Saturday, September 30, 2006

Solidão e espírito de rebanho

Um rascunho.

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Se todos os seres tivessem alguma coisa a ver conosco, jamais nos sentiríamos sozinhos.

De todos os seres que nos rodeiam, somente quando há pessoas ao nosso redor é que não nos sentimentos sós. E nem sempre é assim. Algumas vezes há um monte de gente conosco e mesmo assim nos sentimos solitários.

A solidão pode fazer bem e pode fazer mal.

Ela faz bem quando a gente escuta o nosso eu mais autêntico (o fondo insobornable orteguiano). Sem ninguém ao nosso lado e quando estamos só com a gente mesmo, nessas ocasiões surge a nossa pessoa mais autêntica, apesar das nossas tentativas de fugir dela. A verdade força a superfície. A máscara que construímos para nós mesmos e para os outros de repente surge. Muitas vezes é desagradável. Na maior parte das vezes somos caricaturas de nós mesmos. Mas o homem maduro sempre é aquele que vive na verdade. Age como quem ele é. Não precisa dessa carapuça porque vive na verdade.

Ela faz mal quando é fruto da acedia e/ou do orgulho. É hermetismo espiritual. Como tal, doentio. A gente se fecha para todas as coisas. Elas parecem não ter o menor encanto, não têm mistério algum. O mundo perde profundidade, se tornando plano, achatado. Aos poucos perdemos também o movimento. Ficamos estacionados como um pontinho na reta. A esterilidade aparente das coisas é a esterilidade da nossa própria vida. Sem o impulso ou excitação do mundo, sem a beleza do mundo, nós o repelimos completamente, e no final repelimos a nossa própria vida. É como se num primeiro instante o nosso eu se inflasse demais, a ponto de pretender dominar o mundo, e num segundo instante sofresse um choque de retorno e se encolhesse até ficar do tamanho de um átomo. Ou como na fábula da raposa que queria ser do tamanho do dragão e que no final morreu, porque se esticou tanto até que se despedaçou.

Hoje em dia tem uma cacetada de gente no mundo. Seja lá para onde formos a gente vai encontrar alguém. Em casa ouvimos quase a toda hora o barulho infernal da rua. Também em casa há uma cacetada de meios de fuga de si mesmo: telefone, computador, rádio, televisão. Vivemos como se estivéssemos no Big Brother. Muita gente precisa do contato da multidão. Ser caseira chegou a ser sinônimo de esquisitice. O mundo nos convida a perambular nele. Somos instigados a virar multidão. Nela esquecemos um pouco de nós mesmos. Como a gente vai poder sondar o nosso "fondo insobornable" se o ambiente não nos dá trégua? Tentar uma coisa dessas pode deixar a gente parecendo meio maluco. Pode voar tapas para tudo que é lado. Alguma pessoa que é só boa e comum como tem que ser pode levar a dela. Aceitar a luta por essa primeira verdade pessoa pode causar transtornos.

Nesses tempos, onde as pessoas se sentem menos indivíduos e mais massa, ficar sozinho chega a ser pecado. Mas aí vem uma coisa engraçada. É que às vezes bate a vontade de estar consigo mesmo. Não é possível ser multidão o tempo todo. Pode ser que de repente a pessoa sinta que está só. Vai sentir uma pontada imensa de solidão. Vai olhar para os lados, vai ver um monte de pessoas, mas vai se sentir como se estivesse sozinho. Vai sentir que vive uma vida meio enviesada. Se olhar por mais algum tempo para dentro de si mesmo, talvez perceba como enterrou o seu "fondo insobornable" para poder caminhar socialmente por cima dele. Entenderia que sacrificou a verdade de si mesma no altar do mais cômodo. Pode se sentir oscilando. Surgiria a escolha de permanecer bem no mundo, às custas de si mesma, sendo superficial, ou aceitar o desafio de por um momento só entrar em uma confusão horrível, ser considerada um maluca. O instante seria de começar a escolher as coisas por si. De repente a confusão vai durar quase a vida toda. Sei lá. É confusão de qualquer modo. Nesse momento o sujeito escolhe se vai viver como massa ou como indivíduo.

A solidão é muito boa por isso. Quando estamos sozinhos, por mais que a gente minta, a gente sabe que está mentindo.

Não sou psicóloga. Mas imagino que tentar colocar a verdade sob nossas rédeas deve custar caro. Acho que se uma pessoa tenta viver uma vida que não deveria ser vivida, e se a vive, essa vida será bem precária. Ela transformará a mentira num ritual. Terá de sempre repeti-la. Tudo que a cercar lhe será uma espécie de pista para desvendar a falsidade. Ela vai ter que repetir muito para si mesma e para os outros a sua lorota. Ela vai nutrir algum rancor. A válvula de escape será a atribuição do problema a alguma causa externa. Vou dar um exemplo que acho bem distinto, que é o travesti. O travesti quer ser algo que não é e jamais será. Só que é mais cômodo para o travesti achar que sua vida é a coisa mais natural e correta do mundo, ao invés da mentira que é. Como ele é muito diferente dos outros, vai ter de repetidas vezes afirmar com convicção que é de fato uma coisa que na verdade é apenas a sua intenção. Essas afirmações serão sempre às custas daquilo que mais indique a falsidade de suas palavras. Se ele se deixar seduzir por essa armadilha, sua alma será contaminada por um rancor crescente perante a verdade até ele acreditar que a sua farsa é a realidade e a realidade farsa. Estará sempre ressentido daquilo que for o oposto do que ele diz. A mentira existencial acaba se convertendo em rancor. Se em determinado momento ele olhar para si mesmo e escutar o seu fundo insubornável, este exigirá aquilo que lhe é devido. Como ninguém acha very cool descobrir que sua vida é uma enorme farsa adulada pelo seu próprio orgulho, a tendência será ele sacrificar essa voz interior, sua consciência. Se for sensível demais, estourará os miolos.

O esquema ficou meio simplista mas a base é essa.

Vou comentar sobre o espírito de massa de outro ponto de vista. O espírito de rebanho nos dá um conforto trêmulo. Nos sentimos acomodados só quando bem unidos a outros que pensam que nem a gente. Se nosso pensamento divergir, um momento de pânico surgirá. Por isso o rebanho precisa sempre de alguém que o conduza sem pestanejar. O indivíduo se transforma em inimigo do grupo. A vigilância tem de ser freqüente, a ponto de ele precisar estar fisicamente sozinho o menor tempo possível. O rebanho se assusta fácil. É preciso haver repetições e repetições de atos de segurança. Indivíduos sempre vão ser perseguidos pelo rebanho como compensação para essa insegurança. Nunca isso vai terminar. O rebanho sempre quererá mais e não vai identificar o problema em si mesmo. Vai exteriorizá-lo e identificá-lo em um ou outro infeliz enquanto puder.

Nosso tempo trouxe uma infinidade de meios de comunicação. Parece que houve a necessidade de se comunicar mais que de costume. A necessidade de contato cresceu muito. Viver agora é estar completamente para o outro, viver especificamente em função do outro. O alastramento e aperfeiçoamento dos meios de comunicação servem para satisfazer essa necessidade. O rebanho tem de estar sempre em contato e em alerta.

Viver em solidão assim é difícil. Estamos sempre em função de outras coisas que não a gente mesmo. A atmosfera é utilizada em escala imensa para transmitir idéias que não são as nossas. Acabam no fim sendo tomadas como se fossem nossas. Pela repetição e pela comodidade.

Alter é outro. Vivemos em constante alteração, já que estamos sempre sob a influência de tudo que nos cerca. Uma existência assim é bem próxima de nossos primos macaquinhos. Vivem sob a excitação constante do meio. Estão sempre para lá e para cá. Quando o meio não os excita, dormem ou caem na preguiça. São os alterados por excelência. Do mesmo modo é a nossa vida atual. Ficamos reduzidos a bichinhos pela falta de vida interior. Que triste essa nossa vida!

A solidão, portanto, além de útil é quase um imperativo para nossa vida. Viver como gente é ter amplos espaços nos quais podemos estar na companhia somente nossa. É ela que diz como somos e como as coisas tem que ser. É um dos raros momentos onde a verdade resolve falar conosco. Somos treinados na verdade quando estamos sozinhos. Assim estaremos aptos para a vida. As pessoas mais maduras conseguem isso. Quando elas são subjugadas pela verdade, suas ações serão poéticas, porque em tudo que fizerem estará a medida de como as coisas deveriam ser realmente. A verdade será na vida deles tão presente, suficiente e radical, que ela terá vida própria. Essas pessoas chegarão a ouvi-la e até serão repreendidos por ela. Por isso o espírito de rebanho é tão perigoso para nós, já que ele pode causar a morte do espírito.

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Cuidado! Não confunda a voz interior com a vontade de fazer o que der na telha! O fondo insobornable é a coluna do projeto de vida de cada qual. Fazer o que der na telha é fugir desse projeto.

Thursday, September 21, 2006

Improperia

Marcel Pérès é o cara. Com o Ensemble Organum ele trouxe para nossos ouvidos maravilhas antigas. Uma delas estou escutando agora: Improperia.

Que são as Improperia? A palavra significa "reprovações". São as lamentações do Salvador contra os judeus. Na verdade, por judeus devemos entender o povo de Cristo. Nelas, o Salvador argumenta de um jeito retórico interessante. Ele sempre começa relembrando quem foi que ajudou os judeus em várias épocas e, em seguida, diz de que maneira cruel eles lhe retribuíram na Paixão. Abrindo as improperia e depois separando-as umas das outras ao longo do que é recitado, há o Triságion. A palavra significa "três vezes santo". São João Damasceno conta que em certa ocasião os habitantes de Constantinopla viram anjos cantando no céu. Eles diziam: Ágios o Theos, Ágios iskírios, Ágios athánathos kírie eléison ímas (Santo Deus, Santo forte, Santo imortal tenha piedade de nós). Quando o Triságion é cantado, ele é alternado também em latim (Sanctus Deus, Sanctus fortis, Sanctus et imortalis miserere nobis).

As Improperia fazem parte do ofício da Sexta-Feira Santa há bastante tempo. Há mesmo menções antes do século IX. A versão mais conhecida é do Palestrina, cantada até hoje no Vaticano durante a Adoração da Cruz. Mas a que estou ouvindo agora é do tempo do ronca. Segundo Pérès, vem de um manuscrito do século VII e, ao que tudo consta, era cantada pela igreja de Roma. Lembro do apresentador do programa Collegium Musicum (Rádio MEC, toda segunda, das 22h às 23h) ter um dia comentado que provavelmente até Carlos Magno conhecia essa versão.

Ela é muito bonita, embora triste. Mas é uma tristeza nobre, sem sentimentalismos. É toda a capela. Talvez por ser tão antiga (o canto gregoriano mal existia), o canto é um pouco diferente do que estamos acostumados, embora não seja nada anormal. É toda recitada, com aquela calma e profundidade que estamos acostumados a ouvir no cantochão. É recitada sempre a uma só voz. Quando o Triságion é recitado em latim, o coro canta junto, como se os fiéis repetissem o que é dito pelo Céu. Com a execução perfeita do Ensemble Organum, a música fica mais perfeita ainda. Outra coisa interessante destas Improperia é que nos dão uma idéia de como eram algumas músicas da igreja antiga, incluindo aí as do Oriente (embora o Ensemble Organum costume fazer interpretações meio orientalizantes).

O que mais me chamou a atenção, dentre um monte de outras coisas, é como uma coisa tão antiga pode ser tão emocionante. A música foi feita com muita sensiblidade, obra de mestre! Tanto que eu, carioca, consegui ficar impressionada com a beleza de uma música feita lá no século VII. É por isso que eu adoro a idéia da eternidade do espírito. Se o espírito não fosse eterno, eu não entenderia lhufas do passado. Olha aí que exemplo legal a comprovar isso.

Wednesday, September 13, 2006

Heinrich von Kleist e a justiça imperfeita do mundo

Sou suspeita para falar do Heinrich von Kleist. Eu amo esse escritor. Estou devendo muitas coisas ainda, como O Anfitrião e aquela história do comandante corajoso que na hora da pena de morte começa a dar sinais de covardia. Coloca na minha conta aí, garçom.

Kleist tem um senso de justiça muito curioso. Ele leva até as últimas conseqüências aquele ditado "Deus escreve certo por linhas tortas". Mas há uma diferença. Não é Deus que dá um jeitinho no que está errado. É a misteriosa ordem do mundo.

O mundo é imperfeito, mas é uma imperfeição um tanto relativa. Realmente há um monte de coisas erradas que ocorrem no mundo de Kleist, mas todos esses erros são consertados por uma estranha seqüência de acontecimentos. De repente pode mesmo haver uma aparição espantosa no meio da história, mas isso não é muito freqüente. O que há é uma espécie de sentido cósmico de justiça que necessita ser cumprida, mesmo que às custas de vidas singulares. Também nem sempre é completamente proporcional a falta cometida e o desenrolar dos acontecimentos que levam por fim ao suplício de quem a cometeu.

Esse sentimento de justiça chega a ser tirânico. Acho que tem algum eco pagão. O culpado deve expiar, ainda que ele possa ser uma vítima um tanto quanto involuntária. Mas o mundo parece ser uma força que esmaga a pessoa. Ele é justiceiro. Parece ter uma vontade, embora a gente não consiga compreendê-la direito. Não é uma justiça perfeita. Várias vezes Kleist usa inclusive a expressão seguinte, que é muito sugestiva: "mundo de justiça imperfeita".

Assim, as histórias de Kleist têm geralmente uma atmosfera um pouco pesada. Às vezes tenho a sensação de que realmente Kleist levava muito a sério essa coisa toda. O mundo parece mesmo ser algo estranho no fundo. Aparenta ser normal sobre um fundo incompreensível e assustador. Neste ponto, acho que Hoffmann consegue ser mais, hum, "virtuose". No mundo dele, é muito mais clara essa duplicidade da realidade. Mas Kleist parece ir um pouco mais além, indo esbarrar não tanto no mundo sobrenatural, mas na esquisitice fundamental e incompreensível deste nosso mundo mesmo. O mundo parece ser trágico, e a tragédia uma espécie de necessidade de justiça.

Qual história é mais recomendável? Das que li, eu indicaria Michael Kohlhaas, a história de um homem que se revolta contra as arbitrariedades de um senhor de terras e que é baseada nas revoltas camponesas da Alemanha no século XVI. É, na minha humilde opinião, a história que melhor expõe o sentido de justiça de Kleist. Michael Kohlhaas é ao mesmo tempo rebelde e justiceiro, justamente por causa de seu imenso senso de justiça, que o leva a fazer o que parece justo mas pagar também pelo que fez de injusto. Ele parece uma espécie encarnação da "vontade do mundo" em sua sede de justiça a todo custo, sucumbindo no fim a essa grande e misteriosa ordem imperfeita do mundo.

Heinrich von Kleist é um autor bem legal. Sei lá se é ou não um grande clássico, mas é um cara que eu gosto muito.

Tuesday, September 12, 2006

Ateu é bobo porque se acha sabichão

O mal do ateu é que ele se acha esperto demais, tão esperto que nem percebe que é tonto.

Meu guru Ortega dizia que o que separa o burro do inteligente é que o último sempre se vê a dois passos da estupidez. O burro não. Ele respousa tranqüilamente em sua burrice, o que lhe dá um ar sereno que chega a ser invejável. Ele avança tranqüilo em sua estupidez. Não descansa nunca. Não tem um pingo de vergonha em sua estupidez.

O ateu é assim também. Quando ele diz todo bobo que não crê em milagre porque isso não é ciência, é fé, e fé é coisa de gente ignorante, ele não percebe que está sendo o mais fideísta possível. Ele não percebe que prende sua fé em algo mais fantasioso que aquele diabo gay das Meninas Superpoderosas. Ele acha que a ciência chegou para desbancar a fé. Como parece que ela desmente a possibilidade de milagres, então ele fica com ela, raciocinando assim: ciência = razão > fé = religião. Ciência é liberdade, religião é dogma. Só que o bonitão nem pensa que é ele o ultradogmático da história. Ele só não crê em milagre porque acha que é anticientífico. Se alguém lhe diz assim: "Olha, eu mesmo já presenciei um milagre", o ateu diz: "Não, porque a ciência diz que não pode." E se um monte de gente ao longo de mil anos vive dizendo que viu acontecer milagres, tanto o mais humilde quanto o mais sabido, o ateu ainda nega. Por quê? Porque isso vai contra sua idéia de ciência. Se os fatos são contrários a sua idéia de ciência, ele acha que são os fatos que estão errados.

