Saturday, March 15, 2008

Livros (II) - Paidéia: A formação do homem grego


Comecei tosca. Indiquei um livro bobo só para ilustrar uma fase da minha vida. Mas aí veio uma dúvida. Seria melhor eu indicar em seguida a leitura que me serviu de antídoto ou escrever sobre algum outro livro? Escolhi a desordem. Até combina com o jeito que topei com esse livro que vou comentar hoje.

Uma voltinha. Sou uma pessoa mais ou menos curiosa. Minha curiosidade está bastante ligada ao que me dá na telha no momento. O que me dá na telha é muito, muito caprichoso. Um exemplo. Pode acontecer de repente me dar vontade de saber fazer um tipo de bolo enquanto estudo. Me dá o maior comichão até eu saber como fazê-lo! A curiosidade pode ser atiçada de fora também. Se você me indicar um livro legal, se der eu vou lê-lo. (Internet é boa nisso. Dá para pesquisar um pouquinho.) Pode de repente não dar. Ele vai ficar na minha cabeça. Qualquer tema serve. Agora, se eu achar que o livro é a maior viagem, esquece. É quase impossível para mim ler (e escrever) um assunto que não me interesse. Pode ser o assunto mais fácil do mundo. A minha má-vontade fará questão de me emburrecer. (Não reclamo. Louvo.) Um amigo me emprestou um livro que dizia alguma coias sobre Jesus ter ligações com Buda. Não li. Tenho raiva de quem leu. O assunto não me pareceu razoável. Não é qualquer coisa que vou ler, né? Você pode pensar: "Ai, que preconceito!" Respondo via Dom Ortega. Só os bichos é que encaram uma coisa como se fosse a maior novidade do mundo. Sem prevenções. (Dom Ortega dizia que era coisa de orangotango (é sério, ele fez essa comparação bem legal) encarar uma coisa com a cabeça "desanuviada".) Soy tonta pero no monita! Mas vamos lá. Por acaso, durante uma conversa, alguém falou de um tal de Werner Jaeger. Falaram que era um cara que tinha escrito uns negócios legais sobre os gregos. Só essa referência vaga ficou na minha cabeça. Eu estava começando a me interessar pela cultura grega sem muito motivo. Aí um dia eu estava perambulando na rua quando vi vendendo um livrão preto chamado Paidéia: a formação do homem grego. R$70. Folheei. Quase babei no livro. Tinha pouca grana. Eu estava com um amigo na hora. Fiz carinha de pidona. Deu certo. Juntamos a grana e compramos.

Cara, vou te contar... Só de deitar na cama e folhear de novo esse livro, fiquei enfeitiçada. Agora já são quase dez anos de relacionamento estável.

Olha, posso garantir que esse é um dos livros que mais me influenciaram. Tem gente que acha isso esquisito. "Pô, um livro acadêmico influenciar a vida de alguém? Como assim?" Na minha opinião, não existe isso de "livro acadêmico" X "livro pessoal". O que importa é se ele é bem foda. Fora que a própria estrutura do livro pode influenciar também. Não sei se fui clara. Eu só sei que nunca mais larguei o osso. Quer dizer, o tijolão. Mais de mil páginas. Cada uma vale a pena. Esse livro foi uma tremenda auctoritas (naquele sentido de expandir os horizontes) para mim.

Qual é a desse livro?

