Monday, July 21, 2008

Balé e Dufay

Svetlana Zakharova, na pontinha do pé, em A filha do Faraó.


Sábado, enquanto eu via mais uma vez A filha do Faraó, fiquei pensando na beleza do corpo. Quero dizer, não a beleza estática, mas a beleza do movimento. É das coisas mais lindas do mundo um corpo executando tantos movimentos agradáveis. Ainda mais se quem estiver dançando for a Svetlana Zakharova. Mesmo com todas as críticas, eu a adoro. Assista a uma performance dela em O lago dos cisnes. Impressionante demais.

Se o nosso corpo fosse tão inferior como alguns dizem, como ele poderia se expressar desse jeito? Não faz sentido! A dança é um dos melhores argumentos contra todos os gnósticos.

Para pessoas invejosas que nem eu, tem só uma coisinha ruim de ver dançarinas como a S. Zakharova. A gente fica se sentindo umas patas chocas.

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Ouvi o Guillaume Dufay no mesmo dia. Nunca tinha escutado nada. O que escutei foram algumas chansons. Música estranha e interessante.

A música é a arte mais espiritual de todas. Como disse o Carpeaux, ela é a única que não imita nada da natureza. Acontece que até o espírito pode sofrer de velhice. É estranho, mas é uma velhice que chama bastante a atenção. Um vestuário de muitos séculos atrás, por único que seja, não causa tanta estranheza quanto uma música ultrapassada. A comparação não precisa ser tão histórica. Uma nova moda no vestuário pode causar críticas. Mas se a inovação for no campo da música, a reação comum é de franca repulsa. Mudar o gosto musical é uma das tarefas mais complicadas que existe. Será que Nietzsche estava mesmo certo quando disse que a música é a arte mais conservadora?

O caso de Dufay é um bom exemplo. Ouvir suas chansons é ter na nossa frente a sofisticada corte burgúndia do séc. XV. Donnes l'assault à la fortresse é, por exemplo, canção de amor cortês. Mas é curiosa. Ela compara a corte à dama a um ataque a uma fortaleza. A música tem contornos bélicos. Só que o efeito é bem espirituoso. (Não sei se o amor como guerra se tornou um tema recorrente na tradição musical. O que sei é que o Monteverdi compôs Madrigali guerrieri et amorosi. Sugestivo, não?) Outra coisa que vale a pena destacar é o efeito retórico. Ela é bem expressiva. Ainda mais se comparada com o que havia no terreno sacro. (O problema é que essa discussão é equívoca. Pode ser que a música profana da época fosse mais expressiva. Só que a música sacra estava mudando bastante. Ela estava incorporando elementos da própria música profana (exemplo: o Ite missa est, da Missa de Tournai). Esse fenômeno é dos mais curiosos.)

Não é culpa do Dufay que as suas chansons estejam datadas. Ele não escreveu para a gente. A própria técnica musical era diferente demais. Pode ser que ele não tenha explorado todas as possibilidades diante de si. Ou então fazer muitas cobranças nesse campo seja um exagero. Não sei. O fato é que esse estilo e talvez esse tema estão sepultados faz tempo. Você pode encontrar desdobramentos quanto ao tema que vão dar em Monteverdi. Mas a arte do italiano é bem diferente da arte do Dufay. E muitas obras do Monteverdi também são datadas demais. Enfim. As fontes que animavam o espírito flamengo, as mesmas que levaram ao gótico flamboyant, são apenas material livresco hoje. A sentença pode parecer dura, mas é verdade: essas chansons podem ser interessantes, mas são agora arte exótica para o nosso gosto. Algumas coisas que passam não voltam mais.

Que tal acabar o papo ouvindo Donnes l'assault à la fortresse? Só não me responsabilizo pela autenticidade (e nem estou criticando nada, só comentando por alto).


22 comments:

Anonymous said...

(O pior é que eu tinha escrito um comentário enorme que eu perdi por conta de uma burrada. Vou tentar repetir. Vamos lá.)

Já fui muito ao Municipal assistir espetáculos de balé. Meus pais sempre me levavam, eu e minha irmã. Que eu me lembre, vimos Giselle, La Fille Mal Guardé, Dom Quixoto, Lago dos Cisnes e, naturalmente, O Quebra Nozes (até porque neste sempre tinha uma conhecida de alguém que fazia figuração de ratinho). Mas nunca curti muito.

Talvez fosse aquela angústia, que ocorria nas poucas vezes em que eu fui ao circo Orlando Orfei, de achar que o bailarino ia se esborrachar no chão no meio do pas de deux - coisa que aliás aconteceu, e eu vi, num pas de trois acho que do Quebra Nozes, para você ver que o corpo de baile do Municipal nunca foi lá essas coisas. Talvez fosse porque eu achava que era coisa de menina, e, infelizmente, fiquei achando isso até hoje. Ou talvez fosse mesmo porque eu preferia acompanhar a orquestra lá em baixo.

(Certamente os motivos são bastante idiotas, mas tenha paciência com seus comentaristas, que nem todos conseguem ter a vida assim rodeada por essa guirlanda de Goethe, Pitágoras, Thackeray (esse cara também fazia Gim, pesquise aí que tem uma marca ótima com o nome dele) e Chesterton....)

Lembro que só voltei a pensar em balé quando li o Paulo Francis. Mesmo assim, não me dei ao trabalho de sair de casa para ver alguma coisa.

Um dia, quem sabe, eu descubro o balé. E espero não esquecer do nome da moça, Svetlana Zakharova - como são lindos esses nomes !!!

Agora, falando de música, gostei muito de Dufay, a quem nunca tinha ouvido. De onde é que você pesca esses caras? Talvez conste do Carpeaux. Não vou nem perguntar como você chegou no seu admirado Theo Bikel.

Gosto muito de Monteverdi, que eu ouviria mais, não fossem meus pequenos moleques terem detonado o aparelho de som, que não resistiu ao quarto conserto seguido e teve finalmente sua morte decretada às 09:26 am de um sábado qualquer. Um vexame para quem um dia se dizia conhecedor de jazz.

Mas, falando sério. A comparação entre cortejar uma dama e conquistar uma fortaleza não é motivo para espanto. Não por outra razão usamos "conquistar" para as duas coisas. E é uma conquista mesmo, avançamos a infantaria, verifica-se a resistência, eventualmente, para ficar na época dos trovadores, despacham-se arqueiros e até a cavalaria, sem contar a possível analogia (meio grosseira, admito, mas que talvez estivesse presente na imaginação erótica dos trovadores) que se pode faze com a utilização do aríete - e mais não digo para não desvirtuar o assunto. Muitas vezes, somos escurraçados à base de azeite fervente na cabeça. Mas outras, depois de um intenso e demorado cerco, alcança-se o tento, e não cabemos em nós mesmos de orgulho, mais ou menos como deveriam ficar os comandantes de antanho. Até parece que vocês moças não sabem disso. Vocês sabem defender a casa que é uma beleza, valha me Deus !!!, e como já perdi sono por causa disso. Mas nunca me ocorreu escrever uma chanson, muito provavelmente porque, como você diz, a música tem essa característica de ser muito aferrada a seu tempo.

A fotinho nova é muito boa. Não dá para imaginar muito o resto de você, mas pelo menos os frequentadores do blog já têm idéia de que você sabe usar com capricho a sombra nos olhos (é sombra, não é?).

A dúvida do tratado do Ulrich sobre os sentimentos é a seguinte: aquilo faz algum sentido? Tem que fazer, e para além do puro cinismo do personagem. Tá certo, não precisa ficar no detalhe das idas e vindas da imaginação do Musil-Ulrich, mas terminei o livro com a sensação de que perdi alguma coisa que talvez seja importante. Minha esperança era que você me desse uma luz, ao invés de me apresentar a Theo Bikel - brincadeira.

Por fim, com esse mega-comentário (e olha que foi reescrito !!!), já estou me considerando um comentarista sênior, líder disparado em palavras digitadas, sério candidato aos brindes que você vai sortear no aniversário do blog. Sugiro um ticket-Fasano ou um vale Air-France (Rio-Paris-Rio).

Valeu.

NO.

Anonymous said...

Complementando uma coisa meio doida. Um dos restaurantes que eu mais frequento aqui no centro, para o bem e para o mal, chama-se Casa Urich (sem o "l" mesmo). Contudo, por mais criatividade que eu invocasse das musas, nunca consegui achar uma única analogia razoável entre o restaurante e o personagem.

Igor T. said...

"A dança é um dos melhores argumentos contra todos os gnósticos."

rs Como eu nuca havia pensado nisso?? Perfeito, Tanja.

Tanja Krämer said...

NO, vou aproveitar a oportunidade para dizer umas coisas sobre balé. Observações gerais. Se de repente eu estiver dizendo alguma coisa que você já sabia faz tempo, foi mal. E não deixe de puxar minha orelha se eu estiver dizendo alguma bobagem. =)

O balé é uma forma artística de expressão corporal. É um tipo de técnica de demonstração de paixões pela dança. Por isso, o meio principal de demonstração é o corpo. O motivo da técnica é jogar com as afeições através da dança. É assim que ela dirige os sentimentos. O ideal é que o público sinta afetos, quero dizer, seja estimulado pela dança. Nada de maneira caótica, afinal é uma técnica.

Como o balé é uma técnica, ele não é natural. Os sentimentos na verdade são afetados. É aí que pega. Se a demonstração parecer afetada demais, o sentimento produzido vai ser diferente da intenção inicial. Vai parecer esquisitinho. É natural que seja afetado, mas dentro do limite da técnica. Também é necessário que o movimento do corpo seja muito expressivo. O pior é quando a dança está contando uma história.

Muita coisa que eu disse pode ser aplicada a outras artes. (A ópera tem muitos pontos de contato com o balé.) Agora, a afetação varia de uma para outra. Fora que mesmo em cada arte existe uma escala. Se por afetado você entender ornamentado, existe uma variação que vai desde o gregoriano até o "bel canto" puro. Algumas artes podem ser mais afetadas que outras também. Pode ser daí que venha esse negócio de balé-é-coisa-de-menina.

Tanja Krämer said...

Pô, nem lembro mais como ouvi falar do Dufay! Mas faz algum tempo. Pior que só parei para ouvi-lo sábado passado. Nem dei os créditos, não foi? Essa faixa é do cd "Dufay: Chansons", do Ensemble Unicorn. Dizem que as obras religiosas são mais famosas. Nunca ouvi nenhuma. Agora, o Theo Bikel eu me lembro. :-) Ouvi na casa de uma tia quando tinha uns 10 anos. Era até aquele álbum que mencionei no outro post. Por sorte o encontrei tempos depois. Depois comprei alguns outros.

Gosto do Monteverdi também! O engraçado é que não conheço as óperas. Vou ver se compro alguma coisa por esses dias. Conheço madrigais e alguma música religiosa. Adoro dois lamentos, o da Ninfa e o da Arianna. Já escutei tanto que as duas devem estar cansadas de se lamentar! :-p

Sobre esse negócio de assaltar o coração, o Ortega dizia assim: "A mulher é o único prêmio que escolhe o seu conquistador." Ou algo parecido, sei lá. O que eu sei é o seguinte. Não é que somos difíceis. O problema é quando vocês assaltam a fortaleza errada. :-P

Você me encasquetou. Amanhã vou ler esse capítulo de novo. Mas gostou do livro mesmo? De repente essa sensação de ter perdido alguma coisa é porque ele não tem um fim.

Olha, eu é que estou louca para ganhar um brinde. Bem que poderiam me levar a Bayreuth. Quer me dar esse presente pelo aniversário do blog? :-)

Foto do olho: rímel e sombra. :-)

Tanja Krämer said...

Oi, Igor! Então, não deve ter um só gnóstico que saiba dançar. :-)

Anonymous said...

Diz o livro "Da Arte da Corte e Conquistas das Damas e Fortalezas Conforme nos Apresenta"(anônimo, Sec XIII) que todas as fortificações teoricamente inexpugnáveis podem vir abaixo. O que não quer dizer que todas virão abaixo. Isso de tal forma que nunca se deve desistir antes de uma tentativa. Portanto, não há, em teoria, fortaleza errada....se fóssemos ficar na botuca esperando a fortaleza certa, a coisa ia ser absurdamente monótona. Só que alguns só se dão conta do erro depois de gerações de combatentes mortos. E não precisa me agradecer as lições sobre comportamento masculino.

Rímel, putz, isso mesmo !!, é o nome que me faltou. Mas é isso que dá não ser metrossexual. Um outro leitor seu, daqui do trabalho (somos legião), está na esperança de que a próxima fotinho deixe ver mais um pouco.

A casa da sua tia devia ser bem animada ao som de Theo Bikel. Fico pensando numa grande família judia dançando em roda para a alegria dos mais velhos e das crianças. Mazel Tov !!!

Para a apreciação de qualquer forma de arte precisamos de uma educação específica - e muitas vezes de estudo. Ninguém nasce gostando de Dylan Thomas. Mas algumas estão mais próximas ou tornam-se, de algum modo, mais próximas, por todos os motivos possíveis, muitos deles circunstanciais e idiotas. Algumas outras ficam mais distantes, a requerer, portanto, um esforço maior de compreensão - é o meu caso com o balé - até para que seja possível ser afetado pela técnica. É isso que me falta. Sou exigente demais para tentar apreciar alguma coisa, de cujo alto valor eu desconfio, sem estar minimamente preparado para entender e aproveitar.

E aí o balé ficou para trás. Mas quem sabe. Naquele dia, por conta do seu post, cheguei em casa propondo irmos a um espetáculo de balé, e a proposta foi bem aceita. Temos alguma coisa interessante em cartaz?

Vai ler o "Homem" de novo na parte que Ulrich filosofa sobre os sentimentos? Então voltamos a nos falar em setembro. São vários capítulos. Mas agora eu acho que você deu uma luz, ou ao menos uma saída. É realmente possível que alguma coisa tenha me escapado justamente porque o livro não foi terminado e essa questão está mesmo em aberto. Isso faz sentido, embora possa parecer um certo derrotismo.

Será que não existe uma "Sociedade Musil" ou coisa parecida? Você que é fluente em alemão bem que podia dar uma verificada, deve ser alguma coisa como "Müsil Literaritchen Societaten". O dia em que você for uma blogueira remunerada eu serei mais exigente nessas demandas.

Ok para Bayreuth. Veja aí a programação e me diga o que você prefere. Vejo que no dia do meu aniversário terá uma boa apresentação de "Das Rheingold". Depois me diz como foi.

http://www.bayreuther-festspiele.de/english/programme_2008_158.html

Valeu

NO.

Tanja Krämer said...

Quem deve ter lido muito "A arte..." é o Don Juan. :-) Por sinal, o Ortega dizia que todo homem pensa que: a) é um Don Juan; b) já foi um Don Juan; c) não é um Don Juan porque não quer (citei uma vez isso em http://aespectadora.blogspot.com/2007/10/dvida.html). Os homens para quem pergunto se o Ortega tem razão quase não me explicam. Tento observá-los para ver se isso faz sentido. Por esses tempos venho conhecendo muito o tipo não-sou-Don-Juan-só-porque-não-quero. Acho isso tudo muito divertido. :-)

Olha, esse negócio de metrossexual é irritante. A começar pelo termo. De onde veio isso? Homem-gorilão não é legal. Mas não precisa exagerar! Não quero brigar com meu namorado por causa do condicionador. :-)

Essa discussão sobre apreciação da arte é legal. Acho que o ideal é a tática do seja-o-que-Deus-quiser ou "Jerônimo!" Explico. O ideal é encarar tudo com boa vontade. É bom se deixar levar. Isso é muito mais difícil do que criticar uma obra qualquer. As obras de arte sempre têm alguma coisa para dizer. Isso não quer dizer que sempre digam alguma coisa que preste. (Eu ia dizer outras coisas, mas lembrei de um post do Pedro. Concordo com tudo o que ele disse: http://oindividuo.com/2007/01/10/gosto-e-explicacao-de-gosto/) Por sinal, tem uma coisa que eu acho estranha. De uns tempos para cá, parece que a arte está se tornando uma coisa de especialistas. É como se todo mundo que visse uma tragédia no séc. IV a.C. fosse conhecedor da "Poética"!

