Sunday, August 19, 2007

A arte gótica

Eu queria escrever sobre A arte gótica (Formprobleme der Gotik), livro do Wilhelm Worringer. O problema é que estou cansada! Vou fazer umas indicações, dizer algumas impressões e dar umas interpretações.

É um livro pequeno e é de 1911. O título em português engana um pouco. Não é bem sobre a arte gótica. É sobre a psicologia do gótico. Worringer diz que é uma hipótese. É difícil ser de outro jeito. Se fosse um cientista, o livro seria um experimento. Não sem pé nem cabeça. Os indícios são as obras góticas e também de outros períodos. Mas o que ele quer encontrar é um movimento espiritual específico para identificar o que seria o ideal gótico. Por isso que ele analisa desde as primeiras manifestações artísticas dos povos germânicos.

O livro parece meio abstrato. Não é por acaso. Worringer está tratando de um ideal.

Achei bastante interessante o que ele disse sobre o gótico porque ele defende a idéia de que não é apenas um estilo artístico. É uma expressão da relação do homem com o mundo e com o transcendente. Essa relação é uma característica dos povos setentrionais. Sempre existiria alguma coisa de gótica em seu espírito. Não sei se tem mesmo razão. Mas acontece que Bach fez muita música que tem alguma coisa de gótica. Isso pode ser explicado por causa da afinidade que Worringer dizia existir entre o barroco e o gótico. A técnica da fuga, do contraponto, todas essas coisinhas lembram um pouco as complicadas tramas de linhas que desde o início os povos germânicos gostavam de representar em artefatos e em desenhos. Ortega y Gasset dizia que o europeu gostava em especial da linha. Ela marcaria o progresso. O grego teria mais apego pelo círculo. Talvez seja por causa do espírito gótico que se espalhou pela Europa.

Não lembro do Worringer ter dito alguma coisa sobre a cruz. Pode parecer que não tem a ver com o gótico. Não tem tramas complicadas. Não parecem representar um conflito. Mas são duas linhas que poderiam se expandir para o infinito. Tem só um ponto de contato. Cada uma vai para um lado. Parece que do centro as linhas se expandem. Não são fechadas. Poderiam sim abraçar o mundo! É um símbolo interessante. Deve ter chamado a atenção daqueles povos.

A catedral gótica é o coroamento do ideal. Wagner bolou a idéia da Gesamtkunstwerk ("obra de arte total") para suas óperas. Acontece que a catedral antecipou isso um monte de séculos antes! A ópera de Wagner é quase arte religiosa, só que não tem transcendência. A catedral, com sua arquitetura, suas imagens, seus coros, seus ritos, suas representações, é uma transfiguração total da realidade mais imediata! A pedra é alongada até uma altura absurda e lá de cima a abóbada parece flutuar. As colunas dão aparência de agilidade e leveza. O espaço interior é aproveitado para ajudar a causar ainda maior impressão. Ele se torna um elemento importante da construção. Worringer não disse quase nada disso. Me parece uma boa conclusão do que ele escreveu essa comparação com Wagner. Pode ser que não seja um acaso. O gótico é um movimento espiritual. Podem jogar pedras em mim por dizer que existe alguma coisa gótica em Wagner!