Nem tudo pode ser comprovado cientificamente. Vou usar um exemplo do Chesterton. Chamo meu namorado de meu queridinho. Mas o fato de eu me recusar a chamar meu namorado de queridinho na frente de cientistas, ou de eu nem sempre chamá-lo de meu queridinho quando estou com ele, nada disso pode ser uma prova científica de que eu na verdade não o trato assim. Nem se a ciência fosse questão de probabilidade, e se fosse seria mais fácil aceitar o milagre, valeria contra o fato de eu chamar meu namorado de meu queridinho. Tampouco podem provar cientificamente porque eu escolhi este sujeito aqui para ser meu queridinho, e não aquele outro. Também não serve usar Darwin aqui para explicar em termos de perpetuação da espécie, porque nada explica a razão deste aqui em específico ter tocado a minha alma, e não aquele outro. A física é very cool, mas não serve nem para explicar a razão de eu chamar alguém de chuchuzinho ou de gostar de Santo Agostinho e Rancid, embora agora eu ouça a Sinfonia Júpiter e esteja escrevendo sobre como o ateu é tonto.

Quando os ateus tinham o costume de usar perucas (como aliás todo mundo naquela época) e achavam muito in comparar a razão com a luz e a religião com trevas, diziam que Deus não era necessário porque o mundo era todinho bem formado, lógico, que nem um relógio. Leibniz, um tempinho antes, dizia que se o mundo fosse mesmo um relógio e se isso fosse a razão da perfeição, quem o fez não era muito razoável, porque o relógio precisa de tempos em tempos ser reajustado. Mas como quase ninguém deu bola para ele, a crítica passou. Agora, quando os ateus não mais usam perucas, dizem que Deus não é necessário porque o mundo é todinho um caos, e por sinal até surgiu de um caos. Então antes diziam que o mundo era bom demais para precisar de um Deus. Hoje dizem que ele é muito bagunçado para ter sido criado por um Deus. E depois ainda se acham muito espertos.

Todo ateu virou ateu quando era jovem, por volta de uns 15 anos mais ou menos. A partir daí estagnou. Cresceu e ficou polindo sua idéia adolescente. Apresenta sempre como algo adulto um preconceito infantil. Eu quase estagnei também. Por volta de uns 13 anos eu não acreditava em Deus. Dos 13 aos 18 continuei atéia, quer dizer, boba. Resolvi tentar entender como gente séria podia acreditar numa asneira dessas como a religião. Fui lendo um monte de coisas, fui observando outras tantas na minha vida. Acabei percebendo que eu era a maior idiota, e só não fui mais porque notei a minha besteira. Posso ser ainda tonta, mas não tanto quanto antes. Mas de nada essa minha história vai convencer um ateu que finge que ama a ciência mas na verdade é chegado a um dogma. Todo ateu é chegado, i know.

Se o ateu não fosse tão cheio de marra e tão bobo, se ele não amasse um dogma bem-dotado, ele acabaria aceitando como fato consumado a existência de Deus. Se Deus é que nem Apolo, Baal, Aura-Mazda, Osíris, Vishnu ou Nosso Senhor Jesus Cristo, aí são outros quinhentos. Se ele não se prendesse em preconceitos tão bobos, ele poderia entender melhor como é que desde o mais humilde lavrador ao mais ilustres filósofo e rei há gente que crê em Deus. De repente, até teria vontade de virar padre.

Let's talk about politics


Época de eleição é o maior saco. Todo mundo adora falar sobre isso. Para ser franca, conversar sobre política às vezes nem é tão chato, mas sobre ESSA política que está aí, e sobre ESSAS pessoas que a acompanham, é que não agüento. Tem que ser muito paciente para conversar a sério e bem empolgado sobre a vida política do Brasil nesses últimos anos. Se você agüenta, parabéns, porque eu estou pulando fora.

Quanta coisa boa existe para se conversar sem ser a esse repeito!

Falo sobre política como um mal necessário, ou apesar de. Não tenho empolgação e fico cansada. Ainda mais sobre esse país todo escroto. Parece que estou perdendo um tempão falando sobre uns caipiras. Viver num país de costas para o mundo é foda.

Me sinto platônica. Acho que política, pelo menos essa que está aí, it's all bullshit. Antes de a gente pensar em meter a mão na massa ou no cocô, primeiro devemos reorganizar essa bagunça tremenda que é a nossa cabecinha. Aprimorar conceitos, expelir os indevidos, forjar os novos, e ter em primeiro lugar uma idéia, mesmo que primitiva (desde que verdadeira), sobre o que é o homem. Leva tempo. Depois de fazer essa viagem, aí a gente pode bater um papo mais a sério sobre política. Mas por enquanto não. Talvez nem leve muito tempo, porque muita coisa já foi discutida por aí nesses últimos tempos. Em todo caso, primeiro a faxina na casa, depois ajeitar o prédio, etc.

Eu queria dizer só um negocinho antes de terminar. A tia de uma amiga minha diz que a gente tem que ter calma. Diz que até parece que a gente nasceu de cinco meses. É um pouco dessa filosofia da barriga que estou me referindo. Primeiro, calma, atenção, prudentia, como diziam os antigos (como adoro os antigos!). Platão queria que houvesse logo um rei-filósofo, mas uma idéia dessas não é nem para ontem, nem para hoje. É para séculos. Dependendo da bagunça da casa, você pode perder aquele final de semana todo só fazendo faxina. Depois a casa fica tinindo. É como estou dizendo sobre política. Primeiro examinar, às custas de ficarmos tontos, perdidos e meio que inúteis agora, o que ela é. Depois, mas só bem depois, recolhermos os frutos. E se não formos nós, que sejam nossos filhos, netos ou bisnetos.

Saturday, September 09, 2006

O assunto do blog

Vou falar um pouco sobre que tipo de coisa escreverei e um pouco de mim mesma, afinal sem mim essa joça não existiria.

Gosto de um monte de coisas. Nisso não me diferencio de ninguém. Todo mundo gosta de um monte de coisas. Só maluco é que tem uma idéia na cabeça o tempo todo. São os monomaníacos. Posso ser lunática, mas nem tanto. Meus interesses são variados. Gosto de artes em geral, de literatura, de história, de filosofia e de religião. Hoje em dia comecei a gostar também de ciências, embora por enquanto eu esteja só um pouquinho acima de uma mula em termos de conhecimento científico. Quando digo ciências, me refiro a história da ciência, em especial sobre a Cosmologia, que está de mãos dadas com a Física. Não compreendo física matemática e suspeito que seja coisa de duendes macabros. Mas como estou começando a estudar essa tal de teoria da ciência, acabo me simpatizando com essa obra de duendes.

Assim, por tudo que eu disse, está na cara que direi vez ou outra alguma coisa sobre esses assuntos. Não prometo lá muita qualidade, mesmo tendo a pretensão de escrevinhar sobre isso tudo. Talvez fosse melhor eu seguir o exemplo de Hugo de São Vítor e dizer que é melhor me calar a dizer algo indevido, mas eu gosto muito de falar. Canso de pagar pela minha boca enorme. Não vai ser diferente aqui.

O blog é very funny porque é amador, flexível, fácil de usar e despretensioso. Eu sou amadora, flexível e despretensiosa. Não sou fácil de usar, nem difícil, porque não sou um treco. Parece até que o blog foi feito para mim. Então sempre que eu for escrever vai ser pensando em tudo isso. Não vou me sentir muito mal em dizer alguma coisa meio disparatada caso pareça fazer sentido. A gente que escrevinha, escrevinha correndo todos os riscos. Senão, qual seria a graça?

