Sunday, December 30, 2007

Lula

Foi sexta que o presidente fez o pronunciamento? Não vi. Posso adivinhar o que disse. Que está tudo muito lindo. Que a oposição destruiu a saúde. E mongolices do tipo.

Alguns defeitos são tão bizarros que são admiráveis. O Lula como um todo (e seus representados, legião) é exemplo. Ele e Pamonha Alckmin debatiam nas eleições. Sempre que se via acuado (quase sempre), Lula ficava abrindo e fechando os braços que nem o macaco Tião. Parecia um besta. O populacho entendeu que Lula venceu o debate. Claro. É que ele deu várias narigadas na mão do Pamonha. Outra. Quando o papa visitou o país, Lula ficou repetindo toda hora que Igreja e Estado tinham que estar separados. Claro que eram seus acessores que assopraram essa idéia. E o quico? Bastava perguntar ao papa. Ele diria a mesma coisa. Acontece que essas afirmações eram coisa de gente histérica. Não tinham nada a ver. O papa não veio se candidatar a presidente do Brasil.

A outra, mais notória, foi do mensalão. O cara preferiu sustentar a versão de que era um completo irresponsável e débil mental. Não sei como não falou que governava bêbado. Lindo foi que a desculpa colou. Agora, com a CPMF, a mesma coisa. Apostou tudo na votação. Perdeu. Diz agora que a saúde foi sabotada. Retórica, né? Só que é confissão. De novo, diz nas entrelinhas que é um irresponsável que foi pego com as calças na mão.

Não é admirável a capacidade que ele tem de se humilhar para se desculpar? O cara está abaixo da cretinice. Ele e o seu partido.

***

Genoíno e Dirceu são outros dois que não valem nada. Cara, até hoje fico espantada quando me lembro da cara de idiotas que faziam diante das acusações. Eles se achavam (e se acham) os gostosões. Quando o negócio apertou, ficaram se fazendo de mongolóides. Os heróis da guerrilha. Não foi à toa que levaram na cabeça, se ferraram. Uns palhaços desses jamais teriam coragem de fazer nada. A não ser que estivessem bem escondidinhos, sem que a vítima pudesse reagir.

Thursday, December 27, 2007

Help

Situação:

Você tem uns 50 contos. Só pode escolher um dos itens abaixo:

1) Teatro completo de Shakespeare, tradução do Carlos Alberto Nunes (acho);
2) Do amanhecer à decadência, Jacques Barzun;
3) Les pères de l’Église, do Drobner, tradução francesa do original alemão.

Considerações:

a) Você adora estudos sobre Igreja; não tem nenhum livro sobre patrística; esse do Drobner é um manual de mais de 600 páginas;
b) Há tempos você vem querendo o diacho do livro do Barzun;
c) Shakespeare, bem, é Shakespeare, mesmo através do Nunes; está barato (dá para desconfiar);
d) Você não sabe quando terá oportunidade de comprar qualquer um deles de novo;
e) Você tem pouco tempo para se decidir.

Ay, caramba! Que fazer?

(Que fim terá esse drama de fim de ano? Qual deles a Espectadora escolherá? Haverá alguma reviravolta dramática? O ano que vem trará a resposta; paciência!)

Wednesday, December 26, 2007

Aristóteles, porém

Gosto de filosofia. Só que às vezes ela me deprime. E algumas vezes duas vezes!

Deprime quando é uma espécie de sistema fechado em si mesmo. Quando é um idealismo. Quando é um ceticismo também. Detestável quando nos prendem numa jaula. Hoje ou ontem mesmo pensava assim sobre materialismo enquanto ouvia alguma música. Dá para levá-lo a sério? A ferro e fogo? Você acabaria se podando todo orgulhoso. Mas estaria perdendo muita coisa importante. Alguma coisa de vital. Não acredito nesse tipo de coisa. Nem consigo imaginar que alguém leve a sério o materialismo. Deve ser alguma pegadinha. Mas, seja ou não uma pegadinha, tomar uma filosofia fechada em si mesma como expressão da verdade é para mim experiência péssima.

Às vezes deprime duas vezes quando a gente faz um salto que ignora a experiência e cai na ciência. Não sei se já disse que sou alguém que tende para abstrações mas que sente saudade de uma coisa palpável. Uma idéia como amor. Pode parecer bonito dizer algo do tipo “ei, devemos amar a alma, porque ela é, em nós, algo universal e que se comunica com o divino.” E o fato palpável? Fulaninho ama cicrana. Ponto. Ama tanto que a vida chega a ser curta para tanto amor. E vai ao supermercado comprar uma laranja para fazer suco a fim de agradá-la. E dá um beijinho em seu calcanhar gordinho enquanto ela dorme, antes de sair para trabalhar. O que significa de um ponto de vista palpável aquela frase na vida amorosa do Fulaninho e cicrana? Se não significa nada, é oca. Blábláblá. Como deve acontecer com as idéias na guerra. Outro dia vi um filme em que um soldado disse mais ou menos o seguinte “Só agora percebo que todas as frases que ouvi sobre coragem, patriotismo e honra não significam nada.” Pode ser até que existisse algum valor nelas. Mas se eu pego um atalho direto para a ciência, sem passar pela experiência, tudo não passa de um amontoado de frases vazias. Elas ficam passeando diante de mim. Dou meu assentimento uma hora pela elegância, outra pela lógica aparente, outra pela vontade, enfim pela minha vaidade. O que elas representam mesmo? É nessa parte que a filosofia pode ser duas vezes deprimente. É quando vira só um monte de textos legais. Aí você (eu) pensa (penso) num belo dia: “Mas o que isso quer dizer para mim mesmo?” Só mais um exemplo. O belo. Caraca, dá para a gente sair divagando sobre o belo, ou sobre os três transcendentais. Olha só que idéia imponente, “os três transcendentais, o belo, o bom e o verdadeiro, estão unidos; seja o homem voltado para a sua contemplação”. Inventei agora essa frase, não a idéia. Se eu nunca tive uma experiência bela, nem uma boa, nem uma verdadeira, isso tudo é blábláblá. Filosofar é só uma palavra bonita para a hipocrisia, o pedantismo e a vaidade.

Acho que existe uma ligação entre a filosofia, a vida pessoal, o particular e a poesia. A filosofia pode ser corrompida naquele duplo efeito deprimente. Acontece uma coisa parecida na vida pessoal. Existe sempre uma figura nossa, exterior, e nós mesmos. Se a sua figura exterior não está em sincronia com você mesmo, o descompasso faz com que a gente se falseie. Com o particular, há problema quando a gente faz abstrações ou generalizações que acabem destruindo, digamos assim, a essência do particular. Não que cada coisa em particular não permita o acesso a alguma idéia universal. O problema é quando você passa por cima dele por causa de alguma questão de método, de comodismo ou de algo do tipo. Enfim, a poesia. Se ela não tem nada de individual, é apenas um esquema ou exercício estéril. Pode ser também uma boa cópia. Tem algum valor. Mas no fundo é cópia. Acontece. Há máquinas de xérox muito boas. O resultado pode ser satisfatório. Só que nunca vai deixar de ser cópia, mesmo quando bem feita. Uma coisa é você encontrar uma ponte nas coisas para um outro mundo. Coisa muito diferente é você apelar para idéias e frases que não criaram raízes em seu coração. A partir delas, criar um arremedo do outro mundo.

Pode ser que o parágrafo anterior tenha ficado obscuro. São idéias que espero um dia desenvolver mais um pouquinho.

O título do post talvez agora seja mais compreensível. É bacaninha estudar Aristóteles. O homem era um fenômeno. Agora, o que isso vai adiantar? Como na Ética. Ele mesmo escreveu que seu estudo exige experiência de vida. Jesus Cristo disse uma vez que é coisa de burrinho ouvir suas palavras e tal sem praticar nada do que ele ensinava.

Olha, deprimente é quando você imagina que há o dilema de decidir entre a falsidade e o desespero. Deprimente-deprimente mesmo é o que levou a gente a meter na cuca esse raio de dilema.

Tudo isso é para deixar a gente meio pinel. E preciso ser menos confusa. Mas enfim.

***

Então chega um poeta. Mete em dois versinhos toda uma filosofia. Como ele conseguiu contrair tanto uma idéia? Goethe:

O que desejamos na mocidade
Temos em abundância na velhice.


Puxa, isso é um ensinamento que para ele não tinha nadinha de formal. A idéia é dele porque ele a conquistou para si mesmo. O que nos vemos são as jóias dessa conquista. O mérito foi para o túmulo com ele. Sobre a conquista, acho que o Marquês de Maricá foi quem disse uma idéia assim, mas como se estivesse espelhada:


Os defeitos da mocidade são os vícios da velhice.

Essas frases grudam no cérebro que só!

Eu, aqui, tentando expressar umas idéias, cheia de dificuldades... Aí chegam uns caras como o Goethe e o Marquês de Marica e numa frase só resolvem seus problemas.

Deve ser legal ser poeta.

***

O entorno é importante para nossa vida. Ele nos marca. Seria bom deixar o Goethe fazer uma reflexão: “(...) a tarefa da biografia é, segundo me parece, descrever e mostrar o homem em suas relações com a época, até que ponto o conjunto o contraria ou favorece, que idéias ele forma em resultado disso a respeito do mundo e da humanidade, e – se é artista, poeta, escritor – de que modo as reflete.” O entorno pode ter um efeito deprimente ou não. Importa no fundo como ele nos molda. (Não parece com aquela frase do Ortega, “eu sou eu e minha circunstância”? Ele adorava o Goethe.) Me refiro a tendências. Porque é claro que nem tudo de uma época é ruim ou bom.

Tuesday, December 18, 2007

Pintura romântica

Um amigo meu me mostrou uma garota e começou a refletir: “Não acha que ela parece ter saído do século XIX? Suas roupas não tem nada a ver. Mas pensa comigo: sua camisa de banda de rock... Aposto que o vocalista dessa banda seria seu cavaleiro medieval às avessas. Sua roupa escura é de um romantismo perfeitamente gótico. Não é bem pálida? A luz a deixa ainda mais. É muito magra. Você acha que a musa dos românticos (ou exaltados, como você me disse outra vez) era virginal, mas olhe bem para essa garota. Virginal sempre me pareceu uma idéia de afastamento do mundo. Essa idéia também tem a ver (você pode notar) com magreza, palidez... (Percebe que é uma coisa cultivada? Ninguém perde um pouco da própria vida, sendo nova, à toa.) Mas seus lábios são bem salientes, não acha? Sua expressão é até forte. Tem longos cabelos. Não acha isso esquisito? Ela não tem mais nada de estranho. É gótica por causa de alguma conexão estranha com o passado, mas essa roupa de banda e outras coisas são provas de que ela vive mesmo em nosso tempo. Como tudo isso é curioso!”

Meu amigo sentimental parecia estar vendo um quadro. Ele se empolgou e saiu decompondo o que via ou queria ver. Tentei ver com os olhos dele. Difícil. Por que afastamento do mundo lembra fraqueza? E a Capela Sistina? Do que ele dizia só guardei a forma exterior. Palavras...

Sunday, December 02, 2007

Contraponto


Ou "momento Felícia". Estou quase apertando a tela do computador. (Acho que peguei no Fotocats. Faz tanto tempo que nem lembro mais.)

Monday, November 26, 2007

Nevermore



Então você assistia a um filme de terror e quando olha para o lado... seu gato está assim! Ele diz meio rouco: "Nevermore!"

Não. Isso não aconteceu comigo. Só quis compartilhar minha surpresa quando vi essa foto no Fotocats.

Sunday, November 25, 2007

Cultura de doido

Hoje eu estava pensando em como entretenimento, er, cultural, é coisa de louco.

Há teorias bizarras sobre conspiração. Vida após a morte. Deus. Cosmogonia. Homem. Tudo isso vira motivo para HQs, RPG, ficção científica... Vou dar um exemplo comum.

