Friday, September 28, 2007

Tropa de Elite (comentário de dois comentários)

Hoje foi um dos poucos dias que pude ficar em casa pelo menos durante a hora do almoço. Aproveitei para tirar o atraso da leitura de O Globo de terça (25/09/07). É, amigo... Pode não parecer, mas às vezes até arrumar tempo para ler um jornal é complicadinho!

Vi logo na capa um bafafá por causa desse filme Tropa de Elite. Olha, se você quer saber de uma coisa, bem que eu gostaria de ficar impassível a respeito desse tipo de assunto. Meu negócio é outro. Só que é fogo. É que nem você estar no elevador e, sei lá, alguém soltar um pum. Você gostaria de ficar na sua. Queria chegar logo em casa ou sair para a rua. Você gosta de cheirinho bom. Mas o fedor incomoda muito. Você só fica pensando em quem foi o infeliz que soltou o pum, doido pra reclamar com ele. Essa polêmica é decorrente do pum mental de dois articulistas do jornal. Vale a pena comentar umas coisinhas.

Me chamou a atenção um dos atores se defender de uma crítica infeliz que considerava o filme fascista. Na capa havia uma chamada para outro artigo, dizendo que ele era reacionário. De cara, até confesso que fiquei animada de assistí-lo. Se a crítica considera algo fascista e reacionário, é porque deve ser algo que vale a pena. Há um jeito de saber se um cara que critica alguma coisa vem da terrinha do Golias. É a maneira como ele se sente livre para usar o termo "fascista" das formas mais irresponsáveis. Me deixa explicar rapidinho um negócio antes. Existe alguma coisa como estética fascista. Mas na verdade não é bem estética. É propaganda. Como “arte soviética”. Não é arte, é propaganda só. O valor da obra não é visto por si. Ele é condicionado a pressupostos políticos. Caem os pressupostos, some o valor da obra de arte. Isso é horrível! Se você casa a qualidade da obra com o aspecto político, você tem uma visão propagandística da arte. Seria melhor que você não escrevesse nada sobre o assunto. Agora, só uma curiosidade. Há uma cena do Gladiador que é quase igual a uma de Triunfo da vontade. É aquela em que o novo imperador é saudado pelos senadores, com as tropas em formação ao lado. Não dá para deixar de associar à cena clássica do Hitler e mais uns carinhas andando entre as tropas. Só por isso o Gladiador seria fascista? Se for por aí, daqui a pouco até o Senhor dos anéis é fascista. E nem acho que só porque uma obra foi feita num regime fascista ela não tenha o menor valor. A Chancelaria do Reich *eu* acho um prédio bem interessante. O documentário Olímpia é mesmo muito bom. Até algumas obras do Hitler não são ruins. Existe qualidade em algumas de suas pinturas. Porém é no mínimo duvidoso dizer que elas sejam fascistas, pois quando foram feitas o Hitler não estava nem aí para a política! Mais curioso é analisar do ponto de vista ideológico a obra de um artista sem nenhuma incinação política em especial, ou quando a obra dele não reflete o posicionamento político dele. Um Picasso. Boa parte da fama dele é porque era esquerdista e pintou Guernica. Muita gente gosta dele por isso. Eu gosto dele também, mas não por esses motivos. O curioso é que o Partido Comunista Russo tolerava a posição política dele mas não o estilo... E Richard Strauss, que parece não ter tido opinião de nada a não ser a de aproveitar qualquer oportunidade que lhe surgisse? Deveriam jogar a obra dele no lixo porque se permitiu trabalhar para os nazis? Mesmo não tendo nada que justificasse o movimento nazi em sua obra? Uma parte da antipatia contra ele vem desse tipo de questão. É compreensível. Mas não deixa de ser equivocada. É um problema quando condicionam demais uma obra às opiniões políticas do autor! Só que fazem isso com muita freqüência.

Nada disso quer dizer que o fator “política” sempre tenha que ser omitido. Dois exemplos. A tragédia grega tem relações muito próximas com o desenvolvimento do Estado de Atenas. E também com a transição de um regime político mais arcaico para a democracia da pólis. Antígona é um ótimo exemplo da tensão entre o poder público (Creso) e os laços de parentesco (Antígona). É um problema também político. Eumênides é outra peça que possui uma questão política. O Areópago se converte em tribunal pela vontade dos deuses. A coisa só fica feia quando você hipertrofia a política. De repente, nada mais passa de disputa de partidos. Sinal disso é a intromissão de jargões políticos polêmicos nas áreas mais indevidas. Como gostar de Einstein porque ele é revolucionário, enquanto Newton é reacionário. (Eu tinha um amigo que gostava de brincar com essas coisas. Ele me dizia que havia uma beleza “conservadora”, uma “reacionária” e uma “revolucionária”. Ou seja, havia gente que ELE achava bonita mas sem sal ("conservadora"), antipática ("reacionária") e “exótica” ("revolucionária"), que era o tipo que ele mais gostava.)

Agora uma oportunidade para escrever algo sobre a esquerda. Tudo o que ela faz é político. Ela analisa tudo pela ótica do embate conservador-progressista-revolucionário-reacionário. Eu tinha um professor que me contou que a irmã dele, ao saber que ele estudaria latim, disse que ele estava virando reacionário. Pois é, até estudar língua clássica é atitude contra-revolucionária. Só faltava criarem uma outra Cheka só para prender latinistas!

Voltando à vaca fria. E então o compadre do Golias disse que o filme era fascista. (Mais adiante vou escrever sobre o outro compadre que tachou o filme de reacionário.) Uma pergunta. O filme faz apologia da onipotência do Estado? Outra. O filme prega um nacionalismo belicoso? Mais uma. O filme faz apologia da censura? Agora essa. O filme faz apologia de um salvador da pátria? Mais essa. O filme força a barra para alguma mitologia nacional? Penúltima. O filme critica a “burguesia internacional”, o capitalismo etc? Última, embora coubessem mais perguntas. O filme faz propaganda de alguma elite revolucionária? Se o filme apóia todas essas coisas, então beleza. Está fazendo propaganda fascista. E se não apóia nada disso? Então quem o acusa é no mínimo maluquete! Se você viu o filme, pode responder. Não o vi.

Mas eu nem preciso ter visto para ter uma noção da qualidade da crítica, cujo título bizarro é Tropa de Elite é fascista?. N'O Globo há um texto sobre ela, segundo o qual o autor

chamava a atenção para a heroicização do personagem, que não tem escrúpulos em torturar e apavorar moradores da favela, comportamento justificado (e aprovado por parte da platéia, aos gritos de “caveira”, símbolo do Bope) para vingar o colega assassinado pelo chefe do tráfico no morro. Outro ponto abordado pelo colunista [quase que transcrevo “comunista", no mais puro ato falho] foi o das relações promíscuas entre o tráfico e as ONGs (“organismos-títeres de alta bandidagem”, escreve) que atuam em comunidades carentes – incluem-se aí estudantes universitários de classe média alta, os quais, aponta ele, são o alvo principal do roteiro quando trata de responsabilizar o consumidor final pela guerra que inferniza morro e asfalto no Rio de Janeiro. [Mas ué, e essa gente não tem responsabilidade? O Arnaldo Bloch escreveu isso em tom de crítica negativa. Parece desconhecer uns princípios do mercado. Oferta e procura. Sobre ONGs, não sei. Sempre tive lá umas desconfianças.] E, por último, ele observa que no filme não há uma menção sequer ao assunto que está na ordem do dia [isto é, dentro da pauta da galera de esquerda] quando se trata da questão da violência ligada ao comércio de drogas: o da liberação do consumo. [Quer dizer, ele critica o filme porque mostra universitários de classe média alta que compram droga. Depois o critica por não ter tratado da conexão entre a repressão das drogas e violência urbana. Ou seja, para o A. Bloch, os jovens tinham que comprar drogas à vontade, pelo menos no filme. Como o roteiro não foi esse, o cara ficou chateadinho. Me dá vontade de dizer que parece até que o A. Bloch está advogando em causa própria ou dos cumpichas dele.]

A partir disso que o Arnaldo Boch escreveu, você, você mesmo, ô amiguinho, acha que o filme é fascista? Ou o crítico é um lesado?

Só mais uma coisa sobre a mania de tachar tudo de fascista. É que não foi comigo. Se viessem me chamando de fascista e tal, eu mandaria é tomar lá naquele lugar onde o sol não bate. Pô, que safadeza é essa de sair acusando do nada um filme assim? Um ator chegou a responder de um jeito que eu jamais faria. Ele disse ter sido “instigado pelo bom texto do Arnaldo Bloch sobre a sessão de estréia de Tropa de Elite." Ô cara, acorda! O sujeito escreveu que seu filme é coisa de gente fascista e tal. Gente que trata quem discorda dos lindos ideais deles com prisão e tiro. Ser chamado de fascista é pior que de filho da puta. Aí você diz escreve uma resposta "instigado pelo bom texto" dele? Parece até que o ator é masoquista ou saco de porrada ambulante. É irritante essa mania que muitos têm de buscar a polidez a todo custo. Essa conduta só serve para transformar a gentileza numa fingimento, numa forçação de barra. Essa que teria que ser a resposta: "Arnaldo Bloch, você vai ter que provar por A+B que esse filme é fascista. A crítica que você fez é muito grave. Do contrário, você não passa de um tratante irresponsável que só sabe reagir ao que não gosta dando chiliques histéricos. Antes que eu me esqueça, fascista é a pqp, seu zé ruela!"

Usar com tanta promiscuidade esses termos é sintoma de filisteísmo. Dos brabos. Uma vergonha essa crítica.

Ah, mas a ciranda não terminou por aí! No caderno Magazine do mesmo O Globo, um cara chamado João Paulo Cuenca tentou dar mais um show. Foi na coluna Sobretudo.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer um negócio sobre a foto do caveirão cheio de sangue no piso que estampava a página. Eu não sei quem falou para esses caras que mostrar *a* verdade é publicar foto de um carro cheio de sangue, ou qualquer brabeira do gênero. Eu quase ia dizer que isso é coisa de esquerdista. Só que teve uma vez que no Mídia sem Máscara me fizeram o grande favor de publicar uma foto de um polícia morto com um tiro de fuzil na cabeça numa viatura. Porra, e tem gente que reclama quando eu digo palavrão! Aqui no Rio tinha um jornal que ficou famoso por causa desse tipo de foto. Era O Povo. Sei lá se existe ainda. Mas parece que fez escola. Na tevê é a mesma merda de vez em quando. Fico pensando no seguinte. Será que essa gente que adora mostrar *a* verdade já participou dela in loco? É mole eu dizer que temos que mostrar as coisas como elas são e ficar sentadinha aqui em casa. Ou fazer no máximo uma viagem chinfrim a uma favela perigosa, que nem me contaram que o Paulo Henrique Amorim fez ao Complexo do Alemão. Ou sair ao redor do mundo tirando foto de nego estropiado (que nem aquele carequinha que agora me esqueci o nome.) Dar uma de John Cornwell e dizer que investigou ultra-super-bem os arquivos do Vaticano, para agora dizer que mudou um pouco de opinião sobre Pio XII (e só disse isso depois da enxurrada de críticas ao livro dele, mas pelo menos é um indício de decência). Tudo isso me lembra de um maluco que conheci há um tempinho. O cara vivia me falando que o mundo era uma merda. Que no Brasil havia coisas tão terríveis que ninguém tinha coragem de dizer. Me contava alguma história toda escabrosa sem eu pedir. O mesmo sujeito morava numa cidadezinha bunda onde não acontecia nadinha. Ele vivia bem. Nunca aconteceu nadinha com ele. E teimava em me dizer que tinha visto a verdade e que ela era maligna. Essa gente parece que bebe. Esse frisson é uma reação típica de beatas, só que às avessas. No lugar de se escandalizar com o que viu de longe, sente um furor. Então a beata com espírito de moleca resolve esfregar na cara de todo mundo a causa do furor. Já me disseram que durante a Guerra do Vietnã foi mais ou menos assim. Era preciso assustar “aquelas famílias que se reuniam em frente a uma tevê na hora do jantar”. Note o valor político dessa chantagem emocional.

Mas então. Peguei o jornal na hora em que estava almoçando. Muito obrigada, hein!

Esse Cuenca já revelou o show que daria logo no primeiro parágrafo. De cara ele reclamou da anistia, que “não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos ‘oficiais’” A seguir ele me veio com isso aqui, ó:

Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. [É, eles vivem ganhando dinheiro do governo. Ao contrário daqueles pobretões tipo Heitor Cony, que não ganham um centavo do governo. E os “estupradores, torturadores e assassinos” de esquerda? Um virou deputado federal, outro presidente da Petrobras, outro professor universitário...] Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldades de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.

Cara, o que tem a ver Opus Dei com milicos aposentados? Só consigo imaginar que ele raciocinou (finge que é raciocínio) assim: “Militares são reacionários. Militares são católicos. Igreja é reacionária. Opus Dei é da Igreja. Opus Dei é *muito* reacionária. ENTÃO militares têm ligação com Opus Dei.” Aposto que esse cara só ouviu falar na ordem por causa d'O Código da Vinci e pelo que leu (muito mal) em alguma revista por aí. E “vida que pediram a Opus Dei”? Ai, ai... O que ele quis dizer com isso? A impressão que me dá é que o verdadeiro sentido do que ele escreveu só pode ser captado nas entrelinhas. Só os iniciados no cuenquismo podem entender.

Depois ele voltou a dizer as tolices sobre anistia geral do Brasil, “o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar”. Outra idéia oculta. Os militares seriam os únicos responsáveis por todos os crimes políticos. Porque todo mundo sabe o que aconteceu na história. Aqueles milicos eram um bando de Dom Quixote a lutar durante quase vinte anos contra moinhos de vento comunistas. Claro que não havia terrorista, torturador, assassino, do outro lado. F. Gabeira? Genuíno? Eram idealistas, pessoal! Porque o ideal justifica, apesar de o marxismo dizer que é parte da ideologia burguesa alienante... O pessoal do Partido dos Socialistas Revolucionários da Rússia tinha um raciocínio ótimo. Uma coisa é roubar. Outra é expropriar. Cada ato era caracterizado segundo a finalidade política. O próprio Gabeira, em O crepúsculo do macho, mostrou bem como funciona a cuca desse povo. Ele e os amigos dele roubavam roupas da fábrica onde trabalhavam na Europa para “compensar a mais-valia”. Embora fosse um exilado político borra-botas, o camarada retribuía a hospitalidade que lhe foi concedida por um país estrangeiro com furtos no local de trabalho. E ainda reclamava de ser vítima de exploração econômica hedionda, quando mal precisava trabalhar para se sustentar. Não é lindo esse código moral? Agora posa como crítico do Mensalão e tal... Mas enfim. Para um revolucionário, crime político não é a mesma coisa que assassinato comum. A morte de uma autoridade num atentado seria apenas uma crítica ao sistema político. Qualquer grupo terrorista pensa desse jeito. Quando o iate em que se encontrava Lord Mountbatten, acompanhado de alguns familares e inclusive crianças, voou pelos ares, você acha mesmo que o IRA pensou que tinha praticado um crime covarde contra um homem de quase 80 anos, herói de guerra? Claro que não! Aquilo foi crítica política, propaganda de conscientização das massas para a causa da Irlanda do Norte... Mesmo Lênin só criticava assassinatos por conveniência tática do momento. Também pudera. Ele recomendava jogar ácido em policiais e a prática de atentados.