É o seguinte. O título e subtítulo já são uma belezinha. Já dá para ter uma noção do assunto do livro. O Werner Jaeger enxergou o esforço pedagógico constante na história dos gregos. Eles sempre consideraram o problema da educação como uma das coisas mais fundamentais. Mas se fosse só por isso, não haveria uma diferença tão radical entre o esforço que eles fizeram e o de outros povos sobre o assunto. O problema então é mais complicado. O ponto era a formação do homem a partir de um ideal de homem. Povo nenhum desenvolveu esse tema. Muito menos teve consciência dele. O assunto pode ser encontrado nos épicos mais antigos (Homero), nos poetas arcaicos (Tirteu, Píndaro), nos políticos (Sólon, Demóstenes), nos médicos e filósofos (Hipócrates, Platão), nos dramaturgos (Sófocles, Ésquilo), nos retóricos (Isócrates), nos historiadores (Tucídides, Xenofonte)... em qualquer grego que fosse culto. Jaeger lembra que homem culto, segundo Frínico, é um sujeito maduro que ama as letras. Esse ideal pedagógico não foi considerado desde o início tão às claras como foi depois. O termo "paidéia" não é encontrado em nenhum documento anterior ao séc V a.C. que chegou até nós. E a noção mais antiga desse termo se refiria à educação de meninos. Quer dizer o Jaeger forçou a barra? Não. A idéia de formação pode ser encontrado no termo areté, que vem dos tempos da Grécia heróica. (A formação do Homem arcaico ou pré-clássico tem como ideal o kalos kagathos. É o nobre grego. Esse ideal estava fundado na noção de areté. A kalokagathia é a cereja do bolo de qualquer nobre. A noção de formação estava implícita nisso tudo. A paidéia compreende isso. É por esse motivo que dá para traçar a história da educação já no período arcaico.) Pode-se dizer que o cume (ou um dos) desse pensamento seria Platão. Seria possível decompor o ideal educativo platônico de um jeito que cadas parte indicaria um episódio da história do desenvolvimento espiritual da Grécia. Platão seria o máximo do processo. Abriria também trilhas nunca exploradas. O livro pode ser lido como um ensaio introdutório a Platão. E pode ser também a história do desenvolvimento espiritual grego.


É bom deixar uma coisa clara. Pode ser um desenvolvimento espiritual. Mas é um processo histórico. Não dá para esquecer disso. É que sempre existe a tendência de se petrificar as idéias gregas. Como se tudo já nascesse prontinho. Também existe a confusão entre as descobertas de idéias eternas e os processos que conduziram a elas. Uma coisa é tomada pela outra muitas vezes. A história grega acaba virando uma história petrificada. É o choque de retorno de encarar a Antigüidade como clássica. É verdade que ela tem muito a oferecer. Mas só o Elvis morreu. O processo espiritual ainda está vivo. Com a óbvia diferença de estar vivo em e para nós. É por isso que é necessário encarar esse desenvolvimento espiritual grego (o problema da formação) como tensão entre fatos concretos e leis eternas. Seria melhor dizer que é uma tentativa de harmonia. Para os gregos, era um consenso contemplar essa tensão e buscar soluções. É como Fênix uma vez disse a Aquiles sobre a findalidade da educação: "Proferir palavras e praticar ações." Isso quer dizer que a formação do grego tinha que ser plena nesses dois campos. Não eram coisas separadas. (Dá até tristeza pensar nas coisas como são hoje...) E ainda tem mais. Essa tarefa foi encarada de frente por livre-pensadores. Todos a serviço da comunidade. Não era função de sacerdotes. Isso também separa os gregos de todos os povos orientais. Esse esforço só faria sentido se fosse em nome do bem comum. Isso explica em parte o que levou Platão a considerar a educação tão importante para a república. Mas em situações históricas bem concretas e perigosas os gregos sempre fizeram o possível para educar o povo. Demóstenes fez das tripas coração para conscientizar o povo (por favor, não entendam isso num sentido pejorativo) das ameaças das tramóias de Filipe da Macedônia. Como ele era político de verdade, tinha que ser ao mesmo tempo educador. Não que ficasse ensinando o pessoal a contar ou recitar uns poemas enquanto o Filipe fazia o possível para conquistar a Grécia. Demóstenes não era um babaca. Ele buscava explicar ao povo a situação para que ele pudesse ter consciência do que estava havendo. A educação tem por fim o aperfeiçoamento da comunidade.

