Sunday, November 25, 2007

Cultura de doido

Hoje eu estava pensando em como entretenimento, er, cultural, é coisa de louco.

Há teorias bizarras sobre conspiração. Vida após a morte. Deus. Cosmogonia. Homem. Tudo isso vira motivo para HQs, RPG, ficção científica... Vou dar um exemplo comum.

É a maior moda falar em ET. Por que da Idade Moderna para trás ninguém dizia nada sobre viagem planetária? Simples. Porque viajar para um planeta seria equivalente a viajar para dentro de um vulcão cheio de lava. É impossível. Os planetas não seriam feitos como a Terra. Aqui tem rocha, tem água, tem ar, tem fogo. Os planetas são compostos por outra substância também e de modo progressivo. Quero dizer o seguinte. Não daria para pisar em Marte porque a composição de lá não é a mesma da Terra. A Lua seria o mais “sólido” dos planetas. Por isso é o que está mais próximo. Teria éter em composição menos pura.

Como haveria homens vivendo no éter? No éter vivem os deuses (by Hölderlin).

Mas e se os planetas fossem que nem o nosso? Galileu observou a Lua e descobriu crateras e vales. Era possível pisar nela. Era uma idéia meio bizarra imaginar um monstro de pedra flutuando no espaço. Pois é. Mas não dava para duvidar do que era visto.

Outra coisa. E se houver muitos mundos (by G. Bruno)? Se este não for o centro, porque é pesado? Se há múltiplos centros, pode ser que haja múltiplas criaturas por aí. (Observação: Einstein escreveu que nunca havia sido encontrado um “centro físico” do universo.) Pronto. A concepção teórica de cosmos permitiria supor a partir daí várias Terras. Ciência e ficção andando juntinhas.

(Mas olha. Não estou entrando no mérito de localizações perfeitas para haver vida. Estou apenas comentando um pressuposto.)

É engraçado esse negócio de ET porque é meio que uma concepção da Terra como centro do mundo às avessas. Os ETs viajariam uma cacetada de quilômetros só para nos dar alguma coisa muito boa (ou dominar o mundo). Há quem acredite nesses negócios de confederações intergaláticas e tal. Estaríamos alheios à política universal... Sempre os desenvolvidos são eles. Os ETs vêm trazer uma mensagem linda porque são desenvolvidos demais. (Essa é a explicação que já ouvi algumas pessoas darem para quem lhes pergunta se há ETs maus. “Você acha que criaturas tão desenvolvidas vão ser mesquinhas que nem nós?” Supondo, por exemplo, que nível de tecnologia seja equivalente a nível espiritual. Ou que a forma material seja indício de bondade. Muito estranho isso.) Esses caras que acreditam em ETs parecem com os brasileiros. Tudo aqui não presta e tudo de fora é lindo. Parece também que é como se a Terra fosse uma enorme União Soviética e os ETs fossem aqueles grupos de combate à fome que salvaram milhões de russos.

(Mais engraçado é quando um ateu acredita em ETs e tal. Por essas e outras que o Chesterton dizia que o ateu não é quem não acredita em nada, mas em tudo, até que Deus não existe.)

Existe uma concepção de mundo segundo a qual a Terra é oca. Outro dia eu estava lendo uns trechos do livro de um cara meio doido que acreditava nisso. (O cara assinava como Van Helsing.) Os nazis também. Não sei dizer de onde veio essa idéia. Desconfio que tenha alguma coisa a ver com interpretação esquisita de mitologia nórdica. Parece que no passado eles acreditavam haver uma raça inteira vivendo debaixo da terra. No Anel do Nibelungo há até um nome para esse lugar. É o Nibelheilm. Na ópera Siegfried, Wotan diz:

Na profundeza da Terra
vivem os nibelungos:
Nibelheim é seu país.
são elfos das sombras;

(Tradução daqui.)

Não sei se é verdade, mas já ouvi falar que os nazis tentaram bolar um plano para levar o povo alemão para as profundezas da terra quando as coisas começaram a engrossar para o lado deles.

Viagem ao centro da terra foi em parte inspirado nessa concepção de mundo. Não sei por quê, mas segundo essa teoria uma entrada estava localizada na Islândia. Os protagonistas da história do Júlio Verne encontraram essa entrada por lá. Engraçado que havia na história respaldo científico! Já li faz muito tempo, mas me lembro que era um geólogo que liderou a expedição. Parece que os nazis também achavam que ficava na Islândia esse buraco.

Ficção científica explora até a demência essas teorias bizarras. O que me chama atenção é a onipresença dessas coisas. Filmes, HQs, RPGs e livros de terror ou ficcção científica servem como panfletos de divulgação. Coloco no bonde histórias de terror porque acontece muito de elas serem usadas como escadinha para idéias bizarras de religião. Pior quando juntam história de terror, conspiração mundial e teorias científicas amalucadas. Muito anime poderia ser definido assim. Um que é mais ou menos assim é Vampire hunter D.

(Duas coisas básicas agora. A mera descrição de uma obra pode demonstrar que ela é ruim. Só você descrever a história de um filme, quase sempre basta. Esse anime até tem uma coisinha ou outra legal. Mas leia na Wiki o primeiro parágrafo do enredo. Já será satisfatório... A outra coisa é o seguinte. Vampiros sempre são kitsch. Entrevista com vampiro é coisa de emo. Já vampiros sofisticados e cheios de enfeite são mistura de emo com Clóvis Bornai.)

Nem vou comentar nada sobre jogo de videogame. É panfleto do panfleto. (Olha que gosto de jogar.)

É fácil ver que existe uma shitstorm cultural. Não é fácil saber até que ponto isso é feito de propósito. Mas não sou partidária das opiniões de alguns religiosos mais hardcores. Já ouvi algumas vezes gente dizer que muitas empresas têm pactos com o coisa-ruim. Eu não posso afirmar uma coisa dessas porque não sei de nada. Outro motivo de eu não partilhar desse tipo de opinião é que não costumo ver um problema cultural como reflexo direto de uma batalha sobrenatural. Mas veja só. Acredito que existam criaturas sobrenaturais lutando pró ou contra os homens. Deus existe. Tudo isso pode muito bem interferir nos negócios aqui do mundo. O que não tenho o costume de fazer é despersonalizar as ações individuais para atribuí-las a um espírito do mal ou do bem. Não concordo em ser radical nesse ponto porque senão tudo seria quase uma discussão religiosa. Eu não acho mesmo que quem concorda com idéias do tipo “há ETs bacanas” é porta-voz de alguma entidade maligna ou está possuído. Acredito mais que seja um cara meio doido. Eu acho até que ser radical nesse ponto é um tipo de recaída pagã. Você fez isso porque Afrodite quis, fez aquilo por causa de Apolo, fez mais isso por causa de Atena. O último motivo é que sou uma mistura de pessoa que pensa em causas gerais e alguém que faz questão de ter algum pé no chão. Quando a causa começa a ficar muito geral, não gosto. Um exemplo. Você diz que ficar chateado tem como causa o Pecado Original. Não está errado. O problema é que um motivo mais particular “empurrou” sua chateação para fora. Se eu perguntasse assim: “Por que fulano gritou com cicrano?”, acho que a melhor resposta, ou pelo menos a causa mais imediata, não poderia ser: “Por que Adão e Eva comeram o fruto proibido.” Essa resposta pode ser até mais elevada. Mas não explica os motivos particulares. Por isso não gosto de chegar e dizer do nada que a indústria cultural tem em quase 90% dos casos influência do coisa-ruim. Mesmo acreditando que ele exista.

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