Friday, May 23, 2008

[Re-post] A Andaluzia é aqui

Publiquei aqui esse texto faz quase um ano e meio. O tempo voa! Como as citações do Borrow têm muito a ver com o Brasil, não custa nada relembrá-las para os amigos.


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George Borrow foi um desses ingleses típicos do séc. XIX. Anglicano, escritor, viajante e observador dos países por onde passou. Adorava em especial os ciganos, da Rússia à Espanha. Aqui tivemos também os nossos andarilhos: von Martius, Debret, von Humboldt, conde de Gobineau, todos deixando uma ou outra observação a respeito da nossa terrinha.

As observações do inglês a respeito da Andaluzia são bastante interessantes. Menos para seus habitantes. Até porque eles não devem gostar nenhum pouco da fama de indolência que há tanto tempo os caracteriza. Borrow também deu fé a isso e a muito mais.

Indolência é a marca do brasileiro. Ele parece até gostar dessa qualidade. Todo mundo pensa que se de repente bater um pandeiro e tocar um cavaquinho o brasileiro começa a sambar, enquanto as mulheres rebolam sem parar. Aqui no Rio as pessoas fazem questão de confirmar essa idéia, que de preconceituosa não tem nada. Antes é uma observação acurada da realidade. Há mesmo um funk onde a cantora fica berrando: "rebola até o chão, rebola sem parar!" As "tchutchucas" rebolam mesmo! Quem não rebola acaba pagando o pato. E a fama de malandro? Outro dia eu conversava por telefone com alguém do Norte e me perguntaram... na verdade afirmaram que todo o carioca é malandro. Assim mesmo, uma proposição tão universal como "todo homem é mortal". Ora, se Tanja é carioca, então Tanja é malandra. Não me sinto envaidecida por ser considerada 171 por aí. Mas meus concidadãos pensam de outro jeito. Sem contar a folga na vestimenta. Não sei o que houve, mas os homens daqui resolveram andar sem camisa para tudo que é lado. No meu prédio escreveram até um aviso: "É proibido andar em trajes de banho ou sem camisa nas dependências". No metrô acho que tem aviso semelhante. Pedem até para que ninguém se manifeste "em altos brados", supondo, lógico, que há quem o faça.

Nem todo brasilero é carioca, alguém pode dizer. Ok. Mas o que há aqui é provável que haja em todo o país. Até porque, para o bem ou para o mal, e talvez mais para o mal, Rio de Janeiro, caidinho que está, é ainda uma das principais referências nacionais. A cidade é símbolo, querendo ou não. É das mais importantes do país. Então o que acontece por essas bandas se espalha como praga, ao mesmo tempo que aqui é uma espécie de termômetro da nação. Se eu fosse alemã do séc. XIX e adoradora de teorias filosóficas românticas, eu diria que o espírito da Nação (com N mesmo) é representado, ao menos em boa parte, aqui. (No fundo, se eu fosse alemã do séc. XIX, ia mais é ficar cantando bonito, para orgulho do meu pai, ou leria cartas de amor de pretendentes apaixonados.)

Dei muitos floreios para dizer apenas que o andaluz de Borrow é o carioca (e brasileiro, por extensão) que eu sempre topo. Se sou também carioca, e por conseguinte brasileira, então é claro que padeço da indolência e do espírito de oba-oba e do liberou geral. É verdade. Mas isso não me torna incapaz de observar o meu em torno com alguma objetividade.

Borrow diz por exemplo o seguinte a respeito da Andaluzia:

Viven bajo el sol más espléndido y el cielo más benigno de Europa y su país es de natural rico y fértil, a pesar de lo cual no hay provincia en España donde haya más mendicidad y miseria, puesto que la mayor parte de la tierra está sin cultivar y no produce más que espinos y malezas.

Parece com algum lugar bem familiar, né? Para o bem da verdade, nem tudo isso seria certo a nosso respeito. Se não fosse o campo, o Brasil nunca teria sido tão grande como é. Grande parte de nossa riqueza vem lá do interior. Então há quem produza. E produz muito, porque é gente pra burro que vive no país, sem contar o tanto que vai lá para fora e vira riqueza, que por sua vez também sustenta a população inteira. E há a figura do sertanejo, homem desbravador, que Zweig tanto louvou em seu livro Brasil, Um País do Futuro. (Esse livro me deixou otimista em relação ao Brasil por uns três ou quatro dias.) Mas todo mundo fica sempre admirado é com a nossa beleza natural. A gente mesmo sempre diz que o Brasil é lindérrimo. Zweig mesmo não escapou disso. Tem até aquela piada de Deus ter dado uma terra linda para um povinho bem titica. Só que existe uma coisa curiosa. É que um dos primeiros a escrever sobre a nossa terrinha, Pero Vaz de Caminha, fez uma observação diferente. Embora elogiasse a formosura da terra também, o que mais parece ter lhe chamado a atenção foi o potencial da gente que habitava nela. Segundo o escrivão, eles viviam em inocência, sem idolatria, prontos para abraçar a fé. Alguns podem achar essa opinião ingênua. Pode ser. Mas é preciso levar em consideração que se o sujeito ficou assim tão deslumbrado, foi porque tinha como pressuposto que é difícil encontrar gente assim no mundo. A experiência com certeza já havia lhe mostrado como existiam povos hostis à fé. Portugal mesmo tinha bastante experiência nas costas a esse respeito. Encontrar gente dócil como os índios que ele conheceu parecia promissor. Não acho que haja motivos para duvidar muito da sinceridade do Pero. Talvez a carta seja menos convencional que pareça. Enfim, a maior e mais preciosa das riquezas desta terra seriam as pessoas. Opinião bem cristã. É por isso que, já pelo fim da famosa carta, diz:

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
Concluindo, a intenção era ajudar ao próximo. Repito: pode parecer convencional. Não sei. Mas isso só poderia ter sido escrito por um cristão.

Os índios de ontem somos nós? Ou nada temos a ver com eles? Nem tanto nem tão pouco. Boa parte da nossa indolência era antigamente atribuída aos índios e aos pretos. Era também atribuída ao nosso estilo de vida. O modo de vida civilizado deveria acabar com tudo isso. Alguns escritos do José Bonifácio eram bem claros sobre isso. Eram contrários à escravidão e favoráveis ao ajuntamento dos índios à nação. Enquanto esses problemas não fossem resolvidos, continuaríamos sendo pouco civilizados. A escravidão seria um câncer de largas conseqüências. Ele a chamava de "cancro moral". Os índios por si apenas se arruinariam e o país nunca teria unidade. (É interessante comparar isso com o que escreveu von Martius, tempos depois, sobre os índios daqui. Havia uma teoria que dizia que os índios brasileiros eram os restos arruinados de uma outrora grande civilização.)

Seja como for, se devido à escravidão ou não, a malemolência permaneceu no espírito de todo mundo. Se houve um dia algum potencial de elevação, é bem provável que agora ele esteja bem corrompido, depois de tantos tombos. A indolência acaba deixando o espírito fechado e o joga ao desregramento. É conseqüência do amor-próprio.

Se a gente levar em consideração como as coisas andam hoje em dia, tudo parece já ter ido por água abaixo. Mesmo quem é jovem, quem deveria mostrar alguma esperança, parece já quase liquidado espiritualmente. O mais triste é que logo quem deveria dar exemplo é o primeiro a cuspir no prato. Claro que não estou fazendo alusão aos políticos. Político é em geral um baita puxa-saco e dissimulado, cujo objetivo é não ser ele mesmo. Ele quer ser quem as pessoas querem que ele seja, a fim de ter poder só pelo prazer pelo poder. Quando um deles foge dessa regra, chama até a atenção. Na Bíblia, o bom juiz (o bom líder do povo, o legislador) chega a ser comparado a um deus. Nada mais angélico ou demoníaco, portanto, que a política. São todos eles um mal necessário. Muito superiores aos políticos são os intelectuais. Eles são os verdadeiros guias espirituais do povo. Não é por acaso que antigamente "clérigo" era sinônimo de letrado, e "leigo" de iletrado. O francês conservou o uso antigo; o português só em parte. O que o "clérigo" considerar bom, o político vai também considerar, e por tabela o povão. Há também a classe dos endinheirados, o sustento dos políticos e uma das fontes da riqueza do povo, embora aqui no Brasil quase ninguém entenda mais isso.