Como sou toda "explicadinha", quero ainda dizer o que é paidéia. Só para deixar mais claro. Ela não é apenas educação, no sentido de desenvolver a inteligência, formação erudita ou aquisição de uma técnica. Ela é a formação do homem como um todo. O desenvolvimento máximo de suas potencialidades é o seu objetivo. Ela busca torná-lo de fato aquilo que ele é, através de um processo pedagógico. É um esforço enorme. O objetivo não é formar o homem para ele agir isolado. O homem só poderia viver isolado se fosse um deus ou um selvagem (copyright by Aristóteles). A paidéia não tem nada de individualista. (Por isso o Platão está por cima da carne seca. Ele deu um tratamento grandioso nele. Juntou o que havia de mais elevado na condução da comunidade (o político) e no saber (o filósofo) e bolou a idéia do rei-filósofo. A formação deveria ser rigorosa também com os outros cidadãos. Acho que dá para sacar uma coisa implícita nisso tudo. Os gregos sempre tiveram atenção para o homem e para as leis da realidade. Até as suas teorias físicas vão desembocar nesse problema da formação do homem.)

No livrinho Cristianismo primitivo e paidéia grega, W. Jaeger disse que desejava investigar os desenvolvimentos da paidéia nas obras dos autores cristãos antigos . A contribuição grega foi tão grande que os padres da Igreja a absorveram. O assunto daria muito pano para manga. Ele publicou o livrinho para dar algumas indicações sobre o tema. É Pequeno e excelente. É dividido em poucos capítulos. Ele trata no começo de São Paulo. É a coisa mais legal do mundo perceber de fato o helenismo de São Paulo. No post Atendendo aos leitores comento bem de leve esse livro.

Taí o assunto do livro.

Ele teve uma influência tremenda em mim. Dá para dizer influências.

Vou começar pela mais superficial. É que tomei jeito e fui ler alguma coisa dos gregos. Mas aí você de repente pode perguntar: "Ah, estudar clássicos é superficial, é?" O negócio é o seguinte. Precisa do Jaeger para começar a ler literatura grega? Pois é, não precisa. O contrário pode ser. Talvez ajude um pouquinho ter alguma noção da literatura grega. Pelo menos saber alguma coisa do alfabeto grego. Mas não é nenhuma sangria desatada. Eu não tinha lido quase nada daquele povo antes. Foi por causa da Paidéia que acabei me interessando. Serviu de incentivo. Seria uma beleza se a gente já conhecesse, sei lá, Xenofonte ou Demóstenes desde a escola. Não é isso o que acontece. Então o livro me ajudou a sair do marasmo. Fui ler as obras de alguns dos caras citados ao longo das páginas. Algumas dessas "leituras gregas" foram fundamentais.

A segunda influência ainda é meio circunstancial. Acho que eu disse no outro texto da série eu mencionei que gosto de saber a história do que gosto. Pois é, com os gregos foi a mesma porcaria. Eu não sabia quase merda nenhuma deles. Fora que o Jaeger mesmo disse que a paidéia não era uma coisa exterior ao Homem. Quer dizer, ela tinha os pés fincados na história. (Uma curiosidade. Os gregos achavam que o Alexandre era mais filósofo que o Zenão. Por quê? Não é difícil de entender. Alexandre fez na prática o que Zenão só concebeu na teoria. Esse negócio de viver no mundo da lua sozinho não é o que os gregos entendiam como vita contemplativa.) A história dos gregos e a paidéia caminharam juntos. (Por sinal, noção de história atrelada à política é muito grega. É reflexo da paidéia.) Essa perspectiva me ajudou (e tem me ajudado) horrores enquanto eu lia (e leio) algumas coisas da literatura grega.

