Friday, August 01, 2008

Beleza esmeralda

Distraída, conversava com o céu e vi uma estrela cadente. Já tinha visto muitas outras belas, caçadora de idéias que sou, mas nenhuma tão impressionante. Parecia que o bom Deus havia resolvido presentear a abóbada celeste com um longo pingente esmeralda. Estrela cadente maravilhosa, como é difícil encontrar algo tão cheio da mais pura vida!

Ela teve uma vida tão mínima como as outras. Antes do derradeiro movimento, ela esculpiu um simulacro em meu coração. Mas... Como uma beleza tão viva pode ser tão instantânea? Como é possível ela ter gravado uma impressão tão forte em mim, eu, que ainda por cima sou apenas pó? Será a Queda uma resposta? Por ela, a beleza se tornou escorregadia. Por ela, tornarei a ser pó. Por ela, fui condenada a sempre ver a beleza me escapando.

Se não fosse uma providência misteriosa, quão trágica teria sido a condenação! Porque a beleza é fênix neste mundo. A todo instante é sacrificada, a todo instante retorna. Ela sempre se oferece às pessoas de boa vontade para que tenham uma existência luminosa. Como os minutos da grande música, que se sacrificam para que ela atinja a vida gloriosa.

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Já que mencionei música, o adágio do Quarteto de cordas em fá maior n°1 op.18 do Beethoven é bom demais. Fora que esse cara sabe expressar muito melhor que eu uma coisa bonita! Ouça. É um adágio muito, muito expressivo. Não foi à toa que o Beethoven fez questão de marcá-lo como affetuoso ed appassionato. Talvez seja um dos melhores movimentos lentos que ele já escreveu. (Dizem que ele estava pensando na cena do túmulo de Romeu e Julieta quando escreveu esse movimento. Nos primeiros esboços, parece que havia certas alusões à peça. Pode ser que ela tenha servido de inspiração inicial. Mas como ele mudou bastante a versão final, e como a própria música em si não revela muita coisa de Romeu e Julieta, a ligação com a peça não é forte.) Para quem tem espírito poético, ele é um prato cheio. Intérprete: Quarteto Alban Berg (que se apresentou aqui no Rio outro dia).




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