Friday, January 05, 2007

Olavo de Carvalho e o nosso país

Ortega y Gasset vivia espinafrando a Espanha. Olavo de Carvalho faz a mesma coisa com o Brasil. Não sei quanto a Espanha, mas o Brasil merece mesmo alguns puxões de orelha. O filósofo brasileiro tem mais que razão.

Em recente artigo, ele diz mais algumas verdades. Um trecho, com alguns grifos meus:

No Brasil, o sujeito possuir uma erudição superior é considerado uma aberração, uma falha de caráter, uma doença. Cada um tem de ler apenas o pouco que seus colegas leram, nem uma linha a mais. Se passar disso, ofende e humilha a corporação, sendo automaticamente condenado por delito de "pedantismo".

Para redimir-se, deve provar genuflexa humildade ante seus detratores, retribuindo a difamação com favores servis como Otto Maria Carpeaux retribuiu aos comunistas. Pode também compensar a indecente pletora de conhecimentos com demonstrações de modéstia populista, escrevendo sobre samba, futebol, comida ou sexo, para mostrar que erudito também é gente. Mas isso nem sempre funciona. José Guilherme Merquior jamais foi perdoado, pois não fez uma coisa nem a outra. Gilberto Freyre tentou a segunda, mas já era tarde: nenhum populismo, estético ou lúdico, poderia jamais absolver o pecado mortal da adesão ao movimento de 1964.

Qualquer que seja o caso, o excesso de leituras pode ser perdoado em vida, mas sempre restará uma nódoa póstuma. Comentando o segundo volume dos Ensaios reunidos de Carpeaux (Topbooks), muitos resenhistas se mostram irritados com a erudição do genial ensaísta e historiador literário, só a desculpando quando encontram, com mal disfarçado alívio, algum defeito que a seus olhos o reduza a dimensões mais humanas. De passagem, observo: neste país é proibido escrever sobre os grandes homens com respeito genuíno e admiração humilde. Um ar de superioridade, pelo menos de intimidade desrespeitosa, é absolutamente necessário à boa auto-imagem do crítico, bem como à sua reputação.
Ortega y Gasset, em seu clássico A Rebelião das Massas, dizia que era típico do homem-massa a insubordinação. O homem-massa não está satisfeito em ser pequeno. Ele quer que todo mundo seja como ele, não reconhecendo nada que esteja para lá de seu horizonte curtinho.

Uma história contada pelo próprio Ortega em outro lugar: durante a Revolução Francesa, uma nobre era levada para a prisão. Uma camponesa disse a ela: "Hoje serei a nobre e você a camponesa!" Um advogadozinho revolucionário, típico ressentido, ao ouvir aquilo lhe respondeu: "Não, senhora, todos seremos camponeses!"

A historinha representa bem o que é o homem-massa. Ele transborda de filisteísmo.

Sabe o que é pior? É que esse tipozinho realmente gosta de chamar os outros de pendante quando ele mesmo é pedante. Pedantismo é simplesmente ter estudado alguma coisa além dele. Em suma: o cara é um chato de galocha.

Yo soy yo y mi circunstancia, ensinava o meu guru. Se a cirunstância é esse pau que dá em doido que é o nosso país, aff... Estoy muerta, mierda!

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