Tuesday, March 04, 2008

Livros (I) - Punk - Anarquia Planetária e a Cena Brasileira


Já estou um tempinho sem escrever sobre livros. Só escrevi rapidinho sobre um do John Lukacs e um do Paulo Francis. Vou fazer uma coisa diferente e igual ao mesmo tempo. Vou escrever sobre livros que me influenciaram. Não só isso. Vou escrever também sobre algum que tenha a ver comigo em alguma época. Claro, um que eu tenha lido, né? O critério não vai ser a qualidade. É tudo subjetivo. Vai ser mais desculpa para eu falar de mim mesma.

Não vou seguir nenhum critério cronológico. É por isso que resolvi começar com um livro besta que li quando tinha uns 17 anos. Na época achei muito legal. O nome dele é Punk - Anarquia Planetária e a Cena Brasileira. Pode dizer, você fez uma carinha de nojo. Por que fui logo arrumar esse livro? Porque na época eu adorava essas coisas, ué!

Quando a gente é mais jovem, quase sempre tem algum fanatismo. Quase sempre uma babaquice. Meu fanatismo era punk rock. Nem sei como comecei a gostar. Minhas recordações são vagas. Sei que numa época eu nem ligava muito para música. De repente ouvi Queen por causa de uma amiga (eu tinha, sei lá, uns 15 anos). Aí pluft! Do nada fiquei só ouvindo punk rock. Eu era a típica fã do quanto-mais-toscão-melhor. Achava que era coerente. Se o estilo era sujo, então polir demais estragaria tudo. O caminho que me levou até bandas de hardcore finlandesas tipo Kaaos foi coerente. É por isso que tipos como Avril Lavigne eu jamais agüentaria. Blink 182 eu achava podre, e olha que estava parando de gostar tanto de punk rock.

Calhou de um amigo meu comprar o livro. Meu olho cresceu. Não comprei. Peguei emprestado. Eu sempre tive a mania de gostar de organizar as coisas na minha cabeça. De preferência partindo de um ponto de vista histórico de tudo. Você vai perceber conforme eu for citando alguns livros depois. Assim, meu gosto por esse tipo de música me fazia procurar sua história. Caraca, eu não o largava! Achava tudo bom pra cacete. (Comentário na época: "Visceral!") Conheci mais um monte de bandas por causa dele. Conheci melhor o "cenário nacional". (Confissão paralela (rá, não parece nome de banda?): quando uma aula era chata, eu pegava um caderno e começava a rabiscar nomes de bandas. Putz, gastava páginas...) O livro parecia mais legal por causa de umas coincidências. Rolou na mesma época um documentário sobre punk rock num cineminha no Leblon. Fiquei lá assistindo e pensando: "Pô, que nem no livro, que legal!" (Ok, não é a reflexão mais profunda já feita.) Passaram na mesma época num canal de TV por assinatura um especial apresentado por um guitarrista que nem sei mais quem era. Era um programa sobre um show que reuniu uma porrada de bandas. Tinha lá Sex Pistols, The Clash, Siouxsie and The Banshees, The Buzzcocks... Isso tudo aí é o equivalente punk da literatura do século de ouro de Roma. O básico estava todo ali. Concentrado. (Nunca gostei muito dos Sex Pistols. Só gostava de umas fotos do Sid Vicious, porque eu achava o cara engraçado. Quem não sabe quem é, ele está na capa do livro. As outras bandas eu gostava demais.)

Hoje penso o seguinte. Meio esquisito essa coisa de um fenômeno aparecer tão concentrado. Depois vêm os epígonos. É como se no auge de uma coisa você já sacasse o fim, entende? Ah, mas deixa isso para lá.

O cara que escreveu o livro se chama Silvio Essinger. (Acabou escrevendo um livro sobre a história do funk. Tanja mais nova iria detestar o que vou dizer. Acho coerente. Depois de um tempo, concluí que o punk tem coisas muito parecidas com o funk. (Não estou me referindo ao estilo musical, seu burrinho!) Sei lá se o Silvio pensou assim também. De repente quis faturar uma grana. Mas não estou a fim de dizer as semelhanças. Não agora.) Ele é jornalista. O livro é de introdução. Leitura rápida. Leve. Dá para notar que foi escrito com prazer. Isso é bom. Tem gente que escreve parecendo que está com dor de barriga. Como se estivesse quase fazendo nas calças. Fica se contorcendo, todo preso. (2/3 do estilo empolado acadêmico pode ser explicado pela teoria da dor de barriga.) O Silvio não era assim. O assunto já não era complicado. Querendo então informar o básico e com vontade... Era uma beleza! De repente hoje (pô, são quase 10 anos desde que o li) eu acharia uma bosta o livro. Escrevo com as impressões da época. Quase um trabalho de memória.

