Wednesday, October 31, 2007

Revolução russa

Dizem que a as revoluções devoram seus próprios filhos. É um daqueles chavões verdadeiros. No caso da URSS, verdadeiros até demais. Veja o que Paulo Guedes escreveu sobre a maravilhosa revolução libertadora do proletariado (em O Globo, 29/10/07):

25 de outubro II

"A Rússia da década de 20 permanecia um país em guerra consigo mesmo. A revolução fracassou em eliminar as iniqüidades que a haviam provocado. Ninguém sabe quantos morreram. Qualquer contagem aponta números catastróficos. Considerando somente as baixas da guerra civil, do terror, da fome e das enfermidades, chega-se a algo em torno de dez milhões de vítimas, sem contar os cerca de dois milhões que emigraram. Morrer na Rússia era fácil. Merecer um funeral digno, prerrogativa para poucos. Os serviços fúnebres haviam sido nacionalizados. Para enterrar um ente querido, era necessário enfrentar uma longa lista de exigências burocráticas. Havia também falta de madeira para fazer os caixões. Cadáveres eram velados em ataúdes alugados, nos quais lia-se a inscrição ‘Favor devolver’, devidamente esvaziados na hora de baixar o corpo à terra.”

O historiador Orlando Figes, de Cambridge, foi um dos primeiros a vasculhar os arquivos da Revolução Russa de 1917, quando estes foram abertos aos pesquisadores no fim dos anos 80. Sua monumental narrativa, “A tragédia de um povo: A revolução russa 1891-1924” (1996), dá uma detalhada descrição do episódio da Grande Fome de 1921-1922.

“O maior de todos os males da época, responsável pelo extermínio de cinco milhões de vidas, foi a Grande Fome de 1921-1922. A fome transformou as pessoas em canibais. Esse foi um fenômeno muito mais comum do que os historiadores admitem. Na Bachkiria e nas estepes em torno de Pugachev e Bzuluk, onde a falta de alimentos era aguda, verificaram-se milhares de casos.”

“Um homem condenado após ter devorado várias crianças confessou: ‘Em nossa aldeia, todos comem carne humana, apenas não revelam. Há inúmeras tavernas na vila, e todas servem pratos à base de crianças’. Na cidade de Pugachev, não era recomendável que crianças pequenas andassem pela rua à noite, pois havia bandos de canibais e negociantes que as matavam, para consumo próprio ou para vender a carne num comércio abjeto.”

Esses testemunhos são possivelmente a base factual histórica responsável pelo folclore segundo o qual os comunistas comiam criancinhas. Mas, prossegue Figes, “caçar e matar pessoas para comer era praxe”.

“Na região de Novouzenski, havia também grupos de crianças que assassinavam adultos com o mesmo objetivo. As mães, desesperadas em dar de comer aos filhos, cortavam pernas e braços dos cadáveres. Roubar cadáveres de cemitérios tornou-se tão comum que, em muitas regiões, guardas armados vigiavam os portões.”

“As pessoas se alimentavam dos próprios parentes. Na aldeia de Ivanovka, próxima a Pugachev, uma mulher foi flagrada devorando a carne do marido. A refeição estava sendo dividida com o filho do casal. Quando as autoridades policiais tentaram jogar fora o que ainda havia no prato, ela gritou: ‘Não, ele é nosso sangue, e ninguém tem o direito de levá-lo de nós. Precisamos dele para nos alimentar’.”

Os economistas de boa estirpe sabem que é apavorante a desorganização de um sistema produtivo, uma engrenagem descentralizada responsável pela alimentação de milhões de pessoas.


Esses episódios se repetiram anos depois. Leia isso. É sobre o terrível genocídio na Ucrânia através da fome. Choca porque a fome foi usada como arma de destruição.

A revolução bolchevique foi uma catástrofe. Porque o comunismo é apenas isso.

Sunday, October 28, 2007

Turks set cars alight in Brussels

Lá na Europa parece que o negócio agora é berrar alto. Depois tem que fazer cara de coitadinho. Se você botar pra quebrar e ao mesmo tempo vier com papo de ser uma vítima de não-sei-o-quê, vão passar a mão na sua cabeça. Mesmo que você faça muita, muita merda.

A Bélgica é o maior exemplo. Para variar. (Isso que dá ter um monte de pedófilos no governo.) Dessa vez os turcos ficaram putinhos e saíram quebrando tudo e atacando os curdos que moram também por lá. Antes eram os marroquinhos que faziam as arruaças. Mas eles não perderiam a oportunidade de fazer alguma coisa! Em Amsterdã, queimaram carros e esfaquearam os outros. (Queimar carros virou moda. Apunhalar pode virar marca. Cortar a cabeça é marca exclusiva daquela gente perturbada do Iraque. Homem-bomba é palestino. Se bem que antes era coisa de vietnamita. Só gente boa.)

Por essas e outras prefiro ficar no Brasil. Aqui também cortam cabeça, apunhalam, ferram com os carros... só nunca ouvi falar em homem-bomba. Mas tem uma coisa. Se houver a III Guerra Mundial, aqui deve ser o último lugar onde vai cair um míssil nuclear. (Hm, imagina o recomeço da civilização a partir do Brasil...)

Notícia sobre as arruaças saiu no Brussels Journal. Parte mais legal: "Apparently, some Turks think that by attacking the Armenians in Brussels they can convince the world that the Turks never committed a genocide of the Armenians." Esse Paul Belien é um cara muito legal.

Turks Set Cars Alight in Brussels
From the desk of Paul Belien on Wed, 2007-10-24 23:21

Tonight (Wednesday evening) heavy rioting erupted in Turkish quarters of Brussels, the capital of Belgium. Buses and trams were attacked. Several cars were torched and shops destroyed. Police forces were unable to restore law and order in the boroughs of Sint-Joost-ten-Node and Schaarbeek where since last Sunday the animosity among Turks is running high. Turkish flags are omnipresent. In some streets the Turkish crescent and star adorns almost every house.


The Turks’ anger was provoked by rising tension with Kurds along the Iraqi-Turkish border and by the debate in the American Congress about the Turkish genocide of the Armenians in 1915. On Sunday night Turkish youths in Sint-Joost destroyed the pub of Peter Petrossian, an ethnic Armenian who had to flee for his life. Apparently, some Turks think that by attacking the Armenians in Brussels they can convince the world that the Turks never committed a genocide of the Armenians.


Tonight the youths attacked Kurdish shops. They also set fire to several cars.


Belgium’s Muslim population consists mainly of Moroccans and Turks. In the past rioting Muslim youths were mostly Moroccans. The Turkish community is controlled by the Turkish embassy. The latter used to restrain the Turkish population so as not to upset the Belgian authorities and thwart Turkey’s chances of EU admission. This policy seems to have changed recently. In Antwerp, too, Turkish youths demonstrated tonight.


The events in Brussels indicate that in admitting large numbers of immigrants Belgium has also imported the ethnic quarrels of the Middle East.


Meanwhile in Amsterdam, the capital of the Netherlands, Moroccan youths have been burning cars for more than a week now. Today a 15-year old Amsterdam schoolboy was stabbed by youths. The boy survived the attack but is seriously wounded. On 11 October a 16-year old Amsterdam boy was stabbed to death in school. On 4 September a similar incident occurred in the Belgian city of Ghent where a 14-year old Belgian boy fought for his life after being stabbed in the throat by two immigrant youths from his school.

Monday, October 15, 2007

Você costuma olhar o céu?

Você costuma olhar o céu? Eu olho. Quase o tempo todo. Paixão platônica. Mas a janela do meu quarto tenta mutilá-lo. Ciúme caseiro. Quer que eu fique namorando o teto! Adianta? Não. Faço um esforcinho para ver no teto o céu. Mas a imaginação não completa o que falta. Como eu iria imaginar o céu direitinho? Seria fazer comigo mesma o que a janela tenta fazer, mutilá-lo! Completo com o que me lembro mais ou menos. Lembro uns pedaços. O resto deixo que ele me informe do jeito que ele quiser...

