Sunday, September 30, 2007

Reflexões depois de um showzinho

É que não disse antes. Escrevi o post anterior correndo. Estava para ir a um showzinho.

Me deu vontade de escrever umas coisinhas que pensei durante e depois do show. Outra hora termino aquele post.

Olha, antes eu levava muito a sério coisas como moicano, jaqueta de couro, a palavra underground. Claro que eu não usava moicano, mas respeitava quem usava. Teve uma vez que até (confissões da Espectadora) escrevi a letra de uma musiquinha. Ditadura de veludo. Já que sou eu mesma que estou me sacaneando, vou colocar só um pedaço do refrão. Me esqueci do resto.


Ditadura de veludo
Tênis Nike e roupa de Menudo.

Ai que vergonha...

Não sei se você está por dentro desse tipo de coisa. É que toda banda de hardcore tem que escrever alguma coisa sobre aquela entidade chamada "Sistema". Às vezes o nome da banda indica alguma coisa do tipo. (Olha, ninguém sabe direito o que é esse "Sistema" direito. Tem a ver com capitalismo mal-interpretado, noções de família mal-interpretadas, religião mal-interpretada, política mal-interpretada. Não dá para chegar para um cara desses e dizer "olha, cara, é que von Mises escreveu um negócio aqui que não tem nada a ver com o que você imagina que seja o capitalismo e tal", ou "ei, Tertuliano já explicou isso aí que você está falando". Haja Espírito Santo em todos nós!) Então, o nome da banda tem que soar forte e vagamente contrário a tudo que está aí. Os nomes parecem de tribo de orcs, tipo Matanza, Ratos de Porão, Olho Seco, Garotos Podres, Força Macabra. Ou Revolta Civil, Agnostic Front, Ataque Periférico, Sociedade Armada. Ou mais bizarro, tipo Uzomi, Zumbi do Espaço, Mukeka di Rato. E toda, toda banda de hardcore que se preze, tem que ter uma letra contra o "Sistema". Pode ser "Municipela" (de Guarda Municipal péla-saco), música da ex-banda de um amigo meu. Pode ser "Crucificados pelo Sistema", dos Ratos de Porão. Pode ser "Papai Noel velho batuta", dos Garotos Podres. Pode ser "California Über Alles", do Dead Kennedys... [Por sinal, essa banda (DK para os íntimos) tem um monte de letras desse tipo. O que acho mais engraçado é que na hora que descobriram uns problemas de pagamento não recebidos, resolveram pedir ajuda ao "Sistema". A confusão foi parar na justiça. Que nem uma vez que a polícia ajudou um dos caras do Titãs. Acho que os próprios polícias ficaram cantando "Polícia". Justiça poética.]

Tem um episódio de Gilmore Girls em que a banda da Lane vai tocar no CBGB. Esse lugar é legendário. No "cenário underground" (para usar um jargão do meio), lógico. É meio feínho. Não digo que é todo escrotão porque esta que vos fala já conheceu lugar pior.

Reminiscências nojentas agora. Uma vez fui assistir a um show em Engenho de Dentro (para quem não sabe, é um desses bairros esquisitos que tem no Rio). Algumas daquelas bandas citadas iam tocar lá. Peguei o 456. Saltei no Méier. Andei por uma rua esquisita ao lado do trem. Dei uma volta enoooorme no quarteirão mais mal-feito que já vi. Cheguei à Casa da Zorra (nomezinho do lugar). Era de noite. Tudo, tudo fechado. Lugar esquisitão. Perto, uns caras fazendo churrasco. A Casa da Zorra era um lugar pequeno, ultra-mal-ventilado. Coloca uma porrada de gente pulando e gritando num lugar sem janela. Dá para imaginar como deve ter sido, não? Olha, teve uma hora que quando olhei pro chão, ele estava to-tal-men-te molhado... de suor! Segunda coisa que nunca tinha visto na vida (a primeira foi o quarteirão esquisito). Acha que acabou? Para terminar bonito, um cara barbudão que estava cantando tirou a camisa e... deu um mergulhão e saiu deslizando pelas poças de suor! Até um amigo meu que era conhecido por ser meio maluco disse alguma coisa do tipo "caralho, mas que cara porco!"

(Ôxi, agora estou lembrando de um outro lugarzinho lá em Copacabana, ali na Siqueira Campos. Esqueci o nome. Eu e umas amigas chamávamos de "cu", porque era pequeno, apertado, quente e às vezes fedorento. Mas não era tão ruim quanto àquele bunker em Engenho de Dentro.)

Na saída todo mundo foi unânime. Nunca mais voltaríamos para lá. E olha que a gente era empolgada! (Para os leigos. Esse tipo de experiência é considerado muito positivo. Alguns gostam do termo "visceral". Outros gostam de fazer comparações com as tronchices do movimento punk na Inglaterra na época de Sex Pistols e tchurma. Fui excomungada uma vez porque disse que os punks daquela época são uma versão inglesa dos funkeiros cariocas.)

Você sabe que os muçulmanos têm que fazer alguma vez peregrinação a Meca. Aqui no Rio, nego que curte hardcore tem que ter ido pelo menos uma vez ao famoso Garage (famoso nesse meio). Senão é "punk de butique", "emo" etc. [São outros termos especializados. E um notinha. Hardcore considerado de verdade é sempre relacionado ao termo "tosco". É por isso que se a qualidade de um cd de hardcore não for pelo menos ruinzinha, os puristas fazem cara feia. Música boa tem que ter algum chiadinho.] Claro que esta que vos fala já foi lá. Uma vez. Assistir a uma bande um amigo. A região é tão doida que primeiro você passa por baixo de uma espécie de ponte de trem e, do outro lado, parece que está entrando numa zona atípica da cidade. Foi a experiência mais próxima que tive de cruzar um portal dimensional. Ou buraco negro, segundo alguns. Existe uma ruazinha por onde passa um monte de táxs correndo. Achei aquilo muito estranho. Por que tanto táxi correndo? Podiam atropelar alguém, a rua estava cheia. Isso supondo que as leis da cidade eram válidas por ali. Quando perguntei a um amigo por que tanto táxi passava por lá daquele jeito, ele me disse que havia um puteiro próximo chamado Vila Mimosa. A folga deles era rápida. Mais perto tinha um bar cheio de motoqueiros. Ficavam na deles, escutando alguma coisa pesada. Resumindo. Um lugar que parecia Mad Max. Eu estava metade contente por enfim conhecer um lugar tão lendário e que só tinha ouvido falar e lido. (Pois é, eu conhecia um livro sobre a história do movimento punk. Diziam alguma coisa sobre o Garage.) E estava metade arrependida por ter me enfiado num lugar como aquele. Teve uma hora que achei que seria melhor eu estar na minha casinha jogando Super Mario. Não me pergunte por quê. Passou rápido. Entramos. Lá dentro não tinha nada demais. Palco em frente. Bar ao lado. Coisas de praxe. Só o pessoal era mais perdido que de costume. Um amigo se meteu num pogo que de longe parecia a Cúpula do Trovão. Saiu meio lascado. Uma amiga minha ainda mais maluca também se meteu. Saiu como entrou, maluca. Um outro amigo, mais esclarecido, ficou me explicando as diferenças entre o pessoal hardcore do subúrbio e os da Zona Sul e tal. Parece que os do subúrbio, que estavam ali em peso, eram os "cariocas do hardcore". Os da Zona Sul eram os "fluminenses do hardcore". Isso parecia explicar a grosseria dos freqüentadores.

Pode parecer que não. Eu tinha gostado de ir e tal. Pelo menos uma vez. Nunca mais voltei...

(Claro que na época eu levava a sério essas coisas. Quer dizer, achava engraçado por ser diferente. Ver um cara de corrente de bicicleta e cadeado no pescoço era divertido. Mas eu achava que no fundo valia muito a pena participar dessas coisas. E só dei exemplos dos lugares mais cavernosos. Havia lugar que era mais direitinho. Tinha um numa rua que agora me esqueci o nome. Perto do Shopping Rio Sul. Acho que nem tem mais show ali. Só que não era uma experiência, hm, "visceral"...)

Hoje fui meio que por ir a um show desse tipo. Ali na Lapa, que aliás não gosto nem nunca gostei. Já não me empolgo muito com esse tipo de coisa. Esse negócio de escutar nego berrando as músicas, mais trinta e cinco pessoas por metro quadrado... Não é mais a minha praia. (Eu poderia contar algumas coisas sobre shows na praia. Deixa para outra hora.)

Fora outra coisinha. Essa atitude "pró-tosquice" eu não gosto. Eu hein, parece culto ao Chavez e Chapolim. Deve ser por isso que uma porrada de gente gosta de usar camisa com o rosto do Seu Madruga. Ou com aquele coraçãozinho do Chapolim. Achar que a graça de uma coisa reside no fato de ela ser mal feita... não me parece nadinha inteligente. Fazer questão de ter mau gosto é bizarro. Nem gosto de atitudes como ser contra autoridades só por ser contra autoridades (a-ha, link para o outro post!). Muita gente nesse meio adora vir falar de anarquismo. É chique usar aquele A de anarquismo numa camisa. Ok, eu já gostei disso. Mas não acho legal ter atitudes destrutivas em relação a tudo. Ainda mais por farra. Se bem que por farra ou não, não acho legal. Pior que sempre nessas coisas acontece algo chato. Ou nego não sabe do que está falando, e aí não enche muito o saco. Ou tem noção, e aí se torna um saco.

Hoje em dia eu acho que a leitura de um negócio do tipo Suma contra os gentios é muito, muito mais hardcore do que toda a obra de todas as bandas punks juntas. Multiplicadas por vinte e cinco! E um cara tipo Jó é muito mais chocante (sei lá se o termo é bom, mas enfim) do que trinta mil Sid Vicious. As Variações Goldberg são bem mais impactantes e transgressoras que toda a discografia de The Exploited.

Esse "cenário underground" e tal não fede nem cheira mais para mim. Acho tudo só uma coisinha engraçada. Não acho que seja indício do fim do mundo. Nem da "dissolução dos valores". (De repente até é. Sei lá. Uma coisa ou outra parece mesmo que sim. Existe alguma maluquice nisso tudo. Outra hora conto algumas coisas muito estranhas.) Nem sei são mais malucos os caras do Sex Pistols ou alguém que fica cismando que eles estão com o diabo no corpo. Também estou muito longe de achar que eles foram mais influentes na história do séc. XX que Aristóteles. (Você pode duvidar. Já discuti uma vez sobre isso. Acho que estavam de sacanagem comigo. Equivalente mais cheio de pose foi quando discuti em outro ambiente sobre quem era mais genial, Aristóteles ou Da Vinci. Acho que argumentei muito mal defendendo o grego. Fui voto vencido. Mas por que nego sempre me empurra o Aristóteles para eu defender?) Tudo isso para mim é tão transgressor ("visceral") quanto chiclete.

Trato essas coisas como trato chiclete.

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