Monday, August 04, 2008

Do belo

Parte do livro As grandes linhas da filosofia moral, do Jacques Leclercq, p.214-18. O título do post fui eu que bolei. As notas são minhas (para o bem ou para o mal).

O belo é também o ser, mas enquanto fonte de prazer para o espírito. Para opô-lo ao prazer sensível, qualificamos este prazer de estético. O prazer estético resulta da vista da perfeição do ser e o belo é uma propriedade transcendental do ser ao mesmo título que a verdade e o bem1. A verdade é o ser enquanto conhecido, o bem enquanto fim, o belo enquanto objeto de prazer. Quod visum placet, diz Santo Tomás, o que agrada à vista.

Toda perfeição, todo bem agrada àquele que o conhece, portanto toda verdade. Todo ser é belo, como é verdadeiro, como é bom em si mesmo. Há uma beleza em todo ser, e esta beleza é proporcionada a sua perfeição.

Acontece, pois, com o feio o mesmo que com o mal e o falso: ele é relativo, consiste numa desordem. Não se concebe o feio senão num ser composto; como o mal, consiste numa falta de harmonia, uma falta de unidade entre os seus componentes; o feio é a falsa nota, a que destoa do conjunto.

O espírito experimenta prazer em presença de toda verdade e de todo bem, isto é, em presença de todo ser. Não há fealdade em si, mas somente num conjunto e se se qualificam de feias certas coisas, se temos a impressão toda relativa, semelhante à que nos faz qualificar de más certas coisas. Qualificamos de feios certos objetos menos belos do que os que estamos acostumados a ver. Numa casa onde há quadros medíocres pendurados nas paredes, admiramos o que supera os outros; essa mesma tela, porém, não causa nenhuma impressão no meio de obras primas, num museu; e, se estamos acostumados a teatro de colégio, achamaos bem representada uma peça que o freqüentador dos grandes salões julga mal representada. Do mesmo modo, uma música medíocre tocada por uma banda popular enche de satisfação a um povo da roça, enquanto quem freqüenta os grandes concertos a julga má música.

Isto explica também que os que têm o sentido do belo acham beleza em toda parte, pois todas as coisas encerram beleza, uma pedra, uma moita de erva, um som, um pensamento, uma palavra. O sentido do belo não é mais que o sentido da perfeição do ser; todo ser testemunha uma perfeição; na mesma medida, todo ser é belo2.

O belo, porém, suscita certo número de problemas interessantes à moral e que é útil examinar desde já, para afastar algumas dificuldades.

Na linguagem corrente só se fala de beleza a respeito de certas coisas. Fala-se das belezas da natureza; ninguém acha dificuldade em qualificar de bela uma paisagem, um animal, uma planta, uma pedra, um homem. Fala-se também de beleza, quando se trata de obras de arte e a respeito destas, em particular, fala-se de prazer estético. A estética desenvolveu-se em ciência e faz-se uma Filosofia da estética que se ocupa quase exclusivamente com a beleza, enquanto esta se manifesta nas obras do homem. Mas o que se chamam obras de arte visam apenas cetas obras do homem.

Quando se fala de beleza ou de prazer estético, costumam-se excluir formas de prazer sensível que ferem muito vivamente os sentidos. Fala-se de beleza quando se trata de sons a música, a linguagem, quando se trata de formas e de cores, de prazeres da vista e do ouvido, não quando se trata do gosto, do olfato, do tato. Nestes últimos casos, fala-se de bem: diz-se um bom cheiro, um bom gosto; para o tato, fala-se dum toque agradável: um estofo é de toque agradável, não belo.

Porquê? Porque a maior parte dos homens é de tal modo sujeita aos sentidos no domínio do gosto, do olfato e do tato que lhes parece impossível elevar-se por eles a um prazer espiritual. O sentido do gosto, em particular, está de tal modo ligado ao apetite físico da fome e da sede que, à maioria das pessoas, parece ridículo procurar aí um prazer do espírito. E, no entanto, pode o espírito gozar da perfeição dessas sensações como das da vista ou do ouvido.