Olha, parar eu não parei de ouvir esse tipo de música. Não por completo. A diferença é que hoje ela está na periferia do meu espírito. Eu sei, parece uma expressão meio enjoada essa "periferia do meu espírito". Só que não tem outra melhor. Posso dizer de outro jeito. É chiclete. Masco, jogo fora, fica por isso mesmo. No pacote não vem a "ideologia punk". Mas peraí. Quero dizer uma coisa antes de comentar esse negócio de "ideologia punk". Minha, hm, "atenção musical" foi deslocada porque passei a ouvir coisa melhor. Sim, é verdade. Vou dizer por experiência própria. Educação tem muito a ver com hábito sim. Esse negócio de aprender a gostar é verdade. Se você não criar o hábito, está lascado (eufemismo para o fodid..., sabe como é). Não sei explicar muito bem. Esse hábito é engraçado. Você precisa se conformar com o que está lidando. Se você não for uma pessoa aberta, não vai conseguir entender o que faz uma coisa ser melhor que a outra. Se você sabe o que significa ser moldado por uma coisa sabe o que estou dizendo. O chato de usar esses termos ("pessoa aberta", "criar o hábito", "ser moldado") é que viraram chavão. Ninguém mais sabe do que se trata. Mas parece tão bunitcho! Fazer o quê? Temos que nos virar. A gente precisa recriar dentro de nós muitas das experiências que envolvem essas coisas para entendê-las. Isso significa ter alguma consciência do que faz isso ser bom e aquilo uma merda. (Vou dizer um negócio. Essa história de ouvir música ou ler com o coração é a maior furada.)

Êta parágrafo confuso! Adiante.

"Ideologia punk". A influência foi dupla. A principal é o lema "do it yourself". Sei que não precisa de punkismo nenhum para entendê-lo. Só que é bem característico do movimento punk (e pré-punk). Todo mundo que participa disso pensa assim: "Pô, se quero fazer uma música, vou lá e faço." Pode sair tudo uma titica. Não importa. Se você puder fazer, faça. É por isso que é comum esse pessoal se juntar, criar banda, revista, showzinhos e tal. Você pode reclamar porque tem horas que é melhor não fazer nada do que fazer um lixo. Ok. Mas o ponto é outro. Ninguém com esse pensamento na cabeça fica choramingando, querendo que tudo caia prontinho do céu. Esse negócio de chegar e criar um blog sem nem querer saber de nada é bastante punk. "Do it yourself". Só não digo que é uma atitude libertária porque esse termo é equívoco pacas.

A outra influência tem ligação com isso. Se você leva a sério o "do it yourself", você vai acabar desconfiando da política. Essa história dos Sex Pistols dizerem "God save the Queen/Her facist regime/They made you a moron" ou do Dead Kennedys fazer uma música chamada "California Über Alles" (dois hits eternos do estilo) tem a ver com essa desconfiança. Governo parece uma porcaria que só serve para encher o saco. (Os caras do LewRockwell são uns punks de terninho.) É por isso que eu acho que o movimento punk pode ter relação com um liberalismo hardcore. Não precisa ser anarquista. Mas aí é que está. A coisa desanda porque nego acha que o problema no fundo é a autoridade em si. Na vida política, a autoridade estatal. Na vida privada, a autoridade do papai e da mamãe. Isso é a liberdade hipostasiada! Ela se torna independente de tudo. Cai na categoria dos primeiros princípios. É loucura!

Estou enrolando. A influência secundária foi o seguinte. O que passou a me incomodar era a autoridade pública. A idéia de o Estado ser um homem enorme (by Hegel) me parecia grotesca. (Sonho: The Stooges tocando lá onde Hegel dava aula até ele mudar de idéia.) Não é que o Estado me parecesse malvadão. Ele me parecia uma coisa meio estúpida. (Outra confissão: digo para meus amigos que se o Estado for um homem enorme, é que nem aquele grandão do Mad Max III. Um cara enorme, musculoso e retardado, controlado por algum anão.)

O Estado e o político montado nele. À esquerda, ao fundo, o cidadão oprimido.

Claro, o problema da autoridade em si também me incomodava. Isso foi uma bela merda. Falo sem nenhum exagero que essa história de ser contra autoridade envenena a alma. Demorou um pouco para eu entender que autoridade é vital. Repito: vital. (Assunto para um outro post.)

Como é que um estilo musical se torna uma maneira de viver? Bizarro. É ídolo naquele sentido da Bíblia. "Mais que um estilo de música, punk é atitude" é uma frase babaca... Outra coisa. Como é que se pode levar a sério umas merdas dessas? Eu devia estar muito chapada. Não é possível. É aquela história do pacote. Você carrega um gosto musical E uma postura de vida. Er, postura de vida? Nada. É uma caricatura de vida!

Sempre lembro do São Paulo: "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom." Pois é. Se eu continuasse nessa onda, eu enlouqueceria. Veja a Madonna. Ela não é punk. Mas olha só como ficou! Outra coisa. Pode ter sido uma bizarrice minha assumir toda essa postura. Só que foi quando era mais nova. Não é desculpa. Até demorei para sair dessa. Agora, seria bem pior para a minha cara se eu entrasse nissa hoje. Pô, não sou nenhuma coroa, mas também já passei dos 17 anos faz um tempinho! Conheço umas pessoas que só com 20 e muitos desbundaram. Aí vira a bizarrice da bizarrice.

1 comment:

Igor said...

Ahhhh! O pior é que fiquei com a impressão de que eu poderia ter escrito muitas das linhas desse post. A diferença é que não li o livro.
Abs,