Sunday, September 30, 2007

Reflexões depois de um showzinho

É que não disse antes. Escrevi o post anterior correndo. Estava para ir a um showzinho.

Me deu vontade de escrever umas coisinhas que pensei durante e depois do show. Outra hora termino aquele post.

Olha, antes eu levava muito a sério coisas como moicano, jaqueta de couro, a palavra underground. Claro que eu não usava moicano, mas respeitava quem usava. Teve uma vez que até (confissões da Espectadora) escrevi a letra de uma musiquinha. Ditadura de veludo. Já que sou eu mesma que estou me sacaneando, vou colocar só um pedaço do refrão. Me esqueci do resto.


Ditadura de veludo
Tênis Nike e roupa de Menudo.

Ai que vergonha...

Não sei se você está por dentro desse tipo de coisa. É que toda banda de hardcore tem que escrever alguma coisa sobre aquela entidade chamada "Sistema". Às vezes o nome da banda indica alguma coisa do tipo. (Olha, ninguém sabe direito o que é esse "Sistema" direito. Tem a ver com capitalismo mal-interpretado, noções de família mal-interpretadas, religião mal-interpretada, política mal-interpretada. Não dá para chegar para um cara desses e dizer "olha, cara, é que von Mises escreveu um negócio aqui que não tem nada a ver com o que você imagina que seja o capitalismo e tal", ou "ei, Tertuliano já explicou isso aí que você está falando". Haja Espírito Santo em todos nós!) Então, o nome da banda tem que soar forte e vagamente contrário a tudo que está aí. Os nomes parecem de tribo de orcs, tipo Matanza, Ratos de Porão, Olho Seco, Garotos Podres, Força Macabra. Ou Revolta Civil, Agnostic Front, Ataque Periférico, Sociedade Armada. Ou mais bizarro, tipo Uzomi, Zumbi do Espaço, Mukeka di Rato. E toda, toda banda de hardcore que se preze, tem que ter uma letra contra o "Sistema". Pode ser "Municipela" (de Guarda Municipal péla-saco), música da ex-banda de um amigo meu. Pode ser "Crucificados pelo Sistema", dos Ratos de Porão. Pode ser "Papai Noel velho batuta", dos Garotos Podres. Pode ser "California Über Alles", do Dead Kennedys... [Por sinal, essa banda (DK para os íntimos) tem um monte de letras desse tipo. O que acho mais engraçado é que na hora que descobriram uns problemas de pagamento não recebidos, resolveram pedir ajuda ao "Sistema". A confusão foi parar na justiça. Que nem uma vez que a polícia ajudou um dos caras do Titãs. Acho que os próprios polícias ficaram cantando "Polícia". Justiça poética.]

Tem um episódio de Gilmore Girls em que a banda da Lane vai tocar no CBGB. Esse lugar é legendário. No "cenário underground" (para usar um jargão do meio), lógico. É meio feínho. Não digo que é todo escrotão porque esta que vos fala já conheceu lugar pior.

Reminiscências nojentas agora. Uma vez fui assistir a um show em Engenho de Dentro (para quem não sabe, é um desses bairros esquisitos que tem no Rio). Algumas daquelas bandas citadas iam tocar lá. Peguei o 456. Saltei no Méier. Andei por uma rua esquisita ao lado do trem. Dei uma volta enoooorme no quarteirão mais mal-feito que já vi. Cheguei à Casa da Zorra (nomezinho do lugar). Era de noite. Tudo, tudo fechado. Lugar esquisitão. Perto, uns caras fazendo churrasco. A Casa da Zorra era um lugar pequeno, ultra-mal-ventilado. Coloca uma porrada de gente pulando e gritando num lugar sem janela. Dá para imaginar como deve ter sido, não? Olha, teve uma hora que quando olhei pro chão, ele estava to-tal-men-te molhado... de suor! Segunda coisa que nunca tinha visto na vida (a primeira foi o quarteirão esquisito). Acha que acabou? Para terminar bonito, um cara barbudão que estava cantando tirou a camisa e... deu um mergulhão e saiu deslizando pelas poças de suor! Até um amigo meu que era conhecido por ser meio maluco disse alguma coisa do tipo "caralho, mas que cara porco!"

(Ôxi, agora estou lembrando de um outro lugarzinho lá em Copacabana, ali na Siqueira Campos. Esqueci o nome. Eu e umas amigas chamávamos de "cu", porque era pequeno, apertado, quente e às vezes fedorento. Mas não era tão ruim quanto àquele bunker em Engenho de Dentro.)

Na saída todo mundo foi unânime. Nunca mais voltaríamos para lá. E olha que a gente era empolgada! (Para os leigos. Esse tipo de experiência é considerado muito positivo. Alguns gostam do termo "visceral". Outros gostam de fazer comparações com as tronchices do movimento punk na Inglaterra na época de Sex Pistols e tchurma. Fui excomungada uma vez porque disse que os punks daquela época são uma versão inglesa dos funkeiros cariocas.)

Você sabe que os muçulmanos têm que fazer alguma vez peregrinação a Meca. Aqui no Rio, nego que curte hardcore tem que ter ido pelo menos uma vez ao famoso Garage (famoso nesse meio). Senão é "punk de butique", "emo" etc. [São outros termos especializados. E um notinha. Hardcore considerado de verdade é sempre relacionado ao termo "tosco". É por isso que se a qualidade de um cd de hardcore não for pelo menos ruinzinha, os puristas fazem cara feia. Música boa tem que ter algum chiadinho.] Claro que esta que vos fala já foi lá. Uma vez. Assistir a uma bande um amigo. A região é tão doida que primeiro você passa por baixo de uma espécie de ponte de trem e, do outro lado, parece que está entrando numa zona atípica da cidade. Foi a experiência mais próxima que tive de cruzar um portal dimensional. Ou buraco negro, segundo alguns. Existe uma ruazinha por onde passa um monte de táxs correndo. Achei aquilo muito estranho. Por que tanto táxi correndo? Podiam atropelar alguém, a rua estava cheia. Isso supondo que as leis da cidade eram válidas por ali. Quando perguntei a um amigo por que tanto táxi passava por lá daquele jeito, ele me disse que havia um puteiro próximo chamado Vila Mimosa. A folga deles era rápida. Mais perto tinha um bar cheio de motoqueiros. Ficavam na deles, escutando alguma coisa pesada. Resumindo. Um lugar que parecia Mad Max. Eu estava metade contente por enfim conhecer um lugar tão lendário e que só tinha ouvido falar e lido. (Pois é, eu conhecia um livro sobre a história do movimento punk. Diziam alguma coisa sobre o Garage.) E estava metade arrependida por ter me enfiado num lugar como aquele. Teve uma hora que achei que seria melhor eu estar na minha casinha jogando Super Mario. Não me pergunte por quê. Passou rápido. Entramos. Lá dentro não tinha nada demais. Palco em frente. Bar ao lado. Coisas de praxe. Só o pessoal era mais perdido que de costume. Um amigo se meteu num pogo que de longe parecia a Cúpula do Trovão. Saiu meio lascado. Uma amiga minha ainda mais maluca também se meteu. Saiu como entrou, maluca. Um outro amigo, mais esclarecido, ficou me explicando as diferenças entre o pessoal hardcore do subúrbio e os da Zona Sul e tal. Parece que os do subúrbio, que estavam ali em peso, eram os "cariocas do hardcore". Os da Zona Sul eram os "fluminenses do hardcore". Isso parecia explicar a grosseria dos freqüentadores.

Pode parecer que não. Eu tinha gostado de ir e tal. Pelo menos uma vez. Nunca mais voltei...

(Claro que na época eu levava a sério essas coisas. Quer dizer, achava engraçado por ser diferente. Ver um cara de corrente de bicicleta e cadeado no pescoço era divertido. Mas eu achava que no fundo valia muito a pena participar dessas coisas. E só dei exemplos dos lugares mais cavernosos. Havia lugar que era mais direitinho. Tinha um numa rua que agora me esqueci o nome. Perto do Shopping Rio Sul. Acho que nem tem mais show ali. Só que não era uma experiência, hm, "visceral"...)

Hoje fui meio que por ir a um show desse tipo. Ali na Lapa, que aliás não gosto nem nunca gostei. Já não me empolgo muito com esse tipo de coisa. Esse negócio de escutar nego berrando as músicas, mais trinta e cinco pessoas por metro quadrado... Não é mais a minha praia. (Eu poderia contar algumas coisas sobre shows na praia. Deixa para outra hora.)

Fora outra coisinha. Essa atitude "pró-tosquice" eu não gosto. Eu hein, parece culto ao Chavez e Chapolim. Deve ser por isso que uma porrada de gente gosta de usar camisa com o rosto do Seu Madruga. Ou com aquele coraçãozinho do Chapolim. Achar que a graça de uma coisa reside no fato de ela ser mal feita... não me parece nadinha inteligente. Fazer questão de ter mau gosto é bizarro. Nem gosto de atitudes como ser contra autoridades só por ser contra autoridades (a-ha, link para o outro post!). Muita gente nesse meio adora vir falar de anarquismo. É chique usar aquele A de anarquismo numa camisa. Ok, eu já gostei disso. Mas não acho legal ter atitudes destrutivas em relação a tudo. Ainda mais por farra. Se bem que por farra ou não, não acho legal. Pior que sempre nessas coisas acontece algo chato. Ou nego não sabe do que está falando, e aí não enche muito o saco. Ou tem noção, e aí se torna um saco.

Hoje em dia eu acho que a leitura de um negócio do tipo Suma contra os gentios é muito, muito mais hardcore do que toda a obra de todas as bandas punks juntas. Multiplicadas por vinte e cinco! E um cara tipo Jó é muito mais chocante (sei lá se o termo é bom, mas enfim) do que trinta mil Sid Vicious. As Variações Goldberg são bem mais impactantes e transgressoras que toda a discografia de The Exploited.

Esse "cenário underground" e tal não fede nem cheira mais para mim. Acho tudo só uma coisinha engraçada. Não acho que seja indício do fim do mundo. Nem da "dissolução dos valores". (De repente até é. Sei lá. Uma coisa ou outra parece mesmo que sim. Existe alguma maluquice nisso tudo. Outra hora conto algumas coisas muito estranhas.) Nem sei são mais malucos os caras do Sex Pistols ou alguém que fica cismando que eles estão com o diabo no corpo. Também estou muito longe de achar que eles foram mais influentes na história do séc. XX que Aristóteles. (Você pode duvidar. Já discuti uma vez sobre isso. Acho que estavam de sacanagem comigo. Equivalente mais cheio de pose foi quando discuti em outro ambiente sobre quem era mais genial, Aristóteles ou Da Vinci. Acho que argumentei muito mal defendendo o grego. Fui voto vencido. Mas por que nego sempre me empurra o Aristóteles para eu defender?) Tudo isso para mim é tão transgressor ("visceral") quanto chiclete.

Trato essas coisas como trato chiclete.

Tosco e provisório

Vez ou outra alguém me pergunta mais ou menos assim: "Pô, como você pode reclamar tanto de autoridade e respeitar tudo o que a Igreja diz?"

Essa pergunta é engraçada.

Virou costume chamar qualquer um que tem cargo público de autoridade. Só que eu sou chata com essas coisas! É que pra mim, quem possui cargo público tem é poder. Não acho que poder público seja a mesma coisa que autoridade pública. O poder dá idéia da força bruta. O Estado não vai querer convencer a gente através de argumentinhos que temos de pagar imposto. Ele vai exigir. Se você não pagar, está fodido. No máximo, no máximo, vai haver algum fundo de razão nas funções do Estado. Ninguém agüenta ser dominado por um poder maluco. Pelo menos não por muito tempo. Com a autoridade é diferente. Não é só exercer uma função em decorrência do poder. É uma posição de honra que pode ou não ser amparada por um poder. Acho que dá para explicar de um jeito mais tosquinho. O poder você reconhece na marra, por causa da coerção. A autoridade você reconhece por livre assentimento. Mas olha só, nada disso quer dizer que a princípio o poder seja ruim. É da natureza das coisas ele existir. Pode ser uma coisa bacaninha. E só para você ver como tudo é enrolado, o poder tem alguma autoridade. É como eu disse, ninguém suportaria sem o menor problema uma coerção pela coerção. O poder precisa de alguma autoridade para existir. Mas as coisas são muito, muito enroladas! É que a autoridade às vezes precisa do poder também para ser efetivada. Ia ser muito bonito se todo mundo respeitasse uma autoridade só por causa da verdade que ela representa. Não, não é assim que as coisas funcionam.

Não sou contra o poder a princípio. Muito menos contra autoridade!

O Senado romano, quando tinha que decretar alguma lei, se valia da expressão senatus auctoritas. A vontade do povo era a auctoritas populi. Para você ver como essas coisas são complicadinhas. Porque auctoritas pode significar poder também. Aí não está muito errado considerar a autoridade pública uma autoridade...