Qualifica-se muitas vezes o prazer estético de prazer desinteressado. Já vimos o sentido espiritual deste termo3. Aqui significa apenas prazer do espírito. O termo desinteressado evoca uma pureza moral que se julga incompatível com a grosseria dos gozos meramente carnais. É por isso que não se qualifica de desinteressado o prazer de comer e beber, enquanto assim se qualifica o prazer de ver ou de ouvir belas obras e músicas: simples usos verbais que correspondem aos juízos da opinião comum. Na realidade, tanto dum lado como do outro, busca o homem a satisfação de seu ser4.

O gastrônomo é o que vê a beleza no que agrada ao gosto. Ora, um dos adágios da ciência do 'comer bem' é que, para apreciar um bom prato, é preciso ter um pouco de fome, mas não muito. Porquê? Porque a fome e a sede são necessárias para apreciar o que lisongeia o apetite, mas uma fome e uma sede violentas obscurecem o espírito; desenvolvem apetites carnais tão violentos que o espírito não é mais capaz de exercer o seu ofício, o homem se torna como um animal e não goza mais senão de modo meramente físico5.

Isto explica o fato de achar-se natural que faça um pintor um belo quadro, pintando "naturezas mortas", carnes, frutas, legumes, frascos de vinho, quando a maioria das pessoas não são capazes de ver a beleza desses objetos, quando vistos em estado natural: é que o pintor soube destacar a beleza que eles encerram e, na presença da imagem, são os apetites físicos despertados menos vivamente do que em presença dos próprios objetos.

O sentido da beleza é, pois, um sentido espiritual; é a faculdade de ver nas coisas o esplendor do ser, a perfeição do ser, o bem: em si, é bela toda coisa, toda sensação, todo movimento dum ser, todo ato da vida. Destacar esse sentido da beleza é um aspecto do desenvolvimento espiritual.

Comumente também não se fala de beleza a propósito da verdade e do bem, isto é, a propósito dos objetos de conhecimento estritamente intelectual ou a propósito dos valores de ação. E unicamente porque, como a verdade e o bem, é a beleza um ponto de vista no ser, e porque, com relação a certos objetos, a gente se coloca geralmente sob o ponto de vista da verdade ou no ponto de vista do bem. Mas o fato de não se poder unir todos os pontos de vista é simplesmente um sinal de fraqueza da inteligência humana. De fato, toda verdade é bela e todo bem é belo, assim como toda beleza é uma verdade e um bem.

O entusiasmo que se apodera dum filósofo em presença dum belo sistema, dum matemático diante dum belo raciocínio é de natureza toda estética. Pode ser que o leigo ache isso irrisório, por não ter o espírito suficientemente desenvolvido para gozar da beleza em puras abstrações, mas o belo está presente na perfeição do raciocínio, na harmonia do sistema. Aliás a palavra belo vem espontaneamente aos lábios neste domínio do mesmo modo que nos assuntos artísticos. E todo especialista capaz de perceber a perfeição do ser nas matérias de sua competência experimenta este prazer: extasiar-se-á o cirurgião diante dum belo caso, dum belo coração ou de belos rins, assim como o açougueiro admirará uma bela carne, o mercieiro ficará cheio de admiração fazendo correr por ente os dedos belos grãos de arroz: toda perfeição desperta o prazer estético porque o belo nada mais é do que a perfeição do ser enquanto conhecido, quod visum placet, enquanto desperta no espírito a efervescência jubilosa da admiração.

Mais ainda, um homem de negócios terá a mesma admiração diante dum belo contrato, bem ponderado, bem formulado, que dá plena satisfação a ambas as partes, um advogado diante dum belo processo, um moralista ou um psicólogo diante de um belo caso.

A vida moral desperta sentimentos de admiração muito semelhantes. Uma bela ação, o espetáculo duma bela vida causa impressão muito semelhante à duma bela obra de arte. O sentimento que em nós excitam os heróis de Plutarco ou os santos do Cristianismo, os feitos dum explorador ou dum missionário, a caridade dos Irmãos de S. Vicente de Paulo, a bela vida de Tomás More, tudo isso nos dá a impressão duma harmonia, duma perfeição diante da qual o termo beleza se impõe ao nosso espírito. E, por outro lado, esses temas influenciam as obras de arte que se reproduzem; é mais fácil escrever um belo livro sobre S. Francisco de Assis do que sobre um burguês egoísta e satisfeito; um belo assunto torna mais fácil a beleza da obra, e o assunto duma vida é, antes de tudo, seu valor moral. Se um personagem não representa nenhuma nobreza, se é repugnante sob todos os pontos de vista e não há meios de se inspirar estima para com ele, dir-se-á que ele constitui um tema ingrato6.

O belo, portanto, não somente tem a mesma universalidade que o bem e a verdade: o belo é a verdade e o bem; não é senão a perfeição do ser enquanto resplandece diante do espírito. Uma vida boa é uma vida bela; uma boa ação é uma bela ação e uma bela ação é uma boa ação. Tem razão a linguagem popular, quando empega quase indiferentemente os termos bom e belo. O sentimento de admiração próprio ao prazer estético desperta-se a propósito de qualquer perfeição.



Notas

1. O belo é tão universal quanto o ser e não é distinto dele a não ser por abstração.

2. Por isso Deus julgou toda a criação boa. Gen 1,31.

3. Referência a uma passagem num capítulo anterior, na qual J. Leclercq diz que ingleses como Shaftesbury, Hume e Hutchenson julgavam que o desinteresse era o fundamento do ato moral.

4. Em Do Sentido e o sensível, Aristóteles diz que a visão é o sentido mais caro às necessidades da vida e em si mesmas. É através dela que conhecemos um maior número de sensíveis comuns (a figura, a magnitude, o movimento e o número) e em maior grau de diferença. A audição é mais preciosa para a mente, ainda que de forma indireta. Entre todos os sentidos, é ela a que mais serve à sabedoria. Graças a ela, entendemos o discurso ou o raciocínio (este a causa do aprender). Diz Aristóteles que o discurso (ou o raciocínio) "não é audível por si mesmo, senão indiretamente, pois a linguagem se compõe de palavras e cada palavra é um símbolo racional." Já na Ética a Eudemo, ele diz que a visão nos faz perceber as coisas belas, enquanto a audição nos faz captar a harmonia sonora. Aí pode estar um motivo de as obras de arte serem perceptíveis apenas por esses dois sentidos.

5. Na Ética a Eudemo, Aristóteles diz que, em relação a certos odores, sentimos um prazer intrínseco, como é o caso das flores. Isso é diferente dos prazeres associados ao comer e beber, que por sinal são compartilhados pelos animais. Aristóteles diz em seguida: "É por isso que Estratonico está certo ao dizer que o prazer do odor das plantas é belo, mais do que o da comida ou da bebida mais suave."

6. O sentimento de beleza decorrente de um exemplo é também perceptível no teatro.

17 comments:

Anonymous said...

Olhando as estrelas e se deixando abismar por um risco cor de esmeralda no céu, fico com a idéia, pensando nessa cena, de alguma coisa muito efêmera. Uma beleza que escapa. Um movimento da Svetlana, uma música de Bikel. Um troço meio heraclitiano, e, naturalmente, a conseqüente melancolia de não sermos capazes de apreender a coisa toda na mão. É mais ou menos a impressão que eu tive de ler seu post. Acho muito verdadeiro. Pensei em Deus escrevendo um texto e você somente teve a chance de ver um risco de uma letra que você nem sabe qual é.

Sempre achei que o belo é uma “participação” no divino (acho que li isso em Mário Ferreira dos Santos, pelo menos com certeza li o conceito de participação). O belo, de alguma forma, participa do sagrado, através de uma forma. O que não quer dizer que o belo necessariamente esteja vinculado ao religioso, no sentido de que o belo nem sempre se revela através de um sistema de crenças organizadas.