Talvez você não saiba. Você pode ser desatento. Já disse outra vez que sou do Rio de Janeiro. Não escolhi onde iria nascer. Como você também. Sou pessoa de cidade grande. Barulho é costume. Muita gente em espaço pequeno pode ser irritante. Ainda assim, é minha circunstância. Preciso de pontes, viadutos, túneis. Tenho que ouvir/ver avião passando. Mas ver animais que não pombinhos na rua me é chocante. (Cavalos, porcos, bois... eles vivem discretos bem para lá e eu bem para cá! Mas gosto de bichos.) Agüento e preciso de tudo isso. Quero dizer, é uma nota essencial minha. Só uma coisa me chateia mesmo. Olhar o céu e saber que tem menos pontinhos brilhantes do que deveria ter. Não. Isso eu não aceito. Podem me assaltar. Podem me perturbar com barulho. Podem engarrafar o trânsito. O costume me disciplinou. Agora, a única coisa que não, não admito, é que me roubem o céu! Ah, isso não! Rio de Janeiro, não posso te perdoar...

(Blackouts às vezes são bem-vindos... Você acha paradoxal eu gostar da cidade e ao mesmo tempo fazer birra por causa da luz elétrica? Eu achar mais legal a lua cheia iluminando tudo? Eu enfim olhar o céu e dizer toda contente"ah, agora consigo ver as constelações"?)

Por isso preciso ir às vezes para outro lugar. Tenho que ver o que me roubaram.

E o que vejo mesmo? O passado do Rio de Janeiro. Na verdade não vejo. Finjo ser astróloga e interpreto os astros. Roubaram parte do Rio. Só dá para ver em outro lugar. Olhando para o alto.

O passado. Não sei se eu conseguiria viver nele. Acredito mesmo que não. Não? A cidade era mirradinha. Mas estava aberta para as idéias brilhantes do céu. Podia ser bem magrinhazinha. Compensava em altura. Era bem grandona. A cidade era quase uma modelo. Quase anoréxica. Mas modelo e elegante. Estava com a cabeça lá no alto e olhava de cima. E agora? A cidade engordou muito. Está também achatada. Precisa de exercícios. Precisa se levantar. Está tão esmagada e de cara no chão que qualquer dia desses ainda vou olhar para cima e ver o chão! Que eca!

Vou mendigar um pouquinho para o céu. Talvez ele me empreste Escorpião.

Wednesday, October 10, 2007

Trechinho do Napoleão Mendes de Almeida

O Napoleão Mendes de Almeida escreveu uma nota muito engraçada lá no início da lição sobre métrica em Gramática latina:

Para o "modernismo", nome que engloba o "futurismo", o "suprarrealismo", o "dadaísmo", o "verde-amarelismo" e toda uma longa série de variantes da paranóia intelectual sob que se abrigam revolucionários de ideologias políticas mais do que conceituadores da estética, a arte poética não existe em nenhum idioma: o verso, para esses apadrinhadores e propagandistas do relaxamento, é mero aglomerado de palavras; o poema, simples trecho de prosa com linhas fingidamente distribuídas à maneira de versos. Homens de estudo têm-nos em conta de demagogos das letras, dilapidadores da tradição, destruidores da cultura e -- coincidência a um tempo fatal e triste -- defensores da leviandade, quando não da própria imoralidade.


(Por essas e outras eu disse que não sabia escrever poesia quando escrevi uns negócios por aí, e que não era poeta.) [Agora uma notinha básica. Nunca gostei de "poetisa". Para mim é "o poeta" ou "a poeta". "Sacerdotisa" já soa melhor que "sacerdota". Seria feio assim. Rima com "bolota". E é feio para pronunciar! "Musicista" também não gosto muito, não. Dizer "eu sou uma música" seria poético. Talvez poético demais para uma profissão. É engraçadinho. Sei lá qual feminino seria melhor para "músico"!]

Que legal esse trechinho. É um exemplo dos motivos de sempre ter algum cara falando mal do Napoleão. Eu não acho que ele disse besteira...

Tuesday, October 09, 2007

Che Guevara foi terrorista, assassino sádico e estalinista

Se não fosse um programinha na tv, eu nem ia me lembrar do aniversário da morte do Che Guevara! (Coincidência, nesse final de semana estive lendo sobre Cuba em O livro negro do comunismo.)



Como eu poderia deixar de prestar a minha homenagem? Ó ela aqui, ó, que encontrei por aí.




E um pensamento do Che, lindo de morrer:

Para enviar um homem a um pelotão de fuzilamento, evidência judicial é desnecessária... Esses procedimentos são um detalhe burguês arcaico. Isto é uma revolução! E um revolucionário deve se tornar uma fria máquina de matar motivada por puro ódio. Devemos criar a pedagogia do paredón!


E de um carinha que me esqueci o nome: "Bandido bom é bandido morto".

Saturday, October 06, 2007

Um dia de professor universitário

Outro dia escrevi um texto contando meu dia. Agora vou colocar aqui um do professor José Murilo de Carvalho no mesmo estilo. A diferença é que é a vida dele no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ). Saiu em O Globo, 10/08/1999, p. 7. Em seguida vão uns comentários.

8:00: Chega ao Largo de São Francisco, centro do Rio de Janeiro. Contempla com emoção o belo prédio da antiga Escola Politécnica, onde ensinaram homens como o visconde do Rio Branco, autor da Lei do Ventre Livre, André Rebouças, o grande abolicionista, e Aarão Reis, o construtor de Belo Horizonte. O edifício é hoje ocupado pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

8:01: Cruza o Largo, saudando, no percurso, José Bonifácio, cuja estátua segura nas mãos uma bandeira do MST.

8:02: Chega à rampa do prédio, desviando-se de um mendigo que dorme no chão, obstruindo o caminho. Resiste à tentação de tapar o nariz para se proteger do cheiro de urina e fezes que domina a redondeza.

8:40: Entra na sala de aula. Verifica que não há giz nem apagador. Volta a sua sala para pegar seu próprio suprimento dos instrumentos de trabalho.

8:55: Com metade dos alunos já presentes, começa a aula que dura até 10:20.

12:00: Sai do prédio para colocar correspondência no correio e para comprar um aparelho de telefone. O de sua sala, dividida com quatro colegas, foi quebrado por alguém. Não lhe é difícil imaginar a cena: irritado com a dificuldade de conseguir linha, um usuário menos paciente descarrega a ira no inocente aparelho, que para tal reação não estava aparelhado. Reclamação sobre o dano, feita dias antes, não tivera conseqüência.

14:00: Reunião departamental. O tema principal é a falta de professores. A chefia do Departamento informa que três colegas se aposentaram não podendo ser substituídos por estarem proibidos os concursos. A contratação de substitutos temporários, via Reitoria, está difícil dado o volume dos pedidos. Discutem-se alternativas: cancelar disciplinas, reduzir turmas, duplicar a carga horária dos professores restantes. Alguns professores acusam a política neo-liberal do governo de estar destruindo a universidade pública, outros apelam para o senso de dever dos colegas.

16:00: De volta à sala, recebe a visita de um estranho que lhe entrega uma folha escrita. Fica sabendo que o portador é uma vítima da AIDS e está percorrendo as salas pedindo dinheiro aos professores para custear o tratamento.

16:05: Reunião da Congregação do Instituto. O tema central é a precária condição do velho prédio tombado pelo patrimônio. A direção informa que têm sido inúteis os esforços junto aos órgãos competentes para conseguir sua reforma. O teto está comido de cupins, ameaçando desabar em alguns pontos, a instalação elétrica está velha e deteriorada, o mesmo acontecendo com a parte hidráulica.

17:30: De novo na sala. Entra um aluno. É informado de que alguns estudantes se recusam a cursar sua disciplina alegando terem ouvido dizer que o professor é a favor da escravidão.

17:45: Pega o contracheque na secretaria. O salário líquido de professor titular com dedicação exclusiva, incluindo a recente gratificação de estímulo à docência, é de R$ 3.269,01, ou US$ 1.816,00. Sem a gratificação, cairia para R$ 1.968,41. Lembra-se de que nas boas universidades norte-americanas o salário de um titular fica entre 8 e 10 mil dólares. O único consolo é que o contracheque o classifica de “ativo permanente”.

18:00: Prepara-se para deixar o prédio. No saguão, examina uma pequena exposição de pedaços do teto comido de cupins, de amostras das instalações elétrica e hidráulica deterioradas e da água amarelada dos bebedouros.

18:05: Cruza de volta o largo de São Francisco. Despede-se de José Bonifácio, notando que o Patriarca trocou a bandeira do MST por uma camisa do Flamengo.


Comentários:

  1. Já vi o José Bonifácio segurando bandeira do MST, do Flamengo, do Brasil, com bandana de time na cabeça, com cueca na cabeça...
  2. Nas escadarias de acesso ao prédio há mendigos. Há cachorro às vezes. E o cheirinho... É a mesma coisa na Igreja de São Francisco, que fica quase ao lado.
  3. Tive aulas com o mencionado professor às 8h40. Duas vezes por semana. Dois semestres;
  4. Todos os professores dividem suas salas com os outros. Isso me lembra O Cortiço;
  5. Antes reclamavam da política neo-liberal do FHC. Agora na reclamação só mudaram o nome do infeliz da vez;
  6. No corredor do laboratório que eu freqüentava o reboco quase caía na gente. (Uma vez um pedação só não caiu em mim porque cheguei depois da queda, quando eu estava voltando para a sala.) Mais à frente, uma área interditada. Risco de vida. Em outro setor fica a biblioteca. Ficou um tempão sem funcionar. Os fungos ameaçavam a nossa saúde.
  7. Até eu já ouvi que o dito professor defendia a escravidão. Minha teoria é a seguinte. Algumas pessoas liam mas não entendiam merda nenhuma de um texto que ele passava. Era um do José Bonifácio e era contra a escravidão. O raciocínio dos burros: assunto era escravidão, a elite brasileira gostava da escravidão, Bonifácio era da elite, professor gostava do Bonifácio. Então o Bonifácio defendia a escravidão e o professor era simpatizante dela. (Eu sei que você acha que estou exagerando.) Na aula sempre tinha alguém que pensava assim. Outra coisa. Uma vez ouvi um aluno escurinho dizendo que tomou bomba do José Murilo de Carvalho numa seleção de doutorado só por causa de preconceito. Acho que ele disse um negócio tipo "ele me ferrou porque não gosta de negros". Engraçado que o professor defende ação afirmativa mas é contra as cotas. Pois é.

Friday, October 05, 2007

Dúvida

Eu estava relendo pela enésima vez Sobre el amor. Gosto muito das coisas que Ortega y Gasset escreve. Lá pelas tantas ele diz algo curioso:



con pocas excepciones, los hombres pueden dividirse en tres clases: los que creen ser Don Juanes, los que creen haberlo sido y los que creen haberlo podido ser, pero no quisieron.


Eu nem lembrava mais desse trecho. Ri um bocado! Quase todos os homens se consideram conquistadores? Mais curioso ainda é o que ele diz logo em seguida:



Estos últimos son los que propenden, con benemérita intención, a atacar a Don Juan y tal vez a decretar su cesantía.


Quer dizer então que os Don Juanes que não o foram por opção são os que costumam atacá-lo?

O engraçado é que eu tive amigas assim. Sei lá se era porque pensavam um pouco que nem homens. Quando eu perguntava por que estavam sozinhas, me diziam que era porque queriam. Vai ver que se não quisessem choveria homem! Alguma coisa me diz que esse tipo de resposta tende a acontecer mais com os homens. Mas são esses que mais costumam falar mal dos conquistadores mesmo?

(Por curiosidade, o artigo de onde tirei essas citações se chama Para una psicología del hombre interesante. É que o Ortega quer saber isso, que é o homem interessante? Aquele que as mulheres sempre gostam? Uma observação. Não confundi-lo com Don Juan!)

Tuesday, October 02, 2007

Pe. Leonel Franca

Em A psicologia da fé, p.94 ss.:

Contemporâneo de VOLTAIRE, mas diametralmente oposto a todo o seu estilo, é E. KANT. Lá um polemista sem escrúpulos, aqui um pensador austero. VOLTAIRE, homem de corte e das rodas frívolas das sociedades literárias; KANT, titular de uma cátedra universitária e filósofo amigo do silêncio do seu gabinete. O francês, na sua luta contra o cristianismo, joga com todas as armas que poderão diminuir ou ridicularizar o seu adversário na consideração dos espíritos superficiais; todos os gêneros literários, da história à tragédia, do libelo à poesia, servem simultânea ou sucessivamente à finalidade dos seus intentos; a calúnia e a ironia, o desprezo e o ódio animam as suas páginas de uma nota pessoal viva e contagiosa. O alemão não sabe rir; a sua pena severa não desmente um só instante a gravidade impecável do homem de pensamento puro; toda a confiança da sua influência pretende descansar na força, lenta mas irresistível e definitivamente conquistadora, da idéia.

