Tuesday, April 08, 2008

Tosco e provisório (II)

(Passeio comprido. Agora, mais um rabisco.)

O governante precisa da autoridade para usar seu poder de forma justa. Nem que seja uma justificativa troncha. Mas tem que ter. Independente disso, o que caracteriza o governante é o fato de ele ter em suas mãos um meio de exercer seu poder. O Estado (ou qualquer coisa análoga) é o seu meio.

O poder cria uma distinção. Quem se submete a ele, obedece. Quem o controla, é obedecido. (Pode-se discutir a natureza do poder. Não importa. Basta constatar a sua existência no campo formal.) Comandar e obedecer são duas coisas naturais. É preciso ter isso em mente.

É arbitrário o poder que não se submete a algum tipo de autoridade (é bom lembrar da distinção entre poder e autoridade para evitar confusões). É que até mesmo ele precisa se submeter às "regras do jogo". Trocando em miúdos: todo poder é delimitado pela autoridade. Existe também a necessidade de fazer valer a autoridade por intermédio do poder às vezes. É quando o poder protege a autoridade. Se um pai não consegue exercer sua autoridade perante o filho, ele pode acabar exercendo-a mediante o poder. Se o filho está fazendo merda, sem querer obedecer ao pai, só tem uma alternativa (tirando a solução provisória do "deixa-que-a-mãe-cuida"). Palmada no bumbum do pirralhinho.

A identificação total do poder com a autoridade seria bom? Perguntinha difícil. Melhor deixá-la no cantinho. Existe uma outra pergunta boa. Se a autoridade e o poder, cuja cooperação entre si é fundamental, são discerníveis, dois campos distintos, pode acontecer de um usurpar a atribuição do outro? Meio que já respondi. O poder arbitrário se intromete num campo alheio. Ele não se submete à autoridade. Ele a devora. Faz de si mesmo autoridade. Reconhecer o poder e a verdade se torna uma operação igual. Posso dizer de outro jeito. Não reconhecer a verdade é desafiar o poder. Simplificando: questionar a verdade se torna um crime. (Uma observação. Se você imaginar uma sociedade onde a verdade se identifique com o poder, a simples opinião seria um crime. Até a burrice seria motivo de cadeia. Uma sociedade dessas seria, no mínimo, inviável. Só que não consigo deixar de pensar em outra coisa. Como será o governo de Deus após o Dia do Juízo Final? É que imagino que, diante d'Ele, não haverá qualquer margem para dúvidas. Logo, no governo de Deus não haverá opinião. Todos viverão na verdade. (A expressão mesma "governo de Deus" precisa ser entendida de um modo um pouquinho especial.) Melhor deixar essa dúvida sobre o futuro de lado também. Ah, é bom deixar claro que o problema a que me referi antes tem a ver com uma concepção de sociedade do tipo "A República".)

É possível a autoridade usurpar o que pertence ao poder? Sim, quando a autoridade se transforma em mais um poder. É a autoridade espiritual secularizada. Se acima a disputa era entre a autoridade espiritual e o poder espiritualizado, aqui é o inverso.

Vale muito a pena entender que a distinção entre autoridade e poder é em boa parte formal. Exagerá-la só pode dar treta. Se você radicalizá-la, vai ter uma hora que a existência terrestre da Igreja vai parecer uma aberração total. Mas cair no exagero contrário, achando que a cooperação entre essas qualidades deve chegar às raias da identificação, também dá treta. Você pode vir a identificar a ordem sócio-histórica como verdade divina. É a divinização do espaço e do tempo (v. Olavo de Carvalho, O jardim das aflições).

5 comments:

jean said...

espero que vc nao tenha pego dengue...bjooo

Anonymous said...

Hans Herman Hoppe ??

E valeu pela dica do site de sebos.

Abs

NO

César Miranda said...

Parabéns sempre, pelo blog, querida.

Naej Hcer said...

dengueeee,olhaaa dengue,cuidado com a dengue hehe saudades ...

Tanja said...

Oi, gente!

NO, HHH (3H)? No. :) A inspiração vem em parte da doutrina da Igreja sobre suas relações com o Estado. A outra parte é... Vai aparecer num dia o próximo capítulo. Aguarde. :P

Brigada, César! Eu já ia reclamar de você não atualizar o blog. Mas ó seu blog aqui na minha frente atualizado. Ainda bem que quebrei a cara.:)

Aí, Jean, vou tentar falar com você nesse sábado. Xô dengue. Xô.

Beijos a todos.