Saturday, February 03, 2007

Borrão triste

Amigo,

Escolhi você para ouvir meus cantos tristes.

Seja quem estava ao meu lado sorridente. O belo gatinho que encontrei passeando num canto estava inocente e feliz. Quando surgia o vento, debaixo do sol, eu tinha uma sensação agradável. Fechava os olhos aproveitando a sensação. Meus cabelos balançavam ao ritmo do vento. Meu pai me dizia coisas alegres. Somente o meu coração permaneceu distante. Por quê?

Por causa do mundo? Será por causa do corpo? Não cederei à tentação mais baixa e mais cômoda! Gritar que o mundo é o culpado porque é malvado. Que o corpo é origem do mal. Pelo corpo amo, pelo mundo existo, pelo corpo e pelo mundo pude ser amada e feliz.

Qual é o problema?

Amigo meu, que escuta esses meus cantos tristes, a tristeza me seqüestra porque esta vida que por acaso vivo não é a minha. A tristeza surge porque não consigo deixar de ouvir o chamado para viver aquilo que eu deveria. Mas se ouço, nada faço. Se faço, nada surge. Se surge, nada é útil. Se é útil, não parece verdadeiro. Tudo é impressão, mas sempre desfavorável.

E não consigo fixar as impressões em palavras, ainda que rasteiras! Não posso me comunicar para dizer o que deveria ser, e nada sou porque não consigo dizer nada com clareza nem para mim mesma! Enquanto as sensações não se tornarem poesias, continuarei para todos os efeitos muda.

Meu amigo, deixarei de fazer você ouvir meus cantos tristes. Carrego essa tristeza comigo, mas também tenho comigo a alegria da esperança. Ela preserva o que há de melhor em minha vida e me aponta um feliz caminho, embora eu só enxergue um borrão.

Você também é meu apoio, sem você eu seria muito menos, minha alegria seria diminuída. Você retira esse peso que levo, me deixa mais leve.

Obrigada por me ouvir. Até quando ninguém além de mim mesma deveria.

Update, 25/07/2008: Esse texto ficou horrendo. Resolvi alterá-lo quase todo e republicá-lo com o nome Alquima no meu outro blog.

No comments: