Tuesday, May 27, 2008

Para Marília

Senhora (ou senhorita) Marília (sou senhorita), a resposta vai como um outro post. Vai ser até bom, porque eu tinha dito que escreveria mesmo mais algumas coisas. Antes da resposta, de novo o que você disse nos comentários:

Prezada Senhora Espectadora.

Gostaria de dizer algumas palavras.
Primeiro, de bons modos internáuticos.
A senhora até pode me linkar, me citar, me criticar... Mas a uma, eu gostaria de ter ciência disso e, a duas, me chamar de monstrinho não foi legal.
A senhora pode até se sentir à vontade para achar que o mundo é cor de rosa.
Mas, aos doze anos, quando escrevi aquilo, mal saída da infância e já tendo tido oportunidade de me deparar com a violência e com a injustiça, achei que podia reclamar.
E reclamei.
E vou continuar reclamando sempre que me deparar com coisas feias e erradas. As lentes dos meus óculos não são cor de rosa. Felizmente.
Vejo o mundo por lentes transparentes e enxergo muitas coisas.
Não apenas ouço Mozart, mas também ouço samba e repente. Por que aí a realidade fica mais clara.
Amar a vida e o mundo não significa não querer mudá-lo, não se insurgir, se cegar com um ópio qualquer.
Me reservo o direito de ser ranzinza.
Hoje em dia, já não tenho o mesmo estilo de quando escrevia pequenos monólogos para teatro (que é exatamente de que trata o texto tão veementemente contestado pela senhora). Já não sou tão dramática ou empolada como quando tinha doze anos...
Sou mais simples, escrevo versos, criticas, bobagens...
Mas, repito – continuo sendo, muitas vezes, ranzinza – porque afinal, às vezes é preciso um ranzinza pra abrir o olho de um deslumbrado. E aí a gente encontra, quem sabe, o meio termo budista ou o equilíbrio aristotélico...
Eu vejo o passarinho na minha janela e muitas outras coisas para além do meu jardim. Se isso faz de mim um monstrinho, nem por isso a senhora pode dizer isso de mim pelas costas...
Quanto à vida ser boa – concordamos nesse ponto. A vida é boa sim. E se poderia ser pior e não é, a gente tem mesmo de agradecer enquanto identifica o que é ruim, afinal, também podia ser melhor...


Olha, Marília, não fiz nada pelas suas costas. Reclamei em público. Escrevi um texto mencionando o seu (meti um link) e o publiquei. Foi tão público que você logo o encontrou. Depois leu e se defendeu. Se ficou parecendo que fiz tudo na encolha, é porque meu blog é obscuro mesmo. Agora, eu não sabia que tinha que pedir licença para criticar!

É verdade que não fui nenhum pouco delicada. Você também não foi nenhum pouco delicada naquele texto. Minha grosseria foi dirigida àquilo que você escreveu. A sua foi dirigida para meio mundo. Dói mais a minha, porque foi dirigida a uma pessoa específica... (E nem foi minha intenção descer a lenha em você, por mais que não pareça.) Na verdade, o problema não é a (falta de) delicadeza. Não é o jeito ranzinza. Se fosse só isso, eu não diria nada. O negócio todo é que seu texto é envenenado.

Ser o acusador do mundo e querer modificá-lo é vaidade. Eu mesma já caí nessa tentação. Esse é o papel típico do... demônio. Sim, o próprio. Acusar e desejar modificar o mundo é um sentimento satânico. O fato de você, eu e de várias pessoas terem sentido uma coisa dessas tão novas é muito assustador. Por isso eu disse e repito: coisa de monstrinho.

O veneno da vaidade faz a gente se sentir especial. Você escreveu alguma coisa como: "A humanidade é inviável" lá no post. É inviável por que é ruim demais? Claro. Se você emitiu esse julgamento, é porque está do lado da promotoria. Mas você é gente que nem nós? É. Tem defeitos? Tem. Você sabe disso? Deve saber. Então por que está fazendo o trabalho da promotoria? É porque num breve instante você se achou melhor que todos. Mais especial. Uma pessoa pura bradando contra a feiúra do mundo. Beleza, você escreveu aquelas coisas quando tinha 12 anos. Seu estilo hoje é outro. Só que o próprio tom que você usou é de quem lança acusações terríveis contra o mundo. Não importa em qual circunstância você escreveu aquilo. Você buscou um tom grandiloqüente porque queria algo mais à altura daquelas acusações enormes. Hoje o seu tom pode ser diferente. Não importa. O ponto é que o sentimento continua o mesmo. É vaidade.