Uma outra influência. O livro do Jaeger apresenta um monte de idéias que os gregos foram descobrindo. Areté, sophrosyne, hybris, diké, ate, tyche, kairós, kalos kagathos... e paidéia. Tudo isso ficou girando dentro da minha cabeça. Algumas leituras (Sófocles, Ésquilo, Platão, Homero...) me ajudaram a compreender melhor essas idéias. Ler numa peça de Eurípides referência claras a ate é bem mais legal que saber tudo abstrato. A idéia que pegou mesmo foi (podia ser diferente?) paidéia. Estou dizendo com tudo isso o seguinte. Certas categorias do pensamento grego foram se tornando familiares para mim. Outro dia mesmo eu estava vendo um filme e ficava dizendo: "Ih, olha, isso tem cara de hybris". (Mas se você não tiver cuidado, você não vai sair impune da festa. Se você levar até as últimas conseqüências um negócio como a Necessidade, está ferradaço.) Também aconteceu de eu entender certos fenômenos históricos como readaptações de alguma coisa grega. Acho que foi a primeira vez que eu tive mesmo consciência história (mas no sentido de fazer comparações entre várias épocas). Um exemplo. O prudhomme medieval (no séc. XI) tem algumas semelhanças com o kalos kagathos da época da Odisséia (e posterior). É engraçado que a evolução semântica desses termos é um pouco parecida. Aconteceu uma mudança durante a Idade Média parecida com a que aconteceu na Grécia arcaica. O "cavalheirismo" se tornou o ideal de qualquer homem educado, mesmo quando os nobres cederam lugar aos burgueses. Uma universalização semelhante ocorreu com a kalokagathia na Grécia. Esse ideal elevado de homem se deslocou de uma pequena aristocracia para grupos maiores. A época guerreira cedeu espaço para a época cortesã. A noção de cortesia se generalizou depois. (O homem ideal das damas provençais ("valente e cortês", "prou et courtois") lembra demais também o nobre grego. (Menelau seria um bom partido no séc. XII.) E Jaeger diz que o kalos kagathos está bem próximo do gentleman do séc. XVIII.)

A principal influência foi mesmo o problema da formação. Ele me chamou demais a atenção. Antes eu vou dizer um negócio. É que foi um problema bem sensível para mim. O pessoal da minha geração de repente é o que tem mais consciência da porcaria que é a nossa formação. Falar mal de escola e faculdade já está virando piada batida. Quem já topou com filosofia hardcore (estou falando de Platão, Aristóteles, gente que nem esses velhinhos) percebeu que educação faz parte da formação. Isso vai muito além dessa história de ir bem no vestibular e tirar um diploma. Vira e mexe eu topo com algum blog de alguém da minha idade dizendo mais ou menos a mesma coisa. Reclama com razão. O chato é que virou moda falar mal da educação. Esse falatório acaba confundindo tudo. Lugar-comum pode ser bem escroto. Mas meu ponto é o seguinte. Se eu estiver certa, o pessoal da minha geração está percebendo que tem que dar um jeito num problema muito complicado. A gente não tem papai nem mamãe para nos ajudar. Vamos ter que resolver isso na marra. Ninguém quer nem tem que inventar nada. O trabalho é colocar as coisas nos trilhos. É uma questão de sobrevivência. Vou dar mais pitaco. Nós, estudantes, sofremos na pele o problema da formação. Moral e intelectual. É um problema que a gente se deparou e que precisamos dar um jeito. Natural que a gente se sinta sensível a qualquer coisa que pareça boa nessa via. Agora que preparei o caminho, posso dizer o seguinte. Esse livro foi muito bom para mim porque é ótimo e gostei. Mas existia (e existe) essa circunstância que acabei de comentar. Não tem como. Surfei nesse Zeitgeist numa boa. Ainda surfo. (Taí um termo legal de usar. No ônibus: "Aí, surfei no maior Zeitgeist." Depois fumar.) De um jeito ou de outro, fui empurrada para esse livro. Aceitei. Adorei. Mas não que ele vai de repente salvar a cocada-preta. Mas é gostoso ver formação espiritual dos gregos passar de página e página como se fosse um desfile. Abre pelo menos a cabeça para uma coisa que aconteceu e ao mesmo tempo é ideal. (Ser histórico e ideal foi uma coisa que só os gregos souberam fazer.) Aí, depois de fazer essa "segunda navegação", retornar para o Brasil-2008 com algum tipo de coisa na cabeça como projeto esboçado. (Método de exorcismo: mostrar a Paidéia para algum pedagogo.)

Esse negócio de formação acabou me interessando mesmo. Existe uma ligação direta entre esse meu interesse e Mortimer J. Adler. (Pois é. Adler foi outra baita influência. O ideal que ele tinha de formar cidadãos de alto nível está bem na linha da paidéia grega.) Gilson entra na roda, mas não de um jeito direto. Podia citar outros caras legais. Mas chega. Não vou ficar citando um monte de livros que tenham a ver com história da educação. Quero só dizer que essa trilha foi aberta para mim graças ao Jaeger.

Danke schön, mein liebster Jaeger!

11 comments:

Anonymous said...

Essa é boa. Jaeger, não é? Bem, Jaegerzão está lá na estante, aguardando um recomeço naquela segunda série de diálogos platônicos (Jaegerzão foi interrompido por causa de Musil, que por sua vez está rapidamente interrompido por causa de René Girard, mais ou menos como uma história dentro de uma história dentro de outra história, e que bom que você não desgosta de parêntesis grandes!!!).

É impossível não chegar junto de Jaegerzão sem ficar amigo. Eu passei horas imaginando como deveria ser encantadora a figura dele: um alemão estudioso dos gregos, naquele gabinete escuro, uma escrivaninha de cedro, estantes escuras cheias de livros e o indefectível abajur verde. Claro que devia ter seus problemas. Talvez ele tivesse bafo ou não gostasse de tomar banho, e parece que, de noite, resmungava palavras meio incompreensíveis (kalos kagathos !!!! kalos kagathos, mein liebe !!!!), o que dava sustos em sua mulher e contribuiu um pouco para a relação distante entre ele e seus filhos, o que, por sua vez, parece que foi uma das razões pelas quais o pequeno Jaeger tornou-se um espeleológo.

Falando sério. Jaeger é ótimo e o mais surpreendente é panorama que ele dá de todo o pensamento grego justamente pela chave pedagógica, entendendo-se pegadogia naquele linha que você descreve. (Eu ia fazer um comentário sexista mas desisti, para mantermos uma boa conversa, hê-hê.)

Comecei Jaeger depois do Geovani Reale (os dois primeiros volumes) e fiz uma promessa de que nos próximos 10 anos só leria os gregos, coisa que, como você viu, não se concretizou.

Bom post.

NO.

(vou ter que digitar agora nada menos do que 9 letras...)

Anonymous said...

Outra coisa: tinha várias questões muito interessantes e inteligentes para comentar sobre a Paidéia, sobre Werner Jaeger, sobre os gregos. Mas confesso que me esqueci.

Valeu

No

Tanja said...

Quem tinha bafão era o Bertrand Russell. O Sartre era sugismundo. (Momento candinha, by Paul Johnson. Parênteses grandões são bem legais, a propósito. :-P) Mas olha, esse negócio de "scholar" é muito legal sim. Só não sei se a gente aqui no Brasil tem vocação para isso. Nossa praia talvez seja mais o ensaio que o eruditismo (no bom sentido). (O Antero de Quental (acho) dizia que Portugal era assim também. Sei não. Aquela "História de Portugal" em vários volumes parece evidência em contrário...) Outro dia eu estava pensando sobre essas coisas depois de ter lido um texto sobre o Barzun lá no New Criterion.

De qual livro do Reale você está dizendo? Aquele "História da filosofia antiga"?

Isso de "agora só vou ler os gregos" é que nem promessa de fim de ano. Fui nessa também. Só que o mundo me desviou... Pior que oportunidade tenho de sobra para ler essas coisas. Na Internet está cheio de material. Até que continuo lendo, mas não do jeito que queria.

