Saturday, December 23, 2006

Palavrão pode ser catártico

Um dos meus bordões é que palavrão, se bem empregado, funciona como catarse. Se você, com um mui belo palavrão, conseguir exprimir uma verdade sobre algo ou alguém, quem ouve de repente se sentirá purificado e sairá com moral superior da experiência.

Isso funciona ainda mais em ambiente de educação postiça. Nesse tipo de recinto (pode ser uma faculdade, um palanque, enfim), as pessoas consideram que não há modo mais básico de ser ou agir que a sofisticação. A verdade vem em segundo lugar, não raro como um treco feio e esquisito, quase um monstrengo que deve ser evitado na medida do possível. Choca mais ser deselegante que ser mentiroso. A pessoa inteligente sabe que a elegância é um atributo da inteligência, mas o tapado acha o contrário. Como a elegância é mais vistosa, vistosa até para o camarada mais burro, então ele toma a elegância como a própria inteligência. O efeito pernóstico desse ponto de vista é associar a verdade a uma coisa feia e a sofisticação a algo bonito.

É nesse ambiente cheio de pó de arroz, falsificado, que o palavrão é cartático. Se ele conseguir expressar como as coisas realmente são, o rei vai de repente surgir nuzinho da silva. É por isso que em determinadas discussões é mais válido dizer alguma coisa bem feia que "salvar as aparências", ainda mais quando o outro mente de propósito.

Agora umas palavras de Goethe. Um dos convivas, durante um jantar numa corte, teimava em aborrecer a todos na mesa com uma indiscrição horrenda. Ninguém sabia muito bem como lidar com a situação. Alguém pediu a palavra e falou tantos palavrões cabeludos e coisas tão horríveis que até o conviva mal-educado corou e se calou. Então todos voltaram a comer como antes, não sem rir e satisfeitos com a intervenção desse "alguém".

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