Thursday, August 30, 2007

A Criação II

O texto anterior me fez lembrar de Werther. Uns trechos:


Quando, outrora, do alto dos penedos eu espraiava o olhar para além dos rios, para o fértil vale que se alongava até àqueles outeiros e via tudo a germinar e a desabrochar em redor de mim; quando olhava esses montes, cobertos de copadas árvores desde o sopé até à crista, esses vales semeados de pequeninas matas, a água límpida do arroio serpenteado por entre os canaviais e refletindo a nuvem a que a branda brisa da tarde impelia no firmamento; quando, em seguida, ouvia o gorjear das avezinhas e extinto este, o zumbir dos besouros, que, até então ocultos na relva, surgiam aos últimos raios do sol poente; quando, enfim, atentava nesse tumultuar da vida, que do chão brotava em redor de mim, e no musgo que arranca da pedra o seu alimento, na giesta que cresce na areia ardente, revelando-me assim essa vida misteriosa e íntima da natureza; com que efusivo transporte a minha alma abraçava tudo e como, ante o espetáculo dessa superabundante vitalidade, ela se sentia iluminada! E as formas majestosas deste mundo infinito moviam-se e refletiam-se nela! Sim! Montanhas enormes me dominavam, cavavam-se precipícios a meus pés, despenhavam-se, ali, torrentes impetuosas, retumbavam as selvas e as serranias; nas profundezas da terra via cooperarem todas essas forças maravilhosas da criação, e depois, sobre a terra e sob o céu, inúmeras espécies de criaturas.

Um pouquinho mais adiante:

Desde a inacessível montanha, que nenhum pé humano pisou ainda até ao cabo do ignorado imenso Oceano, em toda a parte respira o alento do Eterno Criador, que em cada grão de pó conhece e dá vida.

Até aqui é uma descrição da beleza e majestade do mundo. Mas... as coisas são fugazes:

Poder-se-á dizer: “isto existe”, quando tudo se desvanece, quando tudo desaparece com a rapidez do raio, quando qualquer criatura tão raro e por tão pouco tempo conserva as forças vitais que possuía e se vê arrastada pela corrente, devorada pelo abismo, esfacelada contra os rochedos? Não há instante que não te devore, a ti e aos teus (...).

Tem mais. É tudo por necessidade! A geração implica corrupção. A maior aflição é essa necessidade natural. Contemplar o mundo pode chocar:

O que mina o coração é essa força imensa de destruição que a natureza contém em si própria, que nada edifica sem que destrua.

Não sei se é a melhor das traduções essa. Se deu para entender a idéia geral, beleza.
Uma pergunta. Contemplar a beleza do que quer que seja é também uma experiência melancólica?
Achou que eu ia responder, né? Sai fora! Não complica minha vida.

No comments: