha aos mais acostumados ao ambiente academicista. Mas aos tradicionalistas (evolianos, guenonianos e etc), a idéia comum, com base na doutrina das Quatro Idades, é que essas civilizações já viveram um período de "ouro", e o que conhecemos delas é já a sociedade decaída. Passem os olhos nos primeiros capítulos de "O Homem Perante o Infinito", de Mário Ferreira dos Santos. Embora não trate diretamente sobre isso, serve para explicar brevemente o que eu quis dizer.

O Comentarista said...

Prayana, vou dar uma conferida no Mário Ferreira dos Santos.

Mas a explicação tradicionalista (que eu não conheço, mas estou partindo daquilo que você disse), parece mais mitológica do que propriamente antropológica. Desde pelo menos Hesíodo se imagina a existência de uma idade do ouro anterior. A idade da nossa vida nunca parece perfeita.

O fato é que inúmeras cosmogonias colocam o sacrifício como a fundação do cosmos (cf. Mircea Eliade, Origem das Crenças e das Idéias Religiosas), cabendo às sociedades muitas vezes somente repetir o esquema sacrificial, cuja função foi e vem sendo exaustivamente estudada pelo René Girard.

Agora, com todo o respeito, espero nunca vir a ser um adversário seu, ou, se tudo der errado, pelo menos faça o favor de escolher uma roupa decente para vestir na festa em que você for com minha pobre cabeça pendurada. Que mau gosto.

O Comentarista said...

Ah, sim, e só para deixar registrado: não tenho nem pretendo ter nenhuma relação com qualquer ambiente academicista ou acadêmico, ao qual estou tão acostumado quanto estaria na presença de rituais sacrificiais que envolvessem redução de cabeças.

Prayana Kale said...

Olá Comentarista,

A questão das quatro idades presente no hinduísmo não é tão simples como em Hesíodo, já que está diretamente ligada à metafísica hindu, e que ocorre sempre de forma decadente.

Segundo a explicação comum entre tradicionalistas, os sacrifícios que antes eram símbolos passaram a sacrifícios de fato com a decadência dessas civilizações. É óbvio que uma civilização decadente tende a não interpretar os símbolos ou interpretá-los de forma errada e diabólica (caso dos nazi e a suástica).

Já quanto a desfilar com sua cabeça pendurada, goste você ou não, a sacralização da guerra e do sadismo é parte de todas as civilizações tradicionais. Ungern-Sternberg é um exemplo de realizado através da guerra.

Prayana Kale said...

E até hoje não sei se a Tanja é o Pedro Sampaio ou se o Pedro Sampaio é a Tanja ou se são todos personagens criados pelo Pedro Sette Câmara.

O Comentarista said...

Olá Prayana.

Rapaz, espero continuar seu amigo para o resto da vida, ou pelo menos espero nunca topar com você nervoso. Mas sinceramente - na boa - não concordo com nada disso.

Nem sei exatamente o que você quer dizer com sociedades tradicionais (os astecas e maoris mencionados pela Tanja o são?) nem sei exatamente o conceito rigoroso de sacralizar o sadismo. Na verdade, o correto, para mim, é dizer, como René Girard, que o sagrado decorre da violência para contê-la e possibilitar a existência da própria sociedade. Mas daí para dizer que há uma constante de sacralização (e portanto valorização) do mal, mantenho minhas dúvidas.

Sei é que falanges, torcidas organizadas de futebol e bandidos também sacralizam o sadismo.

Abraços

O Comentarista said...

Não conheço a Tanja, mas se ela é um pesonagem de alguém (que não seja dela mesma...), então, das duas, uma: ou o criador dela é o maior gênio da literatura universal, ou eu sou o maior pato da história da internet.

Prayana Kale said...

Olá Comentarista,

"Nem sei exatamente o que você quer dizer com sociedades tradicionais (os astecas e maoris mencionados pela Tanja o são?) nem sei exatamente o conceito rigoroso de sacralizar o sadismo. Na verdade, o correto, para mim, é dizer, como René Girard, que o sagrado decorre da violência para contê-la e possibilitar a existência da própria sociedade. Mas daí para dizer que há uma constante de sacralização (e portanto valorização) do mal, mantenho minhas dúvidas.
"

Na verdade, não é a sacralização do mal, e sim da guerra. Você pode ver tal cousa no Gita ou nas batalhas de Rama, no Ramayana. Ou na Bíblia.

Tanja Krämer said...

Não quero entrar na discussão. Só duas coisas:

1) Claro que quem me criou é o maior gênio da literatura universal! Dica: ele foi o responsável pela Bíblia; :-)

2) Vão ter que lançar a continuação do Eating people is wrong: Shrinking heads is wrong too.

Tanja Krämer said...

Olha, prefiro professores marxistas fanáticos do que os carinhas da redução de cabeça. Diz aí o nome do conquistador que desceu o sarrafo nessa gente só para eu elogiá-lo. :-)

O Comentarista said...
This comment has been removed by the author.