É a maior moda falar em ET. Por que da Idade Moderna para trás ninguém dizia nada sobre viagem planetária? Simples. Porque viajar para um planeta seria equivalente a viajar para dentro de um vulcão cheio de lava. É impossível. Os planetas não seriam feitos como a Terra. Aqui tem rocha, tem água, tem ar, tem fogo. Os planetas são compostos por outra substância também e de modo progressivo. Quero dizer o seguinte. Não daria para pisar em Marte porque a composição de lá não é a mesma da Terra. A Lua seria o mais “sólido” dos planetas. Por isso é o que está mais próximo. Teria éter em composição menos pura.

Como haveria homens vivendo no éter? No éter vivem os deuses (by Hölderlin).

Mas e se os planetas fossem que nem o nosso? Galileu observou a Lua e descobriu crateras e vales. Era possível pisar nela. Era uma idéia meio bizarra imaginar um monstro de pedra flutuando no espaço. Pois é. Mas não dava para duvidar do que era visto.

Outra coisa. E se houver muitos mundos (by G. Bruno)? Se este não for o centro, porque é pesado? Se há múltiplos centros, pode ser que haja múltiplas criaturas por aí. (Observação: Einstein escreveu que nunca havia sido encontrado um “centro físico” do universo.) Pronto. A concepção teórica de cosmos permitiria supor a partir daí várias Terras. Ciência e ficção andando juntinhas.

(Mas olha. Não estou entrando no mérito de localizações perfeitas para haver vida. Estou apenas comentando um pressuposto.)

É engraçado esse negócio de ET porque é meio que uma concepção da Terra como centro do mundo às avessas. Os ETs viajariam uma cacetada de quilômetros só para nos dar alguma coisa muito boa (ou dominar o mundo). Há quem acredite nesses negócios de confederações intergaláticas e tal. Estaríamos alheios à política universal... Sempre os desenvolvidos são eles. Os ETs vêm trazer uma mensagem linda porque são desenvolvidos demais. (Essa é a explicação que já ouvi algumas pessoas darem para quem lhes pergunta se há ETs maus. “Você acha que criaturas tão desenvolvidas vão ser mesquinhas que nem nós?” Supondo, por exemplo, que nível de tecnologia seja equivalente a nível espiritual. Ou que a forma material seja indício de bondade. Muito estranho isso.) Esses caras que acreditam em ETs parecem com os brasileiros. Tudo aqui não presta e tudo de fora é lindo. Parece também que é como se a Terra fosse uma enorme União Soviética e os ETs fossem aqueles grupos de combate à fome que salvaram milhões de russos.

(Mais engraçado é quando um ateu acredita em ETs e tal. Por essas e outras que o Chesterton dizia que o ateu não é quem não acredita em nada, mas em tudo, até que Deus não existe.)

Existe uma concepção de mundo segundo a qual a Terra é oca. Outro dia eu estava lendo uns trechos do livro de um cara meio doido que acreditava nisso. (O cara assinava como Van Helsing.) Os nazis também. Não sei dizer de onde veio essa idéia. Desconfio que tenha alguma coisa a ver com interpretação esquisita de mitologia nórdica. Parece que no passado eles acreditavam haver uma raça inteira vivendo debaixo da terra. No Anel do Nibelungo há até um nome para esse lugar. É o Nibelheilm. Na ópera Siegfried, Wotan diz:

Na profundeza da Terra
vivem os nibelungos:
Nibelheim é seu país.
são elfos das sombras;

(Tradução daqui.)

Não sei se é verdade, mas já ouvi falar que os nazis tentaram bolar um plano para levar o povo alemão para as profundezas da terra quando as coisas começaram a engrossar para o lado deles.

Viagem ao centro da terra foi em parte inspirado nessa concepção de mundo. Não sei por quê, mas segundo essa teoria uma entrada estava localizada na Islândia. Os protagonistas da história do Júlio Verne encontraram essa entrada por lá. Engraçado que havia na história respaldo científico! Já li faz muito tempo, mas me lembro que era um geólogo que liderou a expedição. Parece que os nazis também achavam que ficava na Islândia esse buraco.

Ficção científica explora até a demência essas teorias bizarras. O que me chama atenção é a onipresença dessas coisas. Filmes, HQs, RPGs e livros de terror ou ficcção científica servem como panfletos de divulgação. Coloco no bonde histórias de terror porque acontece muito de elas serem usadas como escadinha para idéias bizarras de religião. Pior quando juntam história de terror, conspiração mundial e teorias científicas amalucadas. Muito anime poderia ser definido assim. Um que é mais ou menos assim é Vampire hunter D.

(Duas coisas básicas agora. A mera descrição de uma obra pode demonstrar que ela é ruim. Só você descrever a história de um filme, quase sempre basta. Esse anime até tem uma coisinha ou outra legal. Mas leia na Wiki o primeiro parágrafo do enredo. Já será satisfatório... A outra coisa é o seguinte. Vampiros sempre são kitsch. Entrevista com vampiro é coisa de emo. Já vampiros sofisticados e cheios de enfeite são mistura de emo com Clóvis Bornai.)

Nem vou comentar nada sobre jogo de videogame. É panfleto do panfleto. (Olha que gosto de jogar.)

É fácil ver que existe uma shitstorm cultural. Não é fácil saber até que ponto isso é feito de propósito. Mas não sou partidária das opiniões de alguns religiosos mais hardcores. Já ouvi algumas vezes gente dizer que muitas empresas têm pactos com o coisa-ruim. Eu não posso afirmar uma coisa dessas porque não sei de nada. Outro motivo de eu não partilhar desse tipo de opinião é que não costumo ver um problema cultural como reflexo direto de uma batalha sobrenatural. Mas veja só. Acredito que existam criaturas sobrenaturais lutando pró ou contra os homens. Deus existe. Tudo isso pode muito bem interferir nos negócios aqui do mundo. O que não tenho o costume de fazer é despersonalizar as ações individuais para atribuí-las a um espírito do mal ou do bem. Não concordo em ser radical nesse ponto porque senão tudo seria quase uma discussão religiosa. Eu não acho mesmo que quem concorda com idéias do tipo “há ETs bacanas” é porta-voz de alguma entidade maligna ou está possuído. Acredito mais que seja um cara meio doido. Eu acho até que ser radical nesse ponto é um tipo de recaída pagã. Você fez isso porque Afrodite quis, fez aquilo por causa de Apolo, fez mais isso por causa de Atena. O último motivo é que sou uma mistura de pessoa que pensa em causas gerais e alguém que faz questão de ter algum pé no chão. Quando a causa começa a ficar muito geral, não gosto. Um exemplo. Você diz que ficar chateado tem como causa o Pecado Original. Não está errado. O problema é que um motivo mais particular “empurrou” sua chateação para fora. Se eu perguntasse assim: “Por que fulano gritou com cicrano?”, acho que a melhor resposta, ou pelo menos a causa mais imediata, não poderia ser: “Por que Adão e Eva comeram o fruto proibido.” Essa resposta pode ser até mais elevada. Mas não explica os motivos particulares. Por isso não gosto de chegar e dizer do nada que a indústria cultural tem em quase 90% dos casos influência do coisa-ruim. Mesmo acreditando que ele exista.

Saturday, November 24, 2007

Sobre um comentário bocó

Resolvi fazer um post para responder a um comentário de um carinha chamado Gustavo. Ele fez o seguinte comentário em meu post Tropa de Elite (comentário de dois comentários):

Tanja, desculpe mas, com todo o respeito, tenho que falar:

Você é tão radical nas críticas que realmente me fez lembrar um líder fascista qualquer, ou um desses que se dizem cidadãos mas que são uns grandes nazi, daqueles que acha que bomba na favela "não é a melhor solução, mas inegável que teria seus lados bons"... Desculpe, mas foi minha impressão.

E mais.

Criticar opiniões de maneira tão violenta - e, direi, partidária - sem ter sequer visto o filme de que falam, chega a ser canalhice. Ou patético, não sei.

Abraços,
Gustavo.



Gustavo, resolvi dedicar um post a você. O que você disse é bem característico. Então é como se eu estivesse respondendo a muita gente que raciocina do mesmo jeitão.

Você chega e diz que pareço líder fascista porque fui radical em minhas críticas. Olha, como prometi que não diria um palavrão nessa resposta, vou me segurar. Pelo amor de Deus, será que você não sabe o que é fascismo ou nazismo? Se você sabe, tem noção de que me colocou abaixo de filha da puta. (Não deu para manter a promessa.) Se você não sabe, perdeu oportunidade de ficar quieto. Errado dos dois jeitos. Você, os Cuencas e Blochs da vida não têm vergonha nenhuma de saírem carimbando na testa dos outros esse tipo de coisa quando topam com opiniões contrárias. E eu que sou a escrota porque escrevi reclamando desse tipo de crítica babaca? Ora, você só pode estar de sacanagem comigo.

Me diga uma coisa. O Bloch disse que o filme era fascista. Até onde sei, o fascismo é um regime genocida. O Bloch quis dizer várias coisas. Que o filme fazia apologia ao genocídio. Defendia alguma mitologia nacional. Pregava a liderança de um grande homem. O Cuenca ainda por cima teve o descaramento de dar umas cutucadas nos militares e na Igreja. E falou mal do público. Não perdeu tempo. "A ocasião faz o ladrão". Reclamei dessas opiniões. Quer dizer então que na verdade quem disse uma barbaridade fui eu? Na sua cabeça é muito feio discordar dos outros. É coisa de fascista. Reclamar de quem chama os outros de fascista do nada é coisa de fascista na sua opinião.

Veja mais uma coisa, Gustavo. Em nenhum momento eu disse que comentaria o filme. Não entrei nesse mérito. Qualquer um que sabe ler entendeu que meu problema foi com o tipo de comentário do Bloch e do Cuenca. Está na cara que eles usaraqm o filme como escadinha para as suas papagaiadas. Os dois foram bem filisteus e eu disse as razões. Fiz citações. Não inventei nada. Eu demonstrei a palhaçada. Agora você vem me dizer que fui "partidária"? Partidária do quê? Só se for do partido da não-canalhice. Partidário foi o Cuenca que tomou as dores da crítica à classe média chincheira. Partidário foi o Bloch que assumiu logo uma crítica ideológica (o Cuenca fez a mesma coisa) para queimar o filme. O que é coisa de fascista é o que eles fizeram. Partidarizar tudo. (Na verdade o que eles fizeram nem foi crítica. Foi só associação mental. O texto do Cuenca foi todinho escrito nessa clave. Fez jus ao título de "primata superior". Homem-homem mesmo está além disso.)

Se eu lembro a você algum líder fascista, você não só me lembra um palhaço que não tem o que fazer como é de fato um. Dos mais sem-graça. Note bem. Estou sendo polida. É muito pior ser fascista que palhaço. Poderia ter te chamado de vagabundo. Continuaria barato.

Esse tipo de ofensa é o pior. Nego te dá umas porradas achando que está sendo muito legal. Depois pede desculpas, como quem diz: "Olha, eu te acho uma desgraçada e desalmada. Você deveria apodrecer na cadeia. Mas sou tão bonzinho e limpinho... Me desculpa, tá?" Aí quando alguém resolve ir além das intenções e põe para quebrar, o cara bonzinho fica todo escandalizado. Pô, está achando o quê? Parece o Mime vindo de papo para cima do Siegriefd. Mas olha. Me deixa contar uma coisa. Ninguém sabe. É que o Siegfried me deu um pouquinho do sangue do dragão também. Percebo as suas intenções. Apesar do que você diz. É por isso que você está tomando na cabeça agora. Não te desculpo coisa nenhuma. Vai lá dar as mãos para o Cuenca e o Bloch. Pulem do penhasco. E não me torra mais a paciência.

PS: Acho que farei contagem regressiva para moderação.

Sunday, November 11, 2007

Conservador Kaaos

John J. Miller fez um top 50 das melhores músicas de rock conservadoras. Bem, não sei se serviria para um top 50, mas eu queria acrescentar mais duas. Da banda dos caras da foto aí de baixo.

