Thursday, January 04, 2007

Novamente a dizer sobre pessoas boazinhas

Momento egotrip: vou comentar um texto meu.

Escrevi o seguinte em Napalm Death:
As pessoas foram tomadas da síndrome do bom-mocismo. Todo mundo quer ser racional, pacífico, analítico, multicolorido, complexo, tolerante.
Ótimo exemplo disso é a mania de tanta gente dizer "respeito a sua opinião" ou o velho "bem, gosto não se discute". Às vezes tem quem emende aquela frase que dizem ser de Voltaire: "Posso não concordar com a sua opinião, mas vou defender até a morte o seu direito de expressá-la." That's so cute...

Esse bom-mocismo é o filisteísmo dos nossos tempos. Prazer.

O filisteu de nosso tempo é isso tudo e muito mais. Ele é comportadinho, corretinho. Quando escreve, escreve com um esforço de correção que mais parece que está prendendo os intestinos para não borrar as calças. Quer ser amado. Então tenta não ser pedante em opiniões gerais. Mas se for apertado, se defenderá com a velha pedanterie (em francês, para ficar plus chic). É contra todas as injustiças do mundo. Quando fala do menino de rua se enche de emoçãozinha. É como o cidadão comum deve ser (by von Mises). Ser filisteu, sonho de todo intelectual brasileiro.

Tenho uma bronca especial contra esse tipo de gente. São sempre forçados. A pedanterie é casca. Se você cavar um mucadinho, vai descobrir um tremendo mongol esperneando. A mistura cai tão mal para meu estômago quanto carne junto com sorvete. Só de pensar embrulha!

Outro dia eu passeava por um blog quando encontrei a expressão mais maravilhosa do mundo para definir esse tipo de gente. Meus olhos chegaram a brilhar. A expressão era "jagunço parnasiano". Não é uma belezura? Quem disse isso podia ser chamado de filósofo, descobriu a essência do fenômeno. O jagunço parnasiano, casca de mocinho esperto mas fundo de aborígine, é a praga moderna.

Agora vou tirar o coelho da cartola. Vou mostrar o segredo por trás dessa gente boazinha.

O segredo se chama maniqueísmo. A praga que Santo Agostinho tanto se esforçou para chutar o traseiro (dúvida: praga teria bunda?) está de volta. Não sozinha. Os erros desses tempos são a aliança de todas as heresias juntas (by São Pio X). É o tal do modernismo. Porém existe o fundo maniqueu, e maniqueu soa como gnóstico. Vamos só cuidar do primeiro.

Quando você diz assim: "existe mocinho e bandido", "fulano está certo, outro está errado", e coisas desse tipo, muita gente costuma dizer que não existe esse papo de bem e mal, mocinho e bandido, certo e errado. Outro dia me disseram que o mundo é cinza, ao que perguntei se por um acaso ele se parecia com o céu de Londres, pois tem gente que diz que lá sempre é cinzento. Preto e branco é ilusão, tudo é cinza. Por essa lógica, não há homem e mulher, criança e velho, alegria e tristeza. O homem é mulher e mulher é homem, criança é velho e velho é criança, alegria é tristeza e tristeza é alegria. Homem age como mulher e mulher como homem, criança age como velho e velho como criança... e por aí vai. Confusão do cacete e me deu até dor na cuca só de tentar encadear essas frases. O mundo seria o bem e o mal juntinhos. É como o lema do IngSoc, o Partidão do livro 1984:

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força

Quem dissesse o contrário seria o maniqueísta. Ou bestão. Ou... inimigo...

For God's sake! Não é ser maniqueísta apontar o certo onde está o certo e o errado onde está o errado. Ser maniqueísta é apontar numa só coisa o errado no certo e o certo no errado. O melhor provérbio para entender o que estou dizendo é que "tudo tem dois lados". Eu diria: exceto a bola!, a menos que você use um giro de linguagem para incluir o tal do lado de dentro e o de fora. Um ponto não tem lado. Nem extensão. Quantos lados têm o 5? Deus tem um lado ruim? Somente o maniqueísta sempre achará que tem que encontrar sempre o bem e o mal juntos e amarrados. O pior de tudo é quando ele acusa o cristão de ser... maniqueísta. Nunca um cristão será maniqueísta pelo simples fato de Deus não ter um contrário. Satanás não é o oposto simétrico de Deus. Com os maniqueístas o papo é outro. O bem tem um equivalente, o mal. É a luta perpétua entre duas entidades de sinais contrários, Aura-Mazda e Arimã. O primeiro é a verdade, o segundo é a mentira. Os reis persas chegavam a dizer que eram a tal ponto servos da verdade que preferiam se abster de dizer uma verdade caso ela soasse a alguém como mentira.

É por isso que quando você diz a um maniqueísta que fulano está certo e o outro errado, isso soará para ele esquisito. Não, não pode! Se ele for um maniqueísta que não sabe o que é maniqueísmo, ele irá te chamar de maniqueísta. (Este é o brasileiro típico, universitário, pessoal legal.) Se você pedir a opinião dele sobre uma coisa, ele vai te indicar o lado bom e o lado ruim, abstendo-se de dizer no final das contas se a coisa é boa ou ruim. É como se você perguntasse a alguém se o macarrão está quente ou frio e o camarada dissesse para você que por um lado está quente, mas por outro está frio. Vai achar que isso é ser espertão. Aqui no Brasil não falta gente assim. Dariam péssimos cozinheiros.

As pessoas boazinhas são as mais ferozmente maniqueístas. Mesmo para o evento mais tenebroso ela vai achar o lado bom. Se o mal está junto com o bem, então um sujeito mau pode ser um sujeito bom. O maniqueísta achará então que mesmo um bandidão tem suas razões legítimas. Quem não for maniqueísta achará que realmente um bandidão pode virar alguém legal, mas a possibilidade disso acontecer é infinitesimal. Para efeitos práticos, inexistente. Como o Olavo de Carvalho disse uma vez, qual a probabilidade de o Champinha se tornar santo?

Foram pessoas assim que tomaram o controle das escolas, do rádio, da justiça, da tevê, culminando com a política. Às vezes, na política elas resolveram ensaiar um apocalipse. Acharam-se representantes do Bem na luta final contra o Mal, a fim de salvar toda a humanidade. Claro, todos se ferraram. Mas levaram milhões com eles. Essa é a essência do nazismo, do comunismo e de muita coisa tenebrosa. O nazista era uma pessoa boazinha. O comunista é também uma pessoa boazinha. Os simpatizantes de cada um desses movimentos são mais bonzinhos ainda. Vão lutar contra o mal. Uns contra os judeus, outros contra os exploradores capitalistas. (Nota rápida. Os nazistas achavam que os judeus controlavam o grande capital. Os comunas lutam - é o que dizem - contra os capitalistas. Os nazistas, lutando contra os judeus, tinham quase os mesmos inimigos dos comunas. Não foi à toa que os soviéticos e os nazis chegaram a assinar o Pacto Germano-Soviético. Nazismo e comunismo são muito parecidos. O próprio Stálin dizia que o nazismo é o navio quebra-gelo da Revolução. Se você cospe na cara de nazi, tem que cuspir na cara de comunista também. Obrigada.) Lutar, entenda-se, é matar quem não for que nem eles. Cem milhões de mortos só pelo comunismo, número de mortes maior que o de todas as guerras, pestes e calamidades juntas em toda a história da humanidade (não estou usando jogo de expressão, realmente é verdade), dá bem a medida da feiúra do comunismo. Sobre o nazismo, bem, todo mundo está careca de saber.

Pessoas boazinhas ajudaram e tem ajudado bastante o Chifrudão. Até quando vamos tolerar essa gente e sua expressão nacional, o "jagunço parnasiano"? A julgar pelas 50 mil mortes anuais em nosso Brasil, sem que os bonzinhos parem com esse papo de bandido oprimido pela sociedade e polícia corrupta, ainda correrá muito sangue. E lágrimas. Todos sacrificados no altar da demência e da maldade camuflada. Como diria outro provérbio, a melhor tática do capeta é fazer com que acreditem que ele não existe.

Update: Junto às pessoas boazinhas, coloco também aquela raça que vive choramingando dizendo "oh, o Deus do Antigo Testamento era tão malvado...", principalmente certo subgrupo de ateus enjoados que primeiro diz que não crê em Deus mas logo em seguida revolve julgá-Lo.

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