Existe sempre uma tensão em toda a arte gótica. Ela é "resolvida" pela transfiguração. Os elementos são distorcidos e apontam para alguma coisa mais além. O espírito daquela gente parecia bem agitado! Não que fosse de pânico. Essa é uma das diferenças entre o espírito gótico e o primitivo. O homem primitivo é meio apavorado porque o mundo parece hostil e o transcendente é esmagador! Sempre precisa aplacar as forças cósmicas. Ele acaba se voltando para si mesmo. É no seu espírito que ele busca ordem. Encontra nas figuras geométricas a melhor representação do que ele acha mais ideal. É a sua salvação. O homem gótico é um pouco diferente logo de início. Ele também é chegado à abstração. A questão é que é possível notar, em suas tramas de linhas complicadas, que ele é inquieto. Parece tentar encontrar vida no abstrato. Não resolve essa contradição. Justapõe. Só com o gótico desenvolvido ele achará uma solução. Mas nunca é algo tranqüilo. Essa é uma característica do homem clássico. Ao contrário do primitivo, ele sublima o conflito encontrando a tranqüilidade das formas na natureza. Diviniza o mundo e a si mesmo! Está longe de ser abstrato. Já é outro o espírito do homem oriental. Ele tende ao abstrato porque nada no mundo é real. Até seu eu não tem valor. Só terá se ele se desligar das ilusões do mundo e se apegar ao transcendente. Não há representação das coisas que o cercam porque nada disso existe de verdade. Só o transcendente importa. O homem gótico partilha um pouco dessa posição. Mas o homem foi divinizado no exemplo de Jesus Cristo e o mundo foi salvo. As coisas deste mundo podem apontar para o que é mais alto. Maior exemplo disso é a pedra. Pode ser dura como for, pesada... Mas ela pode ser domada e transfigurada! É essa relação tensa que toda a arte gótica acaba representando.

Li pela Edições 70. Não lembro quem foi o tradutor. Achei que faltou um pouquinho mais de cuidado. O negócio parece ter sido feito meio que correndo. Isso sobre uns errinhos bobos. Não sei dizer se é uma tradução tão horrível como a que o José Saramago fez do Georges Duby. Uma professora minha não parava de falar mal. Só usava o texto dele porque era em português.

Não conheço o principal livro do Worringer. Se chama Abstração e empatia (Abstraktion und Einfühlung). Foi sua tese de doutorado. Passarinho de Internet me contou que foi aí que ele desenvolveu suas idéias sobre psicologia do estilo. A arte gótica pode ser uma aplicação em particular de suas teorias.

Escrevi um mucado de coisas para dizer o seguinte. Não sei o que dizer sobre esse livro! Ele tem muitas sacações interessantes. Mas sei lá que dizer sobre o gótico ser um caos sofisticado no mais alto grau! Vou fazer uma citação através de um site, porque não estou com o livro:


A necessidade de ação que sente o homem nórdico não pode converter-se em conhecimento claro da realidade; e assim, excitada por essa falta de solução natural, descarrega finalmente em malsãs atividades fantásticas. O homem gótico, não podendo transformar a realidade em naturalidade por meio do conhecimento claro das coisas, as submete a essa atividade de fantasia e a converte assim em uma realidade fantasmagórica e desfigurada. Tudo entre suas mãos se torna inquietante e fantástico.


Esse elogio é meio esquisitinho. Não custa lembrar que Wilhelm Worringer foi muito lido. Ortega y Gasset mesmo escreveu alguns artigos sobre o livro A arte gótica. Manuel García Morente traduziu para o espanhol. Passarinho da Internet me contou também que seu livro Abstração e simpatia teve bastante influência nos meios artísticos da Alemanha. Há ligações entre o expressionismo e Worringer. Existem muitos links entre a arte moderna e essa arte não-clássica.

Não é coincidência o barroco ter sido reabilitado a partir dessa época. Worringer dizia que esse estilo era o resultado da influência gótica na onda clássica. O espírito era afim. Não sei se ele escreveu alguma coisa específica sobre o barroco. Nesse início de século as óperas de Handel foram desenterradas graças aos primeiros esforços da universidade de Gottingen. Houve um revival do barroco enquanto o gótico era reinterpretado. A arte primitiva também recebeu elogios. Foi também a época de A sagração da primavera (Le sacre de printemps) de Stravinsky, coreografia de Nijinsky. E foi a época da guerra bárbara, 1914. Bom link entre esse evento e o espírito da época é o livro A sagração da primavera de Modris Eksteins.

Meu comentário é um sei lá. Pelo menos o livro faz pensar. E é meio que um documento histórico.

2 comments:

Gustavo said...

Muito, muito bom, senhorita. O já lendário Pedro Sette Câmara deu-me o toque, resolvi conferir.

do agora leitor,

Gustavo Nogy

Tanja Krämer said...

Brigada, senhor! ;D

Da agradecida e toda prosinha,

Tanja Krämer