Friday, January 12, 2007

Catálogos

O texto a seguir é apenas uma impressão geral baseada em algumas observações de Ortega y Gasset.

Catálogos são uma coisa! Todo mundo quer colocar todo mundo segundo padrões. Você tem que se identificar com uma série de "roupagens" para melhor ser entendido.

"Roupagens" são generalizações. São determinados modos de vivência. Eles têm relação em princípio com profissões. Você tem que vestir a "roupagem". Esse camarada aqui é engenheiro - veste "roupagem" da engenharia; esse outro veste da medicina; mais aquele ali veste de mecânico. O mesmo para todo o resto. Fulaninho está de rockeiro; beltraninho de cristão; ciclaninho de filósofo.

E o famoso antes de mais nada? Posso estar como médica e rockeira, mas médica e rockeira são apresentações sociais que não dizem muito de mim. Sou Tanja. Por acaso estou de tal e tal maneira. O antes de mais nada é a pessoa mesma. É a raiz de todo o resto. Não é generalização. É um caso particular.

À pergunta o que você é?, a resposta é: sou eu. E para a seguinte, quem é você? Quem é você? Quanta filosofia está contida espremidinha nessa pergunta! O problema está entre nós e a nossa salvação. Responder a essa pergunta significa entender o que se passa com a gente e qual é a nossa missão.

A pergunta é o principal problema de cada um. Que cada um procure saber.

De novo as "roupagens". São apenas meras convenções sociais? Sim e não.

As "roupagens" são um modo de usar alguma espécie de máscara para podermos interpretar melhor o nosso papel. Se não existisse a medicina, eu não seria médica, minha vida estaria incompleta. Como existe um fazer social que é a medicina, posso despejar minhas cargas ali. E na época em que não existia a medicina? O que se dava? Por suposto, o ímpeto de cada um tinha que se dirigir para outros afazeres. Mas com um pequeno detalhe. É certo que um determinado indivíduo enfrentou desde sua vida um problema que exigia ou uma solução original ou a abdicação do sentido de sua própria vida. Esse indivíduo encarou uma situação onde deveria descobrir as coisas por si só. Era a questão de sua vida. Na falta dos instrumentos, inventou-os. Surgia assim o primeiro médico. Ele inventou a arte da cura porque sua vida assim exigia. A necessidade de ultrapassar o problema fez com que ele criasse a arte. Foi capaz. A repercussão foi tão ampla que esse novo tipo de afazer logo se disseminou em toda a comunidade. O primeiro médico, surgido da mais premente necessidade de resolver o mais original dos problemas em sua vida, deu a seguir o lugar a um segundo. Este já está em posse das invenções do primeiro. Basta aplicá-las. Aquele modo de ser peculiar de tal pessoa se torna propriedade da comunidade. Aí se torna "roupagem" transmitida ao longo dos tempos. Ele foi médico autêntico, radical. Eu seria médica pela repercussão da primeira experiência.

Que significa tudo isso? Significa que cada uma das "roupagens" na verdade não era isso. Era a solução de um sujeito para uma questão originalíssima. A solução se tornou patrimônio de todos. Mas a relação com a arte é muito diversa.

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