(En passant: quando eu digo "vaidade", digo "orgulho". Acho que os dois não são a mesma coisa.)

Só para não esquecer: meu telhado é de vidro. Não estou dando uma de santinha ofendida. Já pensei as mesmas coisas. Sei essa história de trás para frente. Uma vez escrevi um negócio mais ou menos assim: "Um apocalipse é mais do que bem-vindo neste mundo podre, no qual todos pisam no olho do próximo para adquirir o que desejam." Acho que nem poupei o Natal em outro texto. Escrevi algo no estilo "tantos comem, e tantos ainda passam fome". Eu não era tão novinha quando escrevi isso (17 anos). Me dá vergonha dizer essas coisas hoje, mas enfim. O que interessa é que eu estava com muita minhoca na cabeça. Eu estava dando uma de gostosona. A ficha caiu um dia. Demorou. Fiquei massageando o ego até dizer chega! Não dá. Palhaçada tem limite.

Do ponto de vista pessoal, eu não tinha do que reclamar. Ninguém tinha pisado no meu olho. Ninguém tinha me mandado para Sobibor. Ninguém me jogou pedras porque anunciei o nome do Cristo. Nada, nada. Vivia muito bem, obrigada. Se vi coisas erradas, não foi nada que nunca ninguém já viu. O que justificava a minha revolta? Meu ódio? Isso mesmo: nada. Era uma raiva gratuita. Pensando bem, nada justifica uma revolta dessas. Só que era mais bonito eu transferir essa raiva gratuita para uma coisa que parecesse válida. Claro. Não pegaria bem dizer que a razão de tudo era minha vaidade. O (falso) sentimento de justiça serviu de escadinha para meu erro. A falsidade nesse ponto é radical. Eu sabia, só não tinha coragem de admitir. Era melhor me sentir a gostosona do pedaço. Como é falso, você sempre sente o espinho na carne. Aí raiva vem duplicada. Mas como eu disse, um dia a ficha caiu. Hoje estou imune? Lógico que não. O único consolo é que hoje tenho mais consciência de como isso funciona. Antes não.

Você diz que reclama para ver se desperta alguém. Está de olhos bem abertos? Sorry, mas comigo não cola. Essa "utopia de não ter utopias" (by Ortega y Gasset) é manjadinha que só. A única coisa que você está dizendo mesmo é o seguinte: "Olha para mim, sou melhor que muita gente porque conheço mais as coisas." Por "as coisas", leia "a maldade do mundo". Conhece o bem e o mal? Olha, essa história é tão velha que vem da época do Adão e Eva. É engraçado, mas você não parece se dar conta disso. Você parece acreditar mesmo que seu desejo de justiça é autêntico. Você gostaria que fosse. Não, não é. Seu desejo de justiça é vaidade (mal) disfarçada. É só afirmação de si mesma. Leia sine ira et studio o que você mesma escreveu quando tinha 12 anos e o que você diz agora! Isso sim é ingenuidade. Não sei quem é seu oculista, mas ele trocou as lentes cor-de-rosa por um par de lentes arco-íris!

Citei o Ortega. Vou citar de novo, de cabeça, porque ele disse uma coisa legal sobre a vida: "É preciso viver como aqueles mergulhadores que, uma vez tendo mergulhado até as profundezas, conseguem voltar à superfície com a mais preciosa pérola entre os dentes." Depois ele esclarecia: sim, é importante notar a dimensão dramática da nossa existência. Mas a vida exige que não sejamos esmagados. Quem vive triste sente o mundo nas costas, oprimindo. A vida de alguém feliz é o contrário. Ele não se sente oprimido. Não é mera coincidência que alegria e alígera sejam palavras aparentadas. Viver é estar mais leve. Não que uma pessoa feliz não sinta a pressão do mundo. A diferença é a seguinte. Tem gente que fica logo doente ou sofre de velhice precoce. Para outras pessoas, essa pressão é serve como exercício. Você sai mais inteiro, mais saudável. É por isso que ele dizia também: "A vida ideal consiste em conciliar a concepção cristã de um mundo como 'vale de lágrimas' com a concepção pagã de um mundo como um imenso stadium".