Você os convidaria para tomar um chá em sua casa?

Essa é uma das trocentas formações do Kaaos. Banda finlandesa de punk hardcore. Surgiu no início dos 80. Da formação inicial, só sobrou o guitarrista Jakke, que também canta.

A qualidade? Banda de punk hardcore finlandesa. Preciso dizer mais? (Pessoal lá de fora deve pensar a mesma coisa ouvindo um negócio tipo Olho Seco.)

Os caras fizeram uma música chamada Natsit ja Kommunistit. A tradução é Nazistas e comunistas. Está no álbum Totaalinen Kaaos. Olha como a letra é bonita:

Nazistas e comunistas,
Não há diferença,
Mesmo tipo de assassinos,
Mesmo tipo de açougueiros.

Nazistas e comunistas,
Mesma merda.

Exploração da liberdade,
Violência e medo.
Pessoas são violentadas,
Pessoas são mortas.


O álbum Totaalinen Kaaos.

Um minuto e cinco segundos. Começando com um grito. Tudo bem rápido. Som esquisito. É tosca até não poder mais. É, em idioma punk, o que qualquer conservador sabe. Nazistas e comunistas dão na mesma. Mesma merda.

Tem outra. Se eu fizesse um filme sobre Revolução Russa [nota: eu não acredito que existiu Revolução Russa; não naquele sentido de um monte de caras românticos tomando poder, que nem muita gente pensa sobre a tomada da Bastilha], teria mais uma do Kaaos. Sotatila. Significa Estado de guerra. Parece até que os caras viveram na época do Lênin na, ecow, URSS. A letra não faz referência à URSS. Mas serve para qualquer país comunista:

Policias e soldados patrulham as ruas,
Pessoas são dominadas,
Governo em estado de guerra.

Greves e revoltas,
Temor e angústia.
Milhares de pessoas
Jogadas na prisão.

Estado de guerra, estado de guerra, estado de guerra,
Governo em estado de guerra.


Nada disso quer dizer que a banda seja conservadora. Mas dá para colocar na conta do garçom as duas músicas. Agora vamos repetir em finlandês o refrão:

Natsit ja Kommunistit,
Samaa paskaa
.

Friday, November 09, 2007

Faculdade

Rory, o que acha disso?

Mas digo eu. Só sei que no meu caso também tive aulas com mestrando/doutorandos. (Uma vez tivemos que comprar um livro de um desses caras porque ia cair na prova. Era a tese de doutorado. Ou mestrado? Sei lá. Um belo dia apareceu um monte de livros da editora da UFRJ nas mãos do professor. Reservinha chumbrega de mercado, hein?) Uma vez rolou de graduandos sob orientação do professor do curso darem uma aula ou outra.

Já teve uma vez que mudaram de professor do nada. Peguei a porra da disciplina porque disseram que o cara era bom. Aí entrou uma Maria não sei das contas. No outro semestre fui fazer outra disciplina com ele. Antes perguntei se ia ter troca-troca de novo. "Da outra vez eu estava naquele curso até arrumarem substituto", ele contou. Quis dizer que estava quebrando galho. Pô, devia ter avisado antes, né?

Mudando um pouquinho de assunto. Vida em determinadas faculdades de determinadas universidades é uma m-e-r-d-a. Minha principal aporrinhação eram as disciplinas-Kinderovo. Você vai toda feliz se inscrever num curso de nome maneiro. Por um acaso deixa de ir na primeira semana. Quando chega, é um curso que não tinha nada a ver. E sabe-se lá o motivo, mas não tem mais como pedir exclusão. Uns exemplos. Fui me inscrever num curso chamado "Pensamento Medieval e Universidades". Cheguei toda contente, sentei. Daqui a pouco a mulher está me falando um negócio sobre judeus no Egito. E início da formação da Torá. E estilo de escrita na Bíblia. "Vai ver é uma dessas digressões malucas que nego gosta de fazer", pensei. Depois de 40 minutos: "Puta merda, tô na sala errada de novo." [nota: indicações de sala errada não são muito incomuns nesses lugares zoneados.] Olhei para a turma. Umas sete cabeças. E agora? Não lembro se perguntei pra alguém ou a professora que viu a minha cara de boi olhando pra palácio. Me disseram o assunto do curso. "História da Formação da Bíblia". Ou qualquer coisa assim. Ok, é um assunto que pode ser bacaninha. Mas cadê a disciplina que me inscrevi? "É que eu queria dar aula disso, mas na grade não dava para usar esse nome. Peguei um curso que ninguém daria esse semestre e deixei o nome por causa da burocracia", a resposta. E eu que me ferro. Acha que foi a única vez? Lá fui eu estudar de novo alguma coisa de medieval. Cheguei na sala. Mesma professora do outro semestre sobre a formação da Bíblia. "Esse negócio vai ficar frenético de novo, já tô vendo", pensei. Não deu outra. Lá foi a mulher me inventar um curso sobre o corpo na Idade Média. "Porque o corpo para eles..." Dessa vez consegui escapar. Último exemplo. Fiquei toda boba por causa de um curso chamado "Historiografia Clássica". Na época eu tinha enfrentado por conta própria Tucídides. Estava empolgada para discutir a respeito. Já estava imaginando ler Heródoto, Suetônio, Tácito e mais uma porrada de gente. Só que aí me chega a professora e começa a falar de Foucault. Uns papos sobre sexo definir o homem. Passa uma entrevista dele com um cara que agora estou com preguiça de dizer quem é. Diz depois que na verdade a disciplina vai ser sobre problema de gênero na Grécia Clássica. Ha, pfui!

(Dizem que no curso de filosofia da UFRJ o negócio é mais punk. Sem contar que você pode sair montando sua grade de disciplina de um jeito que talvez leia nunca São Tomás de Aquino, só uma vez Aristóteles, mas Nietzsche direto. Fui testemunha. Quando tinha aula sobre Aristóteles, tipo algo sobre a Ética, havia cerca de sete pessoas. Quando o negócio era o professor Roberto Machado ensinando Nietzsche (ele era o "dono" de Nietzsche, como tinha um "dono" de Aristóteles, e por aí vai)... Cara, havia tanta gente que nego ficava até do lado de fora ou sentado no chão.)

Wednesday, October 31, 2007

Revolução russa

Dizem que a as revoluções devoram seus próprios filhos. É um daqueles chavões verdadeiros. No caso da URSS, verdadeiros até demais. Veja o que Paulo Guedes escreveu sobre a maravilhosa revolução libertadora do proletariado (em O Globo, 29/10/07):

25 de outubro II

"A Rússia da década de 20 permanecia um país em guerra consigo mesmo. A revolução fracassou em eliminar as iniqüidades que a haviam provocado. Ninguém sabe quantos morreram. Qualquer contagem aponta números catastróficos. Considerando somente as baixas da guerra civil, do terror, da fome e das enfermidades, chega-se a algo em torno de dez milhões de vítimas, sem contar os cerca de dois milhões que emigraram. Morrer na Rússia era fácil. Merecer um funeral digno, prerrogativa para poucos. Os serviços fúnebres haviam sido nacionalizados. Para enterrar um ente querido, era necessário enfrentar uma longa lista de exigências burocráticas. Havia também falta de madeira para fazer os caixões. Cadáveres eram velados em ataúdes alugados, nos quais lia-se a inscrição ‘Favor devolver’, devidamente esvaziados na hora de baixar o corpo à terra.”

O historiador Orlando Figes, de Cambridge, foi um dos primeiros a vasculhar os arquivos da Revolução Russa de 1917, quando estes foram abertos aos pesquisadores no fim dos anos 80. Sua monumental narrativa, “A tragédia de um povo: A revolução russa 1891-1924” (1996), dá uma detalhada descrição do episódio da Grande Fome de 1921-1922.

“O maior de todos os males da época, responsável pelo extermínio de cinco milhões de vidas, foi a Grande Fome de 1921-1922. A fome transformou as pessoas em canibais. Esse foi um fenômeno muito mais comum do que os historiadores admitem. Na Bachkiria e nas estepes em torno de Pugachev e Bzuluk, onde a falta de alimentos era aguda, verificaram-se milhares de casos.”

“Um homem condenado após ter devorado várias crianças confessou: ‘Em nossa aldeia, todos comem carne humana, apenas não revelam. Há inúmeras tavernas na vila, e todas servem pratos à base de crianças’. Na cidade de Pugachev, não era recomendável que crianças pequenas andassem pela rua à noite, pois havia bandos de canibais e negociantes que as matavam, para consumo próprio ou para vender a carne num comércio abjeto.”

Esses testemunhos são possivelmente a base factual histórica responsável pelo folclore segundo o qual os comunistas comiam criancinhas. Mas, prossegue Figes, “caçar e matar pessoas para comer era praxe”.

“Na região de Novouzenski, havia também grupos de crianças que assassinavam adultos com o mesmo objetivo. As mães, desesperadas em dar de comer aos filhos, cortavam pernas e braços dos cadáveres. Roubar cadáveres de cemitérios tornou-se tão comum que, em muitas regiões, guardas armados vigiavam os portões.”

“As pessoas se alimentavam dos próprios parentes. Na aldeia de Ivanovka, próxima a Pugachev, uma mulher foi flagrada devorando a carne do marido. A refeição estava sendo dividida com o filho do casal. Quando as autoridades policiais tentaram jogar fora o que ainda havia no prato, ela gritou: ‘Não, ele é nosso sangue, e ninguém tem o direito de levá-lo de nós. Precisamos dele para nos alimentar’.”

Os economistas de boa estirpe sabem que é apavorante a desorganização de um sistema produtivo, uma engrenagem descentralizada responsável pela alimentação de milhões de pessoas.


Esses episódios se repetiram anos depois. Leia isso. É sobre o terrível genocídio na Ucrânia através da fome. Choca porque a fome foi usada como arma de destruição.

A revolução bolchevique foi uma catástrofe. Porque o comunismo é apenas isso.

Sunday, October 28, 2007

Turks set cars alight in Brussels

Lá na Europa parece que o negócio agora é berrar alto. Depois tem que fazer cara de coitadinho. Se você botar pra quebrar e ao mesmo tempo vier com papo de ser uma vítima de não-sei-o-quê, vão passar a mão na sua cabeça. Mesmo que você faça muita, muita merda.

A Bélgica é o maior exemplo. Para variar. (Isso que dá ter um monte de pedófilos no governo.) Dessa vez os turcos ficaram putinhos e saíram quebrando tudo e atacando os curdos que moram também por lá. Antes eram os marroquinhos que faziam as arruaças. Mas eles não perderiam a oportunidade de fazer alguma coisa! Em Amsterdã, queimaram carros e esfaquearam os outros. (Queimar carros virou moda. Apunhalar pode virar marca. Cortar a cabeça é marca exclusiva daquela gente perturbada do Iraque. Homem-bomba é palestino. Se bem que antes era coisa de vietnamita. Só gente boa.)

Por essas e outras prefiro ficar no Brasil. Aqui também cortam cabeça, apunhalam, ferram com os carros... só nunca ouvi falar em homem-bomba. Mas tem uma coisa. Se houver a III Guerra Mundial, aqui deve ser o último lugar onde vai cair um míssil nuclear. (Hm, imagina o recomeço da civilização a partir do Brasil...)

Notícia sobre as arruaças saiu no Brussels Journal. Parte mais legal: "Apparently, some Turks think that by attacking the Armenians in Brussels they can convince the world that the Turks never committed a genocide of the Armenians." Esse Paul Belien é um cara muito legal.

Turks Set Cars Alight in Brussels
From the desk of Paul Belien on Wed, 2007-10-24 23:21

Tonight (Wednesday evening) heavy rioting erupted in Turkish quarters of Brussels, the capital of Belgium. Buses and trams were attacked. Several cars were torched and shops destroyed. Police forces were unable to restore law and order in the boroughs of Sint-Joost-ten-Node and Schaarbeek where since last Sunday the animosity among Turks is running high. Turkish flags are omnipresent. In some streets the Turkish crescent and star adorns almost every house.


The Turks’ anger was provoked by rising tension with Kurds along the Iraqi-Turkish border and by the debate in the American Congress about the Turkish genocide of the Armenians in 1915. On Sunday night Turkish youths in Sint-Joost destroyed the pub of Peter Petrossian, an ethnic Armenian who had to flee for his life. Apparently, some Turks think that by attacking the Armenians in Brussels they can convince the world that the Turks never committed a genocide of the Armenians.


Tonight the youths attacked Kurdish shops. They also set fire to several cars.


Belgium’s Muslim population consists mainly of Moroccans and Turks. In the past rioting Muslim youths were mostly Moroccans. The Turkish community is controlled by the Turkish embassy. The latter used to restrain the Turkish population so as not to upset the Belgian authorities and thwart Turkey’s chances of EU admission. This policy seems to have changed recently. In Antwerp, too, Turkish youths demonstrated tonight.


The events in Brussels indicate that in admitting large numbers of immigrants Belgium has also imported the ethnic quarrels of the Middle East.


Meanwhile in Amsterdam, the capital of the Netherlands, Moroccan youths have been burning cars for more than a week now. Today a 15-year old Amsterdam schoolboy was stabbed by youths. The boy survived the attack but is seriously wounded. On 11 October a 16-year old Amsterdam boy was stabbed to death in school. On 4 September a similar incident occurred in the Belgian city of Ghent where a 14-year old Belgian boy fought for his life after being stabbed in the throat by two immigrant youths from his school.

Monday, October 15, 2007

Você costuma olhar o céu?

Você costuma olhar o céu? Eu olho. Quase o tempo todo. Paixão platônica. Mas a janela do meu quarto tenta mutilá-lo. Ciúme caseiro. Quer que eu fique namorando o teto! Adianta? Não. Faço um esforcinho para ver no teto o céu. Mas a imaginação não completa o que falta. Como eu iria imaginar o céu direitinho? Seria fazer comigo mesma o que a janela tenta fazer, mutilá-lo! Completo com o que me lembro mais ou menos. Lembro uns pedaços. O resto deixo que ele me informe do jeito que ele quiser...

Talvez você não saiba. Você pode ser desatento. Já disse outra vez que sou do Rio de Janeiro. Não escolhi onde iria nascer. Como você também. Sou pessoa de cidade grande. Barulho é costume. Muita gente em espaço pequeno pode ser irritante. Ainda assim, é minha circunstância. Preciso de pontes, viadutos, túneis. Tenho que ouvir/ver avião passando. Mas ver animais que não pombinhos na rua me é chocante. (Cavalos, porcos, bois... eles vivem discretos bem para lá e eu bem para cá! Mas gosto de bichos.) Agüento e preciso de tudo isso. Quero dizer, é uma nota essencial minha. Só uma coisa me chateia mesmo. Olhar o céu e saber que tem menos pontinhos brilhantes do que deveria ter. Não. Isso eu não aceito. Podem me assaltar. Podem me perturbar com barulho. Podem engarrafar o trânsito. O costume me disciplinou. Agora, a única coisa que não, não admito, é que me roubem o céu! Ah, isso não! Rio de Janeiro, não posso te perdoar...

(Blackouts às vezes são bem-vindos... Você acha paradoxal eu gostar da cidade e ao mesmo tempo fazer birra por causa da luz elétrica? Eu achar mais legal a lua cheia iluminando tudo? Eu enfim olhar o céu e dizer toda contente"ah, agora consigo ver as constelações"?)

Por isso preciso ir às vezes para outro lugar. Tenho que ver o que me roubaram.

E o que vejo mesmo? O passado do Rio de Janeiro. Na verdade não vejo. Finjo ser astróloga e interpreto os astros. Roubaram parte do Rio. Só dá para ver em outro lugar. Olhando para o alto.

O passado. Não sei se eu conseguiria viver nele. Acredito mesmo que não. Não? A cidade era mirradinha. Mas estava aberta para as idéias brilhantes do céu. Podia ser bem magrinhazinha. Compensava em altura. Era bem grandona. A cidade era quase uma modelo. Quase anoréxica. Mas modelo e elegante. Estava com a cabeça lá no alto e olhava de cima. E agora? A cidade engordou muito. Está também achatada. Precisa de exercícios. Precisa se levantar. Está tão esmagada e de cara no chão que qualquer dia desses ainda vou olhar para cima e ver o chão! Que eca!

Vou mendigar um pouquinho para o céu. Talvez ele me empreste Escorpião.

Wednesday, October 10, 2007

Trechinho do Napoleão Mendes de Almeida

O Napoleão Mendes de Almeida escreveu uma nota muito engraçada lá no início da lição sobre métrica em Gramática latina:

Para o "modernismo", nome que engloba o "futurismo", o "suprarrealismo", o "dadaísmo", o "verde-amarelismo" e toda uma longa série de variantes da paranóia intelectual sob que se abrigam revolucionários de ideologias políticas mais do que conceituadores da estética, a arte poética não existe em nenhum idioma: o verso, para esses apadrinhadores e propagandistas do relaxamento, é mero aglomerado de palavras; o poema, simples trecho de prosa com linhas fingidamente distribuídas à maneira de versos. Homens de estudo têm-nos em conta de demagogos das letras, dilapidadores da tradição, destruidores da cultura e -- coincidência a um tempo fatal e triste -- defensores da leviandade, quando não da própria imoralidade.


(Por essas e outras eu disse que não sabia escrever poesia quando escrevi uns negócios por aí, e que não era poeta.) [Agora uma notinha básica. Nunca gostei de "poetisa". Para mim é "o poeta" ou "a poeta". "Sacerdotisa" já soa melhor que "sacerdota". Seria feio assim. Rima com "bolota". E é feio para pronunciar! "Musicista" também não gosto muito, não. Dizer "eu sou uma música" seria poético. Talvez poético demais para uma profissão. É engraçadinho. Sei lá qual feminino seria melhor para "músico"!]

Que legal esse trechinho. É um exemplo dos motivos de sempre ter algum cara falando mal do Napoleão. Eu não acho que ele disse besteira...

Tuesday, October 09, 2007

Che Guevara foi terrorista, assassino sádico e estalinista

Se não fosse um programinha na tv, eu nem ia me lembrar do aniversário da morte do Che Guevara! (Coincidência, nesse final de semana estive lendo sobre Cuba em O livro negro do comunismo.)



Como eu poderia deixar de prestar a minha homenagem? Ó ela aqui, ó, que encontrei por aí.




E um pensamento do Che, lindo de morrer:

Para enviar um homem a um pelotão de fuzilamento, evidência judicial é desnecessária... Esses procedimentos são um detalhe burguês arcaico. Isto é uma revolução! E um revolucionário deve se tornar uma fria máquina de matar motivada por puro ódio. Devemos criar a pedagogia do paredón!


E de um carinha que me esqueci o nome: "Bandido bom é bandido morto".

Saturday, October 06, 2007

Um dia de professor universitário

Outro dia escrevi um texto contando meu dia. Agora vou colocar aqui um do professor José Murilo de Carvalho no mesmo estilo. A diferença é que é a vida dele no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ). Saiu em O Globo, 10/08/1999, p. 7. Em seguida vão uns comentários.

8:00: Chega ao Largo de São Francisco, centro do Rio de Janeiro. Contempla com emoção o belo prédio da antiga Escola Politécnica, onde ensinaram homens como o visconde do Rio Branco, autor da Lei do Ventre Livre, André Rebouças, o grande abolicionista, e Aarão Reis, o construtor de Belo Horizonte. O edifício é hoje ocupado pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

8:01: Cruza o Largo, saudando, no percurso, José Bonifácio, cuja estátua segura nas mãos uma bandeira do MST.

8:02: Chega à rampa do prédio, desviando-se de um mendigo que dorme no chão, obstruindo o caminho. Resiste à tentação de tapar o nariz para se proteger do cheiro de urina e fezes que domina a redondeza.

8:40: Entra na sala de aula. Verifica que não há giz nem apagador. Volta a sua sala para pegar seu próprio suprimento dos instrumentos de trabalho.

8:55: Com metade dos alunos já presentes, começa a aula que dura até 10:20.

12:00: Sai do prédio para colocar correspondência no correio e para comprar um aparelho de telefone. O de sua sala, dividida com quatro colegas, foi quebrado por alguém. Não lhe é difícil imaginar a cena: irritado com a dificuldade de conseguir linha, um usuário menos paciente descarrega a ira no inocente aparelho, que para tal reação não estava aparelhado. Reclamação sobre o dano, feita dias antes, não tivera conseqüência.

14:00: Reunião departamental. O tema principal é a falta de professores. A chefia do Departamento informa que três colegas se aposentaram não podendo ser substituídos por estarem proibidos os concursos. A contratação de substitutos temporários, via Reitoria, está difícil dado o volume dos pedidos. Discutem-se alternativas: cancelar disciplinas, reduzir turmas, duplicar a carga horária dos professores restantes. Alguns professores acusam a política neo-liberal do governo de estar destruindo a universidade pública, outros apelam para o senso de dever dos colegas.

16:00: De volta à sala, recebe a visita de um estranho que lhe entrega uma folha escrita. Fica sabendo que o portador é uma vítima da AIDS e está percorrendo as salas pedindo dinheiro aos professores para custear o tratamento.

16:05: Reunião da Congregação do Instituto. O tema central é a precária condição do velho prédio tombado pelo patrimônio. A direção informa que têm sido inúteis os esforços junto aos órgãos competentes para conseguir sua reforma. O teto está comido de cupins, ameaçando desabar em alguns pontos, a instalação elétrica está velha e deteriorada, o mesmo acontecendo com a parte hidráulica.

17:30: De novo na sala. Entra um aluno. É informado de que alguns estudantes se recusam a cursar sua disciplina alegando terem ouvido dizer que o professor é a favor da escravidão.

17:45: Pega o contracheque na secretaria. O salário líquido de professor titular com dedicação exclusiva, incluindo a recente gratificação de estímulo à docência, é de R$ 3.269,01, ou US$ 1.816,00. Sem a gratificação, cairia para R$ 1.968,41. Lembra-se de que nas boas universidades norte-americanas o salário de um titular fica entre 8 e 10 mil dólares. O único consolo é que o contracheque o classifica de “ativo permanente”.

18:00: Prepara-se para deixar o prédio. No saguão, examina uma pequena exposição de pedaços do teto comido de cupins, de amostras das instalações elétrica e hidráulica deterioradas e da água amarelada dos bebedouros.

18:05: Cruza de volta o largo de São Francisco. Despede-se de José Bonifácio, notando que o Patriarca trocou a bandeira do MST por uma camisa do Flamengo.


Comentários:

  1. Já vi o José Bonifácio segurando bandeira do MST, do Flamengo, do Brasil, com bandana de time na cabeça, com cueca na cabeça...
  2. Nas escadarias de acesso ao prédio há mendigos. Há cachorro às vezes. E o cheirinho... É a mesma coisa na Igreja de São Francisco, que fica quase ao lado.
  3. Tive aulas com o mencionado professor às 8h40. Duas vezes por semana. Dois semestres;
  4. Todos os professores dividem suas salas com os outros. Isso me lembra O Cortiço;
  5. Antes reclamavam da política neo-liberal do FHC. Agora na reclamação só mudaram o nome do infeliz da vez;
  6. No corredor do laboratório que eu freqüentava o reboco quase caía na gente. (Uma vez um pedação só não caiu em mim porque cheguei depois da queda, quando eu estava voltando para a sala.) Mais à frente, uma área interditada. Risco de vida. Em outro setor fica a biblioteca. Ficou um tempão sem funcionar. Os fungos ameaçavam a nossa saúde.
  7. Até eu já ouvi que o dito professor defendia a escravidão. Minha teoria é a seguinte. Algumas pessoas liam mas não entendiam merda nenhuma de um texto que ele passava. Era um do José Bonifácio e era contra a escravidão. O raciocínio dos burros: assunto era escravidão, a elite brasileira gostava da escravidão, Bonifácio era da elite, professor gostava do Bonifácio. Então o Bonifácio defendia a escravidão e o professor era simpatizante dela. (Eu sei que você acha que estou exagerando.) Na aula sempre tinha alguém que pensava assim. Outra coisa. Uma vez ouvi um aluno escurinho dizendo que tomou bomba do José Murilo de Carvalho numa seleção de doutorado só por causa de preconceito. Acho que ele disse um negócio tipo "ele me ferrou porque não gosta de negros". Engraçado que o professor defende ação afirmativa mas é contra as cotas. Pois é.

