Friday, December 29, 2006

As pessoas têm medo de quem é independente

Infelizmente no Brasil você não tem o direito de ter opinião própria. Você é obrigado a ter a certeza que determinado grupo quer que você tenha. Caso contrário, seremos considerados loucos, burros ou dissimulados. A coisa é tão feia que até mesmo a expressão "ter opinião própria" acabou significando o seu oposto. O número de otários que repetem babaquices crentes que estão abafando é infinito.

Um bom exemplo disso é a respeito de religião. Uma pessoa considerada culta entre os medíocres é aquela que não gosta da Igreja. Tal pessoa é politicamente correta. Acha que a história da Igreja é uma farsa sanguinária. Mais de dois mil anos foram cobertos pelas piores atrocidades. "Padres? Um monte de mentirosos, hipócritas. Celibato? Só serve para destruir famílias e promover homossexualismo. Igreja? Coisa de Satanás/atentado ao homem." Não é de estranhar que gente tão aparentemente distinta como ateus, satanistas, nazistas, comunistas e testemunhas de Jeová compartilhe a mesmíssima opinião.

"Diga-me com quem andas que te direi quem és", já ensinava Jesus.

Para pessoas assim, se você disser um "ai!" a favor da Igreja você é semi-letrado, ingênuo ou malvado. O pacote tem que ser comprado por inteiro. Deve-se detestar a Igreja, essa coisa pérfida, nojenta, pecaminosa. Deve-se detestar tudo. O que não for detestável está na classe das exceções que confirmam a regra.

O outro lado da moeda são defensores da religião que se consideram mais puros que Maria. Qualquer tipo de discordância sobre qualquer coisa é considerado meio caminho para o inferno. Todos tem que dizer amém para tudo que qualquer autoridade eclesiástica disser. Mesmo numa conversa a respeito de coisas que nem mesmo a Igreja tem certeza, se a nossa opinião parecer destoante, a gente é visto como inimigo.

Sobre estes dois grupos, quero mais é que se dêem as mãos e se explodam.

Não é muito fácil haver um mínimo de inteligência quando as coisas chegam a esse ponto. As pessoas acabam se preocupando menos em conhecer e mais em fazer política. Mas política, nesse sentido, quer dizer apenas se preocupar com os meios.

Quem gosta de agir na base do consenso age que nem cachorro. Os cachorros se reconhecem pelo cheiro, os membros de cada grupo se reconhecem pelos chavões. Se você não souber quais os chavões, eles vão morder o seu traseiro. Mas sabe o que é mais triste? É que um montão de vezes o cara sinceramente acha que está pensando por si mesmo. É triste. Ele não percebeu que está sendo feito de palhaço, ou então mete logo o pé na jaca caso não seja tão ingênuo. É como Arnaldo Jabor elogiando Beleza Americana. O filme é escroto até não poder mais. Foi feito cheio de clichês tontos. Filme de garoto bobo que quer aparecer. Mas aí chega o Jabor elogiando...

Quer saber? Quem gosta de "raciocinar" assim é uma mistura de bobão com mentiroso, mais dois dedinhos de cinismo. Uma pessoa normal não consegue ser assim. Mas quem disse que o brasileiro medíocre é uma pessoa normal?

***

Esqueci de dizer um negócio. Ser iconoclasta é só uma expressão literária legal. Há ícones que a gente tem que defender. Nem tudo merece marretada. É como o riso. Nem tudo merece risada. Obrigar fiéis a comer excrementos em lugar de hóstia, como houve na Romênia, não é engraçado.

Esqueci de dizer mais uma coisa. É bom criticar alguém só se a gente tiver a possibilidade de fazer alguma coisa melhor. Senão é presunção.

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