Saturday, August 18, 2007

Grande conversação e religião

Se você for um cara honesto e resolver um dia estudar algum assunto, uma das coisas mais óbvias que fará será pesquisar uma bibliografia mínima a respeito. Depois que tiver uma idéia geral das discussões principais, você vai se aprofundar cada vez mais, descobrir as opiniões contrárias entre si, descobrir também aquelas questões que até hoje pelo menos não tiveram solução... e por aí vai. No final de tudo, você terá uma idéia razoável do assunto, poderá até expô-lo, ao menos em parte. Você não começará fazendo objeções a torto e a direito nas primeiras dificuldades. Mas se realmente acabar fazendo, vai ser mais para esclarecer do que para refutar.

Praticamente tudo que existe já foi estudado demais. A prudência aconselha então, meu amiguinho, toda a calma do mundo. Uma idéia que você tenha já deve ter sido pensada por fulano, analizada por ciclano e refutada ou emendada por beltrano. Como você vai saber disso? Só entrando na comunidade de pesquisas, ou então aquilo que Mortimer Jerome Adler chamava de "grande conversação". Os livros estão aí como testemunhas. Você terá que encará-los para ver o que os mais sábios disseram sobre as idéias. Como eles também fazem referência às idéias uns dos outros, haverá um espírito de diálogo em seus escritos. É isso que significa "grande conversação".

O problema é quando um carinha não é honesto. Ele não vai participar da "grande conversação". Vai ouvir lá de longe o papo e com a maior sem-cerimônia vai meter o bedelho onde não foi chamado. Esse carinha desonesto é um desses empregados que ficam com o ouvido grudado na porta da sala de reuniões do patrão só para fofocar depois o que mal entendeu com seus amigos.

Uma perguntinha. O que isso tudo tem a ver com religião?

Jesus Cristo ensinou há quase dois mil anos. De lá para cá, um monte de gente se aprofundou em seus ensinamentos. A Igreja sempre foi pedagoga por excelência e chamou a isso tudo de tradição. Quando você se depara com a religião, há uma enorme tradição que precisa ser levada em conta. É que nem no caso do fogo. Você pode de repente fazer fogo meio que do nada, mas não é mais fácil se alguém ensinasse a você ao invés de quebrar a cabeça fingindo que ninguém sabe? Poupa um trabalhão! Com a religião é a mesma coisa. Por isso nosso papa Bento XVI, quando ainda era cardeal, disse que a Igreja é um barco velho porém muito experimentado.

A quantidade de escritos dos Padres da Igreja é enorme. Só Santo Agostinho é um estudo para quase uma vida! Ou peguem o caso de um doutor como São Tomás de Aquino. Ele estava por dentro da "grande conversação". Ele tinha um espírito pedagógico e expôs tudinho em sumas de teologia. Elas são um manual, mais ou menos como esses FAQs. Se você tem alguma dúvida, pode ir lá e consultar. (FAQ mesmo é o catecismo.) São Tomás de Aquino tinha a característica de aparar arestas. Então freqüentemente comparava opiniões contrárias entre si e resolvia o problema. Levava em consideração também as objeções mais pesadas. Era mesmo um mestre! Só que não é por acaso que citei Santo Agostinho e São Tomás. Se você for um cara honesto e estiver cheio de dúvidas, antes de fazer objeções tente encarar esses dois santos primeiro, como exemplo. Não seria surpresa nenhuma se suas dúvidas já tiverem sido respondidas.

Se você fosse falar de física, você teria também essa prudência. Por que não ter com a religião?

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