O intelectual põe as coisas em movimento, o político mexe com os meios e o endinheirado cuida do suporte necessário. Qualquer um cuja ação tenha relevância na sociedade faz parte da elite, seja advogado, professor, diplomata, jornalista, empresário, escritor de novela e, last but not least, político. Só que o político faz as coisas mais aparentes. Eu, por exemplo, querendo ou não faço parte da elite, embora aquele retardado do Lula faça ainda mais. Não é que eu tenha dinheiro. Não tenho nada. Faço por causa da minha função: ver, refletir e escrever, mesmo tão amadora. Pois é a elite (e eu no meio dessa bagunça toda) que está porca até não poder mais. Quem tem estudo não faz por onde. Como vai ficar o resto do povão? As pessoas que acabam tendo algum estudo acabam se atendo a ninharias, falando besteiras cheias de uma pompa que em algumas épocas ou lugares valeriam um tremendo pé na bunda. Essa gente, por mais estranho que seja, não nasceu indolente. Essa gente se fez assim. Com orgulho. Acham superior esculhambar o que é nobre e colocar em seu lugar qualquer baixeza que lhes agrade. Agem assim porque são baixos. São adoradores de baixezas e personificam o verso de Hölderlin: "só agrada ao servo o violento". Foi isso que o Brasil se tornou.

Aí está o motivo de a gente estar cada vez mais longe da realidade. Por que agora chamar alguém de macaco ou viado causa tanta polêmica ao mesmo tempo que ninguém nem tem idéia dos 50 mil homicídios anuais? Não sei como foi que aos poucos ficamos assim. A situação é degradante demais para ser analisada com minúcia...

O sr. Borrow, inspiração do texto, parece até que escreveu pensando no Brasil de hoje. Coisa impressionante! Veja só:

Los andaluces de clase alta son, probablemente, los seres más necios y vanos de la especie humana, sin otros gustos que los goces sensuales, la ostentación en el vestir y las conversaciones obscenas. Su insolencia solo tiene igual en su bajeza y su prodigalidad en su avaricia. Las clases bajas son por lo general más corteses y, con seguridad, no más ignorantes.
A afirmação de Borrow estaria errada se fosse a nosso respeito? Se você liga a TV, feita pela zélite, uma novela por exemplo, que é que você vai ver? "Goces sensuales, la ostentación en el vestir y las conversaciones obscenas". Se perambular pelas ruas, com o que você vai se deparar? Com "su insolencia". Não sou nenhuma donzelinha frescurenta. Só que isso não me permite elevar a baixeza à oitava maravilha do mundo. E tem gente que pauta a vida nisso! Há um desfile de "los seres más necios y vanos de la especie humana" em todos os cantos, exigindo que você aceite suas babaquices como algo elevadíssimo. Chegam a querer elevá-las ao plano do direito, criminalizando quem pense contra. São os señoritos que o Ortega descreveu em A Rebelião das massas. E a zélite virou máquina de fazer señoritos. São eles os líderes dessa bagunça toda.

Será, meu pai do céu, que essa joça de país ainda vai ter salvação? Mesmo depois de tantos anos de liberou geral? É possível ter aquela animação do Pero Vaz de Caminha, típica dos pioneiros? Ou do fundador do nosso país, José Bonifácio? Mesmo depois de tanta gente ter feito questão de emporcalhar tudo? Será? A indolência que parece natural agora se tornou artigo manufaturado e até de luxo! Só consigo pensar que só Jesus Cristo salva!

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