Wednesday, July 02, 2008

Hidra

Aqui vou dizer uma coisa sobre a reação que as pessoas têm contra fumantes. Depois vou dar um motivo para qualquer um ser contrário à campanha antitabagista. Se bem que o Pedro limpou bonito a área.

As pessoas têm o direito de detestar o que quiserem. Da mesma maneira que podem gostar do que quiserem. Se eu gosto de fumar, isso não me dá o direito de exigir que todos gostem (e nesse barco entra desde o cigarro até matemática, Platão e literatura). Se você se sente incomodado, sinta-se à vontade para não gostar. Só não pode exigir por isso que eu não fume. A gente pode até entrar num acordo. Mas por que você tem o direito de me proibir de fumar, enquanto eu não tenho o direito de te obrigar a fumar? Você é o rei da cocada-preta? Se você se acha no direito de xingar um fumante, o fumante tem todo o direito de te xingar também. Se estou fumando e alguém se acha no direito de falar que tem nojo do que estou fazendo ou faz cara de quem comeu e não gostou, me sinto no direito (e na obrigação) de dizer que essa opinião me dá nojo e de fazer a mesma cara de quem não comeu e não gostou. Tem mais. Se você passa mal, não pode ver um cigarro aceso ou coisas assim, por que você tem tanta certeza que o problema está no cigarro? O problema pode ser você. Quem disse que você não tem alguma neurose relacionada ao tabaco ou não é uma pessoa histérica? Só porque um monte de gente também tem ataques por causa do cigarro não significa que esse tipo de comportamento é correto. Última coisa. Detesto feijão. Só que eu nunca me senti no direito de chegar para alguém e dizer: "Olha, o cheiro desse feijão que você está fazendo me dá nojo." Nunca dei chilique. Fora que já cansei de visitar fulano e na hora do almoço me empurrarem feijão. O que faço? Dou pití? Não. Se não tiver como evitar, como só um pouquinho. Não vou morrer por isso. (Uma dica relevante: Plutarco, Vida de César; é o episódio no qual o César come por pura educação um tremendo bagulho que alguém lhe preparou. E não só deu o maior esporro nos caras que reclamaram como ainda por cima comeu mais para dar exemplo!) Sem contar que sempre tenho que aturar neguinho dizendo: "Nooooossa, como você pode não gostar de feijão? É tão brasileiro! Faz bem para a saúde!" Ainda que eu estivesse convencida de que feijão faz mal à saúde, nunca eu daria ataques histéricos. O máximo que eu faria é sair de perto.

Ser contra campanhas antitabagistas deveria ser de interesse geral. Se você pensa que isso é coisa de quem tem rabo preso com a indústria milionária tabagista, preciso lembrar que do outro lado estão vários burocratas montados na máquina pública com seu dinheiro, mais a indústria farmacêutica. De pobres eles não têm nada. Na pior das hipóteses, é um conflito de monstrengos. O que está em jogo não é o direito de fumar. É a liberdade individual contra a sanha regulatória dos beatos estatais. Se você concordar em ver o direito de fumar negado aos outros, não poderá reclamar se amanhã resolverem proibir alguma coisa que você goste sob alegações similares. Duvida? Leia esse post do Cláudio então. Para esses beatos estatais, você é um bebê e o mundo é uma enorme deathtrap. Eles, claro, são responsáveis. Por eles mesmos e por você. Já até imagino o dia em que vão pedir para que o Estado limpe os traseiros das pessoas. Alegação: como neguinho não tem limpado direito o forévis, cada vez mais assentos públicos estão sujos, prejudicando a saúde pública. Vai ter um fiscal de traseiro para averiguar se todo mundo anda bem limpinho (que também vai ver se as pessoas andam lavando as mãos depois de fazer xixi). Quer apostar quanto que vai ter quem concorde?

Como o problema é da liberdade, da responsabilidade e da autonomia de cada pessoa, todas essas porralouquices acabam convergindo num único ponto. Querem regulamentar a nossa vida porque nos acham um bando de idiotas que só servem para dar dinheiro. Querem regulamentar a nossa vida porque não nos consideram pessoas de verdade.