Só no mundo idealizado (e portando burguês, na acepção marxista) de gente como J. P. Cuenca os militares agiram contra fantasminhas durante vinte anos. Fantasminhas que não hesitavam em roubar e matar.

Tantos absurdos são apenas uma parte da crítica sobre o Tropa de Elite. É bom eu avisar caso você já tenha se esquecido. O que tudo isso tem a ver com o filme? Pois é. Quando um sujeito tipo o Cuenca vai realizar uma crítica, é bom a gente se preparar. É que nem carro de palhaço, onde sempre cabe mais uma coisa. É crítica aos milicos para lá, à polícia para cá, alfinetada no Opus Dei... Mais adiante você vai ver que tem mais. Por enquanto, a introdução foi o salamaleque do bom mocinho. Só agora ele pode começar a escrever, “como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de Tropa de Elite, na última quinta-feira, no Odeon.” Lindo. Quanta reflexão espúria a partir da experiência de uma pré-estréia, hein? Uma pergunta. Só pessoas convidadas puderam participar? Porque não sei como alguém pode dar tanto chilique sendo paparicado. Esse pessoal chique é muito ingrato.

Lá pelas tantas, ele me vem com essa: "o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelo na história do cinema nacional." Observação carrega de filisteíce da grossa! Pô, é muito pedir para fazer uma crítica mais decente? Sem essa babaquice estereotipada? Observações sobre o que é ruim, o que é bom, alguma coisa sobre atuação... Qualquer coisa, menos esse papo-furado de velho caduco. Chega de querer opiniar de cima de um caixote com a mão na cinturinha, por favor. O que é mais engraçado é que parece que o filme lhe provocou algumas dores, porque ele diz assim:

O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o Bope é incorruptível. Só o Bope, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que Tropa de Elite reproduz é cristalina. [Eu que negritei.]

Eu não tomo as dores de ninguém. Nem estou entre os “hipócritas de classe média” nem entre os caras do Bope. Não defendo legalização das drogas nem afirmo que sou contra. Eu sei lá! Só posso dizer que já vi gente se fodendo. Eu tinha um conhecido que de preto virou branco de tão pálido por causa dessas coisas! O mesmo cara passou a vender tudo que tinha. Um dia a mãe dele chegou em casa e descobriu que não tinha nem mais geladeira! Diziam que ele perdia o controle, gritava, essas coisas. Ele era um cara tranqüilão. Ficou pirado. Durante uma época eu achava que tinham que descriminalizar (é o termo da moda) tudinho. Cheguei a tentar convencer neguinho disso. Acho que fui meio inconseqüente e me arrependo. Ideas have consequences. Bom, mas afinal a elite é a classe média e portanto o Cuenca é da elite? Ou existem duas classes hipócritas? O Cuenca é branquinho? A única coisa certa é ele quer passar a imagem de alguém esclarecido. Que audácia a do Bope! Que atrevimento ao lhe considerar um hipócrita de classe média! Supor que ele, tão iluminado, precisa de socorro? Ao contrário! É ele quem está incumbido de nos mostrar a luz, decifrando a lógica do discurso do que quer que seja. Agora, o que significa o termo “lógica do discurso policial”? Tudo hoje em dia virou “discurso”. Qual a lógica disso? Não estou ironizando. O que sei é que existem leis e a polícia é um braço da justiça. Polícia não tem opinião. Segue leis e pronto. Se há algum problema, é no tocante à execução de leis. Não é raro a força policial se ressentir das ações da Justiça. Descontando problemas como corrupção, a relação entre eles é sempre marcad por uma dupla queixa: "nós prendemos os criminosos mas vocês os soltam" e "queremos agir mas vocês atam as nossas mãos". Porém o Cuenca parece ter encontrado um porta-voz oficial da "ideologia policial", ainda que seja um personagem de ficção. É um crítico muito mágico. Na absoluta falta de gente de carne e osso, ele se dá por satisfeito com essa gambiarra. Voilà! O personagem do Capitão Nascimento lhe revela a verdadeira lógica de uma instituição concreta.

Você acha que esses são os principais problemas do filme? Nãããão! O negócio encuenca mesmo quando “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores”. Hm, não resisto a uma pergunta. O cuenca faz parte desse “monstro disforme chamado opinião pública” ou o mal está só nos outros? Veja o meu texto. É uma opinião. É pública. Faço parte da opinião pública? Sou parte do monstro? E qual deveria ser *a* “leitura do filme”, ô bonitão? Uma que não "corrobora esses métodos e valores"? A do nobre Cuencão? E que mania de transformar tudo em leitura, viu. E escrever que “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores” é o jeito mais pedante possível de dizer o simples: "o público se entusiasmou com o filme".

Vou me esforçar para captar a mensagem do amável mestre. O Brasil é um país cheio de bandidos de farda à solta. (Notou que ele só reclama da polícia e dos milicos?) A violência é tolerada pela massa, desde que dirigida contra a ralé. É óbvio que a turba vai delirar com a iniqüidade do filme (porque ser reacionário é mal pra chuchu). Já o mestre é o bebê Johnson do aprumo cultural.

Eu, que sou maligna, vou reclamar disso: "[Tropa de Elite] pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. Vou repetir. A crítica do Cuenca é igual a carro de palhaço. Sempre cabe mais um. Agora é a "geração Cansei”. Que lindeza! Eu mesma não me canso de me espantar com essa crítica iluminada. O que é “geração ‘Cansei’”? E por que o "perigosamente"? Uma coisa é engraçada. Num trecho ele diz assim: “Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe”. É impecável por ser reacionário? Qual a proposta? Se é "impecável no que se propõe", o filme não seria bom? Ou devo entender a crítica assim: o filme é impecável, mas é uma bosta? E se o filme é impecável e conquistou "o monstro disforme da opinião púbica", parece que ele é mesmo muito bom, certo? Não, não. O Cuenca gostaria que todos estivessem reclamando de um filme impecável. Mas afinal de contas o que o J. P. Cuenca está dizendo? Não dá para entender direito. A única coisa que sabe fazer é expressar uma série de associações disparatadas que sentiu durante a experiência mágia da pré-estréia. Reacionários! Milicos! Opus Dei! Monstro disforme! Torturadores aposentados! É como se ele se indignasse tanto que repetisse durante uns vinte minutos só mimimimimimimimis.

Ele se chocou porqueo público “aplaude cada porrada”. Ué, nego aplaude até hoje Cidade de Deus, Carandiru, Assassinos por natureza, Pulp fiction, Full-Metal Jack... Dessas coisas eu não reclamo. Não me faço de rosinha ofendida. Já cansei de jogar Mortal Kombat. Já me esqueci do que é mesmo um polinômio, mas ainda me lembro de como fazer alguns fatalities. Também gostava de um jogo de moto que você dava correntada nos outros competidores. Kill Bill é muito divertido. Gosto de boxe. Agora mesmo meu pai está lá na sala gritando para o Holyfield dar na cara do Bowie, e eu mesma quero ver também a luta. Para usar um termo do Cuenca, quem "aplaude cada porrada" são os "torturadores de gabinete”. Deus do céu. Da mesma forma que o A. Bloch foi ridículo ao ponto de tachar os outros de fascistas, o Cuenca é babaca o suficiente para dizer que quem gostou do filme é chegado a uma tortura. Essa gente tem ou não idéia do que escreve? São umas bestas que caíram de pára-quedas em O Globo caso não tenham, ou cretinos que não hesitam em caluniar aqueles que têm opiniões divergentes. Aliás, como se chama mesmo aquele grupo político que costumava prender quem discordava deles? Pois então eu diria que tanto o Cuenca como o A. Bloch apenas exercem um fascismo cultural e jogam a culpa nos outros. E eu ainda gostaria de saber por que no mundo mágico do Cuenca os militares passaram quase vinte anos perseguindo moinhos de vento comunistas.

Como não podia deixar de ser, a crítica terminou coroada com uma presepada. Não é que o Cuencão fez questão de dizer que o pessoal aplaudia o filme comendo pastel de carne moída e tomando uisquínho? Coitado do Cuenca. Todo choroso em meio a trogloditas famintos e entusiasmados. Pior que até consigo imaginar com que cara de aflição o bebê Johnson suportou aquela situação.


7 comments:

Samuel Moura said...

Taí, muito bem dito!... é tanto maniqueísmo que neguinho coloca o filme na cruz antes mesmo dele poder falar por si. A tática é cunhar o signo que o leitor de o globo ou folha - ou escambal - deve carregar consigo na hora de ver o filme. A contradição entre obra e leitor da obra fica por conta do modo como atiça os espíritos dos "críticos". Só isso, por si, já mostra a relevância que toma esse tema, que é central em nossa cultura. RelevÂncia que surje em função da própria obscuridade do tema, do modo como foi mal tratado por quem caberia - seja pela ótica da direita, seja pela ótica da esquerda ou do centro, seja pelo cinema, seja pelo teatro, seja pela mídia, seja por eu, seja por vc.

Tanja said...

Pois é. Esse tipo de crítico ainda faz o favor de "desexplicar" o filme. Ao invés de ajudar a gente a compreendê-lo, embaralha tudo e só fica nos chavões e besteirinhas ideológicas. O filme não cumpre os cânones ideológicos? Fogueira! Por isso que o mesmo cara que dirigiu aquele filme do 175 agora virou fascista.

Ah sim, tem outra coisinha. Os padrões mentais desse pessoal sempre caem nessa história besta de "reacionário-revolucionário" e tal. Quando dá e também quando não dá, aproveitam para avacalhar inclusive o que não tem nada a ver. Tipo o cara que para falar mal do filme meteu o Opus Dei no meio. Se o filme é "reacionário" e a Igreja é também, valeu a pena para ele misturar tudo.

Por tudo isso eu escrevi alguma coisa a respeito.

Anonymous said...

O nazista!

Tanja said...

Saúde, anônimo.

Anonymous said...

Tanja, desculpe mas, com todo o respeito, tenho que falar:

Você é tão radical nas críticas que realmente me fez lembrar um líder fascista qualquer, ou um desses que se dizem cidadãos mas que são uns grandes nazi, daqueles que acha que bomba na favela "não é a melhor solução, mas inegável que teria seus lados bons"... Desculpe, mas foi minha impressão.

E mais.

Criticar opiniões de maneira tão violenta - e, direi, partidária - sem ter sequer visto o filme de que falam, chega a ser canalhice. Ou patético, não sei.

Abraços,
Gustavo.

Tanja Krämer said...

Minha resposta a esse comentário do Gustavo e a qualquer outro desse tipo está aqui: http://aespectadora.blogspot.com/2007/11/sobre-um-comentrio-boc.html

Denise said...

O mais interessante dde Tropa de Elite 2, além da atuação de Wagner Moura – excepcional – é justamente o novo aspecto contraditório de sua personagem: o coronel Nascimento inicia sua narração com os clichês conservadores de ultra-direita do primeiro filme – “...se fosse por mim jogava a chave fora e deixava os vagabundos se matarem lá dentro...” “esses intelectuaizinhos idiotas de esquerda...” – mas, ao longo do relato dos acontecimentos, muda seu discurso para algo mais complexo, de acordo com a complexidade do “sistema” de que vai tomando consciência. Além disso, amenizaram-se muito os rótulos, mesmo na voz do narrador. Não se ridicularizam, como muitos esperavam, os ideais dos Direitos Humanos que, por meio da personagem de Diogo Fraga, teve sua cota de seriedade representada, e deixa o – certamente tímido – recado da supremacia do discurso inteligente sobre a lei da “porrada”.

Destaque especial para o representante da mídia sensacionalista, cujo principal análogo aqui em São Paulo pode-se facilmente reconhecer na figura de Datena e seus derivados.

Boa continuação, claro, para quem tem estômago.