(Vai ter "Coppélia" no Municipal semana que vem. Isso se não cancelarem. Tomara que ninguém se esborrache! :-))

Ei, não sou fluente em alemão. Só conheço uma coisinha ou outra. Nem pense em me passar um abacaxi desses. :-) Olha, na "New Criterion" já escreveram uma vez sobre o Musil. Acho que foi num artigo do ano passado. E talvez aqui você encontre mais alguma coisa: http://www.xs4all.nl/~jikje/New/works.html. De repente existe um outro motivo para aquela sensação que você teve. O livro é enorme. Mas não tem muitas ações. O que tem é muita, muita discussão de idéias. Essa teoria dos sentimentos, por exemplo. São capítulos que estão no diário do Ulrich. A única ação é a irmã dele lendo aquilo tudo. Acontece que todo mundo discute tudo sem que nada saia do lugar. O Ulrich sabe disso mas não dá a mínima. Só quem procura ao menos se orientar nessa zona é o General. E para quê? Só para descobrir que a Ação Paralela é um amontoado de idéias contraditórias. A impressão que dá é que todo mundo está doidão! A coisa fica ainda pior porque *nós* sabemos que está para estourar uma guerra horrenda.

Parece que tem uma opção de ver pelo computador os "Mestres-cantores". Que tal? Só toma cuidado. Da última vez, inventarem de colocar o Wagner de cueca no palco. :-)

Anonymous said...

Tenho vários comentários perspicazes e observações inteligentíssimas sobre seus últimos comentários. Mas temo que, pela nossa conversa, estejamos prejudicando o bom andamento do blog...Se continuássemos mais um pouco, poderiamos pensar e editar a "Correspondência Filosófica Entre Tanja e NO".

Rapidamente:

- General Stumm von Bordwehr é meu ídolo. Diotima é minha musa (e Tuzzi é o perfeito modelo de corno, válido para qualquer época). E é isso mesmo. Nada acontece, nada é para acontecer, ao mesmo tempo que uma baita guerra está logo ali na frente.

- A frase correta, tratando-se de um suposto namorado metrossexual, seria: "Não quero brigar com meu namorado por causa do MEU condicionador". (Aliás, acho condicionador uma palavra muito filosófica, sério mesmo. Deve existir algum sistema filosófico que utilize expressões como condicionador actual, condicionador imanente, condicionador transcendente, condicionador inter-subjetivo...)

- A grande maioria dos homens se enquadraria mais no conceito de "eu-quero-achar-que-não-sou-Don-Juan-só-porque-não-quero". Na verdade, e embora isso pareça confuso, somos todos os três tipos orteguianos ao mesmo tempo. Às vezes um desses ideal-tipos prevalece sobre o outro, mas sempre de forma passageira, dependendo muito da mulher em questão, porque, a bem da verdade, o Donjuanismo é menos uma característica inata do homem do que uma medida de aceitação por parte da mulher. Ou seja, quem decide se o sujeito é, foi, ou se acha um Don Juan, bem, são vocês...

Selecionei somente 1/16 do que eu gostaria de comentar, isso em meu prejuízo porque continuaria a conversa indefinidamente - é um bom momento do dia escrever esses comentários.

Obrigadão pelos links. O do Pedro, agora me lembro, eu já tinha lido, mas não tinha me tocado. Lerei todos os outros. Vou comprar ingressos para Coppélia (também assisti quando criança). A arte como coisa de especialistas é um problemão, você tem razão, e quem tem grande culpa no cartório são os impressionistas.

Abraços e bom fim-de-semana.

NO.

Leonardo said...

Adorei seu artigo sobre o Michael Kolhaas do Kleist. Estou lendo Penthesilea. Assim que terminar mando para você minhas anotações.

um abraço
Leonardo, pirituba

Tanja Krämer said...

Faz favor de colocar os 15/16 restantes. Quero saber. :-)

Domingo de manhã eu estava pensando naquilo que eu disse sobre não ter muita ação no livro. Acho que exagerei um pouco. Acontece até bastante coisa. Claro, não é nenhuma "Ilíada" (êta livrinho mais movimentado). Mas também não é parado que nem "As afinidades eletivas (êta livro devagar). O negócio é que são tantas idéias flutuando que elas formam uma realidade paralela. Ninguém nem tem muita noção do que está falando. Ninguém sabe direito qual é a motivação real dos seus atos. Mesmo assim, querem viver delas. Acaba surgindo disso um monte de maluquice. Um exemplo: a Ação Paralela defendendo propostas contraditórias, tendo só uma vaga noção de que tinha que homenagear o imperador. Outro: a Diotima usando o salão como encontro da sociedade, mas doida pelo Arnheim e por afagar o próprio ego. Mais um: a Bonadéia defendendo o bom, o belo e o verdadeiro, sendo ninfomaníaca. Tudo parece uma coisa meio fantasmagórica. É uma realidade estranha. Ela influencia todo mundo. Mas os únicos que parecem percebê-la e desejâ-la mesmo são o Ulrich e a Ágatha.

