Saturday, August 18, 2007

Algum tempo depois do meu pai ter lido meu blog

Pedi para meu pai dar uma olhada no meu blog de novo.

Ele lia o que eu escrevia e eu lia o que ele achava, pelas expressões faciais. Na sétima careta eu perguntei se ele não tinha gostado de alguma coisa.

- Mas minha filha, você escreve muito coloquialmente. E por que tanto palavrão? Isso estraga o que você escreve.

Não lembro quando foi que comecei a escrever palavrões. Lembro que tudo começou depois que entrei para faculdade. Juro que escrevia tudo muito bonitinho. [Segunda nota: se existe diferença entre forma e conteúdo, eu escrevi com uma forma toda empoladinha uns negócios bizarros. Um dia me achei horrenda no espelho, lembrei de uma coisa que ouvi num sermão de algum crente e escrevi bem assim: “Meu torpe corpo parece atado a um cadáver, conforme os costumes terríveis dos romanos.” Ou coisa parecida. Achei isso o ó do borogodó. Tenho muita vergonha dos meus 17 para 18 anos.] Antes eu também não falava muito palavrão. Mas então fui parar na faculdade. Não, ninguém lá me incentivou a ser desbocada. Ao contrário! Esse “ao contrário” que me deixou p...ossessa.

Tudo começou quando escrevi a expressão “esforço homérico” numa prova. Tirei 5, não tinha estudado. Bem feito. Agora o detalhe. A professora destacou com umas voltinhas de caneta vermelha a expressão, fez um rabinho que terminou em seta e escreveu assim, no cantinho da folha: “Essa não é uma expressão acadêmica.” Na página anterior [Terceira nota: nessas faculdades malucas a gente é incentivada, sob pena de reprovação, a escrever que nem louco.], eu tinha chamado Karl Marx de “esse homem”. Lá foi a professora fazer aquela brincadeira toda e escrever: “Não se diz ‘esse homem’, mas autor. Isso denota desdém.” Naquela época só achava "esse homem" meio enjoado. Se eu quisesse desdenhar (ai, palavrinha...), eu teria escrito PILANTRA ou GORDO ESCROTO, FEIO E MALVADO. Dizer "esse homem" ao invés de "autor" é muito feio. Depois que li essas duas observações, de repente veio um click! meio breguinha. Comecei a prestar atenção no estilo de falar e de escrever lá dentro, e aí reparei que todo mundo era cheio de frescurites quando o assunto tinha a ver com a Academia. Aí resolvi avacalhar aos pouquinhos. Nunca cheguei a mandar alguém para a merda na prova. Mas abusei de propósito do jeitão coloquial de escrever. Cansei de ver comentários do tipo: “Você precisa trabalhar mais seu linguajar”. O que mais gostei foi: “Esse modo de expressão é incompatível com trabalho acadêmico e, o que é pior, parece que você faz de propósito.” Um dia vou compor os apoftegmas acadêmicos.

Isso acabou me viciando. Quando converso com alguém que adora usar aquele linguajar e tal, de repente já estou no quinto “porra”, sem perceber. Quantas vezes tive de segurar minha língua conversando com professor! Nossa!

Acho que o palavrão acabou servindo pra mim como tábua da salvação.

Agora lembrei de outra coisa. Outro dia, peguei um livrinho chamado “Fábulas Medievais: os fabliaux nos séc. XII e XIII”. Saiu pela Martins Fontes. [Quarta nota: essa editora e a Mandruvá até que publicam um monte de coisas legais da Idade Média.] Fabliaux eram uns contos metrificados e meio sem-vergonha. Aquele pessoalzinho adorava uma moral no fim. Por mais cafajestes que fossem, eles sempre tinham a moral. Quem escrevia aquelas coisas devia ser admirador dos goliardos, porém menos, hm, letrado. Era um tal de neguinho fazer mudanças de tempos verbais do nada que vou te contar! Ou então eles estavam de birra com algum acadêmico na época! No livrinho havia alguns fabliaux muito engraçados. Um dos que mais gostei era um chamado “Berengário do cu longo”. Era a história de um cavaleirozinho que se metia na floresta e ficava dando porradinhas na armadura e escudo e depois voltava contando que enfrentou um monte de gente e tal. Aí a mulher dele ficou um dia desconfiada, se armou como cavaleiro e encontrou o cara fazendo aquelas palhaçadas. Ela o ameaçou e disse que só não ia acabar com ele se ele beijasse o cu dela. Quando ela empinou a bunda para ser beijada, o cara disse: "Por Deus, nunca vi um cu tão longo na vida!" (Se você tem mais de 14 anos, deve ter entendido a reação do cara, espero.) As outras histórias têm um monte de palavrões também. E o que tem de sacanagem... nossa senhora! Às vezes parecem coisa de um Ary Toledo mais culto e medieval. Resumindo, está entre um goliardo e um Ary Toledo, mas sempre com uma moral. “Deus escreve certo por linhas tortas”.

E Cícero, Marco Túlio? Ele chamou Marco Antônio de pederasta juvenil, ladrão, bêbado, imbecil, animal, louco rematado... Disse que ele, bêbado, vomitava na toga, sujando-a com pedaços da carne que acabara de comer. Não chegou a mandá-lo pr'aquele lugar. Fez coisa muito pior. Deve ter sido engraçado escutar um discurso de umas 3 horas só com ofensas horrendas. Acabou morto. Há coisas bem piores que um palavrão!

Esqueci de escrever o que eu disse para meu pai. Gosto de assistir a lutas de boxe e jogar coisas tipo Street Fight e Mortal Kombat. [Quinta nota: luta não é coisa só de homem, tá?] Eu disse o óbvio. Se acho legal ver duas pessoas brigando (com regrinhas), eu vou lá achar feio uma palavrinha? Se gritarem comigo de repente eu até choro, mas escrever um negócio feio e ficar cheia de prurido aí já é demais! Ôxi!

O negócio é o seguinte. Tudo bem que não é bonito ficar xingando toda hora. Mas ficar horrorizado aí também é demais. E outra coisa. Acho que qualquer pessoa normal deve achar anormal como a gente da universidade se expressa. Vixe Maria! Sei que seria mais bonitinho se eu me expressasse de outro jeito. O problema todo é que isso virou uma terapia bizarra pra mim! Só consigo ficar boa se começar a xingar quando neguinho vem com aquelas “estruturas estruturais de estruturas estruturantes” [Sexta nota: não inventei essa doidera] ou com aquele papo mole de “a multiculturalidade é...” Dá vontade de completar “... é uma porra!” Então não impliquem comigo se acharem que sou boca suja. [Sétima nota: esse plural é retórico. Não sei pra quem estou escrevendo essas coisas. Perdi a oportunidade de ficar de bico calado. Sempre perco. Podia estar lendo o diabo do livro que peguei dia desses na biblioteca. Mas nãããão, tenho que ficar enrolando. Essa nota virou um esporro contra mim mesma.]

Posso ser a maior boca suja. Mas sou calminha, sabia? ;)

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