Sunday, February 10, 2008

Variedades

(Sem PC; Fora de casa; madrugada; post escondido no computador dos outros.)

Reli há semanas atrás O afeto que se encerra, Paulo Francis. Divertido como de se esperar. Instrutivo também. Dois motivos em especial. Um é por causa do assunto do livro, ele mesmo, PF. Outro para confirmar que (Karl Marx+Freud) x juventude = embananamento cerebral. Cura? Milagre. Ok, sei que você sabe disso. Só que é meio, sei lá, chatinho ler um cara que você gosta dizendo que "toda a classe média brasileira é culpada pela miséria". É como se o cara que você adora de repente soltasse um punzão na sua frente. E não foi só aquilo! Tinha mais desses negócios. Houve algo como "quem desceu o cacete nos nazistas foi a URSS". Só faltou chamar de "a gloriosa pátria da Revolução". Como, ô Francis? 20 milhões de mortos é lá triunfo militar? (Nota: ninguém tira da minha cabeça que um monte de milhões aí desse total foi marca Stálin. Deve ter mandado matar uma porrada de gente e colocado na conta do Führer.) Nem existiram bombardeios ad nauseam no Reich pelo visto por parte dos Aliados. (Melhor não dizer nada sobre os milhões de soldados que desembarcaram na África, Itália e França.) É tão melhor ler o que ele tem (tinha) para dizer sobre teatro, sobre jornalismo, sobre um montaréu de coisas! Disso você entendia, amigão! Pois é. Um pouco triste esse desperdício.

Mês foi bom também porque li Cinco dias em Londres, John Lukacs. Esse é historiador dos bons. Eu já o conhecia pelo ótimo O Hitler da história (a Espectadora recomenda). A tese é que se não fosse Churchill naquela semana crucial em que assumiu o governo, com Dunquerque e tudo, a Inglaterra poderia se ver forçada a pedir penico. Muito legal o movimento político no Gabinete de Guerra. Poderiam fazer um filme. De repente até fizeram. Lukacs conseguiu também articular a reação popular diante dos acontecimentos da guerra. Povo sempre sabendo tudo com delay. Normal. Surpreendente (para esta Espectadora ignorante) foi a importância de Chamberlain nisso tudo. Para mim ele tinha sido aquele mequetrefe que entregou o ouro em Munique. Nada. Era um homem sério. Surpresa das surpresas: alguns achavam que Churchill tinha medo de Chamberlain. Ah, e o Império? Churchill pensou que o que importava era a existência da Inglaterra. Achou também que ela serviria como inspiração para a resistência mundial contra o nazismo. (Se a Alemanha tivesse invadido a Inglaterra, é bem certo que veríamos algum tipo de Stalingrado também.) Os derrotistas (embaixador americano incluso) pensavam em se salvar entregando tudo de uma vez. Achavam que era melhor depender da Alemanha do que serem destruídos. (O embaixador achava que era melhor entregar a Inglaterra a entrar numa guerra furada.) Legal mesmo foi o cálculo político do Churchill. Considerou que a Alemanha era mais perigosa que a URSS. Era um perigo mais imediato e a longo prazo mais inquietante. Não caiu na conversa de a Alemanha ser a guardiã do ocidente contra a barbárie comuna. Se aliou com os comunas, mesmo não gostando deles. E o homem era vidente! Churchill 1950 circa: "Daqui a 30 e poucos anos, acabará o comunismo no Leste Europeu". Batata! Só não sou lá muito chegada à idéia do Lukacs de que nazismo não tem nada, mas nada a ver com comunismo. Hm, isso é outro conto. Seguirei leitora entusiasmada dele. Estou louca para pegar O duelo e A última guerra européia. Ah, uma observação. Ele conhece muito, muito mesmo, Hitler. Ponto para ele.

Estive namorando as memórias do Goethe. Dei uma pausinha. Goethe é o tipo de escritor cuja inspiração desliza ao longo das páginas (by Juliás Marías, em parte). Não tem só frases legais aqui e ali. Há páginas e páginas magníficas! É como Georges Bernanos ou Robert Musil. Em As afinidades eletivas (livro bom e ruim ao mesmo tempo), há mais frases que páginas boas. Só que são frases, vocês me perdoem, fodas. Como: "Todo o gênio está ligado ao seu século através de algum defeito". E: "O maior consolo do medíocre é saber que o gênio não é imortal" (meio lesco-lesco, eu sei, mas dá um tempo, está cheio de filisteu por aí). Ou: "Não há nada que demonstre melhor o caráter de uma pessoa do que aquilo que ela acha ridículo". E uma tirada quase olaviana: "A boa pedagogia é justamente o contrário das boas maneiras". Olha, o Goethe pode ter umas idéias, hm, bem bizarras sobre religião e tal. Continua sendo "o cara" para mim. Tem um detalhe importante também. As personagens femininas são tratadas com elevação. Pega a Ifigênia em Táuride e vê. Não tem nada a ver com feminismo boboca ou aquela literatura-boteco ou literatura-domingo-de-futebol. Dá alívio perceber que ele é um cavalheiro sem (muitas) frases feitas.