[Agora vou passear. =) Depois completo.]

Friday, September 28, 2007

Tropa de Elite (comentário de dois comentários)

Hoje foi um dos poucos dias que pude ficar em casa pelo menos durante a hora do almoço. Aproveitei para tirar o atraso da leitura de O Globo de terça (25/09/07). É, amigo... Pode não parecer, mas às vezes até arrumar tempo para ler um jornal é complicadinho!

Vi logo na capa um bafafá por causa desse filme Tropa de Elite. Olha, se você quer saber de uma coisa, bem que eu gostaria de ficar impassível a respeito desse tipo de assunto. Meu negócio é outro. Só que é fogo. É que nem você estar no elevador e, sei lá, alguém soltar um pum. Você gostaria de ficar na sua. Queria chegar logo em casa ou sair para a rua. Você gosta de cheirinho bom. Mas o fedor incomoda muito. Você só fica pensando em quem foi o infeliz que soltou o pum, doido pra reclamar com ele. Essa polêmica é decorrente do pum mental de dois articulistas do jornal. Vale a pena comentar umas coisinhas.

Me chamou a atenção um dos atores se defender de uma crítica infeliz que considerava o filme fascista. Na capa havia uma chamada para outro artigo, dizendo que ele era reacionário. De cara, até confesso que fiquei animada de assistí-lo. Se a crítica considera algo fascista e reacionário, é porque deve ser algo que vale a pena. Há um jeito de saber se um cara que critica alguma coisa vem da terrinha do Golias. É a maneira como ele se sente livre para usar o termo "fascista" das formas mais irresponsáveis. Me deixa explicar rapidinho um negócio antes. Existe alguma coisa como estética fascista. Mas na verdade não é bem estética. É propaganda. Como “arte soviética”. Não é arte, é propaganda só. O valor da obra não é visto por si. Ele é condicionado a pressupostos políticos. Caem os pressupostos, some o valor da obra de arte. Isso é horrível! Se você casa a qualidade da obra com o aspecto político, você tem uma visão propagandística da arte. Seria melhor que você não escrevesse nada sobre o assunto. Agora, só uma curiosidade. Há uma cena do Gladiador que é quase igual a uma de Triunfo da vontade. É aquela em que o novo imperador é saudado pelos senadores, com as tropas em formação ao lado. Não dá para deixar de associar à cena clássica do Hitler e mais uns carinhas andando entre as tropas. Só por isso o Gladiador seria fascista? Se for por aí, daqui a pouco até o Senhor dos anéis é fascista. E nem acho que só porque uma obra foi feita num regime fascista ela não tenha o menor valor. A Chancelaria do Reich *eu* acho um prédio bem interessante. O documentário Olímpia é mesmo muito bom. Até algumas obras do Hitler não são ruins. Existe qualidade em algumas de suas pinturas. Porém é no mínimo duvidoso dizer que elas sejam fascistas, pois quando foram feitas o Hitler não estava nem aí para a política! Mais curioso é analisar do ponto de vista ideológico a obra de um artista sem nenhuma incinação política em especial, ou quando a obra dele não reflete o posicionamento político dele. Um Picasso. Boa parte da fama dele é porque era esquerdista e pintou Guernica. Muita gente gosta dele por isso. Eu gosto dele também, mas não por esses motivos. O curioso é que o Partido Comunista Russo tolerava a posição política dele mas não o estilo... E Richard Strauss, que parece não ter tido opinião de nada a não ser a de aproveitar qualquer oportunidade que lhe surgisse? Deveriam jogar a obra dele no lixo porque se permitiu trabalhar para os nazis? Mesmo não tendo nada que justificasse o movimento nazi em sua obra? Uma parte da antipatia contra ele vem desse tipo de questão. É compreensível. Mas não deixa de ser equivocada. É um problema quando condicionam demais uma obra às opiniões políticas do autor! Só que fazem isso com muita freqüência.

Nada disso quer dizer que o fator “política” sempre tenha que ser omitido. Dois exemplos. A tragédia grega tem relações muito próximas com o desenvolvimento do Estado de Atenas. E também com a transição de um regime político mais arcaico para a democracia da pólis. Antígona é um ótimo exemplo da tensão entre o poder público (Creso) e os laços de parentesco (Antígona). É um problema também político. Eumênides é outra peça que possui uma questão política. O Areópago se converte em tribunal pela vontade dos deuses. A coisa só fica feia quando você hipertrofia a política. De repente, nada mais passa de disputa de partidos. Sinal disso é a intromissão de jargões políticos polêmicos nas áreas mais indevidas. Como gostar de Einstein porque ele é revolucionário, enquanto Newton é reacionário. (Eu tinha um amigo que gostava de brincar com essas coisas. Ele me dizia que havia uma beleza “conservadora”, uma “reacionária” e uma “revolucionária”. Ou seja, havia gente que ELE achava bonita mas sem sal ("conservadora"), antipática ("reacionária") e “exótica” ("revolucionária"), que era o tipo que ele mais gostava.)

Agora uma oportunidade para escrever algo sobre a esquerda. Tudo o que ela faz é político. Ela analisa tudo pela ótica do embate conservador-progressista-revolucionário-reacionário. Eu tinha um professor que me contou que a irmã dele, ao saber que ele estudaria latim, disse que ele estava virando reacionário. Pois é, até estudar língua clássica é atitude contra-revolucionária. Só faltava criarem uma outra Cheka só para prender latinistas!

Voltando à vaca fria. E então o compadre do Golias disse que o filme era fascista. (Mais adiante vou escrever sobre o outro compadre que tachou o filme de reacionário.) Uma pergunta. O filme faz apologia da onipotência do Estado? Outra. O filme prega um nacionalismo belicoso? Mais uma. O filme faz apologia da censura? Agora essa. O filme faz apologia de um salvador da pátria? Mais essa. O filme força a barra para alguma mitologia nacional? Penúltima. O filme critica a “burguesia internacional”, o capitalismo etc? Última, embora coubessem mais perguntas. O filme faz propaganda de alguma elite revolucionária? Se o filme apóia todas essas coisas, então beleza. Está fazendo propaganda fascista. E se não apóia nada disso? Então quem o acusa é no mínimo maluquete! Se você viu o filme, pode responder. Não o vi.