(Caraca, você tinha saído de um tijolão para outro! Só não sei se o Girard entra nisso. Esse negócio de pular de livro em livro parece até quando a gente está na Internet. Pula de link em link.)

Tanja said...

(Faltou dizer que "kalos kagathos" é uma idéia legal. Mas que palavra feia. Céus. Acho que declinando (meu grego é uma titica, sorry) pode ficar "kalon kagathon". Carão Cagadão.)

Sobre comentário sexista e Grécia, olha, vou confessar uma coisa para você. Adoro de paixão os gregos. Só que sou leitora mais ou menos ressentida. Escreveram uma pancada de coisas sobre areté? Ótimo! Mas sempre parece coisa só de homem. Admito que pode ser um momento filisteu...

Anonymous said...

Tijolões tem a vantagem econômica de me fazer evitar comprar livros em curto espaço de tempo. Musil e Jaeger é coisa para mais ou menos uns 8 meses sem livraria, salvo um lançamento de PD James ou um Rex Stout que eu eventualmente não tenha (aí ninguém resiste).

Mas Girard não é tijolo. Por coincidência acabei de acabar a parte do livro em que ele analisa justamente as tragédias gregas, mais detidamente em Édipo Rei. Se entendi bem, é alguma coisa relacionada ao significado da vítima sacrificional diante da indiferenciação geradora da violência contagiosa.

Mas taí um bom tema. O que seria uma areté especificamente feminina na grécia? Como a paidéia se definiria em termos femininos ? - se é que essas perguntas fazem sentido na ótica grega. Confesso que esse negócio de "papel da mulher" me cansa um pouco. Mas tratando-se dos gregos, e desde que o resultado não seja algo do tipo "valorização a mulher contemporânea", pode ser interessante.

Sim, o Reale é o "História...". O primeiro volume são os pré-socráticos e Sócrates e o segundo é só Platão. (Foi a primeira vez que entendi o que os pré-socráticos queriam dizer quando reduziam os fenômenos a "fogo", "água", "átomos", etc. Talvez eu seja meio burro, mas sempre achei idiota que alguém, fosse macedônio, eléata, jônio, prussiano ou nhambiquara achasse que tudo era "fogo". Enfim, belo livro.) A questão platônica das doutrinas não escritas, que o Reale defende com unhas e dentes, parece muito bem colocada, para dizer o mínimo. Mas talvez ele tenha forçado um pouquinho a barra....sei não.

Esse negócio de declinação é um perigo. Quando resolvi estudar theco - sim, é verdade - desisti depois que descobri que eles tem 138 declinações. Talvez nem tantas. Foram as declinações que me impediram de me aprofundar no russo (mas eles têm menos do que os thecos). Do latim, só brocardos jurídicos (ius publicum est quod...). Do grego, nada.

Beijos

NO.

Anonymous said...

Outra coisa que dificulta minha vida com as declinações é a lombar. Desde que, depois de um spinning mais ousado, tive uma contratura na região lombar, cada vez que declino a coisa tende a ficar meio ruim. Declino, declino, declino, e depois para subir dói para burro.

Valeu

NO.

Tanja said...

Não que não existisse nada sobre areté feminina. Lá na "Paidéia", o Jaeger dá algumas indicações. De memória: descrição da Helena na "Ilíada", algumas obras de Xenofonte... É possível encontrar várias coisas legais na "Economia doméstica", do Aristóteles. Nesses dois últimos casos, sempre é o que é necessário para a mulher ser uma esposa virtuosa. Indiretamente em algumas obras de Xenofonte (através do puro exemplo, como no "Agesilau", mas posso estar enganada), diretamente na do Aristóteles. O Hesíodo disse alguma coisa do tipo "se queres uma mulher virtuosa, eduque-a". Ou algo assim. Mas "paidéia-paidéia" mesmo, sempre parece coisa de menino. :-)

Para saber se existe uma areté feminina, seria bom saber: o que é a mulher? A alma dela é diferente da do homem? Em que sentido? Coisas assim. (Acho que quem entendeu melhor essas coisas foram alguns românticos, sobretudo Goethe. O "feminino" era uma coisa que chamava muito a atenção dele. Não que na Idade Média não existisse algo assim também.)