Friday, October 05, 2007

Dúvida

Eu estava relendo pela enésima vez Sobre el amor. Gosto muito das coisas que Ortega y Gasset escreve. Lá pelas tantas ele diz algo curioso:



con pocas excepciones, los hombres pueden dividirse en tres clases: los que creen ser Don Juanes, los que creen haberlo sido y los que creen haberlo podido ser, pero no quisieron.


Eu nem lembrava mais desse trecho. Ri um bocado! Quase todos os homens se consideram conquistadores? Mais curioso ainda é o que ele diz logo em seguida:



Estos últimos son los que propenden, con benemérita intención, a atacar a Don Juan y tal vez a decretar su cesantía.


Quer dizer então que os Don Juanes que não o foram por opção são os que costumam atacá-lo?

O engraçado é que eu tive amigas assim. Sei lá se era porque pensavam um pouco que nem homens. Quando eu perguntava por que estavam sozinhas, me diziam que era porque queriam. Vai ver que se não quisessem choveria homem! Alguma coisa me diz que esse tipo de resposta tende a acontecer mais com os homens. Mas são esses que mais costumam falar mal dos conquistadores mesmo?

(Por curiosidade, o artigo de onde tirei essas citações se chama Para una psicología del hombre interesante. É que o Ortega quer saber isso, que é o homem interessante? Aquele que as mulheres sempre gostam? Uma observação. Não confundi-lo com Don Juan!)

Tuesday, October 02, 2007

Pe. Leonel Franca

Em A psicologia da fé, p.94 ss.:

Contemporâneo de VOLTAIRE, mas diametralmente oposto a todo o seu estilo, é E. KANT. Lá um polemista sem escrúpulos, aqui um pensador austero. VOLTAIRE, homem de corte e das rodas frívolas das sociedades literárias; KANT, titular de uma cátedra universitária e filósofo amigo do silêncio do seu gabinete. O francês, na sua luta contra o cristianismo, joga com todas as armas que poderão diminuir ou ridicularizar o seu adversário na consideração dos espíritos superficiais; todos os gêneros literários, da história à tragédia, do libelo à poesia, servem simultânea ou sucessivamente à finalidade dos seus intentos; a calúnia e a ironia, o desprezo e o ódio animam as suas páginas de uma nota pessoal viva e contagiosa. O alemão não sabe rir; a sua pena severa não desmente um só instante a gravidade impecável do homem de pensamento puro; toda a confiança da sua influência pretende descansar na força, lenta mas irresistível e definitivamente conquistadora, da idéia.

Separados por este antagonismo profundo de índole, de feitio literário, de formação intelectual, VOLTAIRE e KANT colaboraram na obra funesta da descristianização moderna. Adversário ferrenho de qualquer religião positiva e sobrenatural, o filósofo de Königsberg foi dos que mais contribuíram para a difusão do racionalismo nas classes cultas. Reduzir o cristianismo a simples proporções humanas e encerrar a “Religião nos limites da razão pura” foi, com o título de uma das suas obras, o esforço de uma vida intelectual já madura e fecunda.

Com que preparação histórica e dogmática entrou KANT neste trabalho de tanta responsabilidade? Foi no Fridericianum que o futuro professor de filosofia recebeu a sua formação religiosa. Dirigido pelo Dr. F. A. SCHULTZ, um dos homens mais
influentes de Königsberg, este ginásio passava por um instituto pietista. Sabemos qual a esfera religiosa que aí se respirava. O protestantismo, antes da reação racionalista dos fins do século XVIII, concentrara toda a sua preocupação no problema da salvação pessoal pela fé. Luteranos, pietistas e reformados aqui não divergiam essencialmente. A corrupção completa e irreparável da natureza humana, não já suscetível de uma verdadeira regeneração interior, constituía este pessimismo moral que domina toda a concepção protestante da economia redentora. O que importava era despertar esta confiança nos merecimentos de Cristo, confiança terna e entusiástica, “fé que salva”; o estudo e as práticas de piedade eram orientados para excitar e preparar esta “conversão do coração naturalmente corrupto” e debelar este “mal radical” (das radikale Böse), como o chamará mais tarde Kant (Von radikalen Bösen, 1792). O estudo do dogma ficava assim profundamente mutilado e todo o cristianismo empobrecido nas suas riquezas espirituais. Ao sair do Fridericianum, desgostado dos processos de educação religiosa dos seus mestres, das suas atitudes devotas que ele averbará de carolice e fanatismo, die schwärmerische Religiosität, o jovem Emanuel abandonou para sempre todo e qualquer exercício de piedade. Mais tarde, ouvi-lo-emos incriminar de imoral, a prece; de perversão, a disciplina ascética; de idolatria, a invocação de Cristo. KANT não tolerava, entre os seus convivas, a oração antes das refeições; e ao diretor da cadeia de Königsberg, HIPPEL, pediu que mandasse calar aos presos “hipócritas” que entoavam alguns cânticos religiosos. Com as práticas foram também abandonados todos os estudos cristãos. Kant não conhecia um só dos grandes doutores católicos. S. TOMAS e SUAREZ, que LEIBNIZ lera e louvara, ele nem sequer os havia folheado. Na sua biblioteca, aliás pobre, não se encontrou nenhum dos nossos grandes tratados de dogmática, antigos ou recentes. Quando em 1793 saiu publicada a Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft, havia 53 anos que o professor de Königsberg deixara o Fridericianum e por confissão sua, com exceção da obra de J. F. STAPPER, Grundlegung sur wahren Religion, nada mais lera sobre o assunto. Desinteressara-se por completo da doutrina e da exegese; só lhe sobreviviam na memória algumas reminiscências dos “entretenimentos dogmáticos”, isto é, das piedosas exortações do Dr. SCHULTZ, ouvidas entre os 12 e 18 anos. Durante a composição do seu trabalho, leu uma Gundlegung der christlichen Lehre, isto é, um destes pequenos catecismos populares, então muito comuns na Alemanha e impresso em 1732. Esta leitura permitiu-lhe revestir de uma terminologia cristã o seu racionalismo que nitidamente ressalta em todas as suas linhas através da transparência de um vocabulário de última hora.

Que admira, portanto, que pululem a cada passo as confusões mais deploráveis, a respeito de quase todos os nossos dogmas? Sobre a eficiência dos sacramentos e o primado do Papa, sobre o probabilismo e a organização da Igreja romana, sobre a fé e a graça, KANT erra decompassadamente. Onde uma doutrina católica lhe vem ao bico da pena, exposta ou criticada, ressalta, manifesta e incontestável, a sua total ignorância. Nem lhe ocorre o escrúpulo mais elementar de uma simples verificação. A sua instrução religiosa não passa o nível da de um preparatoriano de todo esquecido das suas primeiras noções da doutrina cristã. Se qualquer de nós escrevesse sobre o budismo ou o Kantismo, com esses processos de informação ou documentação, todo o mundo científico o desqualificaria irremediavelmente. Dir-se-ia então que, a doutrina católica ou domínio religioso é uma terra incógnita, exposta às arbitrariedades do primeiro ocupante?

Disparatadas

Pensei que no fundo cada um fosse só. Como? Você veio ao mundo através de alguém. De duas pessoas. Mas você quer viver solitário. Verdade? Mas se Deus é Trindade, por que você busca solidão?

Deus não vive só. Nem você nasceu sozinho.

***

Lembro até hoje muito bem de uma esquisitice que conversei uma vez com um amigo.

Eu:"Você já parou para pensar no que significa existir Deus? Em alguém que é tão imenso que faz com que a gente em comparação seja quase nada? Para ser honesta com você, às vezes me dá calafrios até chamá-Lo pelo nome."

Ele riu. Perguntou o motivo.

"Já teve a experiência de observar algo imenso? Como o mar? Quando percebo a imensidade dele, eu me sinto esmagada. Me dá medo. A mesma coisa a lua. Me dá vontade de me esconder debaixo da cama quando de repente me dou conta de como ela é imensa, antiga... Pior se descobrisse que ela tem uma vontade, pensa!"

Acho que às vezes a gente se esquece um pouquinho que Deus dá medo também...

***

Muita gente não entende que só dessacralizando a natureza é possível fazer ciência. Quando alguém diz que o cristianismo não é compatível com a religião, esquece que foi graças a ele que a crença num mundo dessacralizado se disseminou. Como também a crença de que tudo na natureza tem uma origem divina acabou. (Um exemplo. Ninguém mais acha que trovões são obras de um deus.)

Antes do cristianismo havia ciência? Havia. Mas era praticada por gente que tinha uma opinião ou atitude religiosa diferente da comum. Eram quase sempre mal vistos. Por isso viviam somente entre si.

Graças ao cristianismo, acabou a confusão entre um mago e um cientista. Como confundir os dois? Se o mundo não tinha mais um poder mágico a ser manipulado, não havia mais a necessidade de um mago.

É por isso que em todas as épocas em que a natureza é divinizada direta ou indiretamente, florescem os ocultismos da vida.

***

Tenho percebido que se dois brasileiros se juntam para conversar sobre o Brasil, a conversa sempre vai ser uma mistura de risos e choradeiras.

***

Li por aí que os animais devem ter direitos. Olha, eu adoro bichinhos. Mas se eles tiverem direitos, quais seriam seus deveres? Vão pagar imposto também ou serão a classe mais privilegiada que já existiu no mundo?

Vão ter que mudar o significado da frase "ele foi tratado como um cachorro".

***

(Acho que do Diógenes Laércio. Estou citando de cabeça.)

O lacaio apresentava a Aristipo todo o esplendor da casa de seu amo. Foi quando então Aristipo lhe deu uma escarrada no rosto. Perplexo e indignado, o lacaio lhe perguntou por que fizera aquilo.

- Desculpe-me, mas é que tudo nesta residência é tão esplêndido que o único lugar onde eu poderia escarrar sem maculá-la era em teu rosto - respondeu Aristipo.

Crítica decente

Não fiquei reclamando das críticas de um filme outro dia? Agora olha aí a crítica decente do Pedro sobre o filme "Cem pregos".

Você pode reclamar. Pode dizer "pô, o Pedro viajou na maionese". Só não pode reclamar que ele é mais um que adora chamar os outros de reacionário/fascista/revolucionário e pronto. (Acho lindão aqueles críticos que moram no Leblon travando lutas contra o fascismo.) Nem pode reclamar que ele tem mau gosto. Como o sujeito que ficou reclamando do pessoal aplaudindo um filme comento pastel de carne moída e tomando uisquinho. Esse sim tem mau gosto!

Sunday, September 30, 2007

Reflexões depois de um showzinho

É que não disse antes. Escrevi o post anterior correndo. Estava para ir a um showzinho.

Me deu vontade de escrever umas coisinhas que pensei durante e depois do show. Outra hora termino aquele post.

Olha, antes eu levava muito a sério coisas como moicano, jaqueta de couro, a palavra underground. Claro que eu não usava moicano, mas respeitava quem usava. Teve uma vez que até (confissões da Espectadora) escrevi a letra de uma musiquinha. Ditadura de veludo. Já que sou eu mesma que estou me sacaneando, vou colocar só um pedaço do refrão. Me esqueci do resto.


Ditadura de veludo
Tênis Nike e roupa de Menudo.

Ai que vergonha...

Não sei se você está por dentro desse tipo de coisa. É que toda banda de hardcore tem que escrever alguma coisa sobre aquela entidade chamada "Sistema". Às vezes o nome da banda indica alguma coisa do tipo. (Olha, ninguém sabe direito o que é esse "Sistema" direito. Tem a ver com capitalismo mal-interpretado, noções de família mal-interpretadas, religião mal-interpretada, política mal-interpretada. Não dá para chegar para um cara desses e dizer "olha, cara, é que von Mises escreveu um negócio aqui que não tem nada a ver com o que você imagina que seja o capitalismo e tal", ou "ei, Tertuliano já explicou isso aí que você está falando". Haja Espírito Santo em todos nós!) Então, o nome da banda tem que soar forte e vagamente contrário a tudo que está aí. Os nomes parecem de tribo de orcs, tipo Matanza, Ratos de Porão, Olho Seco, Garotos Podres, Força Macabra. Ou Revolta Civil, Agnostic Front, Ataque Periférico, Sociedade Armada. Ou mais bizarro, tipo Uzomi, Zumbi do Espaço, Mukeka di Rato. E toda, toda banda de hardcore que se preze, tem que ter uma letra contra o "Sistema". Pode ser "Municipela" (de Guarda Municipal péla-saco), música da ex-banda de um amigo meu. Pode ser "Crucificados pelo Sistema", dos Ratos de Porão. Pode ser "Papai Noel velho batuta", dos Garotos Podres. Pode ser "California Über Alles", do Dead Kennedys... [Por sinal, essa banda (DK para os íntimos) tem um monte de letras desse tipo. O que acho mais engraçado é que na hora que descobriram uns problemas de pagamento não recebidos, resolveram pedir ajuda ao "Sistema". A confusão foi parar na justiça. Que nem uma vez que a polícia ajudou um dos caras do Titãs. Acho que os próprios polícias ficaram cantando "Polícia". Justiça poética.]

Tem um episódio de Gilmore Girls em que a banda da Lane vai tocar no CBGB. Esse lugar é legendário. No "cenário underground" (para usar um jargão do meio), lógico. É meio feínho. Não digo que é todo escrotão porque esta que vos fala já conheceu lugar pior.

Reminiscências nojentas agora. Uma vez fui assistir a um show em Engenho de Dentro (para quem não sabe, é um desses bairros esquisitos que tem no Rio). Algumas daquelas bandas citadas iam tocar lá. Peguei o 456. Saltei no Méier. Andei por uma rua esquisita ao lado do trem. Dei uma volta enoooorme no quarteirão mais mal-feito que já vi. Cheguei à Casa da Zorra (nomezinho do lugar). Era de noite. Tudo, tudo fechado. Lugar esquisitão. Perto, uns caras fazendo churrasco. A Casa da Zorra era um lugar pequeno, ultra-mal-ventilado. Coloca uma porrada de gente pulando e gritando num lugar sem janela. Dá para imaginar como deve ter sido, não? Olha, teve uma hora que quando olhei pro chão, ele estava to-tal-men-te molhado... de suor! Segunda coisa que nunca tinha visto na vida (a primeira foi o quarteirão esquisito). Acha que acabou? Para terminar bonito, um cara barbudão que estava cantando tirou a camisa e... deu um mergulhão e saiu deslizando pelas poças de suor! Até um amigo meu que era conhecido por ser meio maluco disse alguma coisa do tipo "caralho, mas que cara porco!"

(Ôxi, agora estou lembrando de um outro lugarzinho lá em Copacabana, ali na Siqueira Campos. Esqueci o nome. Eu e umas amigas chamávamos de "cu", porque era pequeno, apertado, quente e às vezes fedorento. Mas não era tão ruim quanto àquele bunker em Engenho de Dentro.)

Na saída todo mundo foi unânime. Nunca mais voltaríamos para lá. E olha que a gente era empolgada! (Para os leigos. Esse tipo de experiência é considerado muito positivo. Alguns gostam do termo "visceral". Outros gostam de fazer comparações com as tronchices do movimento punk na Inglaterra na época de Sex Pistols e tchurma. Fui excomungada uma vez porque disse que os punks daquela época são uma versão inglesa dos funkeiros cariocas.)

Você sabe que os muçulmanos têm que fazer alguma vez peregrinação a Meca. Aqui no Rio, nego que curte hardcore tem que ter ido pelo menos uma vez ao famoso Garage (famoso nesse meio). Senão é "punk de butique", "emo" etc. [São outros termos especializados. E um notinha. Hardcore considerado de verdade é sempre relacionado ao termo "tosco". É por isso que se a qualidade de um cd de hardcore não for pelo menos ruinzinha, os puristas fazem cara feia. Música boa tem que ter algum chiadinho.] Claro que esta que vos fala já foi lá. Uma vez. Assistir a uma bande um amigo. A região é tão doida que primeiro você passa por baixo de uma espécie de ponte de trem e, do outro lado, parece que está entrando numa zona atípica da cidade. Foi a experiência mais próxima que tive de cruzar um portal dimensional. Ou buraco negro, segundo alguns. Existe uma ruazinha por onde passa um monte de táxs correndo. Achei aquilo muito estranho. Por que tanto táxi correndo? Podiam atropelar alguém, a rua estava cheia. Isso supondo que as leis da cidade eram válidas por ali. Quando perguntei a um amigo por que tanto táxi passava por lá daquele jeito, ele me disse que havia um puteiro próximo chamado Vila Mimosa. A folga deles era rápida. Mais perto tinha um bar cheio de motoqueiros. Ficavam na deles, escutando alguma coisa pesada. Resumindo. Um lugar que parecia Mad Max. Eu estava metade contente por enfim conhecer um lugar tão lendário e que só tinha ouvido falar e lido. (Pois é, eu conhecia um livro sobre a história do movimento punk. Diziam alguma coisa sobre o Garage.) E estava metade arrependida por ter me enfiado num lugar como aquele. Teve uma hora que achei que seria melhor eu estar na minha casinha jogando Super Mario. Não me pergunte por quê. Passou rápido. Entramos. Lá dentro não tinha nada demais. Palco em frente. Bar ao lado. Coisas de praxe. Só o pessoal era mais perdido que de costume. Um amigo se meteu num pogo que de longe parecia a Cúpula do Trovão. Saiu meio lascado. Uma amiga minha ainda mais maluca também se meteu. Saiu como entrou, maluca. Um outro amigo, mais esclarecido, ficou me explicando as diferenças entre o pessoal hardcore do subúrbio e os da Zona Sul e tal. Parece que os do subúrbio, que estavam ali em peso, eram os "cariocas do hardcore". Os da Zona Sul eram os "fluminenses do hardcore". Isso parecia explicar a grosseria dos freqüentadores.

Pode parecer que não. Eu tinha gostado de ir e tal. Pelo menos uma vez. Nunca mais voltei...

(Claro que na época eu levava a sério essas coisas. Quer dizer, achava engraçado por ser diferente. Ver um cara de corrente de bicicleta e cadeado no pescoço era divertido. Mas eu achava que no fundo valia muito a pena participar dessas coisas. E só dei exemplos dos lugares mais cavernosos. Havia lugar que era mais direitinho. Tinha um numa rua que agora me esqueci o nome. Perto do Shopping Rio Sul. Acho que nem tem mais show ali. Só que não era uma experiência, hm, "visceral"...)

Hoje fui meio que por ir a um show desse tipo. Ali na Lapa, que aliás não gosto nem nunca gostei. Já não me empolgo muito com esse tipo de coisa. Esse negócio de escutar nego berrando as músicas, mais trinta e cinco pessoas por metro quadrado... Não é mais a minha praia. (Eu poderia contar algumas coisas sobre shows na praia. Deixa para outra hora.)

Fora outra coisinha. Essa atitude "pró-tosquice" eu não gosto. Eu hein, parece culto ao Chavez e Chapolim. Deve ser por isso que uma porrada de gente gosta de usar camisa com o rosto do Seu Madruga. Ou com aquele coraçãozinho do Chapolim. Achar que a graça de uma coisa reside no fato de ela ser mal feita... não me parece nadinha inteligente. Fazer questão de ter mau gosto é bizarro. Nem gosto de atitudes como ser contra autoridades só por ser contra autoridades (a-ha, link para o outro post!). Muita gente nesse meio adora vir falar de anarquismo. É chique usar aquele A de anarquismo numa camisa. Ok, eu já gostei disso. Mas não acho legal ter atitudes destrutivas em relação a tudo. Ainda mais por farra. Se bem que por farra ou não, não acho legal. Pior que sempre nessas coisas acontece algo chato. Ou nego não sabe do que está falando, e aí não enche muito o saco. Ou tem noção, e aí se torna um saco.

Hoje em dia eu acho que a leitura de um negócio do tipo Suma contra os gentios é muito, muito mais hardcore do que toda a obra de todas as bandas punks juntas. Multiplicadas por vinte e cinco! E um cara tipo Jó é muito mais chocante (sei lá se o termo é bom, mas enfim) do que trinta mil Sid Vicious. As Variações Goldberg são bem mais impactantes e transgressoras que toda a discografia de The Exploited.

Esse "cenário underground" e tal não fede nem cheira mais para mim. Acho tudo só uma coisinha engraçada. Não acho que seja indício do fim do mundo. Nem da "dissolução dos valores". (De repente até é. Sei lá. Uma coisa ou outra parece mesmo que sim. Existe alguma maluquice nisso tudo. Outra hora conto algumas coisas muito estranhas.) Nem sei são mais malucos os caras do Sex Pistols ou alguém que fica cismando que eles estão com o diabo no corpo. Também estou muito longe de achar que eles foram mais influentes na história do séc. XX que Aristóteles. (Você pode duvidar. Já discuti uma vez sobre isso. Acho que estavam de sacanagem comigo. Equivalente mais cheio de pose foi quando discuti em outro ambiente sobre quem era mais genial, Aristóteles ou Da Vinci. Acho que argumentei muito mal defendendo o grego. Fui voto vencido. Mas por que nego sempre me empurra o Aristóteles para eu defender?) Tudo isso para mim é tão transgressor ("visceral") quanto chiclete.

Trato essas coisas como trato chiclete.

Tosco e provisório

Vez ou outra alguém me pergunta mais ou menos assim: "Pô, como você pode reclamar tanto de autoridade e respeitar tudo o que a Igreja diz?"

Essa pergunta é engraçada.

Virou costume chamar qualquer um que tem cargo público de autoridade. Só que eu sou chata com essas coisas! É que pra mim, quem possui cargo público tem é poder. Não acho que poder público seja a mesma coisa que autoridade pública. O poder dá idéia da força bruta. O Estado não vai querer convencer a gente através de argumentinhos que temos de pagar imposto. Ele vai exigir. Se você não pagar, está fodido. No máximo, no máximo, vai haver algum fundo de razão nas funções do Estado. Ninguém agüenta ser dominado por um poder maluco. Pelo menos não por muito tempo. Com a autoridade é diferente. Não é só exercer uma função em decorrência do poder. É uma posição de honra que pode ou não ser amparada por um poder. Acho que dá para explicar de um jeito mais tosquinho. O poder você reconhece na marra, por causa da coerção. A autoridade você reconhece por livre assentimento. Mas olha só, nada disso quer dizer que a princípio o poder seja ruim. É da natureza das coisas ele existir. Pode ser uma coisa bacaninha. E só para você ver como tudo é enrolado, o poder tem alguma autoridade. É como eu disse, ninguém suportaria sem o menor problema uma coerção pela coerção. O poder precisa de alguma autoridade para existir. Mas as coisas são muito, muito enroladas! É que a autoridade às vezes precisa do poder também para ser efetivada. Ia ser muito bonito se todo mundo respeitasse uma autoridade só por causa da verdade que ela representa. Não, não é assim que as coisas funcionam.

Não sou contra o poder a princípio. Muito menos contra autoridade!