Mas eu nem preciso ter visto para ter uma noção da qualidade da crítica, cujo título bizarro é Tropa de Elite é fascista?. N'O Globo há um texto sobre ela, segundo o qual o autor

chamava a atenção para a heroicização do personagem, que não tem escrúpulos em torturar e apavorar moradores da favela, comportamento justificado (e aprovado por parte da platéia, aos gritos de “caveira”, símbolo do Bope) para vingar o colega assassinado pelo chefe do tráfico no morro. Outro ponto abordado pelo colunista [quase que transcrevo “comunista", no mais puro ato falho] foi o das relações promíscuas entre o tráfico e as ONGs (“organismos-títeres de alta bandidagem”, escreve) que atuam em comunidades carentes – incluem-se aí estudantes universitários de classe média alta, os quais, aponta ele, são o alvo principal do roteiro quando trata de responsabilizar o consumidor final pela guerra que inferniza morro e asfalto no Rio de Janeiro. [Mas ué, e essa gente não tem responsabilidade? O Arnaldo Bloch escreveu isso em tom de crítica negativa. Parece desconhecer uns princípios do mercado. Oferta e procura. Sobre ONGs, não sei. Sempre tive lá umas desconfianças.] E, por último, ele observa que no filme não há uma menção sequer ao assunto que está na ordem do dia [isto é, dentro da pauta da galera de esquerda] quando se trata da questão da violência ligada ao comércio de drogas: o da liberação do consumo. [Quer dizer, ele critica o filme porque mostra universitários de classe média alta que compram droga. Depois o critica por não ter tratado da conexão entre a repressão das drogas e violência urbana. Ou seja, para o A. Bloch, os jovens tinham que comprar drogas à vontade, pelo menos no filme. Como o roteiro não foi esse, o cara ficou chateadinho. Me dá vontade de dizer que parece até que o A. Bloch está advogando em causa própria ou dos cumpichas dele.]

A partir disso que o Arnaldo Boch escreveu, você, você mesmo, ô amiguinho, acha que o filme é fascista? Ou o crítico é um lesado?

Só mais uma coisa sobre a mania de tachar tudo de fascista. É que não foi comigo. Se viessem me chamando de fascista e tal, eu mandaria é tomar lá naquele lugar onde o sol não bate. Pô, que safadeza é essa de sair acusando do nada um filme assim? Um ator chegou a responder de um jeito que eu jamais faria. Ele disse ter sido “instigado pelo bom texto do Arnaldo Bloch sobre a sessão de estréia de Tropa de Elite." Ô cara, acorda! O sujeito escreveu que seu filme é coisa de gente fascista e tal. Gente que trata quem discorda dos lindos ideais deles com prisão e tiro. Ser chamado de fascista é pior que de filho da puta. Aí você diz escreve uma resposta "instigado pelo bom texto" dele? Parece até que o ator é masoquista ou saco de porrada ambulante. É irritante essa mania que muitos têm de buscar a polidez a todo custo. Essa conduta só serve para transformar a gentileza numa fingimento, numa forçação de barra. Essa que teria que ser a resposta: "Arnaldo Bloch, você vai ter que provar por A+B que esse filme é fascista. A crítica que você fez é muito grave. Do contrário, você não passa de um tratante irresponsável que só sabe reagir ao que não gosta dando chiliques histéricos. Antes que eu me esqueça, fascista é a pqp, seu zé ruela!"

Usar com tanta promiscuidade esses termos é sintoma de filisteísmo. Dos brabos. Uma vergonha essa crítica.

Ah, mas a ciranda não terminou por aí! No caderno Magazine do mesmo O Globo, um cara chamado João Paulo Cuenca tentou dar mais um show. Foi na coluna Sobretudo.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer um negócio sobre a foto do caveirão cheio de sangue no piso que estampava a página. Eu não sei quem falou para esses caras que mostrar *a* verdade é publicar foto de um carro cheio de sangue, ou qualquer brabeira do gênero. Eu quase ia dizer que isso é coisa de esquerdista. Só que teve uma vez que no Mídia sem Máscara me fizeram o grande favor de publicar uma foto de um polícia morto com um tiro de fuzil na cabeça numa viatura. Porra, e tem gente que reclama quando eu digo palavrão! Aqui no Rio tinha um jornal que ficou famoso por causa desse tipo de foto. Era O Povo. Sei lá se existe ainda. Mas parece que fez escola. Na tevê é a mesma merda de vez em quando. Fico pensando no seguinte. Será que essa gente que adora mostrar *a* verdade já participou dela in loco? É mole eu dizer que temos que mostrar as coisas como elas são e ficar sentadinha aqui em casa. Ou fazer no máximo uma viagem chinfrim a uma favela perigosa, que nem me contaram que o Paulo Henrique Amorim fez ao Complexo do Alemão. Ou sair ao redor do mundo tirando foto de nego estropiado (que nem aquele carequinha que agora me esqueci o nome.) Dar uma de John Cornwell e dizer que investigou ultra-super-bem os arquivos do Vaticano, para agora dizer que mudou um pouco de opinião sobre Pio XII (e só disse isso depois da enxurrada de críticas ao livro dele, mas pelo menos é um indício de decência). Tudo isso me lembra de um maluco que conheci há um tempinho. O cara vivia me falando que o mundo era uma merda. Que no Brasil havia coisas tão terríveis que ninguém tinha coragem de dizer. Me contava alguma história toda escabrosa sem eu pedir. O mesmo sujeito morava numa cidadezinha bunda onde não acontecia nadinha. Ele vivia bem. Nunca aconteceu nadinha com ele. E teimava em me dizer que tinha visto a verdade e que ela era maligna. Essa gente parece que bebe. Esse frisson é uma reação típica de beatas, só que às avessas. No lugar de se escandalizar com o que viu de longe, sente um furor. Então a beata com espírito de moleca resolve esfregar na cara de todo mundo a causa do furor. Já me disseram que durante a Guerra do Vietnã foi mais ou menos assim. Era preciso assustar “aquelas famílias que se reuniam em frente a uma tevê na hora do jantar”. Note o valor político dessa chantagem emocional.

Mas então. Peguei o jornal na hora em que estava almoçando. Muito obrigada, hein!

Esse Cuenca já revelou o show que daria logo no primeiro parágrafo. De cara ele reclamou da anistia, que “não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos ‘oficiais’” A seguir ele me veio com isso aqui, ó:

Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. [É, eles vivem ganhando dinheiro do governo. Ao contrário daqueles pobretões tipo Heitor Cony, que não ganham um centavo do governo. E os “estupradores, torturadores e assassinos” de esquerda? Um virou deputado federal, outro presidente da Petrobras, outro professor universitário...] Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldades de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.

Cara, o que tem a ver Opus Dei com milicos aposentados? Só consigo imaginar que ele raciocinou (finge que é raciocínio) assim: “Militares são reacionários. Militares são católicos. Igreja é reacionária. Opus Dei é da Igreja. Opus Dei é *muito* reacionária. ENTÃO militares têm ligação com Opus Dei.” Aposto que esse cara só ouviu falar na ordem por causa d'O Código da Vinci e pelo que leu (muito mal) em alguma revista por aí. E “vida que pediram a Opus Dei”? Ai, ai... O que ele quis dizer com isso? A impressão que me dá é que o verdadeiro sentido do que ele escreveu só pode ser captado nas entrelinhas. Só os iniciados no cuenquismo podem entender.

Depois ele voltou a dizer as tolices sobre anistia geral do Brasil, “o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar”. Outra idéia oculta. Os militares seriam os únicos responsáveis por todos os crimes políticos. Porque todo mundo sabe o que aconteceu na história. Aqueles milicos eram um bando de Dom Quixote a lutar durante quase vinte anos contra moinhos de vento comunistas. Claro que não havia terrorista, torturador, assassino, do outro lado. F. Gabeira? Genuíno? Eram idealistas, pessoal! Porque o ideal justifica, apesar de o marxismo dizer que é parte da ideologia burguesa alienante... O pessoal do Partido dos Socialistas Revolucionários da Rússia tinha um raciocínio ótimo. Uma coisa é roubar. Outra é expropriar. Cada ato era caracterizado segundo a finalidade política. O próprio Gabeira, em O crepúsculo do macho, mostrou bem como funciona a cuca desse povo. Ele e os amigos dele roubavam roupas da fábrica onde trabalhavam na Europa para “compensar a mais-valia”. Embora fosse um exilado político borra-botas, o camarada retribuía a hospitalidade que lhe foi concedida por um país estrangeiro com furtos no local de trabalho. E ainda reclamava de ser vítima de exploração econômica hedionda, quando mal precisava trabalhar para se sustentar. Não é lindo esse código moral? Agora posa como crítico do Mensalão e tal... Mas enfim. Para um revolucionário, crime político não é a mesma coisa que assassinato comum. A morte de uma autoridade num atentado seria apenas uma crítica ao sistema político. Qualquer grupo terrorista pensa desse jeito. Quando o iate em que se encontrava Lord Mountbatten, acompanhado de alguns familares e inclusive crianças, voou pelos ares, você acha mesmo que o IRA pensou que tinha praticado um crime covarde contra um homem de quase 80 anos, herói de guerra? Claro que não! Aquilo foi crítica política, propaganda de conscientização das massas para a causa da Irlanda do Norte... Mesmo Lênin só criticava assassinatos por conveniência tática do momento. Também pudera. Ele recomendava jogar ácido em policiais e a prática de atentados.

Só no mundo idealizado (e portando burguês, na acepção marxista) de gente como J. P. Cuenca os militares agiram contra fantasminhas durante vinte anos. Fantasminhas que não hesitavam em roubar e matar.

Tantos absurdos são apenas uma parte da crítica sobre o Tropa de Elite. É bom eu avisar caso você já tenha se esquecido. O que tudo isso tem a ver com o filme? Pois é. Quando um sujeito tipo o Cuenca vai realizar uma crítica, é bom a gente se preparar. É que nem carro de palhaço, onde sempre cabe mais uma coisa. É crítica aos milicos para lá, à polícia para cá, alfinetada no Opus Dei... Mais adiante você vai ver que tem mais. Por enquanto, a introdução foi o salamaleque do bom mocinho. Só agora ele pode começar a escrever, “como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de Tropa de Elite, na última quinta-feira, no Odeon.” Lindo. Quanta reflexão espúria a partir da experiência de uma pré-estréia, hein? Uma pergunta. Só pessoas convidadas puderam participar? Porque não sei como alguém pode dar tanto chilique sendo paparicado. Esse pessoal chique é muito ingrato.

Lá pelas tantas, ele me vem com essa: "o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelo na história do cinema nacional." Observação carrega de filisteíce da grossa! Pô, é muito pedir para fazer uma crítica mais decente? Sem essa babaquice estereotipada? Observações sobre o que é ruim, o que é bom, alguma coisa sobre atuação... Qualquer coisa, menos esse papo-furado de velho caduco. Chega de querer opiniar de cima de um caixote com a mão na cinturinha, por favor. O que é mais engraçado é que parece que o filme lhe provocou algumas dores, porque ele diz assim:

O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o Bope é incorruptível. Só o Bope, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que Tropa de Elite reproduz é cristalina. [Eu que negritei.]

Eu não tomo as dores de ninguém. Nem estou entre os “hipócritas de classe média” nem entre os caras do Bope. Não defendo legalização das drogas nem afirmo que sou contra. Eu sei lá! Só posso dizer que já vi gente se fodendo. Eu tinha um conhecido que de preto virou branco de tão pálido por causa dessas coisas! O mesmo cara passou a vender tudo que tinha. Um dia a mãe dele chegou em casa e descobriu que não tinha nem mais geladeira! Diziam que ele perdia o controle, gritava, essas coisas. Ele era um cara tranqüilão. Ficou pirado. Durante uma época eu achava que tinham que descriminalizar (é o termo da moda) tudinho. Cheguei a tentar convencer neguinho disso. Acho que fui meio inconseqüente e me arrependo. Ideas have consequences. Bom, mas afinal a elite é a classe média e portanto o Cuenca é da elite? Ou existem duas classes hipócritas? O Cuenca é branquinho? A única coisa certa é ele quer passar a imagem de alguém esclarecido. Que audácia a do Bope! Que atrevimento ao lhe considerar um hipócrita de classe média! Supor que ele, tão iluminado, precisa de socorro? Ao contrário! É ele quem está incumbido de nos mostrar a luz, decifrando a lógica do discurso do que quer que seja. Agora, o que significa o termo “lógica do discurso policial”? Tudo hoje em dia virou “discurso”. Qual a lógica disso? Não estou ironizando. O que sei é que existem leis e a polícia é um braço da justiça. Polícia não tem opinião. Segue leis e pronto. Se há algum problema, é no tocante à execução de leis. Não é raro a força policial se ressentir das ações da Justiça. Descontando problemas como corrupção, a relação entre eles é sempre marcad por uma dupla queixa: "nós prendemos os criminosos mas vocês os soltam" e "queremos agir mas vocês atam as nossas mãos". Porém o Cuenca parece ter encontrado um porta-voz oficial da "ideologia policial", ainda que seja um personagem de ficção. É um crítico muito mágico. Na absoluta falta de gente de carne e osso, ele se dá por satisfeito com essa gambiarra. Voilà! O personagem do Capitão Nascimento lhe revela a verdadeira lógica de uma instituição concreta.

