Tuesday, July 01, 2008

Espetando a tia-avó refinada

O tema filólogos-alemães-nazistas-sabedores-de-sânscrito é batido. Mas é o melhor exemplo do que aconteceu com 5 séculos de humanismo. Não estou reclamando do humanismo, não. A idéia de ter a possibilidade de estudos que nem Platão teve dá o maior barato. Qualquer zé-mané que levou os estudos a sério conhece mais literatura que Teócrito. Pelo menos em quantidade. Pense no volume de leitura de um estudante qualquer. Compare com os estudos de um, sei lá, Virgílio. Um erudito atual é muito mais impressionante que qualquer alexandrino. Mesmo assim, a impressão é que somos mais babacas. Impressão que não é à toa.

O problema é que o humanismo meio que viciou a gente com a idéia de a cultura ser um brinco bem bonito ou uma cerejinha que enfeita o bolo. Um adorno. Faça você mesmo um teste. Pense nos motivos de a Inglaterra vitoriana ser mais civilizada que o Paraguai. Se você pensou logo na idéia de um povo refinado, pronto, você é humanista segundo o meu teste. Agora veja só que coisa curiosa. Segundo o Ortega, se o critério for a polidez, a China era muito mais civilizada que a Grécia. Enquanto o Platão quebrava a cabeça com a teoria das idéias, o chinês comia com pauzinho e usava lencinho. O Platão devia parecer, aos olhos de um chinês, um verdadeiro troglodita metendo a mão no prato para se alimentar. E se você comparar um desenho (ou "iconografia", para falar bonito) medieval com um desenho chinês do séc. XIII? Este vai parecer muito, muito refinado, enquanto o primeiro vai dar a impressão de ter saído de um filme de ficção científica (senão pior).

A gente não deve ter uma visão de cultura como se fosse coisa de tia-avó refinada. Achar que cultura é gostar de móveis vitorianos, usar roupas sofisticadas, conhecer literatura anglo-saxônica, conhecer nos mínimos detalhes Casablanca, tudo pode ser bem legal, mas não passa disso: tia-avó refinada. Para ser franca, Deus me livre e guarde. Sendo apenas isso, seria uma espécie de frivolidade. Você pode até encarar a frivolidade com dedicação, como acontece com os esportes. Mas qualquer esforço que você fizer para justificar a cultura (entendida nesse critério) não vai passar de exercício de esnobismo! Tipo caça à raposa. Uma brincadeira lúdica praticada por aristocratas. Estaria tão na periferia da vida como o futebol. Se aparecesse um Cálicles puto da vida, dizendo que a última razão da vida está no muque, uma concepção elegante de cultura seria tão útil quanto usar uma pistola d'agua como arma de intimidação. Não se engane. Os Cálicles da vida sempre surgem quando a cultura perde vitalidade. E eles parecem ter razão. A cultura só pode ser justificada na medida em que deixa de ser puro jogo e cai na área da utilidade pública. Pois é, a cultura só faz sentido quando é uma espécie de serviço. Ela tem que ter uma finalidade. Mas que tipo de serviço? É quando a gente precisa resolver as aporias da vida. Se a cultura não servir como ferramenta de salvação de cada um, ela não serve para nada. Aí o triunfo dos Cálicles da vida se concretizará. O sentido de salvação de cada um é a dimensão dramática e a justificação da cultura.

O tema é complicado. Complicado e agradável. Tratar assim tão corrido chega a doer. Mas é melhor do que não dizer nada.

(Sugestão: leiam A rebelião das massas tendo esse problema a respeito da importância da cultura em mente.)

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