Tuesday, October 02, 2007

Pe. Leonel Franca

Em A psicologia da fé, p.94 ss.:

Contemporâneo de VOLTAIRE, mas diametralmente oposto a todo o seu estilo, é E. KANT. Lá um polemista sem escrúpulos, aqui um pensador austero. VOLTAIRE, homem de corte e das rodas frívolas das sociedades literárias; KANT, titular de uma cátedra universitária e filósofo amigo do silêncio do seu gabinete. O francês, na sua luta contra o cristianismo, joga com todas as armas que poderão diminuir ou ridicularizar o seu adversário na consideração dos espíritos superficiais; todos os gêneros literários, da história à tragédia, do libelo à poesia, servem simultânea ou sucessivamente à finalidade dos seus intentos; a calúnia e a ironia, o desprezo e o ódio animam as suas páginas de uma nota pessoal viva e contagiosa. O alemão não sabe rir; a sua pena severa não desmente um só instante a gravidade impecável do homem de pensamento puro; toda a confiança da sua influência pretende descansar na força, lenta mas irresistível e definitivamente conquistadora, da idéia.

Separados por este antagonismo profundo de índole, de feitio literário, de formação intelectual, VOLTAIRE e KANT colaboraram na obra funesta da descristianização moderna. Adversário ferrenho de qualquer religião positiva e sobrenatural, o filósofo de Königsberg foi dos que mais contribuíram para a difusão do racionalismo nas classes cultas. Reduzir o cristianismo a simples proporções humanas e encerrar a “Religião nos limites da razão pura” foi, com o título de uma das suas obras, o esforço de uma vida intelectual já madura e fecunda.

Com que preparação histórica e dogmática entrou KANT neste trabalho de tanta responsabilidade? Foi no Fridericianum que o futuro professor de filosofia recebeu a sua formação religiosa. Dirigido pelo Dr. F. A. SCHULTZ, um dos homens mais
influentes de Königsberg, este ginásio passava por um instituto pietista. Sabemos qual a esfera religiosa que aí se respirava. O protestantismo, antes da reação racionalista dos fins do século XVIII, concentrara toda a sua preocupação no problema da salvação pessoal pela fé. Luteranos, pietistas e reformados aqui não divergiam essencialmente. A corrupção completa e irreparável da natureza humana, não já suscetível de uma verdadeira regeneração interior, constituía este pessimismo moral que domina toda a concepção protestante da economia redentora. O que importava era despertar esta confiança nos merecimentos de Cristo, confiança terna e entusiástica, “fé que salva”; o estudo e as práticas de piedade eram orientados para excitar e preparar esta “conversão do coração naturalmente corrupto” e debelar este “mal radical” (das radikale Böse), como o chamará mais tarde Kant (Von radikalen Bösen, 1792). O estudo do dogma ficava assim profundamente mutilado e todo o cristianismo empobrecido nas suas riquezas espirituais. Ao sair do Fridericianum, desgostado dos processos de educação religiosa dos seus mestres, das suas atitudes devotas que ele averbará de carolice e fanatismo, die schwärmerische Religiosität, o jovem Emanuel abandonou para sempre todo e qualquer exercício de piedade. Mais tarde, ouvi-lo-emos incriminar de imoral, a prece; de perversão, a disciplina ascética; de idolatria, a invocação de Cristo. KANT não tolerava, entre os seus convivas, a oração antes das refeições; e ao diretor da cadeia de Königsberg, HIPPEL, pediu que mandasse calar aos presos “hipócritas” que entoavam alguns cânticos religiosos. Com as práticas foram também abandonados todos os estudos cristãos. Kant não conhecia um só dos grandes doutores católicos. S. TOMAS e SUAREZ, que LEIBNIZ lera e louvara, ele nem sequer os havia folheado. Na sua biblioteca, aliás pobre, não se encontrou nenhum dos nossos grandes tratados de dogmática, antigos ou recentes. Quando em 1793 saiu publicada a Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft, havia 53 anos que o professor de Königsberg deixara o Fridericianum e por confissão sua, com exceção da obra de J. F. STAPPER, Grundlegung sur wahren Religion, nada mais lera sobre o assunto. Desinteressara-se por completo da doutrina e da exegese; só lhe sobreviviam na memória algumas reminiscências dos “entretenimentos dogmáticos”, isto é, das piedosas exortações do Dr. SCHULTZ, ouvidas entre os 12 e 18 anos. Durante a composição do seu trabalho, leu uma Gundlegung der christlichen Lehre, isto é, um destes pequenos catecismos populares, então muito comuns na Alemanha e impresso em 1732. Esta leitura permitiu-lhe revestir de uma terminologia cristã o seu racionalismo que nitidamente ressalta em todas as suas linhas através da transparência de um vocabulário de última hora.

Que admira, portanto, que pululem a cada passo as confusões mais deploráveis, a respeito de quase todos os nossos dogmas? Sobre a eficiência dos sacramentos e o primado do Papa, sobre o probabilismo e a organização da Igreja romana, sobre a fé e a graça, KANT erra decompassadamente. Onde uma doutrina católica lhe vem ao bico da pena, exposta ou criticada, ressalta, manifesta e incontestável, a sua total ignorância. Nem lhe ocorre o escrúpulo mais elementar de uma simples verificação. A sua instrução religiosa não passa o nível da de um preparatoriano de todo esquecido das suas primeiras noções da doutrina cristã. Se qualquer de nós escrevesse sobre o budismo ou o Kantismo, com esses processos de informação ou documentação, todo o mundo científico o desqualificaria irremediavelmente. Dir-se-ia então que, a doutrina católica ou domínio religioso é uma terra incógnita, exposta às arbitrariedades do primeiro ocupante?

No comments: