Wednesday, June 11, 2008

Moments musicaux

Eu tinha mencionado a obsessão do Pedro por Girard no post anterior. A minha agora é Beethoven. Estou de ressaca pós-Rio Folle Journeé. Olha, assisti a poucos concertos, mas... caramba, esse pouco foi muito! Se eu estivesse à toa, teria ido todos os dias. Até porque AMO Beethoven. Mas não pude. Não tenho nenhum barão para me sustentar. Preciso trabalhar. Nada de muito ócio.

O Quarteto Ysaÿe foi uma das atrações do evento. Amei. Fiquei muito impressionada com a execução do adágio do Quarteto de cordas op.132. É o Cântico sacro de agradecimento de um convalescente à Divindade, no tom lídico (Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart). É muito bonito quando temos a (rara) oportunidade de assistir a uma peça excelente executada por músicos à altura. Os músicos conseguiram captar direitinho o espírito da coisa. Foi uma experiência quase religiosa. Agora entendi direito o que o Schopenhauer quis dizer com aquele negócio de a música servir de trampolim para a catarse. Pois é, foi como se eu me visse para além da Vontade em alguns instantes... Não fui a única. Assim que terminou o movimento, o público ficou pasmo. Só murmúrios. Saí do concerto nas nuvens. E olha que eu caí de pára-quedas no concerto, já que eu nem iria por causa de compromissos.

Dos quartetos, só pude ouvir três: aquele, o op.130 e op.131 (quatro, se juntar a eles a Grande fuga op.133). O op. 130 é estranho do ponto de vista formal. Tem seis movimentos. É enorme. Cada movimento é bastante singular. O presto é meio bizarro e breve. A dança tedesca também é estranha. A cavatina é linda. O quarteto seria a apoteose da esquisitice se terminasse com a Grande fuga, conforme o próprio Beethoven queria de início. Ela entraria logo após a cavatina. Os editores do Beethoven o conveceram a mudar o final. Então ele compôs um novo final. Um movimento alegre. A fuga acabou sendo publicada como obra à parte. Mas o pessoal do Ysaÿe fez a vontade do maestro. Acho que senti o mesmo susto que a platéia na época em que esse quarteto foi estreado. Fora que eu estava achando que ela seria executada em separado. Essa fuga é de longe a maior bizarrice do Beethoven. Talvez seja também uma das obras mais peculiares de toda a história da música. Só o Bartók compôs quartetos nesse nível (e na minha opinião foi até mais longe). Já o op.131 (maior ainda que o op.130) termina com uma dança num ritmo violento. Um tema suave faz o contraste. Está em sonata-forma. O movimento surge abrupto logo depois de um adágio, como que numa explosão. Assusta. (Esse tipo de surpresa indica para mim que Beethoven foi mais seguidor do Haydn do que se costuma pensar. É legal pensar que até mesmo nas últimas obras existe uma influência inesperada.) Mas olha, na verdade eu nem sei explicar direito o que é aquele movimento. Não sei de onde o Beethoven tirou aquilo. Fico sempre inquieta quando o escuto. (Nota biográfica: eu estava acompanhada pelos meus avós durante a apresentação. Devo ter ficado muito inquieta, porque depois minha avó me perguntou se eu andava tomando café demais! Espero não tê-los envergonhado.) Esse tipo de coisa me dá frio na espinha. E o scherzo? Que negócio mais brihante! Os instrumentos dialogando do jeito que dialogam é uma maravilha de ouvir. Só o Beethoven consegue bolar um scherzo assim. O andante é lotado de variações. Difícil encontrar um compositor tão perfeito na arte da variação. A sonoridade desse e de outros quartetos compostos na fase final da vida do Beethoven é de outro mundo. Tudo é sublime. Ah, quer saber de uma coisa? O quarteto todo é maravilhoso, pronto.