Separados por este antagonismo profundo de índole, de feitio literário, de formação intelectual, VOLTAIRE e KANT colaboraram na obra funesta da descristianização moderna. Adversário ferrenho de qualquer religião positiva e sobrenatural, o filósofo de Königsberg foi dos que mais contribuíram para a difusão do racionalismo nas classes cultas. Reduzir o cristianismo a simples proporções humanas e encerrar a “Religião nos limites da razão pura” foi, com o título de uma das suas obras, o esforço de uma vida intelectual já madura e fecunda.

Com que preparação histórica e dogmática entrou KANT neste trabalho de tanta responsabilidade? Foi no Fridericianum que o futuro professor de filosofia recebeu a sua formação religiosa. Dirigido pelo Dr. F. A. SCHULTZ, um dos homens mais
influentes de Königsberg, este ginásio passava por um instituto pietista. Sabemos qual a esfera religiosa que aí se respirava. O protestantismo, antes da reação racionalista dos fins do século XVIII, concentrara toda a sua preocupação no problema da salvação pessoal pela fé. Luteranos, pietistas e reformados aqui não divergiam essencialmente. A corrupção completa e irreparável da natureza humana, não já suscetível de uma verdadeira regeneração interior, constituía este pessimismo moral que domina toda a concepção protestante da economia redentora. O que importava era despertar esta confiança nos merecimentos de Cristo, confiança terna e entusiástica, “fé que salva”; o estudo e as práticas de piedade eram orientados para excitar e preparar esta “conversão do coração naturalmente corrupto” e debelar este “mal radical” (das radikale Böse), como o chamará mais tarde Kant (Von radikalen Bösen, 1792). O estudo do dogma ficava assim profundamente mutilado e todo o cristianismo empobrecido nas suas riquezas espirituais. Ao sair do Fridericianum, desgostado dos processos de educação religiosa dos seus mestres, das suas atitudes devotas que ele averbará de carolice e fanatismo, die schwärmerische Religiosität, o jovem Emanuel abandonou para sempre todo e qualquer exercício de piedade. Mais tarde, ouvi-lo-emos incriminar de imoral, a prece; de perversão, a disciplina ascética; de idolatria, a invocação de Cristo. KANT não tolerava, entre os seus convivas, a oração antes das refeições; e ao diretor da cadeia de Königsberg, HIPPEL, pediu que mandasse calar aos presos “hipócritas” que entoavam alguns cânticos religiosos. Com as práticas foram também abandonados todos os estudos cristãos. Kant não conhecia um só dos grandes doutores católicos. S. TOMAS e SUAREZ, que LEIBNIZ lera e louvara, ele nem sequer os havia folheado. Na sua biblioteca, aliás pobre, não se encontrou nenhum dos nossos grandes tratados de dogmática, antigos ou recentes. Quando em 1793 saiu publicada a Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft, havia 53 anos que o professor de Königsberg deixara o Fridericianum e por confissão sua, com exceção da obra de J. F. STAPPER, Grundlegung sur wahren Religion, nada mais lera sobre o assunto. Desinteressara-se por completo da doutrina e da exegese; só lhe sobreviviam na memória algumas reminiscências dos “entretenimentos dogmáticos”, isto é, das piedosas exortações do Dr. SCHULTZ, ouvidas entre os 12 e 18 anos. Durante a composição do seu trabalho, leu uma Gundlegung der christlichen Lehre, isto é, um destes pequenos catecismos populares, então muito comuns na Alemanha e impresso em 1732. Esta leitura permitiu-lhe revestir de uma terminologia cristã o seu racionalismo que nitidamente ressalta em todas as suas linhas através da transparência de um vocabulário de última hora.

