Thursday, February 01, 2007

Atendendo aos leitores

A vez hoje é dos leitores. Dos dois ou três que me acompanham de vez em quando.

Recebi um e-mail muito legal da Maria:

Prezada Espectadora,

Meu nome é Maria e achei muito interessante o que você escreveu sobre a idéia grega de nobreza. Queria pedir para você escrever um pouco mais sobre isso e me indicar umas leituras a respeito.

Cordialmente,

Maria


Oi, Maria! Olha, o que eu disse é só uma coisa muito breve. O buraco é mais embaixo. (Já reparou que no final das contas sempre o buraco é mais embaixo?) Veja você que junto a esse ideal de nobreza antigo os gregos ao longo do tempo foram desenvolvendo outros padrões. Mas esses padrões em geral têm sempre um fundo na épica homérica, o que permite estabelecer conexões e captar uma unidade. A unidade é o processo consciente de formação do homem. Ele cada vez mais é aprofundado até chegar em seu auge nos séculos V e IV a.C. A idéia do spoudaios (“homem maduro”, se a gente traduzir com alguma licença poética) de Aristóteles está nessa tradição. (A propósito, recomendo a leitura deste texto. É sobre o que Plotino entende por spoudaios. É lindo perceber que o autor começa buscando o status quaestionis antes de começar a explicar o que pretende.) O cristianismo absorveu o problema da formação do homem e o injetou na cristandade sob a sua própria perspectiva. Isso é claro. Jesus Cristo é o pedagogo dos homens. Os principais escritores cristãos sempre tiveram a questão bem em vista. A diferença é que as formas de educação gregas de educação foram ao longo do tempo encaradas como preparação para o conhecimento mais aprofundado do “magistério de Cristo” (by Eusébio de Cesaréia, sem pretensão de originalidade), ou, para falar como os gregos, paideia tou kyriou (educação de Jesus). Ela foi se tornando propedêutica (formação básica). Até porque o ideal cristão de perfeição é a imitação de Cristo. Por isso o cristianismo foi tão fecundo no campo da educação. As suas aspirações se casavam com o que os gregos também tinham em vista. A diferença é que a perspectiva cristã vai muito além do que os gregos compreendiam por formação. O cristão não só se forma graças aos ensinamentos do Senhor como adquire um novo status do ponto de vista de sua natureza. O cristão sofre metamorfose. Sua natureza é modificada.

A educação na visão desse povo todo sempre tem como fundo a própria pessoa num todo. A pretensão é a formação de sujeitos que façam jus a sua humanidade. Formação integral. Uns autores eram mais pessimistas que outros em relação a isso. Mas o problema é sempre esse. Hoje em dia esse problema foi meio que deixado de lado. Ninguém se preocupa se o camarada que está na universidade é virtuoso ou não. Os antigos e os medievais sim. A ponto de dizerem que uma pessoa destemperada não é digna do saber.

Para você ter uma idéia direita do que estou dizendo, uma das características da paidéia grega (os cristãos pescaram logo essa idéia, via um monte de fontes diversas, como os estóicos) mais celebradas era a agogé. Agogé é o termo digamos assim “técnico” que os gregos usavam para a idéia de autodomínio. Werner Jaeger dizia que eles gostavam de usá-lo dando como exemplo a disciplina e ao autodomínio espartano.

Paidéia é uma idéia muito completa de educação. Leva em consideração todos os aspectos da vida. Uma coisa dessas nunca foi pensada de um modo tão completo nem tão consciente por nenhuma outra cultura. Talvez mais que educação, valeria dizer formação integral. Nós não temos um termo equivalente a Paidéia.

Os alemães sim. É o que eles chamam de bildung, raiz em bilden, formar, fazer, educar, que vem de bild, retrato, figura, imagem. Bildung é a arte de esculpir a pessoa segundo o ideal máximo de homem. Para dizer como os aristotélicos, atualizar todas as potencialidades da pessoa. Goethe tinha essa idéia de formação bem clara quando disse que a educação consiste em fazer valer o que o indivíduo carrega em seu interior.

O livro que posso recomendar para você, Maria, é o clássico Paidéia – A formação do homem grego. É do Werner Jaeger. Ele também observou a continuidade da paidéia nos tempos cristãos e dedicou um livrinho sobre o assunto, Cristianismo primitivo e paidéia grega. Os dois são muito legais. Pena que ele não conseguiu apresentar em toda a sua extensão os resultados de sua pesquisa da relação entre cristianismo e paidéia.

Espero que tenha correspondido aos seus desejos. Escreva de novo para mim se quiser saber mais alguma coisa. (Suponha que eu saiba responder...)

Há mais um e-mail que recebi. Esse prefiro responder em outra ocasião. A resposta vai ter que ser muito comprida. Tomara que até o final de semana eu capriche na resposta!

Update, sexta, 2/2: Corrige o erro ridículo no título. Mais uma coisa. A segunda parte do texto Magnificat, para um eventual protestante chato tem algumas coisinhas que são relacionadas com a discussão sobre o homem ideal grego.

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