E o Carnaval. Tenho um livro lá em casa do René Guénon, o esquisitón que achou very cool morar no Cairo em vez de ficar em Paris com aquelas coisas horríveis tipo Sainte-Chapelle, Louvre e católicos. (É coisa muito típica de europeu moderno, se meter no cu do mundo porque está cansadinho da civilização moderna.). Se chama "Os símbolos da ciência tradicional". Há um capítulo sobre Carnaval. Fiz questão de anotar num papelzinho os nomes de outros llivros que estão na orelha desse: "O yoga espiritual de São Francisco de Assis"; "Cristianismo zen"; "Buda e Jesus"; "O evangelho esotérico de São João"; "O cristianismo esotérico"; "O cristianismo místico". Pela porta dá para imaginar como é a casa. Essas coisas são engraçadas. Li faz tempão um livro do Frithjof Schuon, uma coletânea de artigos. Era legal. Na época não estranhei nada. Mas era um tal de falar de Islamismo... Esse cara é o Rambo dos chamados estudos tradicionais. Deram (ou se deu) uma missão secreta e precisava usar os músculos (do cérebro) para completá-la na marra. Mas o negócio que eu queria dizer é que acho bem bizarra essa salada exótica. Pô, se é chique ser oriental, Cristo apareceu no oriente também! Se você parar para pensar, Ele é bem exótico. Não precisa de indianos ou ocidentais, bem, exóticos. Pega um cara sensato como Chesterton e leia que nem doido os livros Ortodoxia, São Francisco de Assis ou São Tomás de Aquino para você sacar qual é o ponto do Catolicismo. Acho que tinham que ter oferecido um exemplar de qualquer desses livros para o Guénon. Então, para que você vai viajar 15 milhões de quilômetros para falar com algum Rami-rami-rami-rami se ali na esquina tem o padre João preste a te dar uma forcinha? Se o motivo for uma coisa mais diferente, o que não falta é ordem religiosa diferente. Olha, esse negócio de ficar com turbante e conversar com mestre sufi ou meter um negocinho brilhante no meio da testa e falar de energia, ou morar com xamãs do raio que o parta é comigo não.

O Carnaval me fez pensar também em como deviam ser umas belamerdas (é, tudo junto, que nem belonave) aqueles festivais greco-romanos. Minha imagem das dionisíacas é a seguinte. De repente aparecem uns doidos carregando um pintão esculpido no meio da rua. Aí começam a falar merda e sacudir o pintinho deles para todo mundo. Tocam alto uma música ruim. Nego bem louco, enchendo a cara. Festa como dizem que rola em baile de Carnaval. Só que a céu aberto, em procissão, não procriação, em homenagem a um deus. Tinha coisa pior por aí (por aí = fora da Grécia). O Xenofonte disse que uma vez estava com um exército mercenário na Ásia e aí eles toparam com várias tribos estranhas. Ele dizia que em uma delas (vou citar tudo errado de cabeça, ai ai) as pessoas "agiam juntas como se estivessem sozinhas e sozinhas como se estivessem juntas". Donde eu concluo que... Bom, é isso aí que você está pensando. Se eu botar na conta as músicas gregas antigas que ouvi num programa ano passado, wow! Foi mal aí Jaeger, Willamowitz-Moellendorff, Snell, Vernant e patota. Eu iria surtar bonito na Grécia sem nem querer saber de mané Paidéia, milagre grego e tal. Sou mais o Brasil. Ainda bem que a Grécia c'est fini. A gente aproveita o que sobrou de bom sem passar por aquela coisa toda. Tirando a gente ter que aturar Platão escrevendo aquelas coisas horríveis sobre viagem da alma e outros detalhes, está tudo bem. (Tá bem, estou sendo escrotíssima.)

Update: É Vernant (dãã)!

5 comments:

Carlos Kramer said...

Salve!

Gostei desse texto! Mas queria saber mesmo é se somos parentes, pois o sobrenome é igualzinho, apesar de eu freqüentemente negligenciar o trema. Certa vez o Pedro Sette Câmara me perguntou isso, eu vim, vi teu blog e não li; deixei pra depois e acabei esquecendo. Mas hoje, dando uma bisbilhotada nos links dO Indivíduo, acabei caindo aqui novamente. Vou colocar nos favoritos pra não esquecer mais.

Grande abraço e parabéns pelos textos.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Oi, Linda =)

Também adoro seus textos, vcs sabe disso. Qdo eu crescer vou escrever como vc =)

O Bernardo tá ótimo! Segunda-feira que vem entro no quinto mês! Parece que não, mas junho tá chegando...

Bjus enormes!
Te cuida e fica com Deus.

Anonymous said...

Excelente, menina, excelente !!! E, quanto à Grécia, ainda tinha aquela "pegação" gay na acrópole...Dizem os historiadores, aliás, que os vinhos daquela época parece que eram uns suco de uva alcoolizados e meio avinagrados. Já pensou cruzar na rua com um Platão da vida e o cara resolve te pegar para cristo: "fulano, descobri que quando a alma encontra o Uno...." Chatão.
Parabéns pelo blog.

N.O.

Ramalho said...

Também gostei do post, muito bom, muito bom. Mas, engraçado, se fosse de um homem, eu ficaria entediado.

P.S.: Eu não sei o que isso quer dizer, apenas me ocorreu que seria assim.

Tanja Krämer said...

Carlos, apareça aí (aqui, oops) mais vezes, obrigada! Agora, não tenho (que eu saiba) nenhum Carlos (ou Karl) na família. (Momento Tiny Toon: "Não somos parentes!" :OP) Ah, o trema. Não sou eu sem ele =). Oi, Evelyn! Que bom que o Bernardo tá bem! (Nome de santo porreta.) Obrigada pelo elogio, fiquei toda-toda :^D! N.O., ri muito do seu comentário, brigada! Ei, Ramalho, que bom que gostou. Gostei do seu comentário aleatório. =)