(Esqueci de passar outro link: http://www.artsci.lsu.edu/voegelin/EVS/2004%20Papers/Jamieson2004.htm)

Agora, me explica melhor isso que você disse sobre o donjuanismo. Como assim ele é "uma medida de aceitação por parte da mulher"? Não entendi direito.

Não se esqueça dos outros 15/16. :-)

Tanja Krämer said...

Oi, Leonardo. Que bom que gostou. Obrigada!

Gosto muito do "Michael Kohlhaas". Tem também um filme (acho que de 1961), mas nunca vi. Sei que fizeram um outro baseando nessa história. Ela se passa no Velho Oeste. Acho que saiu no final dos anos 90. Esqueci o nome. Depois procuro saber.

Foi até uma certa coincidência você ter mencionado essas histórias do Kleist. Semana passada eu estava pensando em "A marquesa d'O". Você conhece? É interessante. Também filmaram. Achei que no filme está muito descarada a solução do enigma da gravidez da Marquesa.

Manda sim sua anotações. Beijos.

Anonymous said...

Ok, ok, ok. Vou me explicar. A idéia de que o Don Juan é o ápex da sedução masculina só pode fazer sentido se o universo feminino o aceita na condição de um sedutor irresistível. Don Juan somente é Don Juan porque há as “Doñas” que se deixam levar pela sua sedução. Logo, a condição de Don Juan depende, para sua existência enquanto tal, das mulheres que o vêem (e o ouvem e o sentem, etc) como Don Juan. O Donjuanismo não é uma categoria que exista em si. Justamente por isso o Don Juan não se confunde com o Belo, porque o Belo existe em si, independetemente de você ter tido a chance de vê-lo e aproveitá-lo.

“Por isso é que ele, embora parta do homem, o Don Juan, depende principalmente das mulheres. E assim, em última análise, vocês, aceitando a sedução, ou a idéia sedutora, é que dão forma ao Don Juan. Eu sou o Don Juan de quem me aceita como tal.”
(in, Don Juan e o Enigma da Modernidade em Quadrinhos, NO, ilustrações NO, pág 734).

Mas veja, não sou relativista – longe de mim. Digo aqui é que há uma bipolaridade, como diria meu professor de Geografia do 2º ano do científico. Ele (o Don Juan, e não meu professor) parte de uma idéia de sedutor, não chega a ser uma idéia platônica, mas se actualiza na realidade do desejo feminino comum, que o define. Não sei até que ponto vai essa idéia de sedutor, ou como ela funciona.

O Don Juan é um bom exemplo daquele negócio de “desejo mimético” Gigardiano, só que exclusivamente no campo do desejo erótico feminino. Não sei se disso resulta exatamente um crise sacrificial, mas talvez essa seja uma pergunta que você pode fazer ao Pedro.

Falando em Don Juan, parece que Ulrich também tinha essa capacidade atrativa. Nem Ágata parece ter resistido, se bem que Musil é muito caprichoso em definir as diferentes nuances das relações entre nosso herói e as suas mulheres. Pensando nisso é notável a ausência da mãe dele na história.

O mais impressionante e cômico na questão a Ação Paralela é a incapacidade de ela existir, de ser, de concretizar-se em qualquer coisa. Nosso bravo General Stumm está a toda hora dizendo que “agora vai”, e nada vai para lugar nenhum. A proposta inicial é maravilhosamente ridícula: selecionar, através de toneladas de cartas, a idéia que deveria guiar a Ação. No final, a coisa toda parece que vai virar uma espécie de desfile de carnaval, e o General mesmo diz que se os magiares (ou uma outra etnia lá do Império) não quiserem desfilar, já tinha uns pelotões preparados para se fantasiar com as roupas típicas no lugar deles. Muito bom.

Interessante quando você diz que “ninguém sabe direito qual é a motivação real dos seus atos. Mesmo assim, querem viver delas. Acaba surgindo disso um monte de maluquice.” Quem é que personifica isso? Moosbrugger, claro. Lembro bem da descrição que Musil faz do assassinato, da insanidade do assassino. Daí, que sabe?, a atração que ele exerce sobre os demais personagens.

Acho que as poucas ações do livro ocorrem todas como um pano de fundo muito distante, muito nevoento. Sempre achamos que vai acontecer alguma coisa, como é o caso daquela caminhada de Ulrich e Ágata que termina numa cabana de camponeses. Não acontece nada. A revolta que ocorre na porta da casa do Conde Leinsdorf não leva a nada. Até o passeio no manicômio fica como algo solto, sem conseqüências. Nada leva a nada, tudo se passa num plano etéreo. Talvez só a morte do pai, resultando na viagem em que ele volta a ter contato com Ágata, seja um evento com alguma conseqüência mais dinâmica no enredo.

Isso tudo lembra muito a dinâmica interna da Ação Paralela. Sempre vai haver uma reunião definitiva, em que, como o General sempre adverte, algo vai acontecer. E nada.

Os personagens ficam então à mercê desses acontecimentos insignificantes (insignificantes do ponto de vista da ação), parecendo loucos, buscando coisas malucas, cada um com uma absurdidade própria. Arnheim com suas indústrias, sua erudição ridícula (há algo de Donald Trump em Arnheim), e com seu Solimão. Diotima acaba tentando entender sexo (aliás, sexo é uma das questões interessantes do livro, que aparece aqui e ali de forma muito bem colocada – seja na ninfomania de Bonadéia, seja no homem que se exibe embaixo da janela de Walter e Clarisse, seja no lunático do manicômio, seja em Ulrich). Tuzzi, que se acha esperto, mas é corno. O mais sensato é o mais patético: General Stumm. E todos vão aparecendo e desaparecendo do romance, com suas maluquices. Eles próprios dão em nada. Ou dão em loucura, como é o caso de Clarisse, Walter e mesmo de Bonadéia. Alguns personagens aparecem e somem (o bibliotecário que o General encontra no subsolo da biblioteca, personagem ótimo, mas mínimo no contexto do livro). Todos eles buscam as coisas mais idiotas, todos atrás daquilo que é menos importante, mas só Ulrich tem plena noção disso. Ulrich, que não têm qualidades, é o único que vê o circo armado.

Aí é que está. Se isso é verdadeiro, então a parte final, em que Ulrich sintetiza sua visão nos cadernos que Ágata sorrateiramente lê, têm que fazer um sentido. Eu só não sei ainda qual. Apesar da verborragia de Musil (verborragia no bom sentido, o que é raro), tem que ter alguma coisa ali. Pode ser que essa alguma coisa somente viesse a fazer sentido através de um outro evento futuro, do qual não tomamos conhecimento justamente porque o livro é inacabado. Não sei.

(Não sei vou chegar aos 15 comentários faltantes. Em todo o caso, foi você quem pediu...)

Não sei se há muita discussão de idéias no livro. Sinceramente. As idéias dos personagens principais são sempre incompletas. Não é como “Montanha Mágica” em que os personagens e seus discursos encarnam de fato pensamentos concretos, encarnam protótipos de correntes políticas. Musil é mais sutil – e olha que eu detesto trocadilhos.

Tá certo. É verdade que a arte que se faz hoje se pretende uma arte de especialistas. Uma lástima, em vários sentidos. Mas tentemos substituir especialista por elite, no sentido sociológico e não socialista. Algumas coisas sempre foram feitas para poucos. Esses happy few é que talvez mudem conforme o tempo. O ponto é que, mesmo nós, razoavelmente bem informados, ainda hoje precisamos de um bom esforço para alcançar algumas, digamos, revelações artísticas. Por exemplo Bártok, que você diz gostar no seu perfil. Eu não alcanço. Uma vez, em Praga, fui a um concerto que tinha um tema de Luciano Berio. Eu não alcancei, desculpe, mas não alcancei. Chamava-se “Sinfonia para um Satélite” ou coisa parecida. Teria pago o dobro para estar num show dos Smiths (se bem que o ingresso era barato – Praga não é muito cara, e tem ótimas cervejas, além de mulheres lindas, e isso é só uma constatação objetiva, não estou tendo um surto de donjuanismo....).

Não precisamos ser versados na Poética para gostarmos das tragédias. Até porque a Poética, que foi escrita depois, sistematiza e ao mesmo tempo joga novas luzes sobre algo que pré-existia a ela. Mas se conhecermos bem a Poética, saberemos mais sobre a tragédia, não é? E aí, onde você vai parar com isso?

Tenho certeza de que, sua apetência pela obra de arte (apetência como referência ao texto do Pedro) está intimamente relacionada ao seu enriquecimento espiritual, para usar uma expressão meio besta mas que talvez funcione aqui. Quanto mais se lê coisas boas, maior será sua apetência por coisas boas. Mas como se começa a ler coisas boas? Tá bom, você com 9 anos lia o quê? Joyce ?, não duvido. E eu lia Isaac Asimov. Mas, normalmente, como é que isso começa? Certamente aos poucos. Lendo, vendo, ouvindo, discernindo, lendo de novo, vendo de novo, ouvindo de novo, até que foi possível construir essa espécie de bússola estética, que lhe dá um norte pelo menos razoável. Isso é tão impressionante que você simplesmente ama Bach como se você não tivesse precisado entender alguma coisa de arte para chegar a gostar de Bach. A apetência que o Pedro aponta como algo definido a partir da qual se pode estar aberto às afetações da obra de arte é, no fundo, algo que é construído (normalmente em função do Belo).

Confesso que eu mesmo já não estou entendendo muito bem tudo isso. Talvez eu queira dizer somente que nossos gostos não são dados, são adquiridos na admiração da obra, e numa educação que nos propomos a nós mesmos. Muitas vezes difícil. Ler Musil foi uma delícia, mas, como eu sou um cara sincero, devo admitir que tive que atravessar alguns momentos de aridez nada fáceis.

Mas muitas vezes a dificuldade é puramente idiota, como o tempo em que eu fiquei estudando o conceito de “não-objeto” dos Neoconcretistas cariocas. Eu tinha 15 anos, já tinha lido todo o Isaac Asimov. Se meu filho ficasse encasquetado com isso aos 15 anos eu confesso que ficaria bastante preocupado. Esse é um problema também: a dificuldade como invólucro da idiotice. Não precisa dizer muito. Basta ir a qualquer exposição de artes plásticas, e eu gosto bastante de pintura, para não dizer que já fui pretendente a pintor, com direito a freqüentar o Parque Lage e algumas das discussões das mais esdrúxulas que um ouvido pode ouvir. Mas já me desintoxiquei há muito tempo.

Voltando à Svetlana Koskenkorva. Sei, ou pelo menos desconfio que há beleza ali. Talvez até mais que isso. Mas precisarei de um esforço para chegar perto disso.

Escrevi isso tudo de roldão. Por favor dê o devido valor, heim.

Abraços

NO

César Miranda said...

Blog maravilhoso, como sempre. Beijo.

Tanja Krämer said...

NO, vou por partes:

1 - Don Juan. O que você disse parece um pouco com aquela história da relação entre senhor e escravo. O senhor precisa do escravo para ser senhor e vice-versa. E sim, o Don Juan tenta ser o espelho do que as mulheres mais desejam num homem. (Isso dá uma outra discussão. O comportamento masculino é até que ponto um reflexo do que as mulheres desejam?) Um espelho que não representa só desejo sexual. Homem feio pode ser Don Juan também. =)

Só para deixar as coisas bem claras, eu não entendo o Don Juan só como um cara galinha. Se você é um cara por quem as mulheres com muita freqüência acham interessante, você é um sério candidato a Don Juan. Outra coisa. Como o Don Juan é conquistador nato, o negócio dele é tentar sempre desafios. Ele tem prazer na sedução em si. Por isso, quanto mais difícil for conquistar as mulheres, melhor para ele. É como se ele fosse perito em todos os tipos de fortaleza, só para relembrar a canção do Dufay. Esse é um dos motivos para não confundir Don Juan com um sujeito apenas galinha. Não entra nessa categoria quem vai para a farra e beija 15 mil biscatinhas.

Agora, que HQ grandona a sua! Quase do tamanho da edição brasileira do livro do Musil. =)

Sedução e desejo mimético. Crise sacrificial. Hm. Como o Pedro está virando especialista em Girard, de repente ele tem alguma coisa legal para dizer mesmo. ;-)

Tanja Krämer said...

(Entre essa mensagem e a outra, fui passear. Vamos continuar. ;-P)

2 - Musil. A Ação Paralela é o supra-sumo do ridículo. O próprio nome é vago. Qual é uma das propostas? Que ela seja popular, ao mesmo tempo que é organizada de cima! As contribuições para a causa (todos só têm uma vaga idéia de ser uma homenagem ao imperador) são contraditórias, às vezes bizarras (como o nome do evento: "Ano Mundial Austríaco da Paz de 1918"; esqueci agora o nome certinho). Quando algum assunto é debatido, a discussão nunca segue adiante e parece que nunca toca no ponto principal. O mais lindo de tudo é que ali estão todas as cabeças de qualidade da Kakânia. Mas nada, nada toma corpo!

Você está coberto de razão quando disse que não há muita discussão de idéias. Eu é que me expressei mal. O que eu quis dizer é que existem montanhas de idéias atiradas para o alto. Tem uma hora que o Ulrich chega a falar sobre metodologia científica para a filha do Leo Fischel. E aqueles debates sobre direito e livre arbítrio? Só que elas não são coesas. Estão flutuando. Para falar a verdade, poucas vezes expressam o que os personagens querem mesmo dizer. É como numa das várias discussões da Clarisse com o Walter. Ela chega e diz: "Tinha que ter um Ano Nietzsche". Quando o Walter pede explicação, ela não sabe direito o que dizer. (Acho que logo em seguida o Ulrich menciona um "Ano Buda" e um "Ano Cristo", só para encher o saco do Walter.) A idéia de cuidar bem do caso do Moosbrugger também cai nisso. A ação dos personagens acaba refletindo esse estado de coisas. Como no caso da Bonadéia, que acaba se metendo na AP. Ou da filha do Leo Fischel, que andava com aqueles elementos... Em vários momentos, os personagens se dão conta dessa esquisitice e pensam: "Nossa, mas não era isso que eu queria dizer." Ou sentem uma coisa diferente do que disseram. É aí que surge um ambiente muito cinzento. Parece que todo mundo é meio sonâmbulo. Vivem numa realidade fantasmagórica.

O ambiente acaba meio caótico. A expressão "joguete das circunstâncias" é meio cafona, mas combina com o que estou dizendo. Numa situação dessas, as pessoas acabam só reagindo. Quase ninguém age. E nada acontece tanto quanto poderia. Tudo sempre tem um aspecto inacabado. Até o próprio livro ficou inacabado! Impressionante.

A morte do pai do Ulrich é interessante porque a partir daí ele e a irmã ficam ainda mais à deriva. Mesmo quase não aparecendo, o pai servia como âncora. O Ulrich entrou na AP por causa dele. No caso da Ágata, ela precisava ainda se afastar do marido. O Ulrich é que poderia ficar ainda mais afastado de todos. Só ficar com a Ágata. O caminho para radicalizar estava livre. Isso se refletiria na própria Ágata também. Ambos foram se radicalizando, talvez de modos diferentes. Enfim. O modo como eles lidaram com o enterro do pai é um exemplo.

Tanja Krämer said...

3 - Arte. O lance com a arte é que a gente não precisa ser erudito para entendê-la. Mesmo que sejam eruditos que a façam. Esse é o ponto. O problema é que existe uma confusão entre: 1) erudição; 2) arte; 3) embromação. Olha o caso desse filme do Batman. Pô, você não precisa ler toda a tradição ocidental para compreendê-lo. Agora, se disserem que precisa, pode ter certeza que o filme é furado. Ou a crítica é lelé.

Acredito que o artista nos oferece o acesso a uma realidade graças a seu esforço pessoal (o termo bom é o "intuição lírica" do B. Croce). Isso não quer dizer, é lógico, que o artista precisa dar tudo mastigadinho ou fazer aviãozinho. Tem mais. Talvez você seja uma paca e não entenda porcaria nenhuma. Artista não faz milagre.