Antes de pedir a conta para o garçom:

1) Não vejo nada cor-de-rosa. Minha cor preferida é roxo. Mas enfim, não vejo tudo cor-de-rosa. Até porque todo mundo sabe que o demônio é o príncipe deste mundo. O que não quer dizer que ele seja o criador do mundo;

2) Não entendi o comentário do samba e repente. Essas coisas (e Mozart) ajudam a clarificar a realidade? Como assim?

3) Nunca quis tomar o seu direito de ser ranzinza;

4) Não entendo nada de budismo. Também não sei qual é o meio-termo aristotélico;

5) Eu disse que a vida é boa num sentido radical. É que o fundamento da vida é bom. Ela não foi me dada pronta. Mas só de eu ter sido colocada no palco do mundo é maravilhoso! Tanto que a gente nem encontra explicação, o que torna tudo mais maravilhoso ainda. Agora, vida enquanto execução de uma vocação pode ser boa ou ruim. Depende de como você a vive. Se você vive afastada da sua vocação, então sua vida é falsa. Um fracasso. Vida melhor ou pior só pode ser pensada nesse sentido. Ficar imaginando se Deus podia ter feito um mundo melhor, aí não é comigo.

Sei lá se os "bons modos internáuticos" exigem despedidas. Deixa. Vai um "até logo" bem espontâneo.

6 comments:

marilia said...

Nós não chegaremos a um consenso.
A frase é "tem horas que dá pra desconfiar que a humanidade é inviável". Não é uma afirmação peremptória. É um sentimento de indignação temporário.
O que pode melhorar não é o mundo que Deus fez, mas sim o que nós fazemos com o mundo que Deus fez.
Justiça não é minha vaidade - é minha profissão. Eu não chegaria tão longe por uma vaidade mal disfarçada.
Não temo críticas - só acho que merecia saber o que você pensava sobre meu texto por você e não pelo meu contador de acessos. Além do mais, me criticar é uma coisa, me chamar de demônio e monstrinho é ofender.
Vá ler o resto do blog, inclusive as coisas mais antigas, dos últimos cinco anos e vai ver que não sou nehum demônio.
Mas, como já adiantei, não concordaremos em nada. Você já tem a luz e eu sigo acendendo velas.
Boa sorte para nós.

Anonymous said...

Vc e suas pragas! Choveu na hora do jogo do Nadal!! :( vc é má!! rs Tá me devendo duas respostas. :P

bjs

Margarida

Tanja said...

Pois é, Marília. Não sei se chegaremos a um consenso. Mas assim, eu não disse que você é má. Não disse que você é um demônio. Ou monstro. O que eu disse é que você escreveu algo muito ruim. Que é coisa de monstrinho. Não por causa do estilo. É pelo sentimento. Melhor: pelo sentido. Ele é demoníaco na raiz e de um jeito muito nítido. E também disse que você não parecia se dar conta. Olha, seria muito ridículo eu ficar reclamando que você é malvada, enquanto eu mesma de santa não tenho nada. Você pode achar absurdo, mas não é nada pessoal. E again: não entendi mesmo esse negócio de avisar antes. Não estou fazendo fofoca de você. Enfim. Um sentimento de justiça que brote desse tipo de solo estará viciado na raiz. O sentido do que escrevi é esse. Não se iluda com minhas imagens. (Lembrei do super-mega-ultra-citado Ortega: "Distraídos por mis imágenes, han resbalado por mis pensamientos."

Margarida, sua afobada, bem feito! Quem mandou ficar me sacaneando? Fica em casa enquanto o Faraó me oprime. Não vai ver mais nada também! =)Olha, o filósofo de cabeceira é o Ortega. A atriz... Que atriz? Do que você está falando? Não estou me lembrando dessa conversa.

Tanja said...

O que fazer com o mundo... Olha, o mundo é grande e muito experiente. Sabe se cuidar. Pior ainda é que ele vai nos influenciar (e influencia) bem mais do que nós a ele.

Take care of your business. Só isso. O resto é imperialismo da vontade. E o Olavo de Carvalho já disse: "O mundo estaria bem melhor se não houvesse tanta gente tentando melhorá-lo." Perfeito.

A vida de cada qual já é problemática demais. "La vida da mucho quehacer". E tome mais Ortega.

Anonymous said...

Vc tem q tomar memoriol! rsrsrs Foi naquela hora q vc falou de uma atriz alemã q fez um monte de filmes de princesa.

bjs!!

Margarida

Tanja Krämer said...

Ah, pô. É a Romy Schneider. Die junge Kaiserin da fotinha ali do lado. =) Mas ela não é alemã! Nasceu em Viena.