O Senado romano, quando tinha que decretar alguma lei, se valia da expressão senatus auctoritas. A vontade do povo era a auctoritas populi. Para você ver como essas coisas são complicadinhas. Porque auctoritas pode significar poder também. Aí não está muito errado considerar a autoridade pública uma autoridade...

[Agora vou passear. =) Depois completo.]

Friday, September 28, 2007

Tropa de Elite (comentário de dois comentários)

Hoje foi um dos poucos dias que pude ficar em casa pelo menos durante a hora do almoço. Aproveitei para tirar o atraso da leitura de O Globo de terça (25/09/07). É, amigo... Pode não parecer, mas às vezes até arrumar tempo para ler um jornal é complicadinho!

Vi logo na capa um bafafá por causa desse filme Tropa de Elite. Olha, se você quer saber de uma coisa, bem que eu gostaria de ficar impassível a respeito desse tipo de assunto. Meu negócio é outro. Só que é fogo. É que nem você estar no elevador e, sei lá, alguém soltar um pum. Você gostaria de ficar na sua. Queria chegar logo em casa ou sair para a rua. Você gosta de cheirinho bom. Mas o fedor incomoda muito. Você só fica pensando em quem foi o infeliz que soltou o pum, doido pra reclamar com ele. Essa polêmica é decorrente do pum mental de dois articulistas do jornal. Vale a pena comentar umas coisinhas.

Me chamou a atenção um dos atores se defender de uma crítica infeliz que considerava o filme fascista. Na capa havia uma chamada para outro artigo, dizendo que ele era reacionário. De cara, até confesso que fiquei animada de assistí-lo. Se a crítica considera algo fascista e reacionário, é porque deve ser algo que vale a pena. Há um jeito de saber se um cara que critica alguma coisa vem da terrinha do Golias. É a maneira como ele se sente livre para usar o termo "fascista" das formas mais irresponsáveis. Me deixa explicar rapidinho um negócio antes. Existe alguma coisa como estética fascista. Mas na verdade não é bem estética. É propaganda. Como “arte soviética”. Não é arte, é propaganda só. O valor da obra não é visto por si. Ele é condicionado a pressupostos políticos. Caem os pressupostos, some o valor da obra de arte. Isso é horrível! Se você casa a qualidade da obra com o aspecto político, você tem uma visão propagandística da arte. Seria melhor que você não escrevesse nada sobre o assunto. Agora, só uma curiosidade. Há uma cena do Gladiador que é quase igual a uma de Triunfo da vontade. É aquela em que o novo imperador é saudado pelos senadores, com as tropas em formação ao lado. Não dá para deixar de associar à cena clássica do Hitler e mais uns carinhas andando entre as tropas. Só por isso o Gladiador seria fascista? Se for por aí, daqui a pouco até o Senhor dos anéis é fascista. E nem acho que só porque uma obra foi feita num regime fascista ela não tenha o menor valor. A Chancelaria do Reich *eu* acho um prédio bem interessante. O documentário Olímpia é mesmo muito bom. Até algumas obras do Hitler não são ruins. Existe qualidade em algumas de suas pinturas. Porém é no mínimo duvidoso dizer que elas sejam fascistas, pois quando foram feitas o Hitler não estava nem aí para a política! Mais curioso é analisar do ponto de vista ideológico a obra de um artista sem nenhuma incinação política em especial, ou quando a obra dele não reflete o posicionamento político dele. Um Picasso. Boa parte da fama dele é porque era esquerdista e pintou Guernica. Muita gente gosta dele por isso. Eu gosto dele também, mas não por esses motivos. O curioso é que o Partido Comunista Russo tolerava a posição política dele mas não o estilo... E Richard Strauss, que parece não ter tido opinião de nada a não ser a de aproveitar qualquer oportunidade que lhe surgisse? Deveriam jogar a obra dele no lixo porque se permitiu trabalhar para os nazis? Mesmo não tendo nada que justificasse o movimento nazi em sua obra? Uma parte da antipatia contra ele vem desse tipo de questão. É compreensível. Mas não deixa de ser equivocada. É um problema quando condicionam demais uma obra às opiniões políticas do autor! Só que fazem isso com muita freqüência.

Nada disso quer dizer que o fator “política” sempre tenha que ser omitido. Dois exemplos. A tragédia grega tem relações muito próximas com o desenvolvimento do Estado de Atenas. E também com a transição de um regime político mais arcaico para a democracia da pólis. Antígona é um ótimo exemplo da tensão entre o poder público (Creso) e os laços de parentesco (Antígona). É um problema também político. Eumênides é outra peça que possui uma questão política. O Areópago se converte em tribunal pela vontade dos deuses. A coisa só fica feia quando você hipertrofia a política. De repente, nada mais passa de disputa de partidos. Sinal disso é a intromissão de jargões políticos polêmicos nas áreas mais indevidas. Como gostar de Einstein porque ele é revolucionário, enquanto Newton é reacionário. (Eu tinha um amigo que gostava de brincar com essas coisas. Ele me dizia que havia uma beleza “conservadora”, uma “reacionária” e uma “revolucionária”. Ou seja, havia gente que ELE achava bonita mas sem sal ("conservadora"), antipática ("reacionária") e “exótica” ("revolucionária"), que era o tipo que ele mais gostava.)

Agora uma oportunidade para escrever algo sobre a esquerda. Tudo o que ela faz é político. Ela analisa tudo pela ótica do embate conservador-progressista-revolucionário-reacionário. Eu tinha um professor que me contou que a irmã dele, ao saber que ele estudaria latim, disse que ele estava virando reacionário. Pois é, até estudar língua clássica é atitude contra-revolucionária. Só faltava criarem uma outra Cheka só para prender latinistas!

Voltando à vaca fria. E então o compadre do Golias disse que o filme era fascista. (Mais adiante vou escrever sobre o outro compadre que tachou o filme de reacionário.) Uma pergunta. O filme faz apologia da onipotência do Estado? Outra. O filme prega um nacionalismo belicoso? Mais uma. O filme faz apologia da censura? Agora essa. O filme faz apologia de um salvador da pátria? Mais essa. O filme força a barra para alguma mitologia nacional? Penúltima. O filme critica a “burguesia internacional”, o capitalismo etc? Última, embora coubessem mais perguntas. O filme faz propaganda de alguma elite revolucionária? Se o filme apóia todas essas coisas, então beleza. Está fazendo propaganda fascista. E se não apóia nada disso? Então quem o acusa é no mínimo maluquete! Se você viu o filme, pode responder. Não o vi.

Mas eu nem preciso ter visto para ter uma noção da qualidade da crítica, cujo título bizarro é Tropa de Elite é fascista?. N'O Globo há um texto sobre ela, segundo o qual o autor

chamava a atenção para a heroicização do personagem, que não tem escrúpulos em torturar e apavorar moradores da favela, comportamento justificado (e aprovado por parte da platéia, aos gritos de “caveira”, símbolo do Bope) para vingar o colega assassinado pelo chefe do tráfico no morro. Outro ponto abordado pelo colunista [quase que transcrevo “comunista", no mais puro ato falho] foi o das relações promíscuas entre o tráfico e as ONGs (“organismos-títeres de alta bandidagem”, escreve) que atuam em comunidades carentes – incluem-se aí estudantes universitários de classe média alta, os quais, aponta ele, são o alvo principal do roteiro quando trata de responsabilizar o consumidor final pela guerra que inferniza morro e asfalto no Rio de Janeiro. [Mas ué, e essa gente não tem responsabilidade? O Arnaldo Bloch escreveu isso em tom de crítica negativa. Parece desconhecer uns princípios do mercado. Oferta e procura. Sobre ONGs, não sei. Sempre tive lá umas desconfianças.] E, por último, ele observa que no filme não há uma menção sequer ao assunto que está na ordem do dia [isto é, dentro da pauta da galera de esquerda] quando se trata da questão da violência ligada ao comércio de drogas: o da liberação do consumo. [Quer dizer, ele critica o filme porque mostra universitários de classe média alta que compram droga. Depois o critica por não ter tratado da conexão entre a repressão das drogas e violência urbana. Ou seja, para o A. Bloch, os jovens tinham que comprar drogas à vontade, pelo menos no filme. Como o roteiro não foi esse, o cara ficou chateadinho. Me dá vontade de dizer que parece até que o A. Bloch está advogando em causa própria ou dos cumpichas dele.]

A partir disso que o Arnaldo Boch escreveu, você, você mesmo, ô amiguinho, acha que o filme é fascista? Ou o crítico é um lesado?

Só mais uma coisa sobre a mania de tachar tudo de fascista. É que não foi comigo. Se viessem me chamando de fascista e tal, eu mandaria é tomar lá naquele lugar onde o sol não bate. Pô, que safadeza é essa de sair acusando do nada um filme assim? Um ator chegou a responder de um jeito que eu jamais faria. Ele disse ter sido “instigado pelo bom texto do Arnaldo Bloch sobre a sessão de estréia de Tropa de Elite." Ô cara, acorda! O sujeito escreveu que seu filme é coisa de gente fascista e tal. Gente que trata quem discorda dos lindos ideais deles com prisão e tiro. Ser chamado de fascista é pior que de filho da puta. Aí você diz escreve uma resposta "instigado pelo bom texto" dele? Parece até que o ator é masoquista ou saco de porrada ambulante. É irritante essa mania que muitos têm de buscar a polidez a todo custo. Essa conduta só serve para transformar a gentileza numa fingimento, numa forçação de barra. Essa que teria que ser a resposta: "Arnaldo Bloch, você vai ter que provar por A+B que esse filme é fascista. A crítica que você fez é muito grave. Do contrário, você não passa de um tratante irresponsável que só sabe reagir ao que não gosta dando chiliques histéricos. Antes que eu me esqueça, fascista é a pqp, seu zé ruela!"

Usar com tanta promiscuidade esses termos é sintoma de filisteísmo. Dos brabos. Uma vergonha essa crítica.

Ah, mas a ciranda não terminou por aí! No caderno Magazine do mesmo O Globo, um cara chamado João Paulo Cuenca tentou dar mais um show. Foi na coluna Sobretudo.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer um negócio sobre a foto do caveirão cheio de sangue no piso que estampava a página. Eu não sei quem falou para esses caras que mostrar *a* verdade é publicar foto de um carro cheio de sangue, ou qualquer brabeira do gênero. Eu quase ia dizer que isso é coisa de esquerdista. Só que teve uma vez que no Mídia sem Máscara me fizeram o grande favor de publicar uma foto de um polícia morto com um tiro de fuzil na cabeça numa viatura. Porra, e tem gente que reclama quando eu digo palavrão! Aqui no Rio tinha um jornal que ficou famoso por causa desse tipo de foto. Era O Povo. Sei lá se existe ainda. Mas parece que fez escola. Na tevê é a mesma merda de vez em quando. Fico pensando no seguinte. Será que essa gente que adora mostrar *a* verdade já participou dela in loco? É mole eu dizer que temos que mostrar as coisas como elas são e ficar sentadinha aqui em casa. Ou fazer no máximo uma viagem chinfrim a uma favela perigosa, que nem me contaram que o Paulo Henrique Amorim fez ao Complexo do Alemão. Ou sair ao redor do mundo tirando foto de nego estropiado (que nem aquele carequinha que agora me esqueci o nome.) Dar uma de John Cornwell e dizer que investigou ultra-super-bem os arquivos do Vaticano, para agora dizer que mudou um pouco de opinião sobre Pio XII (e só disse isso depois da enxurrada de críticas ao livro dele, mas pelo menos é um indício de decência). Tudo isso me lembra de um maluco que conheci há um tempinho. O cara vivia me falando que o mundo era uma merda. Que no Brasil havia coisas tão terríveis que ninguém tinha coragem de dizer. Me contava alguma história toda escabrosa sem eu pedir. O mesmo sujeito morava numa cidadezinha bunda onde não acontecia nadinha. Ele vivia bem. Nunca aconteceu nadinha com ele. E teimava em me dizer que tinha visto a verdade e que ela era maligna. Essa gente parece que bebe. Esse frisson é uma reação típica de beatas, só que às avessas. No lugar de se escandalizar com o que viu de longe, sente um furor. Então a beata com espírito de moleca resolve esfregar na cara de todo mundo a causa do furor. Já me disseram que durante a Guerra do Vietnã foi mais ou menos assim. Era preciso assustar “aquelas famílias que se reuniam em frente a uma tevê na hora do jantar”. Note o valor político dessa chantagem emocional.