Agora, tosco é quando aparecem umas maluquetes cismando com essa história de opressão contra as mulheres. O feminismo começou mal quando teimaram com o problema da participação política. Às vezes acho que éramos mais livres há um século e meio do que agora...

Tanja said...

Por isso que tem que ter um personal training próximo. :-) E quanto mais estiver velhinho, vai ficar mais difícil de declinar. Vai acabar declinado de um jeito que não sobe mais. :-P

Pô, o Reale é bonzão. Só entendi melhor a teoria das idéias por causa dele. Valeu a ajuda também do Mário no "Pitágoras e o tema do número". (Por sinal, o que me levou a lê-lo foi que me dei conta de que não sabia direito o que era um número. Acredita?)

Nunca li nada do Girard. Todo mundo elogia. Acho que você é o segundo cara que entra aqui no blog e menciona o Girard. Que livro é esse que você está lendo?

Anonymous said...

Bom, certas coisas têm que permanecer de modo que mantenham sua inteligibilidade. Mulheres, por exemplo. Não parece razoável que as mulheres fossem algo assim tão diferente na grécia, na idade média, ou atualmente. Algo, algo de absolutamente essencial, deve ter sido idêntico nesse tempo todo. Acho (é chute) que sempre deve ter havido algo como uma areté ou uma paidéia feminina, mas o mais provável é que essas considerações ou elocubrações não nos tenham chegado tão acabadas como chegou a areté e a paidéia especificamente masculina. Muito embora nada nos tenha chegado assim tão acabado.

Que a mulher e a virtude feminina sempre existiram, acho fora de dúvida (não consigo pensar o contrário), malgrado suas eventuais adaptações culturais mais remotas. Ou então a humanidade era inteiramente gay.

As referência suas do Jaeger, nesse particular, são indiciárias mas não especialmente conclusivas. É provável que houvesse, realmente, algo como uma paidéia feminina, ou uma versão doméstica dela - sem sacanagem.

Mas tem que conhecer muuuuuuito os gregos para dar um pitaco nessa área. Minhas leituras diletantes não me permitem arriscar tão longe.

Estou lendo o clássido "A Violência e o Sagrado", de 1972. Até aqui muito bom. Já tinha tido contato com ele num debate a que fui em 2000, lá na Faculdade da Cidade, envolvendo o próprio René Girard, Olavo de Carvalho, Leonardo Boff, Gerardo Mello Mourão e Mary Del Priolli. Foi uma delícia. Era um debate em razão do lançamento do livro "Um Longo Argumento do Princípio do Fim" - também encontrado nas melhores livrarias do ramo.

Também gostei muito do Mário naquela questão pitagórica do "número" não como quantidade mas como essência. Li muito o Mário. Mas, ao contrário de você, retive muito pouca coisa, e jamais poderia fazer uma digressão tão boa como a sua. Mas o didatismo do Reale é realmente impressionante.

Mas, sim, Girard. A tese dele é espetacularmente simples: a violência como origem da religião, a qual, por sua vez, funciona como freio-motor desse ímpeto irracional. Embora simples, a coisa traz consequências impressionantes, que eu não saberia reproduzir. Melhor você ler o livro.

Falta muito para ficar velinho....embora eu nunca tenha sido fã do punk, tive já o meu momento AC-DC (dá-lhe Angus!!!), hê-hê. Mas mesmo assim tem que maneirar na malhação. Amanhã é dia de dar uma volta na Lagoa !!!

Beijos

NO.

Agnon Fabiano said...

Boa informação. Estou lendo o livro...
Grato.

Anonymous said...

Fica a sugestão de leitura sobre mitologia grega do escritor Julio Brandão. Aceito outras sugestões no e-mail atamarozi@ig.com.br

Falou...