Monday, May 26, 2008

[Re-post] A vida é boa (embora às vezes ela possa parecer um saco)

Resolvi republicar esse texto por dois motivos. Um é que me deu vontade de reapresentar o que escrevi faz um tempinho já. O outro motivo foi ter lido esse texto. Não gostei nada. Pior que já pensei daquele jeito. Parece mesmo que eu escrevi aquilo. Até do ponto de vista estilístico! Bizarro. Mas agora penso que é coisa de monstrinho. Adolescência não é desculpa para esse tipo de coisa.

Vou publicar depois o que escrevi a respeito.


Eu queria dizer uma coisa bem pessoal. Um dos primeiros efeitos que senti ao levar a sério o Cristianismo foi uma mudança bem radical a respeito da minha circunstância (do ponto de vista orteguiano mesmo). O mundo/circunstância não me pareceu mais hostil. Não era pesado. Perdeu o sentido considerá-lo um corpo estranho. Ele faz parte da gente. Ele é mesmo bom! (É para levar a sério a frase: Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo. Não é uma sacação. Não é uma metáfora.) Me senti mais viva do que nunca quando descobri isso (sou meio burra, demoro para entender as coisas). Ele não era tão escroto como eu pensava. Escrota era eu por ter pensado que ele fosse assim. A bondade fundamental das coisas é a razão deste mundo.

Você vai notar rapidinho como o espírito desse meu texto é diferente daquele. Mas eu já disse que parece até que escrevi aquele texto a long time ago. Então é como se você visse um daqueles antes-e-depois. Meus cabelos continuam (em parte) os mesmos. Os sentimentos mudaram...

O texto é de 26/11/06.


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Ai, o Paraíso... Dizem que é muito bom. Como não sei como é por lá, digo que gosto deste mundinho aqui. É sério. Quando dizem que isso aqui é uma bosta, sou a primeira a dizer que não é bem assim, não. Coisas pequenininhas são maravilhosas. Sorvete. Andar na chuva. Rir. Conversar. Pintar o cabelo. Falar mal do calor de hoje (meu esporte preferido é falar mal do calor). Ouvir agorinha o Mozart. Bater perna.

A gente reclama de muitas coisas. Agora, se você pensar bem, não há tantos motivos assim pra reclamação. Quem sou eu para ter sorvete? Quem sou eu para ouvir uma piada e rir? Quem sou eu para receber o que há de bom? Viver é bom, embora às vezes a gente fique puta. Mas fica puta nem tanto com a vida, mas por causa das sacanagens que fazem com ela. Isso é de lascar. Não digo que a gente tem que ficar que nem hiponga deslumbrado com o pôr-do-sol. Lá em Ipanema tem gente que fica aplaudindo quando o sol se põe. Ieca! Digo que é só uma impressão sobre o que de bom acontece sem eu saber a razão de desfrutar de tanto.

Para quem agradeço? A quem eu posso dar um "valeu"? Já dá para imaginar a minha resposta, né?

A vida é estranha. Me sinto bem com ela (ou nela?), mas ao mesmo tempo meio que não sei se há motivo para tê-la. Não faço paradoxos. Não estou dizendo nas entrelinhas que no fundo tenho tendências suicidas. Sou boba demais para dizer alguma coisa nas entrelinhas. Prefiro dizer claro, no máximo em tom brincalhão. Mas para mim é fato. Agradeço, agradeço, mas no fundo tenho a sensação de que essas coisas boas no fundo não são minhas. De repente estou aqui (obrigado quem me colocou aqui!), brinco com tudo, mas nada é meu, embora eu goste. Mereço tanto? E ainda tem quem reclame de tudo! Wow! Como poderíamos querer mais, se não dá nem para saber se na verdade teríamos que ter o que temos? Como é que vou ficar querendo ter oito namorados, quando já é estranho que de repente apareça um que me ame?

Viver é bom. Mas as coisas ao nosso redor não são nossas. Nem dá para saber direito se a vida é nossa mesma. O meu filósofo de cabeceira dizia que a vida nos foi dada, mas não dada pronta. O como ela será fica por nossa própria conta e risco. E quanto risco! Quase às cegas, a gente projeta a nossa vida.

Pegando essa idéia, fico pensando no seguinte. E se na verdade a vida de cada um, como ela tem que ser, na verdade já estiver planejada na cuca de Deus, se é que Deus tem cuca? Ele podia pensar assim: Tanja será médica. Esse é o primeiro ponto. O segundo é a minha atitude. Embora Ele queira que eu seja médica, embora tudo em mim carregue uma médica em potencial, eu posso dizer outra coisa: não, não quero ser isso, vou ser manicure. Não serei o que eu deveria ser. Serei falsidade de mim mesma. Não estarei ouvindo a minha vocação. Só que há um terceiro ponto. É que Deus quer (eu acho) que sejamos algo não só no sentido profissional, mas pessoal. Tenho que ser uma pessoa bem desenvolvida. Ok, soa vago. Mas a vida é vaga, só dá para fazer aproximações. Tem mais. Não dá para saber até que ponto o que acontece comigo acontece com outro. A gente conhece tudo por analogias com o que se passa conosco. O que cada um tem que ser é problema entre cada um e Deus. Cada um paga a sua própria conta. Então há uma espécie de Tanja do mundo das idéias (by Platão) na mente divina (eu acho). E e eu aqui deveria me assemelhar na medida do possível a ela. As circunstâncias da vida podem ajudar ou atrapalhar. O que seremos no final das contas é o que deu mais ou menos para ser. Imagine um aluno tendo que fazer o dever de casa. Quando é aplicado, ele faz o dever direitinho. Quando é relaxado, faz tudo em cima das coxas. A nossa vida também tem um pouco disso. No dia do Juízo, (acho que) Deus, o Mestre acima de todos os mestres, irá pesar até que ponto fomos quem deveríamos ser, levando em consideração os prós e contras. Da mesma maneira que realmente às vezes o PC quebrou e não deu para imprimir nosso trabalho, Deus sabe bem das dificuldades e fraquezas de cada um. Se redimidos, lá no Paraíso a gente seria quem tinha que ser em toda a sua plenitude. Sem nada profissional. Não num sentido só formal. Só que aí eu já estaria falando de coisas que realmente nem imagino como seja.

Isso tudo dá um pouco de medo.

Ô digressão do cacete! E a confusão dessa minha cabecinha? Será que ficou claro o que estou dizendo? Digo o seguinte. A vida, se bem que boa, não é propriamente nossa. Isso não significa fazer tudo em cima das coxas. Acho errado mandar um foda-se para tudo. Também não é certo ficar enchendo o saco que nem velho rabugento. Talvez não fosse nem para a gente existir. mas o camarada de repente existe. Está vivo. É gente. Não sabe como nem por quê. E ainda fica se achando o rei da cocada preta? C'mon! Se existo, mesmo toda troncha, só por isso, por esse, hm, dado primário, tenho mais é que ser grata e achar tudo bom no final das coisas.

Conselho da Espectadora

Depois de ler tudo, dou uma dica. Esquece tudo o que está fazendo e vá ouvir o Concerto para Piano 23 do Mozart. Vai por mim, é o espírito desse texto.

3 comments:

Anonymous said...

Vc era um monstrinho? Eu não sabia!! rsrsrs Quem é esse filósofo de cabeceira? Qual era msm o nome daquela atriz q vc falou ontem??

Bjs!!!

Margarida

Anonymous said...

Vc vive reclamando do calor mas tbm é mto friorenta. Nca vi isso!! rsrsrs

Margarida

marilia said...

Prezada Senhora Espectadora.

Gostaria de dizer algumas palavras.
Primeiro, de bons modos internáuticos.
A senhora até pode me linkar, me citar, me criticar... Mas a uma, eu gostaria de ter ciência disso e, a duas, me chamar de monstrinho não foi legal.
A senhora pode até se sentir à vontade para achar que o mundo é cor de rosa.
Mas, aos doze anos, quando escrevi aquilo, mal saída da infância e já tendo tido oportunidade de me deparar com a violência e com a injustiça, achei que podia reclamar.
E reclamei.
E vou continuar reclamando sempre que me deparar com coisas feias e erradas. As lentes dos meus óculos não são cor de rosa. Felizmente.
Vejo o mundo por lentes transparentes e enxergo muitas coisas.
Não apenas ouço Mozart, mas também ouço samba e repente. Por que aí a realidade fica mais clara.
Amar a vida e o mundo não significa não querer mudá-lo, não se insurgir, se cegar com um ópio qualquer.
Me reservo o direito de ser ranzinza.
Hoje em dia, já não tenho o mesmo estilo de quando escrevia pequenos monólogos para teatro (que é exatamente de que trata o texto tão veementemente contestado pela senhora). Já não sou tão dramática ou empolada como quando tinha doze anos...
Sou mais simples, escrevo versos, criticas, bobagens...
Mas, repito – continuo sendo, muitas vezes, ranzinza – porque afinal, às vezes é preciso um ranzinza pra abrir o olho de um deslumbrado. E aí a gente encontra, quem sabe, o meio termo budista ou o equilíbrio aristotélico...
Eu vejo o passarinho na minha janela e muitas outras coisas para além do meu jardim. Se isso faz de mim um monstrinho, nem por isso a senhora pode dizer isso de mim pelas costas...
Quanto à vida ser boa – concordamos nesse ponto. A vida é boa sim. E se poderia ser pior e não é, a gente tem mesmo de agradecer enquanto identifica o que é ruim, afinal, também podia ser melhor...