Friday, February 16, 2007

Três soluções para o problema da criminalidade no Brasil

Opção A:

Moisés nadinha satisfeito com o Brasil. No fundo, quatro brasileiros gritando que a culpa de tudo é do "maldito capitalismo" (sic).

Opção B:

Hamurabi para seu ouvinte: "Posso estar vestido para o carnaval, mas sou rei da Babilônia, não daquele país chamado Bananão. Posso ser velho mas não estou gagá!!"

Opção C:

Rainha de Copas gritando para Alice dizer aos brasileiros que só governará se puder cortar as nossas cabeças. Que diferença faz no final das contas?

Monday, February 05, 2007

Meu amor é música, pintura e estátua

(O texto começará com um parêntese. Ele não é de hoje. É um retrato de mim mesma capturado assim de repente. Publiquei antes no Conversas Bizantinas. É bom publicá-lo de novo porque, de novo, apresenta mais um lado meu. As pessoas são inesgotáveis! Ah, vai aproveitando porque muito calminha não sou.)

As mãos suadas mostram como fico nervosa ao conversar contigo.

Você não nota como minha voz se altera? minhas idéias se confundem? meu olhar do teu desvia (embora queira, mais que tudo, encontrar o teu)? que faço malabarismos em cima de corda-bamba com a palavra "amar"?

Até minha respiração muda, meu coração se apressa, e tremo... ah, como tremo. Não é de medo, nem de terror, mas de respeito.

Ouvir tua voz é música, e nada mais ouço senão tua harmonia. E me sinto levitando, ficando quase na pontinha dos pés, quase me perdendo pelos ares, e tudo isso apenas quando estou próxima de você.

Você me lembra uma estátua. Mas não por ser imóvel, longe disso. É a tua postura solene nas coisas pequenas. Você parece reter uma força enorme, prestes a explodir. Eu te observo e espero que você de repente faça algo que me arrebate, algo que está aí dentro e que não saiu.

Como te aprecio como uma pintura de um mestre holandês! A luz passeia por você de uma forma tão bonita que tenho vontade de permanecer horas te vendo.

Música, pintura e estátua, tudo isso porque te amo. Tudo que me tira de mim mesma. Que me deixa feliz com um toque de mãos, de manhã, tarde ou noite, na praça, na rua ou na entrada do prédio.

Saturday, February 03, 2007

Conversas Bizantinas

Já tive outro blog. Se chamava Conversas Bizantinas. Por que esse nome? Porque lá era meu refúgio. Ele consiste em tudo aquilo que parece mais inútil e sem muitas raízes no baixo-mundo. Se o termo "conversas bizantinas" se refere sempre a preciosismos, meu gosto por colares (quanto maiores, melhores) é prova de que adoro grandes detalhes.

Lá eu ficava apenas testando. Era minha pequena oficina. Aqui também é. A diferença é que lá era muito mais experimental. A outra diferença é que lá era sempre intimidades e romantismos. Você consegue entender o que estou querendo dizer? Tudo o que eu escrevia lá era tentativa de expressar a mim mesma. Dá um desconto, ô garçom, pela tosquice dos meios com que eu fazia isso, beleza?

Com o passar do tempo, perdi o interesse de ser tão romântica e íntima. É porque pensei assim. Se você ficar se preocupando muito consigo mesma, acabará mergulhando num labirinto esquisito. A única luz que nos salva é do mundo aqui de fora. Me preocupar tanto comigo mesma é como se eu me metesse num buraco mal iluminado. A gente é como a lua, as coisas ao nosso redor são como o sol. A gente só é iluminada e aparece direito se está em contato com o mundo que nos cerca. Pelo menos foi uma das conclusões a que cheguei depois de ter tido melhores contatos com meu guru Ortega y Gasset.

Lá eu também dizia que gostava das coisas. Só que tem o seguinte. O que me movia era a expressão do que eu sentia. As coisas eram mais uma desculpinha. Se bem que várias vezes eu gostava de apontar alguma coisinha especial no que eu via.

Por que resolvi comentar o meu outro blog? Sei lá. Ele nem era tão legal. É só por carinho. Mesmo quando nossos filhinhos são esquisitos até doer, nosso amor de mãe ainda assim nos faz amá-los.

Borrão triste

Amigo,

Escolhi você para ouvir meus cantos tristes.

Seja quem estava ao meu lado sorridente. O belo gatinho que encontrei passeando num canto estava inocente e feliz. Quando surgia o vento, debaixo do sol, eu tinha uma sensação agradável. Fechava os olhos aproveitando a sensação. Meus cabelos balançavam ao ritmo do vento. Meu pai me dizia coisas alegres. Somente o meu coração permaneceu distante. Por quê?

Por causa do mundo? Será por causa do corpo? Não cederei à tentação mais baixa e mais cômoda! Gritar que o mundo é o culpado porque é malvado. Que o corpo é origem do mal. Pelo corpo amo, pelo mundo existo, pelo corpo e pelo mundo pude ser amada e feliz.

Qual é o problema?

Amigo meu, que escuta esses meus cantos tristes, a tristeza me seqüestra porque esta vida que por acaso vivo não é a minha. A tristeza surge porque não consigo deixar de ouvir o chamado para viver aquilo que eu deveria. Mas se ouço, nada faço. Se faço, nada surge. Se surge, nada é útil. Se é útil, não parece verdadeiro. Tudo é impressão, mas sempre desfavorável.

E não consigo fixar as impressões em palavras, ainda que rasteiras! Não posso me comunicar para dizer o que deveria ser, e nada sou porque não consigo dizer nada com clareza nem para mim mesma! Enquanto as sensações não se tornarem poesias, continuarei para todos os efeitos muda.

Meu amigo, deixarei de fazer você ouvir meus cantos tristes. Carrego essa tristeza comigo, mas também tenho comigo a alegria da esperança. Ela preserva o que há de melhor em minha vida e me aponta um feliz caminho, embora eu só enxergue um borrão.

Você também é meu apoio, sem você eu seria muito menos, minha alegria seria diminuída. Você retira esse peso que levo, me deixa mais leve.

Obrigada por me ouvir. Até quando ninguém além de mim mesma deveria.

Update, 25/07/2008: Esse texto ficou horrendo. Resolvi alterá-lo quase todo e republicá-lo com o nome Alquima no meu outro blog.

Thursday, February 01, 2007

Atendendo aos leitores

A vez hoje é dos leitores. Dos dois ou três que me acompanham de vez em quando.

Recebi um e-mail muito legal da Maria:

Prezada Espectadora,

Meu nome é Maria e achei muito interessante o que você escreveu sobre a idéia grega de nobreza. Queria pedir para você escrever um pouco mais sobre isso e me indicar umas leituras a respeito.

Cordialmente,

Maria


Oi, Maria! Olha, o que eu disse é só uma coisa muito breve. O buraco é mais embaixo. (Já reparou que no final das contas sempre o buraco é mais embaixo?) Veja você que junto a esse ideal de nobreza antigo os gregos ao longo do tempo foram desenvolvendo outros padrões. Mas esses padrões em geral têm sempre um fundo na épica homérica, o que permite estabelecer conexões e captar uma unidade. A unidade é o processo consciente de formação do homem. Ele cada vez mais é aprofundado até chegar em seu auge nos séculos V e IV a.C. A idéia do spoudaios (“homem maduro”, se a gente traduzir com alguma licença poética) de Aristóteles está nessa tradição. (A propósito, recomendo a leitura deste texto. É sobre o que Plotino entende por spoudaios. É lindo perceber que o autor começa buscando o status quaestionis antes de começar a explicar o que pretende.) O cristianismo absorveu o problema da formação do homem e o injetou na cristandade sob a sua própria perspectiva. Isso é claro. Jesus Cristo é o pedagogo dos homens. Os principais escritores cristãos sempre tiveram a questão bem em vista. A diferença é que as formas de educação gregas de educação foram ao longo do tempo encaradas como preparação para o conhecimento mais aprofundado do “magistério de Cristo” (by Eusébio de Cesaréia, sem pretensão de originalidade), ou, para falar como os gregos, paideia tou kyriou (educação de Jesus). Ela foi se tornando propedêutica (formação básica). Até porque o ideal cristão de perfeição é a imitação de Cristo. Por isso o cristianismo foi tão fecundo no campo da educação. As suas aspirações se casavam com o que os gregos também tinham em vista. A diferença é que a perspectiva cristã vai muito além do que os gregos compreendiam por formação. O cristão não só se forma graças aos ensinamentos do Senhor como adquire um novo status do ponto de vista de sua natureza. O cristão sofre metamorfose. Sua natureza é modificada.

A educação na visão desse povo todo sempre tem como fundo a própria pessoa num todo. A pretensão é a formação de sujeitos que façam jus a sua humanidade. Formação integral. Uns autores eram mais pessimistas que outros em relação a isso. Mas o problema é sempre esse. Hoje em dia esse problema foi meio que deixado de lado. Ninguém se preocupa se o camarada que está na universidade é virtuoso ou não. Os antigos e os medievais sim. A ponto de dizerem que uma pessoa destemperada não é digna do saber.

Para você ter uma idéia direita do que estou dizendo, uma das características da paidéia grega (os cristãos pescaram logo essa idéia, via um monte de fontes diversas, como os estóicos) mais celebradas era a agogé. Agogé é o termo digamos assim “técnico” que os gregos usavam para a idéia de autodomínio. Werner Jaeger dizia que eles gostavam de usá-lo dando como exemplo a disciplina e ao autodomínio espartano.

Paidéia é uma idéia muito completa de educação. Leva em consideração todos os aspectos da vida. Uma coisa dessas nunca foi pensada de um modo tão completo nem tão consciente por nenhuma outra cultura. Talvez mais que educação, valeria dizer formação integral. Nós não temos um termo equivalente a Paidéia.

Os alemães sim. É o que eles chamam de bildung, raiz em bilden, formar, fazer, educar, que vem de bild, retrato, figura, imagem. Bildung é a arte de esculpir a pessoa segundo o ideal máximo de homem. Para dizer como os aristotélicos, atualizar todas as potencialidades da pessoa. Goethe tinha essa idéia de formação bem clara quando disse que a educação consiste em fazer valer o que o indivíduo carrega em seu interior.

O livro que posso recomendar para você, Maria, é o clássico Paidéia – A formação do homem grego. É do Werner Jaeger. Ele também observou a continuidade da paidéia nos tempos cristãos e dedicou um livrinho sobre o assunto, Cristianismo primitivo e paidéia grega. Os dois são muito legais. Pena que ele não conseguiu apresentar em toda a sua extensão os resultados de sua pesquisa da relação entre cristianismo e paidéia.

Espero que tenha correspondido aos seus desejos. Escreva de novo para mim se quiser saber mais alguma coisa. (Suponha que eu saiba responder...)

Há mais um e-mail que recebi. Esse prefiro responder em outra ocasião. A resposta vai ter que ser muito comprida. Tomara que até o final de semana eu capriche na resposta!

Update, sexta, 2/2: Corrige o erro ridículo no título. Mais uma coisa. A segunda parte do texto Magnificat, para um eventual protestante chato tem algumas coisinhas que são relacionadas com a discussão sobre o homem ideal grego.