Friday, April 04, 2008

Alemanha-Brasil (II)

M. F. dos Santos:

Um professor alemão, o primeiro a iniciar-me nos estudos de Filosofia, conhecedor do nosso povo, costumava manifestar-me a sua admiração pela inteligência de nossa gente. Para ele, que percorrera tantos países, que ministrara lições em tantas universidades e escolas do Ocidente e do Oriente, era o brasileiro o aluno mais vivo, mais inteligente, mais sagaz no raciocínio, e de mais profundas intuições que conhecera. No entanto, punha uma restrição. Julgava-nos demasiadamente inquietos e desequilibrados quanto ao conhecimento. Afirmava-me ter encontrado grandes valores, homens de capacidade extraordinária, mas, em muitos aspectos, falhos de certos conhecimentos elementares, que eram como abismos por entre cumes de montanhas. Atribuía esse desequilíbrio à natural pressa dos povos americanos e à falta de disciplina mais rígida no trabalho. Nessa época, considerava eu as suas palavras um tanto exageradas. Mas, com o decorrer do tempo, e através de aulas e inúmeras conferências, palestras e debates que empreendi, verifiquei assistir ao meu velho e venerado mestre uma grande soma de verdade.

Atribui-se esse nosso defeito ao autodidatismo a que todos sem exceção, neste país, estamos sujeitos. Sempre fui admirador dos autodidatas, porque um estudo apurado da história e da biografia dos grandes homens, revela-nos que entre os maiores criadores, o número de autodidatas é sempre maior do que daqueles presos a uma escolaridade rígida, quase sempre prejudicial à capacidade criadora.

Não seria, porém, esse apenas o fator decisivo, pois outros poderiam ainda ser propostos. (Filosofia e cosmovisão, Prefácio.)

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