Friday, May 02, 2008

Leite derramado

Disse o Canônico (não o direito, mas uma pessoa):

Não é possível, por exemplo, que uma família eduque completamente seus próprios filhos – sistema chamado “homeschooling”, inexistente por aqui. Não venho aqui defender tal método, o qual não analisei com profundidade, mas questiono a sua inexistência por aqui.


Depois ele reclamou de o Estado impor, à revelia dos pais, a tal da educação sexual.

Antes de prosseguir, uma voltinha. Coisa pessoal.

Se quiserem conhecer alguém que é produto da educação mudernosa, aqui estou. Meus pais me deram um livrinho chamado Mamãe, como eu nasci? quando eu tinha 10 dez anos. Livro breve. Li tudo. (Tinha uns deseínhos. Tipo o de um espermatozóide com uma carinha sorrindo para um óvulo sem cara. Mas tinha coisa menos estranha também.) Aos 12 caiu em minhas mãos o (parece que cascateiro) Relatório Hite. Esse era um catatau. Li só algumas partes. E nenhum desses livros me jogou na esbórnia. Como não tinha muito interesse no assunto, ele resvalou. Achava-os no máximo engraçados. Aula de educação sexual mesmo nunca tive. Mas eu e minhas amigas conversávamos sobre essas coisas. Fora conversas que tinha com meus pais. Se bem que só mais para frente isso tudo me chamou atenção.

Disso não se conclui que sou alguém "liberal" ou palhaçadas do tipo. Só comentei minha "formação".

Em relação ao sexo, acho muito, muito estranho quem elogia horrores. Parece coisa de capial deslumbrado. Até de um ponto de vista pagão por completo é bobo. Não precisam acreditar em mim. Leiam Aristóteles. Se a felicidade humana é a vida contemplativa, uma qualidade divina, a vida "sensível" então é o oposto. Aproxima o homem da fera. É a educação do escravo.

Não estranho quem reclama do sexo. O motivo é simples. Não conheço ninguém assim. Só em folhetins bobinhos existe aquela tia beata que odeia sexo. Ou a religiosa hipócrita. Fazer desse artifício prova da realidade é besteira.

Tudo isso é bobagem. Não houve descoberta maravilhosa do sexo coisa nenhuma. O que existe é a promoção do desregramento casada com uma naturalização postiça do corpo. Noutras palavras, esse "maravilhamento" é coisa de velhos tarados.

De volta ao artigo do Canônico. Não tenho como discordar do argumento principal. O Estado passar por cima da vontade dos pais em matéria de formação familiar já é um negócio horroroso. Ensinar bizarrices é muito pior. Uma vez indiquei uma notícia sobre a educação sexual em escolas em Massachusetts. As criancinhas aprendiam que meter o punho em alguém (sentido literal; essa tosquice se chama fisting) era bacanérrimo. Os pais reclamaram; parece que um grupo ativista gay estava metido nisso. Como usual. Ah, só para constar, era tudo com dinheiro do contribuinte.

Não acho que a educação sexual será a responsável pela esbórnia juvenil. A esbórnia já existe. Ali é menos pior, aqui é piorzinha. Mas que existe, existe. O problema será o status oficial. Uma instituição pública oferecendo camisinhas a menores será a oficialização da sacanagem. Não deixa de haver uma pedofilia dissimulada nisso tudo. Afinal, quem é que vai ensinar as belezuras do sexo? Não serão os pais. Não serão pessoas da mesma idade dos alunos. Serão adultos, agentes estatais. E criminoso mesmo será incutir na cabeça das crianças que é bonito ser gay ou qualquer outra "modalidade sexual". Na verdade, incutir sexo na cabeça de crianças já é criminoso em si. Não faz o menor sentido ensinar prazeres sexuais a alguém que sequer tem a capacidade anatômica de usufrui-los. E ainda que possua, não significa que então tudo está permitido. É como dizer que só porque você agüenta segurar um fuzil, então pode estourar a cabeça de quem quiser. Sexo é uma coisa. Falta de temperança é outra.

Você pode notar que nem estou usando argumentos cristãos. Essas coisas todas poderiam ser ditas por qualquer pagão. Falta de temperança é um defeito grave que o Platão já reclamava. Tranformar a crítica à educação sexual em sintoma de fanatismo religioso não é só falso. É coisa de gente sem caráter.

Até aqui, não tenho o que discordar do Canônico. O que não quer dizer que o acompanho em todos os pontos.

Já a primeira frase não me apetece: "Uma das funções notórias do Estado é oferecer educação aos membros de determinada nação." Não, não. Isso é discutível. Se existiu o Estado como educador na Antiguidade, foi apenas na realidade platônica. No mundo real, quando houve algo desse tipo, foi algo bem tímido. Na Idade Média a situação foi igual ou até piorou. O ensino estatal, enfim, é criação moderna. Como disse o Lorenzo Luzuriaga, no livro História da educação pública:

(...) A educação criada, dirigida e mantida pelas autoridades oficiais é de origem relativamente moderna. Seu começo, com efeito, não deve ser procurado antes do século XVI, no qual se inicia com a Reforma religiosa. Antes disso, houve certamente diversos tipos de educação organizada, como a mantida pelas "politeia" gregas, pelo império romano ou pela Igreja medieval. Mas, de intervenção sistemática e continuada das autoridades públicas na educação, só se pode falar nos começos da época moderna.