Mas então. Peguei o jornal na hora em que estava almoçando. Muito obrigada, hein!

Esse Cuenca já revelou o show que daria logo no primeiro parágrafo. De cara ele reclamou da anistia, que “não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos ‘oficiais’” A seguir ele me veio com isso aqui, ó:

Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. [É, eles vivem ganhando dinheiro do governo. Ao contrário daqueles pobretões tipo Heitor Cony, que não ganham um centavo do governo. E os “estupradores, torturadores e assassinos” de esquerda? Um virou deputado federal, outro presidente da Petrobras, outro professor universitário...] Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldades de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.

Cara, o que tem a ver Opus Dei com milicos aposentados? Só consigo imaginar que ele raciocinou (finge que é raciocínio) assim: “Militares são reacionários. Militares são católicos. Igreja é reacionária. Opus Dei é da Igreja. Opus Dei é *muito* reacionária. ENTÃO militares têm ligação com Opus Dei.” Aposto que esse cara só ouviu falar na ordem por causa d'O Código da Vinci e pelo que leu (muito mal) em alguma revista por aí. E “vida que pediram a Opus Dei”? Ai, ai... O que ele quis dizer com isso? A impressão que me dá é que o verdadeiro sentido do que ele escreveu só pode ser captado nas entrelinhas. Só os iniciados no cuenquismo podem entender.

Depois ele voltou a dizer as tolices sobre anistia geral do Brasil, “o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar”. Outra idéia oculta. Os militares seriam os únicos responsáveis por todos os crimes políticos. Porque todo mundo sabe o que aconteceu na história. Aqueles milicos eram um bando de Dom Quixote a lutar durante quase vinte anos contra moinhos de vento comunistas. Claro que não havia terrorista, torturador, assassino, do outro lado. F. Gabeira? Genuíno? Eram idealistas, pessoal! Porque o ideal justifica, apesar de o marxismo dizer que é parte da ideologia burguesa alienante... O pessoal do Partido dos Socialistas Revolucionários da Rússia tinha um raciocínio ótimo. Uma coisa é roubar. Outra é expropriar. Cada ato era caracterizado segundo a finalidade política. O próprio Gabeira, em O crepúsculo do macho, mostrou bem como funciona a cuca desse povo. Ele e os amigos dele roubavam roupas da fábrica onde trabalhavam na Europa para “compensar a mais-valia”. Embora fosse um exilado político borra-botas, o camarada retribuía a hospitalidade que lhe foi concedida por um país estrangeiro com furtos no local de trabalho. E ainda reclamava de ser vítima de exploração econômica hedionda, quando mal precisava trabalhar para se sustentar. Não é lindo esse código moral? Agora posa como crítico do Mensalão e tal... Mas enfim. Para um revolucionário, crime político não é a mesma coisa que assassinato comum. A morte de uma autoridade num atentado seria apenas uma crítica ao sistema político. Qualquer grupo terrorista pensa desse jeito. Quando o iate em que se encontrava Lord Mountbatten, acompanhado de alguns familares e inclusive crianças, voou pelos ares, você acha mesmo que o IRA pensou que tinha praticado um crime covarde contra um homem de quase 80 anos, herói de guerra? Claro que não! Aquilo foi crítica política, propaganda de conscientização das massas para a causa da Irlanda do Norte... Mesmo Lênin só criticava assassinatos por conveniência tática do momento. Também pudera. Ele recomendava jogar ácido em policiais e a prática de atentados.

Só no mundo idealizado (e portando burguês, na acepção marxista) de gente como J. P. Cuenca os militares agiram contra fantasminhas durante vinte anos. Fantasminhas que não hesitavam em roubar e matar.

Tantos absurdos são apenas uma parte da crítica sobre o Tropa de Elite. É bom eu avisar caso você já tenha se esquecido. O que tudo isso tem a ver com o filme? Pois é. Quando um sujeito tipo o Cuenca vai realizar uma crítica, é bom a gente se preparar. É que nem carro de palhaço, onde sempre cabe mais uma coisa. É crítica aos milicos para lá, à polícia para cá, alfinetada no Opus Dei... Mais adiante você vai ver que tem mais. Por enquanto, a introdução foi o salamaleque do bom mocinho. Só agora ele pode começar a escrever, “como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de Tropa de Elite, na última quinta-feira, no Odeon.” Lindo. Quanta reflexão espúria a partir da experiência de uma pré-estréia, hein? Uma pergunta. Só pessoas convidadas puderam participar? Porque não sei como alguém pode dar tanto chilique sendo paparicado. Esse pessoal chique é muito ingrato.

Lá pelas tantas, ele me vem com essa: "o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelo na história do cinema nacional." Observação carrega de filisteíce da grossa! Pô, é muito pedir para fazer uma crítica mais decente? Sem essa babaquice estereotipada? Observações sobre o que é ruim, o que é bom, alguma coisa sobre atuação... Qualquer coisa, menos esse papo-furado de velho caduco. Chega de querer opiniar de cima de um caixote com a mão na cinturinha, por favor. O que é mais engraçado é que parece que o filme lhe provocou algumas dores, porque ele diz assim:

O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o Bope é incorruptível. Só o Bope, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que Tropa de Elite reproduz é cristalina. [Eu que negritei.]

Eu não tomo as dores de ninguém. Nem estou entre os “hipócritas de classe média” nem entre os caras do Bope. Não defendo legalização das drogas nem afirmo que sou contra. Eu sei lá! Só posso dizer que já vi gente se fodendo. Eu tinha um conhecido que de preto virou branco de tão pálido por causa dessas coisas! O mesmo cara passou a vender tudo que tinha. Um dia a mãe dele chegou em casa e descobriu que não tinha nem mais geladeira! Diziam que ele perdia o controle, gritava, essas coisas. Ele era um cara tranqüilão. Ficou pirado. Durante uma época eu achava que tinham que descriminalizar (é o termo da moda) tudinho. Cheguei a tentar convencer neguinho disso. Acho que fui meio inconseqüente e me arrependo. Ideas have consequences. Bom, mas afinal a elite é a classe média e portanto o Cuenca é da elite? Ou existem duas classes hipócritas? O Cuenca é branquinho? A única coisa certa é ele quer passar a imagem de alguém esclarecido. Que audácia a do Bope! Que atrevimento ao lhe considerar um hipócrita de classe média! Supor que ele, tão iluminado, precisa de socorro? Ao contrário! É ele quem está incumbido de nos mostrar a luz, decifrando a lógica do discurso do que quer que seja. Agora, o que significa o termo “lógica do discurso policial”? Tudo hoje em dia virou “discurso”. Qual a lógica disso? Não estou ironizando. O que sei é que existem leis e a polícia é um braço da justiça. Polícia não tem opinião. Segue leis e pronto. Se há algum problema, é no tocante à execução de leis. Não é raro a força policial se ressentir das ações da Justiça. Descontando problemas como corrupção, a relação entre eles é sempre marcad por uma dupla queixa: "nós prendemos os criminosos mas vocês os soltam" e "queremos agir mas vocês atam as nossas mãos". Porém o Cuenca parece ter encontrado um porta-voz oficial da "ideologia policial", ainda que seja um personagem de ficção. É um crítico muito mágico. Na absoluta falta de gente de carne e osso, ele se dá por satisfeito com essa gambiarra. Voilà! O personagem do Capitão Nascimento lhe revela a verdadeira lógica de uma instituição concreta.

Você acha que esses são os principais problemas do filme? Nãããão! O negócio encuenca mesmo quando “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores”. Hm, não resisto a uma pergunta. O cuenca faz parte desse “monstro disforme chamado opinião pública” ou o mal está só nos outros? Veja o meu texto. É uma opinião. É pública. Faço parte da opinião pública? Sou parte do monstro? E qual deveria ser *a* “leitura do filme”, ô bonitão? Uma que não "corrobora esses métodos e valores"? A do nobre Cuencão? E que mania de transformar tudo em leitura, viu. E escrever que “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores” é o jeito mais pedante possível de dizer o simples: "o público se entusiasmou com o filme".

Vou me esforçar para captar a mensagem do amável mestre. O Brasil é um país cheio de bandidos de farda à solta. (Notou que ele só reclama da polícia e dos milicos?) A violência é tolerada pela massa, desde que dirigida contra a ralé. É óbvio que a turba vai delirar com a iniqüidade do filme (porque ser reacionário é mal pra chuchu). Já o mestre é o bebê Johnson do aprumo cultural.

Eu, que sou maligna, vou reclamar disso: "[Tropa de Elite] pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. Vou repetir. A crítica do Cuenca é igual a carro de palhaço. Sempre cabe mais um. Agora é a "geração Cansei”. Que lindeza! Eu mesma não me canso de me espantar com essa crítica iluminada. O que é “geração ‘Cansei’”? E por que o "perigosamente"? Uma coisa é engraçada. Num trecho ele diz assim: “Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe”. É impecável por ser reacionário? Qual a proposta? Se é "impecável no que se propõe", o filme não seria bom? Ou devo entender a crítica assim: o filme é impecável, mas é uma bosta? E se o filme é impecável e conquistou "o monstro disforme da opinião púbica", parece que ele é mesmo muito bom, certo? Não, não. O Cuenca gostaria que todos estivessem reclamando de um filme impecável. Mas afinal de contas o que o J. P. Cuenca está dizendo? Não dá para entender direito. A única coisa que sabe fazer é expressar uma série de associações disparatadas que sentiu durante a experiência mágia da pré-estréia. Reacionários! Milicos! Opus Dei! Monstro disforme! Torturadores aposentados! É como se ele se indignasse tanto que repetisse durante uns vinte minutos só mimimimimimimimis.

Ele se chocou porqueo público “aplaude cada porrada”. Ué, nego aplaude até hoje Cidade de Deus, Carandiru, Assassinos por natureza, Pulp fiction, Full-Metal Jack... Dessas coisas eu não reclamo. Não me faço de rosinha ofendida. Já cansei de jogar Mortal Kombat. Já me esqueci do que é mesmo um polinômio, mas ainda me lembro de como fazer alguns fatalities. Também gostava de um jogo de moto que você dava correntada nos outros competidores. Kill Bill é muito divertido. Gosto de boxe. Agora mesmo meu pai está lá na sala gritando para o Holyfield dar na cara do Bowie, e eu mesma quero ver também a luta. Para usar um termo do Cuenca, quem "aplaude cada porrada" são os "torturadores de gabinete”. Deus do céu. Da mesma forma que o A. Bloch foi ridículo ao ponto de tachar os outros de fascistas, o Cuenca é babaca o suficiente para dizer que quem gostou do filme é chegado a uma tortura. Essa gente tem ou não idéia do que escreve? São umas bestas que caíram de pára-quedas em O Globo caso não tenham, ou cretinos que não hesitam em caluniar aqueles que têm opiniões divergentes. Aliás, como se chama mesmo aquele grupo político que costumava prender quem discordava deles? Pois então eu diria que tanto o Cuenca como o A. Bloch apenas exercem um fascismo cultural e jogam a culpa nos outros. E eu ainda gostaria de saber por que no mundo mágico do Cuenca os militares passaram quase vinte anos perseguindo moinhos de vento comunistas.

Como não podia deixar de ser, a crítica terminou coroada com uma presepada. Não é que o Cuencão fez questão de dizer que o pessoal aplaudia o filme comendo pastel de carne moída e tomando uisquínho? Coitado do Cuenca. Todo choroso em meio a trogloditas famintos e entusiasmados. Pior que até consigo imaginar com que cara de aflição o bebê Johnson suportou aquela situação.