Que admira, portanto, que pululem a cada passo as confusões mais deploráveis, a respeito de quase todos os nossos dogmas? Sobre a eficiência dos sacramentos e o primado do Papa, sobre o probabilismo e a organização da Igreja romana, sobre a fé e a graça, KANT erra decompassadamente. Onde uma doutrina católica lhe vem ao bico da pena, exposta ou criticada, ressalta, manifesta e incontestável, a sua total ignorância. Nem lhe ocorre o escrúpulo mais elementar de uma simples verificação. A sua instrução religiosa não passa o nível da de um preparatoriano de todo esquecido das suas primeiras noções da doutrina cristã. Se qualquer de nós escrevesse sobre o budismo ou o Kantismo, com esses processos de informação ou documentação, todo o mundo científico o desqualificaria irremediavelmente. Dir-se-ia então que, a doutrina católica ou domínio religioso é uma terra incógnita, exposta às arbitrariedades do primeiro ocupante?

Disparatadas

Pensei que no fundo cada um fosse só. Como? Você veio ao mundo através de alguém. De duas pessoas. Mas você quer viver solitário. Verdade? Mas se Deus é Trindade, por que você busca solidão?

Deus não vive só. Nem você nasceu sozinho.

***

Lembro até hoje muito bem de uma esquisitice que conversei uma vez com um amigo.

Eu:"Você já parou para pensar no que significa existir Deus? Em alguém que é tão imenso que faz com que a gente em comparação seja quase nada? Para ser honesta com você, às vezes me dá calafrios até chamá-Lo pelo nome."

Ele riu. Perguntou o motivo.

"Já teve a experiência de observar algo imenso? Como o mar? Quando percebo a imensidade dele, eu me sinto esmagada. Me dá medo. A mesma coisa a lua. Me dá vontade de me esconder debaixo da cama quando de repente me dou conta de como ela é imensa, antiga... Pior se descobrisse que ela tem uma vontade, pensa!"

Acho que às vezes a gente se esquece um pouquinho que Deus dá medo também...

***

Muita gente não entende que só dessacralizando a natureza é possível fazer ciência. Quando alguém diz que o cristianismo não é compatível com a religião, esquece que foi graças a ele que a crença num mundo dessacralizado se disseminou. Como também a crença de que tudo na natureza tem uma origem divina acabou. (Um exemplo. Ninguém mais acha que trovões são obras de um deus.)

Antes do cristianismo havia ciência? Havia. Mas era praticada por gente que tinha uma opinião ou atitude religiosa diferente da comum. Eram quase sempre mal vistos. Por isso viviam somente entre si.

Graças ao cristianismo, acabou a confusão entre um mago e um cientista. Como confundir os dois? Se o mundo não tinha mais um poder mágico a ser manipulado, não havia mais a necessidade de um mago.

É por isso que em todas as épocas em que a natureza é divinizada direta ou indiretamente, florescem os ocultismos da vida.

***

Tenho percebido que se dois brasileiros se juntam para conversar sobre o Brasil, a conversa sempre vai ser uma mistura de risos e choradeiras.

***

Li por aí que os animais devem ter direitos. Olha, eu adoro bichinhos. Mas se eles tiverem direitos, quais seriam seus deveres? Vão pagar imposto também ou serão a classe mais privilegiada que já existiu no mundo?

Vão ter que mudar o significado da frase "ele foi tratado como um cachorro".

***

(Acho que do Diógenes Laércio. Estou citando de cabeça.)

O lacaio apresentava a Aristipo todo o esplendor da casa de seu amo. Foi quando então Aristipo lhe deu uma escarrada no rosto. Perplexo e indignado, o lacaio lhe perguntou por que fizera aquilo.

- Desculpe-me, mas é que tudo nesta residência é tão esplêndido que o único lugar onde eu poderia escarrar sem maculá-la era em teu rosto - respondeu Aristipo.

Crítica decente

Não fiquei reclamando das críticas de um filme outro dia? Agora olha aí a crítica decente do Pedro sobre o filme "Cem pregos".

Você pode reclamar. Pode dizer "pô, o Pedro viajou na maionese". Só não pode reclamar que ele é mais um que adora chamar os outros de reacionário/fascista/revolucionário e pronto. (Acho lindão aqueles críticos que moram no Leblon travando lutas contra o fascismo.) Nem pode reclamar que ele tem mau gosto. Como o sujeito que ficou reclamando do pessoal aplaudindo um filme comento pastel de carne moída e tomando uisquinho. Esse sim tem mau gosto!