Você acha que esses são os principais problemas do filme? Nãããão! O negócio encuenca mesmo quando “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores”. Hm, não resisto a uma pergunta. O cuenca faz parte desse “monstro disforme chamado opinião pública” ou o mal está só nos outros? Veja o meu texto. É uma opinião. É pública. Faço parte da opinião pública? Sou parte do monstro? E qual deveria ser *a* “leitura do filme”, ô bonitão? Uma que não "corrobora esses métodos e valores"? A do nobre Cuencão? E que mania de transformar tudo em leitura, viu. E escrever que “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores” é o jeito mais pedante possível de dizer o simples: "o público se entusiasmou com o filme".

Vou me esforçar para captar a mensagem do amável mestre. O Brasil é um país cheio de bandidos de farda à solta. (Notou que ele só reclama da polícia e dos milicos?) A violência é tolerada pela massa, desde que dirigida contra a ralé. É óbvio que a turba vai delirar com a iniqüidade do filme (porque ser reacionário é mal pra chuchu). Já o mestre é o bebê Johnson do aprumo cultural.

Eu, que sou maligna, vou reclamar disso: "[Tropa de Elite] pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. Vou repetir. A crítica do Cuenca é igual a carro de palhaço. Sempre cabe mais um. Agora é a "geração Cansei”. Que lindeza! Eu mesma não me canso de me espantar com essa crítica iluminada. O que é “geração ‘Cansei’”? E por que o "perigosamente"? Uma coisa é engraçada. Num trecho ele diz assim: “Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe”. É impecável por ser reacionário? Qual a proposta? Se é "impecável no que se propõe", o filme não seria bom? Ou devo entender a crítica assim: o filme é impecável, mas é uma bosta? E se o filme é impecável e conquistou "o monstro disforme da opinião púbica", parece que ele é mesmo muito bom, certo? Não, não. O Cuenca gostaria que todos estivessem reclamando de um filme impecável. Mas afinal de contas o que o J. P. Cuenca está dizendo? Não dá para entender direito. A única coisa que sabe fazer é expressar uma série de associações disparatadas que sentiu durante a experiência mágia da pré-estréia. Reacionários! Milicos! Opus Dei! Monstro disforme! Torturadores aposentados! É como se ele se indignasse tanto que repetisse durante uns vinte minutos só mimimimimimimimis.

Ele se chocou porqueo público “aplaude cada porrada”. Ué, nego aplaude até hoje Cidade de Deus, Carandiru, Assassinos por natureza, Pulp fiction, Full-Metal Jack... Dessas coisas eu não reclamo. Não me faço de rosinha ofendida. Já cansei de jogar Mortal Kombat. Já me esqueci do que é mesmo um polinômio, mas ainda me lembro de como fazer alguns fatalities. Também gostava de um jogo de moto que você dava correntada nos outros competidores. Kill Bill é muito divertido. Gosto de boxe. Agora mesmo meu pai está lá na sala gritando para o Holyfield dar na cara do Bowie, e eu mesma quero ver também a luta. Para usar um termo do Cuenca, quem "aplaude cada porrada" são os "torturadores de gabinete”. Deus do céu. Da mesma forma que o A. Bloch foi ridículo ao ponto de tachar os outros de fascistas, o Cuenca é babaca o suficiente para dizer que quem gostou do filme é chegado a uma tortura. Essa gente tem ou não idéia do que escreve? São umas bestas que caíram de pára-quedas em O Globo caso não tenham, ou cretinos que não hesitam em caluniar aqueles que têm opiniões divergentes. Aliás, como se chama mesmo aquele grupo político que costumava prender quem discordava deles? Pois então eu diria que tanto o Cuenca como o A. Bloch apenas exercem um fascismo cultural e jogam a culpa nos outros. E eu ainda gostaria de saber por que no mundo mágico do Cuenca os militares passaram quase vinte anos perseguindo moinhos de vento comunistas.

Como não podia deixar de ser, a crítica terminou coroada com uma presepada. Não é que o Cuencão fez questão de dizer que o pessoal aplaudia o filme comendo pastel de carne moída e tomando uisquínho? Coitado do Cuenca. Todo choroso em meio a trogloditas famintos e entusiasmados. Pior que até consigo imaginar com que cara de aflição o bebê Johnson suportou aquela situação.


Wednesday, September 19, 2007

Tribo canibal pede desculpas por comer metodistas

A moda é pedir perdão. Agora (mês passado) foi a vez de uma tribo de Papua Nova Guiné. Os caras paparam três missionários em 1878. Parece que deixaram o estilo de vida Cannibal Corpse death metal de lado. (Os caras dessa banda é que podiam ter feito um passeio em Papua Nova Guiné no séc. XIX.) Os frutos da missão vão aparecendo.

Só falta os caras da tribo terem uma ala tradicionalista reclamando das mudanças. Bem, que se dane. Nesse caso os progressistas são os mocinhos.

Cannibal tribe apologises for eating Methodists

By Nick Squires in Sydney

Last Updated: 3:58am BST 20/08/2007

A tribe in Papua New Guinea has apologised for killing and eating four 19th century missionaries under the command of a doughty British clergyman.

The four Fijian missionaries were on a proselytising mission on the island of New Britain when they were massacred by Tolai tribesmen in 1878.

They were murdered on the orders of a local warrior chief, Taleli, and were then cooked and eaten.

The Fijians - a minister and three teachers - were under the leadership of the Reverend George Brown, an adventurous Wesleyan missionary who was born in Durham but spent most of his life spreading the word of God in the South Seas.

Thousands of villagers attended a reconciliation ceremony near Rabaul, the capital of East New Britain province, once notorious for the ferocity of its cannibals.

Their leaders apologised for their forefather's taste for human flesh to Fiji's high commissioner to Papua New Guinea.

"We at this juncture are deeply touched and wish you the greatest joy of forgiveness as we finally end this record disagreement," said Ratu Isoa Tikoca, the high commissioner.

Cannibalism was common in many parts of the South Pacific - Fiji was formerly known as the Cannibal Isles - and dozens of missionaries were killed by hostile islanders.

Born at Barnard Castle, Durham, Rev Brown emigrated to New Zealand as a young man and served as a missionary in Samoa before moving with his wife and children to New Guinea.


Quanta gente maravilhosa e simpática, né?

He was familiar with the cannibalistic traditions of the region and once described a visit to a village in which he counted 35 smoke-blackened human jaw bones dangling from the rafters of a hut.

"A human hand, smoke-dried, was hanging in the same house. And outside I counted 76 notches in a coconut tree, each notch of which, the natives told us, represented a human body which had been cooked and eaten there," he told the Royal Geographical Society.

Even so, he was shocked when told that four of his staff had been cannibalised.

"They were killed simply because they were foreigners, and the natives who killed them did so for no other reason than their desire to eat them, and to get the little property they had with them," he wrote.

He reluctantly agreed to launch a punitive expedition, ordering his men to burn down villages implicated in the murders and destroy wooden canoes.

At least 10 tribe members blamed for the attack were killed in an area known as Blanche Bay. Rev Brown claimed the raids made the region safe for Europeans.

In a letter to the general secretary of the London Missionary Society he wrote: "The natives respect us more than they did, and as they all acknowledge the justice of our cause they bear us no ill will."

But the reprisals attracted fierce criticism from the press, particularly in Australia.

The Australian newspaper said: "If missionary enterprise in such an island as this leads to wars of vengeance, which may readily develop into wars of extermination, the question may be raised whether it may not be better to withdraw the mission from savages who show so little appreciation of its benefits."

However, an official investigation by British colonial authorities a year later exonerated Rev Brown.

Ordem do dia

Pronto. Tirei a porcaria da moderação de comentários. Já estava me dando nervoso atrasar a ativação deles. Só me falta aparecer logo agora um pentelho.

Sunday, September 02, 2007

800 mártires de Otranto

Ei, dá uma lida na história dos 800 mártires de Otranto. Não conhecia. É muito legal. Sandro Magister apresentou, Alfredo Mantovano contou. [Nota: este sujeito é senador. Bem que podia trabalhar por aqui, né?] Em Chiesa. Trecho:

Fueron martirizados hace cinco siglos en la región más oriental de Italia, la más expuesta a los ataques de los musulmanes. El objetivo del califa Mahoma II era el de conquistar Roma, después que ya había tomado Constantinopla. Pero lo detuvieron unos cristianos dispuestos a defender la fe con la sangre.


Curiosidade. Sabe como descobri isso? No site Gay Patriot. Pois é, gays podem ser patriotas e conservadores. Só aqui no Xingu nego acha que todos os gays odeiam Bush e são liberals.

Aí, filho, movimento gay é uma coisa, gays são outra.

Faz assim. Lê a história dos 800 de Otranto e depois passeia naquele site.

Saturday, September 01, 2007

Católicos resistiram ao nazismo

Isso nenhum filho da mãe diz ou divulga! De Zenit:

Católicos resistiram ao nazismo

Conferência em Barcelona de Martin Kugler

BARCELONA, terça-feira, 28 de agosto de 2007 (ZENIT.org).- Os católicos resistiram ao nazismo, e se não o fizeram mais contundentemente foi por «um certo complexo de inferioridade».

É a idéia central comunicada nesta terça-feira em Barcelona pelo historiador austríaco Martin Kugler, convidado à Mostra Internacional de Cinema sobre a Família, organizada por CinemaNet.

Martin Kugler é o fundador de Europe4Christ.net, um movimento multi-confessional e sócio-político contra o relativismo moral.

Kugler, que é um dos maiores especialistas nas relações entre a Igreja Católica e o nazismo, acrescentou que este «complexo católico de inferioridade» e o «meio» guarda certas «analogias» com a situação atual dos católicos.

Por outra parte, o historiador esclareceu que Pio XII «tinha amor pelo povo alemão», mas isso «não significa conivência com os nazistas».

Kugler explicou que «em 40 dos 44 discursos que o cardeal Eugenio Pacelli (depois Pio XII) fez sendo Núncio na Alemanha, havia críticas «ao totalitarismo e ao racismo».

«E se não foi mais contundente sendo Papa era por sua preocupação por não desatar uma perseguição maior contra os católicos, já que houve experiências neste sentido», expressou Kugler.

Assim, «dizer que era anti-semita e pró-Hitler é uma tolice», manifestou Kugler, revelando que a diplomacia da Santa Sé salvou do Holocausto ao menos 700.000 judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Kugler explicou que «nos anos da pós guerra mundial se reconhecia como muito positiva a atividade da Igreja e do Papa em favor dos judeus».

Um dos filmes projetados nesta mostra de cinema familiar, da qual participou Kugler, foi «Sophie Scholl», filme que mostra os valores éticos de alguns jovens e algumas famílias que lutaram contra a ditadura nazista por princípios éticos e religiosos, mais que por considerações políticas.


***

Quem quiser ler textos sobre Pio XII e o nazismo, aqui. Aproveita e lê um comentário sobre o livro cascateiro de John Cornwell, O Papa de Hitler. Ou uma resenha de Bruno Cardoso Reis. Aí você não vai escrever palhaçadas tipo essa do Rafael Galvão. Diz que não leu o livro e resolveu criticar mesmo assim algumas teses do livro. Com a desculpinha de que estava na verdade criticando uma resenha do livro The Myth of Hitler's Pope. (Ah, esse cara ia ser o primeiro a ajudar os judeus, eu sei, é verdade. Rafael Galvão para mártir, ha ha ha). Inventou novo gênero de crítica. Resenha-por-tabela. Nunca vi tosqueira tão grande. Ou que nem um carinha aí chamado Flavio Vaz. Ele escreveu besteiras tipo "John Cornwell, um dos historiadores especializados em Vaticano" e "[esse livro] é uma aula de história". Puta merda, ai, ai... (Isso que dá colocar link pra site de Tio Chico Buarque.) É tão especialista quanto aquele tal de Horta lá do jornal O Globo. O Pedro S. Câmara já mostrou que aquele cara entende porcariada nenhuma.

Neguinho sai escrevendo essas coisas em público. Ai que vergonha.
***

Conhece a história de Maximiliano Kolbe? Se não conhece, agora a ignorância não servirá mais como desculpa! E Edith Stein?

Sofreram o terror porque só conhece a Cruz aquele que segue o Salvador carregando Sua Cruz.

***

Rascunho (acho).

