Tuesday, January 09, 2007

Mantra do combate ao crime

Nosso governador Sérgio Cabral tem andando de um lado para o outro. Um dia foi aos hospitais. Outro dia falou do plano para acabar com a violência. Ele tem mostrado a todos que está agindo.

Atenção. Eu disse mostrado.

A Espectadora é nova, é ingênua, mas não é tonta. Ela tem visto desde bebezinha a mesma encenação. Fazer política é teatrinho. Importa não o que é, mas o que parece. Ele, o governador, está mostrando a todos que está fazendo alguma coisa.

Até hoje não acabaram com crime na base da intenção ou do mostrar-se. Isso já está até ficando repetitivo. Virou ritual. Mas aqui no Brasil, terra das aparências, os indígenas gostam muito disso.

Guilherme Fiúza acertou bem quando escreveu o artigo A burocracia do terrorismo:

O presidente desabafou, diante da escalada da barbárie: “Passei o dia deprimido por ver seguidamente cenas de violência”. Ele ordenou que o ministro da Justiça acelere as medidas do plano nacional de segurança pública, que vai apertar a legislação contra o crime e aumentar a integração entre as forças policiais do país.

O presidente era Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Justiça era José Gregori, a barbárie era o seqüestro do ônibus 174 (sete anos atrás) e a indignação presidencial era a mesma de hoje. As medidas anunciadas também.

O brasileiro é mesmo um crédulo. Engole pacotes de segurança pública com mais facilidade do que aspirina. O caso do ônibus 174 deu filme, deu muita literatura para jornal, farta estética mundo cão para consumo da população culta. E em que deu o badalado pacote de segurança de José Gregori?

Acertou. Em nada. Mas foi emocionante ver, no governo seguinte, boa parte daquele mesmo punhado de idéias sensatas, sempre enunciadas por gente inteligente e charmosa, voltar às manchetes de jornal como o novo plano de ação contra a violência.

Estava lá: “Criação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), para agilizar o fluxo informativo entre instituições e melhor combater a criminalidade”. Achou bonito? Tem muito mais. “Integração dos Sistemas de Informações Criminais, através do Sistema Nacional de Inteligência e de Informação”. E por aí a coisa ia.

Mais quatro anos, mais um governo, e chega-se à conclusão inevitável: esse formidável repertório de integrações, agilizações e inteligência rara deve dormir há décadas na mesma gaveta de algum burocrata federal. O buquê de medidas sai dali sempre arrumadinho do mesmo jeito, não muda nem o arranjo.

Ou melhor, muda um pouco. Em lugar de criar o SUSP – quatro anos depois não ficaria bem criá-lo de novo, embora ele continue não existindo –, agora está escrito “consolidar o SUSP” (daqui a quatro anos, como nada terá acontecido, possivelmente estará escrito “implementar a consolidação do SUSP”, ou alguma dessas construções eruditas que envaidecem os burocratas da esplanada).

O Fundo Nacional de Segurança Pública teria que ter tido o papel de “induzir os princípios e práticas policiais”. Como do ponto de vista de Marcinho VP e Marcola isso não fez a menor diferença, agora está lá a grande transformação: “Ampliar o papel de indutor de princípios e práticas policiais do Fundo Nacional etc etc…”. É impressionante como a alquimia lingüística dos burocratas faz renascer idéias que pareciam sepultadas.

A cada novo ato de barbárie desses que paralisam o país, os governos tucanos e petistas gritam basta e avisam que vão integrar (que palavra abençoada) as instituições do Sistema de Justiça Criminal e de Segurança, para “articular (outro vocábulo mágico) prevenção e repressão, fortalecendo os sistemas de inteligência (benza Deus) e informação”.

Fora o que está escrito no plano de governo 2007/2010 de Lula, devidamente reciclado dos quadriênios anteriores, há as medidas de emergência que empolgam a população. A mais espetacular é a constituição da Força-Tarefa de segurança pública, uma entidade imaginária que ganha as manchetes toda vez que algum mal ronda o país. Também causa grande impacto e provavelmente deixa a bandidagem tremendo de medo o bom e velho “gabinete integrado de segurança”, uma entidade capaz de emocionar os governantes só pelo ato de pronunciar seu nome.

A coqueluche agora é a força nacional de segurança pública, um esquadrão que nunca atuou em lugar algum, mas que deve ser invencível, porque tem aparecido como a bala de prata contra o crime organizado.

E assim o Brasil vai combatendo a violência. Não tem como dar errado. Até porque, como se sabe, não há frustração da vida mundana que a boa literatura não console.

É isso aí. A gente parece ter um dom para ser feito de otário. Não deve ser por acaso. As pessoas gostam tanto de dizer que brasileiro é malandro... Com tanto malandro assim, no fundo todo mundo é mesmo um bando de otário.

Vamos ver até quando os ritos do pajé mais uma vez surtirão efeito nos botocudos.

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