Fico pasma quando alguém diz que que combater as campanhas antitabagistas não é tão meritório quanto, sei lá, combater o aborto ou a censura. Quem pensa assim não pegou o espírito da coisa! Por trás da legalização do aborto, da censura e da proibição do tabaco, está a grande questão da limitação dos direitos individuais. E mais por trás ainda está a questão do valor da pessoa humana. Você pode não perceber, mas os caras que inventam porraloquices como essas pressupõem que a gente é menos gente do que eles. A cara-de-pau com que esses burocratas safados ignoram a sua liberdade vem desse pressuposto. Você é matéria-prima para eles. Uma coisa. É por isso que não adianta ficar pensando: "Ah, combater o aborto é mais honroso." Ou: "Sou anti-antitabagismo mas sou limpinho." Não, não. Se você é defensor da pessoa humana e da liberdade, você vai usar as mesmas armas contra o aborto e contra o antitabagismo. Não adianta nada combater num ponto e ceder todo felizão no outro. É preciso saber que estamos diante de uma Hidra. Não adianta nada cortar cada cabeça. Será vão. Os golpes têm que ser aplicados nos pontos vitais, com as armas certas.

3 comments:

Anonymous said...

É realmente incompreensível que alguém como você não goste de feijão. Tudo bem, ninguém é perfeito, e seguindo sua orientação resguardarei maiores expressões de espando quanto ao fato de alguém não gostar de feijão. Mas é isso aí. Não existe mais liberdade. O idiotismo é a regra. Vai você tentar ponderar numa mesa de bar que todo mundo tem o direito de fazer suas escolhas (e eventualmente se dar mal) por conta própria, sem que algum mandarim de chibata lhe apareça na frente, postado hirto, para lhe dar uma lição de moral desfilando razões zoodíacas relativamente destino da humanidade, das crianças famintas, dos negros oprimidos e dos tamanduás-bandeira. Ontem no ônibus me dei conta que não há mais como haver liberdade. Seremos cultores de uma seita bizarra, dançando em volta de uma fogueira (ok, nem tanto) no entusiasmo por alguma coisa que, daqui a duas gerações, será rigorosamente INCOMPREENSÍVEL. Escolher por conta própria? Arcar com os erros? Fumar? Querer educar você mesmo seus filhos? Fast-food? De jeito nenhum. A cartilha está aqui. Quem é mesmo Jesus Cristo? Ah, aquele sujeito que parece com o Tchê Guevara. Muito bem.

E então nos vemos no próximo capítulo dessa crise sacrificial.

NO.

Tanja Krämer said...

Feijão. Ieca. :-)

Esse negócio de ponderar numa mesa de bar é que nem discutir no Orkut ou em chats. Se começassem a dizer essas coisas, eu diria: "E o que você está fazendo aqui, ô cara? Administrando sacramento, não é?" Nessas horas preciso ser sarcástica. Senão tenho um treco. :-) Pô, sem contar que é sempre na base da covardia. Sempre sou eu sozinha contra 5, 6. Pode ser masoquismo, mas... até acho divertido. :-)

Mas a coisa está feia. Depois de dar uma folheada semana passada no "A recusa de ser", do Alfredo Lage, e n'"O jardim das aflições", pensei num negócio. É que não sei dizer até que ponto existe mesmo liberdade política no sentido de os cidadãos terem plena capacidade de decisão na sociedade moderna. Pô, aquela pergunta do Ortega lá n'"A rebelião das massas" é braba: quem manda no mundo? E quem manda no Brasil? E na nossa cidade? Como vamos ter capacidade de decisão política se não soubermos nada disso? A sociedade e o Estado modernos são complexos demais! A pouca experiência que venho tendo lidando com advogados tem me deixado de cabelo em pé. É um tal de haver leis que não acabam mais! Sempre penso numa entrevista que vi do Miguel Reale. Ele chamava a nossa constituição de "totalitarismo normativo". Pode até ser apelação usar o Brasil como exemplo. Mas em qualquer país moderno o Estado é pelo menos um monstrinho.

Agora olha só. Bota na conta aí a palermice. Como o Adler dizia, numa democracia de verdade os cidadãos têm que estar à altura das decisões políticas. Para isso serve (também) a paidéia. Mas se a formação das pessoas for para o brejo, cadê que haverá cidadãos capazes de pelo menos entender o que está havendo? Uma coisa dessas é terrível. Coisa de Kafka.

Tudo piora por causa da "recusa de ser". A gente acaba sendo governado por artistas e religiosos fracassados. (Exemplos máximos: Hitler e Stálin.) Não falta gente que tem idéias lindas para a sociedade. Como se fossem demiurgos. Querem nos moldar. Perto disso, somos mesmo cultores de uma seita bizarra que precisa ser eliminada ou absorvida nesse panteão maluco.

Tanja Krämer said...

Esse negócio de crise sacrificial é referência girardiana, não é? Droga, preciso mesmo ler o Girard. :-)