Sunday, January 21, 2007

Magnificat, para um eventual protestante chato

Você por um acaso teima com Maria? Acha que ela não é tudo o que os padres dizem? Nunca entendeu direito em que grau ela é venerada pelos católicos?

Seus problemas acabaram! Há séculos!

A quem interessar possa, minha sugestão é o Magnificat do protestantérrimo João Sebastião Bach. Essa música, amiguinho, vai fazer você levar mais em consideração Maria e entender melhor as razões de os padres gostarem tanto dela. Agora, se depois de ouvi-la você continuar teimando, é que você tem um baita mau gosto e não entende patavinas do assunto.

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Algumas notas:

Honestidade é ser humilde, e ser humilde é matar um pouco a si mesmo (by Schuon). O que estou a dizer? Algo próximo do que disse o Senhor. "Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti".

Quão difícil é agir assim! Que duríssimas palavras!

Vamos ver isso por uma perspectiva muito singular.

Como me parece ser a vida na verdade? Me parece ser uma vida dedicada após uma preparação muito longa. Nós vivemos com alguma orientação para a verdade. De início nossa vida não é muito "colada" a ela. A vida lhe é excêntrica. É preciso deslocá-la aos poucos para a verdade até que ambas se casem direitinho. Mas é difícil. Há uma inércia que atrapalha o deslocamento da nossa vida para a sua meta, aquilo para onde ela está orientada.

Aristóteles chamava o homem que vive totalmente segundo a verdade (=viver totalmente segundo o belo, o bom e o verdadeiro, clássico triplo transcendental) de "homem magnânimo". Nada mal. A tradição grega já tinha uma palavra sugestiva para designar um homem nobre - kalos kagathos, "belo e bom"*. O "homem magnânimo". Um asceta. Negando a si mesmo (não confundir com os gnosticismos) ele afirma a verdade. Esta lhe é superior. Logo, é preciso que o "homem magnânimo" não seja centrado em si mesmo, mas nela, a verdade, para elevar-se até ela.

Como asceta, o "homem magnânimo" terá que fazer sacrifícios. O mais difícil é o sacrifício de si mesmo. Nas palavras de Sâo Gregório Magno, "difícil não é entregar seus bens; difícil é entregar-se a si mesmo. É mais fácil renunciar ao que se tem do que ao que se é." Por isso o conselho de Jesus Cristo. É como arrancar o próprio olho. Só o "homem magnânimo" consegue isso. Demanda tempo. É uma pessoa experiente.

*Segundo Henry George Liddell e Robert Scott, agathos admite outras traduções. Em se tratando de pessoas, significa valente, bom no sentido moral, nobre (sentido arcaico)... Neste último sentido, é também associado a riqueza e poder, principalmente no termo kalos kagathos. Este termo equivale a noção de gentleman do séc. XVIII. Até na Idade Média cavalheiresca existe algo equivalente. As damas da Provença na época dos trovadores imaginavam que o homem ideal deveria ser prou e courtois, valente e cortês. É nesse sentido que a expressão grega aparece simbolizada nas figuras de várias personagens (Menelau, p.ex.) na Odisséia. Na Ilíada o seu sentido tem a ver com virtudes militares. Os kaloi kagathoi da Ilíada são os grandes chefes guerreiros. Suas habilidades em combate os destacam da multidão. Ver Werner Jaeger, Paidéia - A formação do homem grego.

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