Da mesma forma que o sagrado nunca aparece como um todo, sistematizado e fechado (tirante a possível experiência com ayahuasca que de resto eu dispeno), o belo, por razões muito similares, sempre se mostra fugidio. Ou pelo menos, a percepção que temos dele, é sempre fugidia. Ainda que o belo permaneça eternamente belo na sua beleza, nossas limitações não permitiriam, pelo menos nós que não somos santos, alcançá-lo plenamente, até porque o plenamente belo é somente Deus. Mas a forma é mundana, vive conosco, nos a tocamos, vemos, sentimos. E ela morre, passa, desaparece, e eu um dia vou parar com essa mania de sinônimos poéticos.

Daí que eu talvez discorde do texto de Jacques Leclercq. Compreendo o conceito de que o belo é contemplação do ser, dentro de um sentido espiritual. Compreendo que o bem, o verdadeiro e o belo formem uma tríade. Compreendo como conceito. Mas não sei exatamente o que isso significa. Sei o seguinte: quanto mais estudo, contemplo, medito e vivo, mais me aproximo de entender o belo, na medida em que aprendo e distingo por quê aquilo é (ou se aproxima do) belo: harmonia, contraste, coloração, radicalidade, proporção, adequação, textura, tema, etc.

De certa forma, essas proposições altamente espirituais do belo acabam construindo um belo etéreo, por mais que indiquem um possível norte de análise do objeto. A distinção entre apetite carnal (digamos assim) e percepção do belo espiritual parece clara. Mas no fundo acho pouco elucidativas. Meu ponto é o seguinte: onde está o belo exatamente nesta poesia (se é que está) ?

Os gregos, com aquela história de alethea e tekné, talvez tenham alguma razão.

O belo participa do sagrado mas está presente numa forma, a partir da qual emana, e, se tudo correr bem, buscará alcançar o divino. E essa forma é inteiramente perceptível, e é através dela que me é permitido ver o belo e entender porque o belo está ali ou não está – mesmo com toda a discussão possível. Não à toa você lermbrou de Aristóteles para talvez sopesar um ponto as invocações muito elevadas de LeClerc.

Agora uma pergunta séria: Mark Rothko é belo?

http://www.metmuseum.org/toah/hd/abex/ho_1985.63.5.htm

http://collections.dallasmuseumofart.org/code/emuseum.asp?style=Text&currentrecord=1&page=search&profile=objects&searchdesc=People%20contains%20Rothko&searchstring=People/,/contains/,/Rothko/,/0/,/0&newvalues=1&newstyle=single&newcurrentrecord=2

Valeu

NO

PS. Veja que coisa legal. Para postar o comentário, tive que digitar a palavra "bsudrri", que, de acordo com George Dumezil, significa "comentarista intrépido" nas antigas línguas indo-europeias. Pode significar também, dependendo da utilização, "sujeito chato que me faz ter que responder coments desnecessários mas que eu faço para não parecer grosseira".

Tanja Krämer said...

Parece que você está dizendo que o belo do Leclercq é muito geral. Você gostaria que o belo fosse mais "palpável" ou "concreto". É isso? Se não entendi o que você disse, me dá um puxão de orelha . :-)

Acho que temos duas coisas em planos diferentes mas complementares. O Leclercq pegou o aspecto metafísico (ou absoluto) do belo. Não é tanto a realização do belo numa forma específica (o belo "especializado" numa obra de arte, ou apenas como "tekné"), embora ele aponte as manifestações particulares do belo nas coisas. Ele trata do belo como "propriedade transcendental do ser" e do prazer estético imediato que a contemplação dele nos dá (sempre no ser, claro). É como num lied do Hugo Wolf: "Mesmo as coisas pequenas podem ser belas." Tudo é fonte de prazer estético, Basta termos alguma sensibilidade (ou sabedoria). Não precisa haver um arrebatamento grandioso. Falando com rigor, você pode sentir prazer estético quando faz um belo bolo (menos se for no meu caso; meus bolos saem horrendos), quando leu um belo tratado de floricultura ou se viu a Svetlana dançar.

Estamos sempre cercados pela beleza. Da mesma forma que somos sempre inundados pela Graça. Pode ser que o problema esteja na nossa limitação. Não podemos ver a todo instante tudo do jeito mais pleno. (Veja. Se fosse simples perceber a unidade dos três transcendentais, você não realizaria operações específicas para lidar com cada um deles. É natural tratar de cada um em separado. O lance é que você só entende o sentido deles quando consegue perceber as conexões que existem entre eles. É um negócio mais ou menos parecido com a Trindade.) Mas quando você se deixa arrebatar pela plenitude de uma coisa, não tem como não perceber os efeitos da beleza que ela radia para você.

O outro aspecto está (agora sim) no plano da realização do belo numa forma sensível e nas implicações disso (a finalidade e os meios que tornaram essa realização possível). Aqui é o belo como "tekné".

Tanto num caso como no outro, o belo está nas coisas. (Não sei se existe um belo-em-si. O que sei é que existem coisas belas.) Não é que no primeiro caso o belo está flutuando por aí, enquanto no segundo ele está com os pés no chão. Ele só estaria flutuando se fosse um "em si".

É engraçado você dizer que "se tudo ocorrer bem, [o belo] buscará alcançar o divino". É como dizer: "Ad majorem gloriam Dei".

Tanja Krämer said...

Rothko: em arte, acho que não basta o artista ter a intuição de algo. É preciso trabalhá-la para transformá-la numa linguagem clara. Isso não tem nada a ver com a arte ser ou não abstrata. É ser capaz de dizer apenas pela obra a sua intenção. Se você precisa de uma explicação escabrosa para entender uma pintura, com certeza ela não é boa. Outra coisa. Cada arte possui certas capacidades de expressão muito próprias. Você pode expressar algo com a música que não pode expressar com literatura e vice-versa. Nesses dois sentidos, as pretensões do Rothko foram bem maiores que o resultado final. A menos que eu seja generosa pra cacete, não consigo ver nada demais nesse quadro (consigo é ver de menos :-P). Ok, não sou especialista em pintura. Mas nem acho que ele precisou de muita técnica para pintar esse quadro. O meio de expressão é pobre. Então como ele poderia expressar alguma coisa bela? Não dá. E nem acho a pintura um meio bom para expressões "transcendentais" ou de "sentimentos-em-si". Bater nessa tecla é destruir a pintura. Isso é obrigar cavalo a recitar Marlowe.

PS: quase, quase levo a sério esse negócio de língua antiga indo-européia. Sou meio trouxa. =) Mas pelo-amor-de-meus-futuros-filhinhos -se-eu-vier-a-tê-los, seus comentários não são desnecessários. E olha que sou sim grosseira, segundo dizem por aí. =)

Anonymous said...

Você estrutura muito bem as questões teóricas. Vou pensar um pouco, antes de responder.

Beijos

NO.

Anonymous said...

“NO said...”

Já estou ficando irritado com esse negócio de “anonymous said”. “Anonymous” eu? Minha atual ambição é que um dia apareça “NO said”. Bem, deixa para lá.

O belo. Não é que o Leclercq tenha construído um conceito muito geral do belo. Até que o conceito é bem delimitado. Mas é que ele, ao mesmo tempo que o coloca como propriedade transcendental do ser – e justamente por isso – acaba afastando o belo do sensível. É muito difícil, teoricamente, que uma coisa seja ao mesmo tempo transcendente e imanente.

Talvez seja isso que esteja de certa forma me incomodando em relação ao texto. Esses planos diferentes de que você falou justificariam palavras diferentes. Deve haver alguma língua que trate diferentemente o belo como qualidade transcendente do ser e o belo como realização sensível (uma forma bela). Vou pesquisar no Dumezil para ver se as línguas indo-européias tratam disso.

De toda sorte, você colocou um ponto em que eu vinha pensando em relação ao seu, que é o fato de estarmos cercados pela beleza. A beleza que você percebeu naquele átimo desapareceu:

“Mas... Como uma beleza tão viva pode ser tão instantânea? Como é possível ela ter gravado uma impressão tão forte em mim, eu, que ainda por cima sou apenas pó? Será a Queda uma resposta? Por ela, a beleza se tornou escorregadia. Por ela, tornarei a ser pó. Por ela, fui condenada a sempre ver a beleza me escapando.”

O que nos cerca, nossa normalidade não é a beleza. Também não é a feiúra. É um equilíbrio meio neutro, mas instável. De vez em quando, nessa normalidade, exsurge o belo, no céu, na rua, ao seu lado, mas sempre fugidio, sempre escapando por entre os dedos. De vez em quando também nos deparamos com o feio. Não vejo belo no cinzeiro aqui do lado. No telefone também não. No celular, atualmente sim porque sou um novo usuário do BlackBerry e estou fissurado pelo aparelhinho. Na foto do meu filho, sim. No seu texto, sim. No meu, acho que não. Vejo feiúra no prédio do lado de fora da janela do escritório. Mas nada arrebata, nem por outro lado causa horror. Contudo vejo beleza no fato de estar aqui, no dia do meu aniversário – inclusive os chineses estão fazendo uma bela festa para mim do outro lado do mundo (finalmente o mundo está me reconhecendo!!)– escrevendo sobre o belo.

Pode ser que eu seja mais “fechado” à beleza que nos cerca do que você. É uma possibilidade. Isso poderia distorcer minha apreciação sobre o tema, e por isso eu tenha dificuldade de reconhecer o belo como uma qualidade metafísica inerente ao ser, procurando-o no mundo sensível, na forma bela.

Concordo que as pequenas coisas “podem” ser belas. Como assim “podem”? Se o belo é uma qualidade do ser, as coisas pequenas, aliás todas as coisas são necessariamente belas. O mais provável é que algum poeta soube traduzi-las e emprestar-lhes beleza. Exemplo de coisa pequena que não é bela: o Pinscher Miniatura da minha tia. Brincadeira.

Uma flor é bela não pela sua qualidade de pequena, mas pelas suas qualidades estéticas mesmo. As coisas pequenas podem ser belas pela sua forma bela, ou pela circunstância bela que a envolve.

(Um dia desses eu vou experimentar responder você depois de alguns goles de uísque para ver o que acontece. Pode ser que eu acabe mais claro e coerente.)

Independente disso, assim que eu vi o texto do Leclercq logo depois do post sobre a estrela cadente, eu não pude deixar de ver uma tensão entre as duas coisas. Num, o belo passa e vai. No outro, o belo é extático (não estático).

Ou talvez eu esteja implicando com Jacques Leclercq simplesmente porque era o nome do Reginaldo Faria na antiga novela Ti-Ti-Ti, em que ele fazia um estilista afetado que rivalizava com o Victor Valentin. Não, não. Não sou noveleiro, mas acho que minha empregada via essa novela quando eu era moleque e acabei ficando com o nome na cabeça – sério. Televisão é para ver House, The Big Bang Theory, corridas e partidas de tênis.

Pretendo depois explicar melhor porque gosto do Rothko. Seus quadros possuem uma incrível tensão entre a imobilidade da forma e a dinâmica da composição cromática. São quadros imensos, quase que submergimos nas cores. Mas veja como é bom provocar alguém inteligente. Você disse uma coisa que eu sempre achei fundamental em arte mas que ninguém diz: a capacidade de concretizar a intenção do artista de forma clara. Mas a intenção de Rothko é simples e o resultado também: cores sobre cores, e nada mais. Mas, sim, é “aquela” cor sobre “aquela outra” cor “naquele” determinado formato, as diferenças entre os tons e as profundidades. Portanto, ao invés de quadrados imóveis, tem-se uma situação dinâmica na verdade interessantíssima, e, na minha opinião, bela.

Mas voltando à questão da intenção. Qualquer obra em que a intenção não esteja clara é sinal de falência da capacidade de utilização dos meios disponíveis, um pecado mortal para pintores, poetas e músicos. A incapacidade de transmitir – e de forma razoavelmente objetiva – a intenção do artista é uma das desgraças de toda arte moderna, no que, contudo, não incluo Rothko.

É possível que eu tente esclarecer melhor isso tudo depois.

Beijos e bom fim de semana.

NO

Tanja Krämer said...

(Dá uma olhada no "Help".)

Tem um jeito para aparecer "NO said". É só você se registrar no Blogspot. :-)

Vou dizer duas coisas sobre o seu incômodo com o texto do Leclercq. O primeiro é o seguinte. O belo é fonte de prazer estético. Você pode sentir prazer estético graças a coisas sensíveis e não-sensíveis. Um pensamento pode ser tão bonito quanto uma música. O belo não está algemado aos sentidos. Esse é o primeiro ponto. Agora, o segundo ponto. Citando aquela minha primeira notinha, o belo como propriedade transcendental do ser significa que ele "é tão universal quanto o ser e não é distinto dele a não ser por abstração." O belo não está separado do ser. Raciocina comigo agora. Se as coisas sensíveis são seres, o belo, por causa daquela característica que botei na nota, não pode estar afastado do sensível, não é verdade?

Depois comento o resto!

O Comentarista said...

Comente !!

O Comentarista said...

Podemos continuar eternamente essa nossa discussão e esgotar dezenas de cigarros nela.

"O belo é fonte de prazer estético. Você pode sentir prazer estético graças a coisas sensíveis e não-sensíveis. Um pensamento pode ser tão bonito quanto uma música. O belo não está algemado aos sentidos. Esse é o primeiro ponto."

Certo, de acordo.

Platão, por exemplo. Acho o platonismo belo. Sério mesmo. Acho a idéia da Idéia uma coisa lindíssima, poética e apaixonante. Mas a acho falsa. Isso é possível?

Mas o platonismo é belo porque, de certa forma, ele é harmônico, elevado, original. Ele me empurra para algo maior. Eu acho o platonismo belo porque, de certa forma, acho ele esteticamente belo.

Adiante.

"Agora, o segundo ponto. Citando aquela minha primeira notinha, o belo como propriedade transcendental do ser significa que ele "é tão universal quanto o ser e não é distinto dele a não ser por abstração." O belo não está separado do ser."

"Raciocina comigo agora."

(Vou tentar, mas sou meio burro. Não vai ser fácil, e posso sair com um derrame desta brincadeira.)

"Se as coisas sensíveis são seres, o belo, por causa daquela característica que botei na nota, não pode estar afastado do sensível, não é verdade?"

Agora vou tentar uma pirueta metafísica. Segure-se. O mais próximo que eu consigo é dizer que o belo não pode estar afastado do
sensível que tenha uma forma bela. Não que o belo esteja no ser-enquanto-tal, mas o belo pode estar no ser que realiza uma beleza.

Estou a ponto de sugerir um árbitro para intervir na disputa.

Beijos

O Comentarista said...

E não se esqueça de dar aquela conferida no Help.

Tanja Krämer said...

(Comentarista. É quase um Averróis. :P)

Um comercial da Boticário diz assim: "A beleza é contagiante". Já viu? Pura verdade! Por isso que você se anima com Platão. Tudo aquilo que ele diz é muito bonito. Você sente prazer estético lendo aqueles diálogos.

Agora é hora de lidar com a sua pirueta metafísica. =)

Meu ponto (ou do Leclercq; não quero ser acusada de roubar as idéias do cara) é o seguinte. Todas as coisa realizam a beleza em algum grau. Falando de outro jeito: todas as coisas possuem algum grau de perfeição. E falando de mais um jeito: todas as coisas podem proporcionar prazer estético. Por quê? É que elas encerram alguma beleza.