Agora vou falar rapidinho sobre mim. Meu nome é Tanja (se pronuncia "Tânia"), bisneta de suíços. Sei quase nada de alemão, mas acho uma língua very amusing. Arranho no francês e inglês é língua do povo. Latim e grego são ideais. Espanhol é irmão e italiano será bem-vindo algum dia. Tenho medo de hebraico. Sou nova e pretendo viver até os 80, só para ter o prazer de dar bengaladas. Tenho opinião sobre várias coisas, mas geralmente tenho a maior preguiça de dizê-las. Se elas batem de frente com alguma tradição, é porque estou provavelmente errada. Esse é mais um motivo de querer viver muito, para ver meus erros, corrigi-los e rir muito deles, dizendo para todo mundo como eu era otária antigamente. A roupa é como a alma é, e se minha alma gosta de saltitar, a roupa tem de estar adequada. E meus cabelos brotam da alma. Gosto de Santo Agostinho (amor à primeira vista, porque dele mal li as Confissões e já me tornei fã) e não vejo o motivo disso me impedir de ouvir The Clash. Gosto também de Schubert e adoro Millencolin, mas com aquela presença de espírito igual a quando masco chiclete. É bom como sorvete. Não é porque gosto de ler que vou deixar de tomar meu sorvete, ouvir minhas besteirinhas ou mascar meu chiclete. Odeio vigarice e desonestidade, mas sou muito tapada para perceber logo de cara. A inteligência é boa, mas ser boa é melhor ainda. A vida é muito boa. A poesia é linda quando tem a ver com a vida. Deus é Senhor, mesmo eu não sendo uma boa garota. Não é o bicho que é selvagem, porque ele é manso consigo mesmo. Selvagem sou eu, que vivo não sendo quem deveria ser. Só Deus é tudo porque só Ele é verdadeiramente bom. E mais não posso dizer sobre mim, porque não sei muito a meu respeito, e teria de pedir ajuda ao Papai do Céu. Mas roxo é uma cor muito bonita, embora hematoma seja feio.

A Espectadora

Pois é, agora eu também tenho um blog.

O nome é homenagem ao meu guru Ortega y Gasset. Ele escreveu alguns de seus melhores ensaios para El espectador. É minha leitura de cabeceira-computador, porque tenho tudinho aqui no HD.

Ortega era um grande filósofo e ensaísta. Ele dominava a palavra como ninguém. Seu lema era: "A clareza é a cortesia do filósofo". Sua vocação era a vida. Ninguém como ele a admirava mais. Suas páginas todas transbordam de vitalidade, talvez tendo aí alguma marca do gênio espanhol. Além disso, toda sua obra é marcada pela importância da autenticidade. Acho que também isso não é à toa, porque, dada a sua admiração enorme pelo homem, ele tinha uma especial preocupação com a importância da vida enquanto realidade radical. Ele chegava mesmo a usar a expressão "fundo insubornável" para se referir a essa realidade última da vida da pessoa, aquilo que uma pessoa realmente é. Viver de modo autêntico é estar de acordo com esse fundo.

Ortega também era um cavalheiro. Se preocupava demais com o tema do amor. Considerava este um dos mais importantes e mais vitais temas. Escreveu páginas e páginas tentando entender como é a alma feminina, em quê ela se difere da masculina, e como a tensão entre ambas interfere na vida. Ele chegou a dizer que o motor da história (a expressão é minha) é a mulher, porque ela carrega o ideal do homem. O homem então busca ser aquilo que a mulher deseja. As épocas mais desenvolvidas são aquelas onde esse influxo é mais forte. Nosso tempo é problemático porque, dentre outras coisas, é predominantemente masculino, quase hostil ao influxo da mulher na história. Acho que um bom exemplo disso são as pessoas que acham que defender a mulher é igualá-la ao homem.

Eu gostaria de dizer mais um montão de coisas além disso. O problema é que se me deixarem escrever eu não consigo mais parar. Como não quero cansar ninguém logo de cara, então melhor parar. O que importa é que o nome deste blog é uma homenagem ao Ortega y Gasset.

Já o subtítulo* não é só modéstia. Eu sei lá como se escreve direito!? Tenho vontade de escrever um monte de coisas. Só não sei dizer se presta. Como não sou doutora nem nada, e nem teria saco de ser uma, vou aqui escrevendo sem muita pretensão. E o "notívaga" é porque só funciono de noite. A Lua é a pátria dos lunáticos.

(Amanhã direi o que escreverei neste blog. Adianto que não vai ser só sobre Ortega!)

*Update, 01/01/2010: O subtítulo era: "Escrevinhações de uma noctívaga".