Ouvi também duas sinfonias e dois concertos para piano. Na quarta teve o Concerto para piano nº3 e a Sinfonia 5. A não ser que a orquestra e/ou o regente sejam muito ruins, é difícil deixar de gostar delas. No domingo apresentaram o Concerto para piano 5 (bem melhor que o 3) e a Sinfonia 2 (menos legal que a 5). É um concerto grandioso. Mas eu ainda estava sob o efeito dos quartetos op.130 e op.131. Viajei legal durante a apresentação. Estava zuretinha da silva.

Agora, uma enxurrada de música. Para começar, o adágio sobrenatural do op.132. Essa versão está rápida demais para o meu gosto. Está lá na partitura: molto adagio. Mas enfim. E é chata essa divisão em duas partes. Se bem que é melhor do que não ouvir nada:





O último movimento do op.131. Nessa versão do Youtube, dá para ouvir o penúltimo movimento:



A Grande fuga op.133, também em duas partes:






Agora, quatro músicas que eu queria ter ouvido no evento, mas não pude ir. A Sonata ao luar. Aqui é o último movimento:



A Sonata para piano em lá bemol op.26. Este é o terceiro movimento. Foi uma idéia muito original meter uma pequena marcha fúnebre numa sonata:



O Quarteto de cordas nº 4 op.18. Obra de típico ardor juvenil. Tem bastante tensão e é impetuosa, mas sem perda de lirismo e beleza. O último movimento termina com um prestissimo alucinante. Do ponto de vista formal, essa música não é muito diferente dos quartetos do Haydn ou do Mozart. (Esse ímpeto lembra o primeiro movimento da Sinfonia nº25 do Mozart.) Aqui está o último movimento:



O Quarteto de cordas nº3 op.59. O andante é outro momento mágico. Parece hipnótico, meio misterioso. Não é tão místico quanto aquele movimento do op.132. Não é nenhuma crítica. Porque é música maravilhosa também. Celeste. Digo mais. É superior a muita música de inspiração religiosa. Me refiro a esses louvores com um carinha no violão, bandinha e tal. Nada de falar mal de Palestrina, Lassus e tchurma. Dá para pensar em coisas elevadas ouvindo-a. As outras, só com muita ação do Espírito Santo...



Gostaria de ter ouvido também alguns outros quartetos (em especial o op.135), sonatas e trios.

Como sou chata, agora as músicas que deveriam ter no evento. Tipo o Concerto para piano nº 4. O segundo movimento é um dos momentos mais profundos da história da música. A força dele está na maneira como é desenvolvido o conflito entre as cordas graves e o piano. Não sou muito de espremer as músicas para ver se sai alguma filosofia. Prefiro mais percebê-las só como obras de arte. Algo como por si mesmas. Não são tratados filosóficos, sociológicos e tal. Mas tenho que abrir uma exceção nesse caso. A primeira coisa que penso é no conflito entre a vocação de cada qual e as circunstâncias adversas. É até boa como uma espécie de símbolo do próprio Beethoven. Seria bom esclarecer isso. Deixo para outra ocasião. Penso também no fondo insobornable tentando se expressar, escondido por trás de várias camadas mais ou menos artificais que criamos em torno de nós mesmos. Interpretações orteguianas. Enfim. É uma grande música. Faria falta na história do mundo. Aqui está o segundo movimento:



A Sinfonia nº 7. Ela não é tão popular quanto algumas outras. Pior para quem não a conhece. É preciso escutá-la toda (o mesmo vale para as outras músicas). Acho que foi o Wagner que disse que o último movimento parece uma corrida. É mesmo. Os movimentos todos são bastante marcantes. Embora existam muitos contrastes entre eles, nem por isso a sinfonia carece de unidade. O segundo movimento (você vai ouvi-lo) é lírico e triste. Pode ser melhor acrescentar: conformismo. Tem alguma resignação nele. As cordas graves atuam bastante, mas sem violência. Dá vontade de extrair uma filosofia de tudo isso. Ela dá muito o que pensar. Deixa para lá. Melhor ouvir, apreciar e pronto:



Agora, o Rondó em sol maior op. 129 ou Raiva pelo tostão perdido (Die Wut ueber den verlorenen Groschen). Raiva? É que nem aquela sensação de levar cocô de pombo na cabeça. Você fica com bronca na hora. Mas o fato de um pombo fazer isso com você tem um efeito cômico. Aí você acha engraçado depois. A música é bastante legal. Vou aproveitar para dizer duas coisas. Só peço alguma paciência, porque ainda é um esboço de idéia. Uma das coisas que acho mais engraçadas é como tanta gente só consegue perceber expressões musicais se for um troço muito descarado. É bem capaz de muita gente ficar ouvindo essa música com cara de cu. Pior ainda é ficar esnobando sem entender porcaria nenhuma. Para entender uma música, não é só ler a partitura e pronto. É preciso entender também a dramaticidade dela. E sobretudo qual é o sentido. Todos os atributos da música servem para essas coisas. É mais ou menos como ler. Não basta apenas entender as letrinhas. Você tem que captar as tensões, o espírito, o sentido do texto. Nada disso quer dizer que toda música tem um programa. O que estou querendo dizer é que música não é apenas melodias bonitinhas fáceis de lembrar. Como poema não é só um negócio que você lê e fica suspirando. Se você não compreendeu a graça do scherzo da Sinfonia 5 ou da 9, você não entendeu o espírito da música. É preciso fazer um esforço de compreensão. Outra coisa. O simples prazer proporcionado pela música é um dos fatores que temos que levar em consideração. Digo isso pelo seguinte. Algumas pessoas reclamam de interpretações profundas, porque acham que música tem que ser ouvida com o coração. (Às vezes sobra até para o coitado do Bach. Muitos reclamam que ele é "cerebral demais". Dizem isso pensando nas obras de câmara. Opinião doida. Mas não é a ocasião de ir a fundo.) Outros acham que isso é palhaçada, porque o simples prazer não valeria nada. (Já ouvi gente usar o Schoenberg como escudo para esse tipo de argumento. Outros até chegam ao ponto de dizer que o feio pode ser bonito.) Discordo das duas opiniões. Vou comparar música e pizza. O nível de "experiência" que você vai ter com a pizza ficará mais ou menos na questão do sabor. Mas algumas músicas não são apenas uma questão de prazer. Elas vão mais além. Faz sentido dizer que algumas músicas são mais profundas que outras? Acho que sim. Existem pizzas mais profundas que outras? Aí não sei. Acho que não. Mas tem o seguinte também. Você precisa sentir algum tipo de prazer ouvindo música. Nesse sentido, é um prazer tão legítimo quanto o prazer de comer pizza. Acho que a única diferença é que em teoria é mais fácil aprender a gostar de uma obra de arte que de uma comida. Não adiantará nada alguém me explicar tudinho sobre carne de fígado. Não gosto e pronto. A mesma coisa com o feijão. Agora, se por acaso eu não gostar de uma obra de arte, de repente se eu entendê-la melhor passarei a gostar. Pois então. No final das contas, não adianta esnobar quem sente só prazer ouvindo música. Nem pode haver o esnobismo às avessas, que é fazer pouco caso da profundidade das obras. Não faz o menor sentido separar de forma radical o prazer proporcionado pela obra e a profundidade que ela contém. Einstein compreendia, do ponto de vista da física, o céu. Mas ele também sentia um profundo prazer contemplando-o.

Voltando ao rondó, nem sei se constava no programa. Mas põe na conta aí:



Para fechar, Missa Solemnis. É uma das obras mais grandiosas do Beethoven. Vale a pena ouvi-la toda. Selecionei o Kyrie:

12 comments:

Anonymous said...

Foi muito legal na sexta. Tocaram o Razumovsky que você colocou aí. Pena que você não pode ir com a gente. Não gostei da grande fuga, mto esquisita!! A música do tostão eu não conhecia. Que pianista engraçado!! rsrsrs

bjs

Margarida

Anonymous said...

Tô ouvindo esse concerto pra piano. É mto maneiro!!

Margarida

Tanja Krämer said...

Todos os quartetos Razumovsky são maravilhosos. Eles têm um efeito incrível. Grande música! O Beethoven acertou demais a mão nos outros quartetos também. Mas esqueci de dizer que queria muito ter ouvido o Septeto.

Amanda said...

Vi uma chamada de um programa que falaria de gripes e resfriados e lembrei de você. rs

Está traindo o seu Couperin? rs Ótimas músicas, Tatá, eu adoro Beethoven também. Na programação podia ter algum lied.

Você foi ver Fidelio? Na última hora não pude ir. Vi depois na televisão uma matéria em que mostravam o figurino e não gostei muito.

Beijocas.

Tanja Krämer said...

Nem me fale de gripes e resfriados. Hmpf.

Que negócio é esse de eu trair Couperin com o Beethoven? Aqui é relacionamento aberto, filhinha! =) Mas até que eu gostaria de ouvir algum lied do Beethoven. Só conheço uns dois e olhe lá. Não vi o Fidelio. Acho que foi no meio de semana, sei lá. Só que não dava para eu ir. Não vi nada do figurino. Por que não gostou? Muito moderno? Uma vez vi uma ópera do Haendel, faz um tempão. Era um troço tão moderno que a protagonista trocou de roupa no palco (quero dizer, ficou pe-la-di-nha da silva). Não tinha nada a ver com o enredo, nem com o clima. Ficou esquisitérrimo. Pelo menos cantavam bem e a orquestra era boa.

Beijos! Vê se aparece mais!

Amanda said...

O figurino era cinza e branco, muito simples, sem adereços. O cenário eu não sei como estava. Devia ser nesse clima.

Esqueci de contar um balé que vi do "Romeu e Julieta", Tatá. Você tinha que ver. Eles ficavam passando a mão na bunda uns dos outros. Era muito engraçado.

Sempre estou por aqui, só não comento. rs Beijocas.

Tanja Krämer said...

Comenta mais vezes então, ué! Deixa de ser tímida! =)

Sabe, nem me incomodo muito com figurinos ou cenários modernos. Eu até gosto de imaginar (mudando rapídinho de assunto) personagens bíblicos com roupas atuais. O último upgrade foi na Renascença. Deve ser culpa da consciência história. =) Mas eu gostei (voltando rapidinho para o assunto) de várias óperas cujos personagens sofreram um banho de grifes. Ou roupas nem tão atuais, tipo a Tetralogia do Anel by P. Chéreau, aquela que neguinho pediu para boicotar em nome do Wagner. Agora, tem vezes que neguinho perde a linha. Que nem uma vez que fui ver "Damnation de Faust". Produção SUPER-ULTRA moderna. Não consegui entender piriguim nenhum do que estava acontecendo. (Desconto: eu estava cheia de sono. Teve uma hora que dormi.)

Pô, esse balé que você disse não era uma produção francesa, não? Música do Prokofiev? Tenho quase certeza que foi essa versão que você viu. Já vi faz muito tempo. Passaram a mão até na bunda do Romeu e rolou um beijo entre dois carinhas, não foi? Falando assim, parece até Scala gay erudito. Lembro muito mal. Só sei que tive a impressão de terem escangalhado a história. Não sei se a coreografia original era assim.

(Caraca, eu ia dizer um troço mas esqueci.) Beijos! =)

Tanja Krämer said...

Se bem que ficar reclamando de coreografia original é maluquice. Lembro pouquinho daquela apresentação. Só sei que em geral não gostei lá muito, não. Por sinal, não é que tem algumas cenas dessa versão no Youtube? Enfim. Acho que depois vou postar um vídeo desse balé.

Felipe said...

Since you love the man...

http://www.youtube.com/watch?v=vBSu5QlAwqc

Felipe said...

Because one should not love only Beethoven...

http://www.youtube.com/watch?v=zuSg0abOP3c

Tanja said...

I love Bach too. =) Thanks a lot, Felipe!

Leonardo T. Oliveira said...

Muito legal um post inteiro dedicado a Beethoven. Venho me inscrever no clube dos fãs do velho Beetho. (Y)