Friday, May 23, 2008

Super-homem-religioso

Existe o super-homem-religioso. Versão religiosa do Übermensch nietzcheano. É o cara que se acha acima de todas as religiões. Resolveu dar uma de demiurgo e forjar a sua própria, baseado nas idéias de sua cabeça. Lá do Olimpo ele olha, cheio de dó, para mim, para você e para todo mundo. Lógico, não é? Esse negócio de ter uma religiãozinha é coisa de gente tapada, não-evoluída, não-iluminada. Ele, muito limpinho, está em, com e sobretudo acima de todas. Cada uma das religiões tem um treco bacaninha aqui e ali. Quem vai fazer a sopa gostosa da salvação será o super-homem-religioso.

Pessoas assim são como esses esnobes cujo aspecto de pobretão não os abandonará nunca. Nem se estiverem chiques. (Uma exceção de pobretona que ganhou classe: Eliza Doolittle.) Quanto mais o cara fala que todas as religiões são lindas, que ele é o Tarcísio Meira da religiosidade, mais você percebe que ele é jeca.

Olha, não estou exagerando nada. O cara que se acha acima de todas as religiões pensa que é mesmo o gostosão. Tanto faz se ele for quietinho ou não. Às vezes até calha de a variante "mineirinha" (come-quieto) do super-homem-religioso ser a pior. Parece paradoxal? Nada. O cara fica na dele porque se acha bonzão demais para ficar esperneando por aí. Ele acha que a gente, o pessoal que só tem uma religião, que tem fé nos clérigos, é um bando de bobinhos, tanto no campo religioso como no campo moral. Como ele está lá no Olimpo, todo cheio de si, ele só consegue enxergar palhaçada ao redor dele. Todo mundo é hipócrita, mesquinho, sacana, fdp, vagabundo... Todo mundo quer acabar com ele porque ele é fa-bu-lo-so. Pode ser que de repente ele tope com alguém que nem parece tão ruim. Só que esse alguém ainda é um espírito canhestro, que tem que evoluir, ser iluminado e tal. Você pode incluir nessa lista desde o fiel mais humilde até o papa. (Se bem que os super-homens-religiosos tendem a enquadrar o clero no artigo 171 do código penal. O clero é composto de picaretas cujo objetivo de vida há milhares de anos é esconder a verdade das gentes humildes.) Quando eles encontram por acaso alguém que parece ser muito bom, eles: 1) vão pensar que é um par; 2) vão pensar que é um santo/criatura de luz/avatar intergalático.

Quem disse que o esnobe religioso é sempre ultrababaca? Ele pode ser legal. Nem sempre eles nos esnobam sem mais nem menos. Alguns podem ficar com dó da gente. Vão jogar as sobras do chá das 5h que tomaram com Deus em pessoa para nós. (Sabe como é, a agenda de Deus está sempre mais livre para eles.) Se não forem tão simpáticos, aí vão ignorar mesmo, plebe rude. Pobretão não participa da sociedade, comprenez-vous?

Dica para lidar com um super-homem-religioso

A dica que nunca falha é: seja grosseirão. Quando ele começar com o papo de "só a metafísica salva" ou "todas as religiões são lindas", diga: "Ah, tô cagando e andando." (Outro dia ouvi a expressão "peida na farofa". Acho que ela pode ser aplicada.) A vantagem dessa dica é que o super-homem-religioso vai parar de encher o saco na hora. Ele achará que você é inferior demais para sequer imaginar o que ele sabe. Já você continuará com a sua religião bem tranqüilo. E ainda por cima vai tirar um sarro da cara dele. Mas tem uma dica complementar. Se você for católico, repita várias vezes para ele: "Ok, mas nada disso está no Credo, por isso não levo nada do que você me diz a sério." Isso fará com que ele pense que você é só um robô teleguiado do Papa. Aí ele vai parar de encher o saco também.

(Uma dica bem hardcore: arremesse na cabeça dele a Bíblia, a patrística latina e grega, os concílios ecumênicos e mais um monte de outras coisas. Ou peça para o Espírito Santo fazer o trabalho. É mais fácil.)

6 comments:

Tanja Krämer said...

Troco "super-homem-religioso" por um termo alemão equivalente. Quem quiser fazer negócio, favor avisar.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Peida na farofa foi ótima!

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!

Ai! Ai! não consegui parar de rir ainda!
ashauhaushaushaushashaushaush!!!

Meu filho vai nascer antes do prazo, desse jeito.

Nossa, lendo este texto acho que vou empregá-lo pra dois tipos de super-religiosos: Testemunha de Jeová e Mormons.
Juro que é a cara das pessoas!!

Bju, Lindona =)

Anonymous said...

Como pode haver alguém tão desrespeitoso? Muitas vezes não aguentei ouvir nietzschianos falando imprópérios sobre religiões e sobre a busca da verdade, saia de perto de tão feia a coisa..:-)
Abraços.

Liz said...

Muito bom seu comentário.
Isso é consequência do relativismo moderno.
O problema é que essas pessoas ficam sempre no limbo da experiência religiosa, é impossível ter uma experiência verdadeira sem envolvimento. Não se chega a lugar algum sem trilhar um caminho.Com a religião acontece o mesmo.
No fundo, esse comportamento se assemelha ao medo de amar. Essas pessoas temem a entrega, o render-se perante o divino, pois não existe religião sem compromisso e sem profunda mudança interior.
Também pendem para o ateísmo no final da busca, já que não conseguiram uma experiência religiosa verdadeira.
Mais grave que isso é que essa atitude se espalha pelas outras áreas, começa um relativismo moral, cientifíco, político...aí complica.

Tanja Krämer said...

Eve, que bom que você não estava bebendo água na hora do ataque de riso! Ou estava? =)

NO (ou seja quem for :-D), é hora de uma fofoquinha. Um amigo meu adora Nietzsche. Pelo menos em teoria. Uma vez ele estava falando umas "nietzschices" na rua. Aí uma senhora virou para ele e passou o maior sermão. Ele ouviu tudo pianinho, pianinho. Só depois que ela foi embora ele começou a reclamar. =) Pior que todo fã enjoado do Nietzsche que conheço é mais ou menos assim. O último com quem eu conversei (off-topic: dou sorte com malucos; meus amigos vivem me sacaneado por isso :-)) ficou indignado pra cacete só porque eu chamei o Nietzsche de "solteirão maluco".

Liz, concordo com tudo o que você disse. O que está no fundo disso é um orgulho enorme. Você se afunda porque se coloca como responsável pela própria salvação. Pode ser pela via sentimental ou racional. Não importa. Sempre vai estar na periferia da experiência religiosa. É que você se bota no centro dela na verdade. Uma inversão completa. Daí para o ateísmo é rapidinho.

Olha, detesto quando alguém diz que não gosta da Igreja porque se acha muito limpinho. É de perguntar: "Quem você pensa que é?" Pergunta honesta mesmo. Prefiro até quem diga que admite odiar a Igreja do que quem fica em cima do muro.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Tava não, Linda!

Mas este teu texto foi inspiradíssimo!
Juro que vou escrever uma "continuação".

Bjocas!