Monday, October 15, 2007

Você costuma olhar o céu?

Você costuma olhar o céu? Eu olho. Quase o tempo todo. Paixão platônica. Mas a janela do meu quarto tenta mutilá-lo. Ciúme caseiro. Quer que eu fique namorando o teto! Adianta? Não. Faço um esforcinho para ver no teto o céu. Mas a imaginação não completa o que falta. Como eu iria imaginar o céu direitinho? Seria fazer comigo mesma o que a janela tenta fazer, mutilá-lo! Completo com o que me lembro mais ou menos. Lembro uns pedaços. O resto deixo que ele me informe do jeito que ele quiser...

Talvez você não saiba. Você pode ser desatento. Já disse outra vez que sou do Rio de Janeiro. Não escolhi onde iria nascer. Como você também. Sou pessoa de cidade grande. Barulho é costume. Muita gente em espaço pequeno pode ser irritante. Ainda assim, é minha circunstância. Preciso de pontes, viadutos, túneis. Tenho que ouvir/ver avião passando. Mas ver animais que não pombinhos na rua me é chocante. (Cavalos, porcos, bois... eles vivem discretos bem para lá e eu bem para cá! Mas gosto de bichos.) Agüento e preciso de tudo isso. Quero dizer, é uma nota essencial minha. Só uma coisa me chateia mesmo. Olhar o céu e saber que tem menos pontinhos brilhantes do que deveria ter. Não. Isso eu não aceito. Podem me assaltar. Podem me perturbar com barulho. Podem engarrafar o trânsito. O costume me disciplinou. Agora, a única coisa que não, não admito, é que me roubem o céu! Ah, isso não! Rio de Janeiro, não posso te perdoar...

(Blackouts às vezes são bem-vindos... Você acha paradoxal eu gostar da cidade e ao mesmo tempo fazer birra por causa da luz elétrica? Eu achar mais legal a lua cheia iluminando tudo? Eu enfim olhar o céu e dizer toda contente"ah, agora consigo ver as constelações"?)

Por isso preciso ir às vezes para outro lugar. Tenho que ver o que me roubaram.

E o que vejo mesmo? O passado do Rio de Janeiro. Na verdade não vejo. Finjo ser astróloga e interpreto os astros. Roubaram parte do Rio. Só dá para ver em outro lugar. Olhando para o alto.

O passado. Não sei se eu conseguiria viver nele. Acredito mesmo que não. Não? A cidade era mirradinha. Mas estava aberta para as idéias brilhantes do céu. Podia ser bem magrinhazinha. Compensava em altura. Era bem grandona. A cidade era quase uma modelo. Quase anoréxica. Mas modelo e elegante. Estava com a cabeça lá no alto e olhava de cima. E agora? A cidade engordou muito. Está também achatada. Precisa de exercícios. Precisa se levantar. Está tão esmagada e de cara no chão que qualquer dia desses ainda vou olhar para cima e ver o chão! Que eca!

Vou mendigar um pouquinho para o céu. Talvez ele me empreste Escorpião.

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