Veja a frase do Chesterton que botei no blog: "Não existe no mundo assunto desprovido de interesse. O que pode haver é pessoa que se não interesse." A frase tem ligação com o que estamos discutindo. É como se o Chesterton dissesse que não existe nada desprovido de beleza (entenda isso num sentido radical). O que existe é quem não sinta prazer estético por muitas coisas. O Leclercq toca nesse ponto: "[A beleza está] em toda parte, pois todas as coisas encerram beleza, uma pedra, uma moita de erva, um som, um pensamento, uma palavra. O sentido do belo não é mais que o sentido da perfeição do ser; todo ser testemunha uma perfeição; na mesma medida, todo ser é belo." Até uma moitinha boba é razão de prazer estético!

Mas isso não é tudo.

Um artista não enxerga o *belo-em-si*. O que ele enxerga são coisas belas. O belo está colado nas coisas. Só por abstração você pode falar num belo-em-si. Caçar "A" beleza é doidera! (Só para esclarecer. Não é nesse sentido que eu coloquei o problema da beleza naquele outro texto.) Mas essa beleza que o artista capta às vezes é uma que a gente não percebe muito fácil. Ele ilumina a beleza das coisas. Não sei se o artista tem uma sensibilidade estética mais forte que a nossa. Pode ter. O que sei é que ele tem uma bela (ou boa, ou verdadeira!) capacidade de expressar a beleza que sentiu através de uma linguagem particular que tenha sentido claro.

Sei lá se é o jeito correto de dizer, mas o belo tem uma existência necessária, universal e radicada no ser. Só isso pode explicar que eu tenha achado uma baratinha bonita.

Acho que estou devendo alguma outra resposta. Mas agora rachei a cuca legal. Céus. =)

Tanja Krämer said...

Esse texto do Leclercq está lotado de erros de digitação. Putz. E nada de eu tomar vergonha na cara para consertá-los. :P

O Comentarista said...
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O Comentarista said...

Você sempre tem boas respostas filosóficas para tudo, é? Caramba. Peço tempo para pensar. Talvez você me convença, mas só parcialmente.

Nem tinha pensado em Averróis. A idéia era mais para Bartolo de Sassoferratto (esse duvido que você conheça, vai ter que dar um google!!! Dica: não é marca de vinho).

Eu tinha outros comentários sobre o seu último post do cidadão que deixava suas unhas pintadas e sobre o "amigo" de domingo. Mas vou me conter para não monopolizar (muito) suas atenções. Só uma coisa. Não sei se é pior sair de casa naquele dia delicioso (bem feito!) ou receber, no aniversário, uma mensagem de uma pessoa querida com um texto do Leonardo Boff. Eu não mereço.

Tanja Krämer said...

Mas eu já ouvi falar no Bartolo! Não foi um grande comentarista do Direito Romano (séc. XIV? XV?)? Mas também só sei isso do Saci-ferrado. =)

Ganhou um Boff de presente? Rá!

(Feliz aniversário fora de hora!)

O Comentarista said...

É isso mesmo, sabichona. O cidadão foi o mais brilhante comentarista do Corpus Ius Civile, séc XIV. Gosto da idéia de uma época em que as pessoas se dedicavam a comentar coisas boas em vez de inventar tolices originais.

Olha só, não abandonei a discussão sobre o Belo. Mas ainda estou digerindo algumas coisas. Aguarde.

Sim, posso mandar um e-mail para você, naturalmente, desde que eu saiba o seu e-mail. Parece até piada de português.

Tempo para uma anedota verídica - e olhe que não sou bom nisso. Estava eu em Lisboa, primeiro dia, cheguei no balcão do hotel, abri o mapa e o mostrei para o senhor português que estava lá, todo engalanado.

Eu estava na dúvida se devia ir a pé ou de ônibus para o centro histórico.

Perguntei: "Por favor, daqui do hotel até a Praça da Liberdade, a pé, é mais ou menos quanto tempo?"

O cara respondeu (meio contrariado, achando que eu tivesse tentando dar uma sacaneada nele): "Ora, depende!!! Se fores rápido, chegarás rápido, se fores devagar, demora mais!!!".

Confesso que demorei um tempo até me refazer.

O Comentarista said...
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O Comentarista said...
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