Hitler achava que não era muito legal se meter em assuntos religiosos, porque isso era coisa, uai, de religiosos! Não de líder políticos. O negócio era deixar o povo lá com seus credos. Por isso ele disse no Minha Luta:

Os partidos políticos nada têm a ver com os problemas religiosos, a não ser que estes, estranhos ao povo, venham solapar os costumes e a moral da própria raça. A religião também não se deve imiscuir em intrigas do partidarismo político.

Quando os dignitários da igreja se servem de instituições ou doutrinas religiosas para prejudicar a sua nacionalidade, nunca deverão ser seguidos nessa trilha e sim combatidos com as mesmas armas.

As doutrinas e Instituições religiosas de seu povo devem ser intangíveis para o chefe político; ao contrário, este não deveria ser político e sim reformador!

Qualquer outra atitude conduziria a uma catástrofe, especialmente na Alemanha.


Em Hitler's Table Talk, apontamentos tomados entre 1941-1944, (editados por Hugh Trevor-Roper, que faz também o prefácio e uma introdução; obrigada Mr. Trevor-Roper) Hitler disse alguma coisa nesse sentido: "Por isso sempre manti o Partido longe de questões religiosas". Gestapo neles só se ensinamentos religosos "estranhos ao povo, venham solapar os costumes e a moral da própria raça."

Por isso nada de Kulturkampf. Por enquanto...

George von Schönerer era um carinha que Hitler gostava muito. Chegava a colocar acima da cabeceira de cama, quando jovem, os lemas dele. Aquele sujeito foi líder do movimento austríaco pangermanista. Teve um erro. Resolveu bater de frente com Roma. O movimento Libertação de Roma (Los von Rom) não adiantou nadinha.

Nas minhas observações sobre o movimento pangermanista em sua luta contra Roma, cheguei, naquela ocasião e, sobretudo posteriormente, à seguinte conclusão: devido a sua fraca compreensão da significação do problema social, o movimento perdeu a força combativa da massa popular. Indo ao parlamento, perdeu a sua força de impulsão e sobrecarregou-se com toda a fraqueza inerente àquela instituição. A sua luta contra a igreja desacreditou-o perante muitas camadas das classes baixa e média e privou-o de muitos dos melhores elementos que se poderiam indicar como essencialmente nacionais.

Os resultados da "Kulturkampf" na Áustria foram praticamente nulos.


O ideal seria deixar a cristandade morrer devagar:

Se alguém tem necessidade de uma natureza metafísica, não posso satisfazê-lo com o programa do Partido. O tempo vai passar até o momento que a ciência possa responder todas as questões.

Então não é oportuno nos jogarmos numa luta contra as igrejas. A melhor coisa é deixar a cristandade morrer de uma morte natural.

O pau ia comer mesmo depois da guerra. Pra começo de papo: "Eu tornarei o recrutamento de clérigos extraordinariamente difícil." Para entrar na Igreja, "só quem passou dos 24 anos, depois de ter terminado seu serviço de trabalho e militar". Outra coisa seria incentivar o fechamento de mosteiros, molhando a mão de priores e colaboradores para libertarem homens de seus votos. Romperia de uma vez a concordata com a Igreja. Ah, e sem contar que ele diz que na cátedra de São Pedro haveria no fim apenas

um oficiante senil; diante dele, algumas mulheres sinistras, tão gagás e pobres de espírito como ninguém gostaria de ser.


É que "os jovens e os saudáveis estão do nosso lado".

Pior que Mussollini imaginava que um dia se veria livre do Papa. O Führer contou que

Em Veneza, em 1934, o Duce uma vez me disse: "Algum dia o Papa terá de deixar a Itália; não há lugar para dois senhores!"


Verdade. Il Rigoleto tomou nos cornos bonito no fim da guerra!

A verdade é óbvia, amigo. A porcaria do Hitler não levava a sério a cristandade. Para ele, Jesus era ariano. São Paulo teria pervertido os ensinamentos de Cristo só para atrair para si o submundo a fim de zonear o mundo (olha aí um traço da opinião de Nietzsche em O Anticristo, que não deixa de ser reedição de antigas heresias). São Paulo e sua cristandade seriam um protobolchevismo. Com ele teria chegado ao fim a genialidade greco-latina. É mole? Calma. Tem coisa pior! A história da Queda e da Redenção , a noção do Paraíso... Veja o que ele disse em companhia de Goebbels, Ribbentrop, Rosenberg e mais um monte de gente no dia 13 de dezembro de 1941, meio-dia, alguns dias depois da Werhmacht ter se ferrado em Moscou:

A cristandade é invenção de cérebros doentes. (...) Um negro com seus tabus é esmagadoramente superior a um ser humano que crê seriamente na Transubstanciação.


Ele arrematou a palhaçada assim, comentando sobre a "concessão" do Duce à Igreja:

Da minha parte, eu teria tomado o caminho da revolução. Teria entrado no Vaticano e jogado todo mundo para fora reservando o direito de me desculpar depois: "Desculpe, foi um engano." Mas o resultado teria sido feito, eles teriam sido postos para fora.


E em seguida ainda chama a cristandade de "doença" e "droga".

Consigo direitinho imaginar neguinho rindo e achando tudo supimpa. Uma porrada de gente fica assim hoje também. Tipo quem lê Janer Cristaldo, Rodrigo Constantino e mais gente da tchurma. Pelo menos a opinião sobre a cristandade é a mesma!

É verdade que muita gente foi enganada pelo Hitler? Sim. É verdade que o arcebispo von Galen gostou da Alemanha ter invadido a União Soviética? Sim. Só que é verdade que o mesmo arcebispo foi um dos pouquinhos que protestou contra a política de eutanásia. Os bispos na Holanda também foram um dos poucos que protestaram contra as perseguições. O papa várias vezes condenou a política nazista. Muitos milhares de judeus foram salvos graças à ação de católicos. Está claro também que Hitler não tinha simpatia nenhuma pela hierarquia da Igreja. Nem poderia ser considerado católico. Ele sempre soube que o catolicismo era uma pedra no sapato. Ele mesmo disse, em 18 de maio de 1941: "Meu adversário mais perigoso foi sem dúvida o Partido Centrista", o partido católico. Só conseguiu dobrá-lo graças a mentiras. Como num discurso feito em Stuttgart em 15 de fevereiro de 1933, algum tempo antes das eleições:

Dizem hoje que a cristandade está em perigo, que a fé católica está em perigo. A essas palavras, respondo: 'Finalmente há cristãos e não ateus internacionais no comando da Alemanha'.


[Notinha: a tradução está um pouquinho diferente. A versão aqui está em John Lukacs, O Hitler da História.]

Mentiroso de uma figa!