Saturday, October 06, 2007

Um dia de professor universitário

Outro dia escrevi um texto contando meu dia. Agora vou colocar aqui um do professor José Murilo de Carvalho no mesmo estilo. A diferença é que é a vida dele no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ). Saiu em O Globo, 10/08/1999, p. 7. Em seguida vão uns comentários.

8:00: Chega ao Largo de São Francisco, centro do Rio de Janeiro. Contempla com emoção o belo prédio da antiga Escola Politécnica, onde ensinaram homens como o visconde do Rio Branco, autor da Lei do Ventre Livre, André Rebouças, o grande abolicionista, e Aarão Reis, o construtor de Belo Horizonte. O edifício é hoje ocupado pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

8:01: Cruza o Largo, saudando, no percurso, José Bonifácio, cuja estátua segura nas mãos uma bandeira do MST.

8:02: Chega à rampa do prédio, desviando-se de um mendigo que dorme no chão, obstruindo o caminho. Resiste à tentação de tapar o nariz para se proteger do cheiro de urina e fezes que domina a redondeza.

8:40: Entra na sala de aula. Verifica que não há giz nem apagador. Volta a sua sala para pegar seu próprio suprimento dos instrumentos de trabalho.

8:55: Com metade dos alunos já presentes, começa a aula que dura até 10:20.

12:00: Sai do prédio para colocar correspondência no correio e para comprar um aparelho de telefone. O de sua sala, dividida com quatro colegas, foi quebrado por alguém. Não lhe é difícil imaginar a cena: irritado com a dificuldade de conseguir linha, um usuário menos paciente descarrega a ira no inocente aparelho, que para tal reação não estava aparelhado. Reclamação sobre o dano, feita dias antes, não tivera conseqüência.

14:00: Reunião departamental. O tema principal é a falta de professores. A chefia do Departamento informa que três colegas se aposentaram não podendo ser substituídos por estarem proibidos os concursos. A contratação de substitutos temporários, via Reitoria, está difícil dado o volume dos pedidos. Discutem-se alternativas: cancelar disciplinas, reduzir turmas, duplicar a carga horária dos professores restantes. Alguns professores acusam a política neo-liberal do governo de estar destruindo a universidade pública, outros apelam para o senso de dever dos colegas.

16:00: De volta à sala, recebe a visita de um estranho que lhe entrega uma folha escrita. Fica sabendo que o portador é uma vítima da AIDS e está percorrendo as salas pedindo dinheiro aos professores para custear o tratamento.

16:05: Reunião da Congregação do Instituto. O tema central é a precária condição do velho prédio tombado pelo patrimônio. A direção informa que têm sido inúteis os esforços junto aos órgãos competentes para conseguir sua reforma. O teto está comido de cupins, ameaçando desabar em alguns pontos, a instalação elétrica está velha e deteriorada, o mesmo acontecendo com a parte hidráulica.

17:30: De novo na sala. Entra um aluno. É informado de que alguns estudantes se recusam a cursar sua disciplina alegando terem ouvido dizer que o professor é a favor da escravidão.

17:45: Pega o contracheque na secretaria. O salário líquido de professor titular com dedicação exclusiva, incluindo a recente gratificação de estímulo à docência, é de R$ 3.269,01, ou US$ 1.816,00. Sem a gratificação, cairia para R$ 1.968,41. Lembra-se de que nas boas universidades norte-americanas o salário de um titular fica entre 8 e 10 mil dólares. O único consolo é que o contracheque o classifica de “ativo permanente”.

18:00: Prepara-se para deixar o prédio. No saguão, examina uma pequena exposição de pedaços do teto comido de cupins, de amostras das instalações elétrica e hidráulica deterioradas e da água amarelada dos bebedouros.

18:05: Cruza de volta o largo de São Francisco. Despede-se de José Bonifácio, notando que o Patriarca trocou a bandeira do MST por uma camisa do Flamengo.


Comentários:

  1. Já vi o José Bonifácio segurando bandeira do MST, do Flamengo, do Brasil, com bandana de time na cabeça, com cueca na cabeça...
  2. Nas escadarias de acesso ao prédio há mendigos. Há cachorro às vezes. E o cheirinho... É a mesma coisa na Igreja de São Francisco, que fica quase ao lado.
  3. Tive aulas com o mencionado professor às 8h40. Duas vezes por semana. Dois semestres;
  4. Todos os professores dividem suas salas com os outros. Isso me lembra O Cortiço;
  5. Antes reclamavam da política neo-liberal do FHC. Agora na reclamação só mudaram o nome do infeliz da vez;
  6. No corredor do laboratório que eu freqüentava o reboco quase caía na gente. (Uma vez um pedação só não caiu em mim porque cheguei depois da queda, quando eu estava voltando para a sala.) Mais à frente, uma área interditada. Risco de vida. Em outro setor fica a biblioteca. Ficou um tempão sem funcionar. Os fungos ameaçavam a nossa saúde.
  7. Até eu já ouvi que o dito professor defendia a escravidão. Minha teoria é a seguinte. Algumas pessoas liam mas não entendiam merda nenhuma de um texto que ele passava. Era um do José Bonifácio e era contra a escravidão. O raciocínio dos burros: assunto era escravidão, a elite brasileira gostava da escravidão, Bonifácio era da elite, professor gostava do Bonifácio. Então o Bonifácio defendia a escravidão e o professor era simpatizante dela. (Eu sei que você acha que estou exagerando.) Na aula sempre tinha alguém que pensava assim. Outra coisa. Uma vez ouvi um aluno escurinho dizendo que tomou bomba do José Murilo de Carvalho numa seleção de doutorado só por causa de preconceito. Acho que ele disse um negócio tipo "ele me ferrou porque não gosta de negros". Engraçado que o professor defende ação afirmativa mas é contra as cotas. Pois é.

No comments: