Sunday, September 30, 2007

Tosco e provisório

Vez ou outra alguém me pergunta mais ou menos assim: "Pô, como você pode reclamar tanto de autoridade e respeitar tudo o que a Igreja diz?"

Essa pergunta é engraçada.

Virou costume chamar qualquer um que tem cargo público de autoridade. Só que eu sou chata com essas coisas! É que pra mim, quem possui cargo público tem é poder. Não acho que poder público seja a mesma coisa que autoridade pública. O poder dá idéia da força bruta. O Estado não vai querer convencer a gente através de argumentinhos que temos de pagar imposto. Ele vai exigir. Se você não pagar, está fodido. No máximo, no máximo, vai haver algum fundo de razão nas funções do Estado. Ninguém agüenta ser dominado por um poder maluco. Pelo menos não por muito tempo. Com a autoridade é diferente. Não é só exercer uma função em decorrência do poder. É uma posição de honra que pode ou não ser amparada por um poder. Acho que dá para explicar de um jeito mais tosquinho. O poder você reconhece na marra, por causa da coerção. A autoridade você reconhece por livre assentimento. Mas olha só, nada disso quer dizer que a princípio o poder seja ruim. É da natureza das coisas ele existir. Pode ser uma coisa bacaninha. E só para você ver como tudo é enrolado, o poder tem alguma autoridade. É como eu disse, ninguém suportaria sem o menor problema uma coerção pela coerção. O poder precisa de alguma autoridade para existir. Mas as coisas são muito, muito enroladas! É que a autoridade às vezes precisa do poder também para ser efetivada. Ia ser muito bonito se todo mundo respeitasse uma autoridade só por causa da verdade que ela representa. Não, não é assim que as coisas funcionam.

Não sou contra o poder a princípio. Muito menos contra autoridade!

O Senado romano, quando tinha que decretar alguma lei, se valia da expressão senatus auctoritas. A vontade do povo era a auctoritas populi. Para você ver como essas coisas são complicadinhas. Porque auctoritas pode significar poder também. Aí não está muito errado considerar a autoridade pública uma autoridade...

[Agora vou passear. =) Depois completo.]

3 comments:

Evelyn Mayer de Almeida said...

Este seu texto fez-me lembrar do livro "O Monge e o Executivo". Eu adorei a leitura e adquiri uma nova visão sobre liderança. A gente "acredita" que líder é o que manda (=chefe), mas não é sempre assim não. Aí no livro o James HUnter cita o caso de um empregado de uma fábrica conseguir liderar toda a equipe e fazer uma greve. Ele conseguiu instigar nas pessoas um sentimento tal de confiança que elas fizeram o que ele pediram não por ele ser chefe,mas o líder. Daí eu já lembrei de Germinal, de Emile Zole, que também conta o mesmo caso (pena que a greve só rendeu catástrofe).

Bacaninha o texto, FrÔ! Gostei (como sempre :-D )

Tanja Krämer said...

Brigada! ;-)

Então, ser chefe não é só ter poder. Tem que ter alguma autoridade respaldando-o.

Vou aproveitar para dizer mais uma coisinha. Essa autoridade não pode ser só o que der na telha do chefe! Precisa ser um princípio que esteja de acordo com os subordinados. É por isso que a verdade é um ótimo princípio. Como ela é universal, é compartilhada por todos. A vontade é subjetiva. Ela não pode servir de fundamento comum.

Tanja Krämer said...

A confiança é necessária para uma boa liderança. Quanto mais poder você precisar para liderar, menor será o respaldo da confiança na equação política. Muita insegurança? Então mais coerção. A falta de confiança está ligada ao inchaço de um Estado.