(Isso coloca a gente numa posição desconfortável em relação à arte atual. "Ou eu sou uma besta ou esse pintor que é." Normal a gente se sentir inseguro. Se alguém estivesse testando seu gosto, você talvez se sentiria desconfortável também.)

Essa discussão de como formar um gosto é excelente. Acho até que a nossa época é uma das melhores para isso. Como está tudo uma bagunça, a gente se vê obrigado a repensar cânones. Maravilha. Eu só não quero entrar nesse assunto porque estou meio pregada e perderei o foco.

Sobre enriquecimento espiritual, minha opinião é simples e nenhum pouco original. Acho que é possível mudar de vida graças à arte sim. É que virou clichê dizer que a arte tem um efeito humanizador. Mas é verdade.

Gostaria de continuar respondendo. O problema é que estou morta de cansaço. Está tarde. Mas quero dizer só mais uma coisinha antes de acabar. Se você não sabe muito bem como uma coisa funciona, você estará à mercê de enroladores. É esse o problema, não é? Mas o negócio é tratar o gosto como um cavalo selvagem. A gente pode até domá-lo e tal. Mas é preciso que ele corra ao ar livre. Ele tem um instinto que servirá de guia. Alguns cavalos são mais complicados. Não dá para fazer muito por eles. Agora, só não dá para ensinar um cavalo a fazer tricô. =) Outra coisa. A gente sempre tem na cabeça o ideal renascentista de homem, com aquela formação humanística toda. Mas olha, só para aplicar ao nosso caso, é possível ter bom gosto sem gostar de balé. =)

Beijos, e desculpe pelo atraso!

Tanja Krämer said...

Oi, César! Brigada pelo elogio. Vê se aparece mais. Beijo!

Anonymous said...

(Depois dá uma passada na dúvida do ano passado.)

Já não sei se devo continuar a conversar nestes pontos. A mão está tremendo de vontade, mas o blog andou e tenho outros comentários a fazer. Você está exigindo bastante dos seus comentaristas profissas, depois da semana que passou em branco.

Só duas notinhas. Alguem que não tenha lido Musil vai ficar com uma impressão bastante estranha do livro, não é?

Sim, Don Juan não é exatamente a mesma coisa que galinha. Ou é? Certamente não no nível dos adolescentes que frequentam Micaretas - até porque aqui não há "conquista". Mas de certa forma Don Juan é um protótipo aristocrático da galinhagem, com um viés romântico e uma possível consequência filosófica. Só tome cuidado para não procurar nas dicas de Ortega y Gasset a imagem de um homem interessante que eventualmente esteja vivo no Rio de Janeiro do século XXI.

Abraços

NO

Tanja Krämer said...

Olha, você está provocando uma resposta do tipo "não existem homens interessantes no Rio". :-)

(Discussão paralela: se existisse um Ortega carioca, com certeza ele escreveria sobre a queixa da falta de homens interessantes. Eu nem acho que a coisa está péssima. Só anda ruim. :-P)

Ei, pode continuar escrevendo sobre o Musil. Não seja tímido. O máximo que pode acontecer é ficarem rindo da nossa cara. =)

Anonymous said...

Não, de jeito nenhum. Acho que existem, ou devem existir, homens interessantes no Rio, além de mim, claro. Só que talvez não os haja no altíssimo nível orteguiano. Aí a coisa deve complicar. E se alguém pensasse em homens interessantes nesse patamar de exigência, corre o riscos de a) enfrentar a solteirice por algum tempo, ou b) ver-se na obrigação de se relacionar com o único interessantíssimo sujeito orteguiano que contudo não consegue resolver aquele mau hálito.

Acho que Ortega reclamaria mais da absoluta falta de elegância masculina e feminina no Rio de Janeiro.

Sobre o Musil, tenho pensado muito no livro. Eu só li dois livros inacabados: Almas Mortas de Gogol e O Homem etc. Livros inacabados são um problema. Mas há uma diferença. Almas Mortas é uma história que fica inacabada. Perde-se muito. Não tive exatamente essa impressão do Musil, porque, talvez, o enredo em si (como sucessão de ações) seja a coisa menos importante. O mais importante, acho eu, é esse discorrer eterno sobre a indefinição das coisas e das pessoas, tudo centrado num personagem cínico que, no final, ao que parece, vislumbra uma religiosidade qualquer. O mais importante é esse continuum do livro, muito parecido aliás com uma obra musical.

E outra coisa impressionante. Deve ser o livro com a maior quantidade de metáforas por página da história da literatura. Eu sofro sempre que tenho que buscar uma boa metáfora, mas parece que Musil as recolhia com a mesma facilidade de quem abre a geladeira para comer um pedaço daquela barra de chocolate Nestlé que fica eternamente na prateleira. Se bem que essa metáfora até que saiu fácil.

Valeu

NO.

Anonymous said...

Realmente gostei muito dessa minha metáfora, bastante musiliana por sinal. Para você ver como sou ruim de metáfora, estou tão orgulhoso dela que acho até que vou guardá-la com carinho para utilização futura. Mas você está autorizada a usar também, e não precisa dar a origem. Se quiser pode fazer variações. Ao invés de geladeira, armário da cozinha; ao invés de Nestlé, Lindt. Mas não varie muito não senão pode descaracterizar. Tem que manter a idéia de uma atitude banal e ao mesmo tempo prazerosa, entendeu?