Esse livro é meia-boca, mas nesse ponto tem razão. A educação pública estatal foi quase um concerto, porque teve três movimentos. Primeiro a educação foi secularizada. Depois veio a estatização. Enfim, ela foi nacionalizada e democratizada. Isso tudo em mais ou menos um século, o XVIII. Obra do Iluminismo. Então é um anacronismo considerar a intromissão estatal na educação uma coisa corriqueira. A intromissão não foi uma descoberta. Foi um artifício tosco criado há pouco tempo na história.

Não só aquela frase não me apetece. O parágrafo todo é, no geral, esquisito:

Uma das funções notórias do Estado é oferecer educação aos membros de determinada nação. Sendo as famílias a célula básica da sociedade, uma educação pública de qualidade oferece um auxílio precioso na formação dos cidadãos. Ainda mais no contexto moderno, no qual o trabalho profissional muitas vezes exige dos pais um razoável distanciamento do lar.


Não dá para inferir que, a partir da noção aristotélica de a célula da sociedade ser a família (v. Política), "uma educação pública de qualidade oferece um auxílio precioso na formação dos cidadãos." Isso não é nenhum pouco evidente! Uma coisa não tem a ver com a outra. É como se eu dissesse assim: "Sendo o caule a parte que sustenta a flor, um bom jardineiro pode ajudar na formação dos elementos da flor." Esquisitão.

Tem mais. A idéia de que uma educação estatal boa ajuda na formação do cidadão é discutível. Ajuda mesmo? Em que sentido? Como? Pior ainda é considerar bacana o Estado-babá! Vem disso aí o problema de mais tarde alguém meter no currículo uma matéria contrária aos princípios da família! Não adianta nada reclamar se você aceita numa boa a ingerência estatal limitada. O problema é questão de princípio.

Essa é a razão de eu não concordar também com a primeira frase do parágrafo seguinte: "O problema é quando o Estado pretende ir além do auxílio devido às famílias e passa a querer agir como formador principal das pessoas." O problema já apareceu antes disso! Se você convida um vampiro para sua casa, não vai poder reclamar de ele chupar o seu sangue... Outra coisa. Por que a educação estatal é um auxílio e é algo devido? Mais uma coisa discutível. Não me parece verdade isso. Começo pelo "devido". Você pode até pensar que o Estado tem uma cacetada de deveres. Não vou discutir que deveres são esses. Mas quem é que vai obrigar o Estado a cumpri-los? O próprio Estado? Você pode pensar no conjunto dos cidadãos. Certo. Mas se você também acha que o Estado deve auxiliá-los em determinadas coisas, e se essas determinadas coisas são preciosas, então surge aí um problema. Como os cidadãos vão pressioná-lo se ele mesmo lhes oferece uma ajuda preciosa? Se essa é a ajuda do Estado, significa que a balança pesou para o lado dele. Só ajuda quem é mais capaz. Recebe ajuda quem é mais necessitado. O poder do Estado seria o real poder. A gente poderá gritar, a gente poderá espernear. Mas quem poderá fazer alguma coisa é o Estado. As forças não estariam equilibradas. E mais uma coisa. Pensando em auxílios devidos, haverá mais obrigações do Estado. Quanto mais obrigações você lhe dá, ele ficará maior e mais difícil de controlar. Podem ser obrigações só nominais, do tipo "é dever do Estado conferir se todo mundo está com o bumbum limpinho." Não seria possível nem bom que o Estado conferisse uma coisa dessas. Mas você estaria tornando-o mais poderoso só de lhe dar mais uma atribuição. Ele pode não conferir sempre, mas terá o poder de um dia checar o traseiro dos cidadão...

Tudo sempre começa por uma brechinha. Mas é de brechinhas assim que mais tarde surgem coisas como a porcaria da educação totalitária.

O "Estado colaborador" ou "educador" é já uma solução totalitária. O fato de ele piorar é conseqüência de um princípio ruim. É por isso que ele ensinar alguma coisa que as famílias não gostam não é o principal problema. Por acaso seria ótimo se agentes estatais ensinassem os evangelhos direitinho? O problema é ele poder ensinar.

Chorar pelo leite derramado não dá!

Update, 14h12: Reescrevi o post. Estava uma porcaria. Se alguém o leu antes, foi mal aí.

3 comments:

Naej Hcer said...

ahhh esqueceu o que ia falar?? hehe deixa vc,ai que burra da zero pra ela hihi momento chaves..bjoo

Evelyn Mayer de Almeida said...

"Não deixa de haver uma pedofilia dissimulada nisso tudo."

Cê sabe que eu não tinha pensado nisso?

Tanja Krämer said...

Então, eu ia desenvolver essa parte. Acabei deixando para lá. É que acho que não é à toa que existem ao mesmo tempo pressões para educação sexual, campanhas de gayzismo para crianças e pedofilia. As duas primeiras são descaradas. A pedofilia vem junto.