Wednesday, November 15, 2006

Confusão: trabalho e amadurecimento

Temos como uma das nossas características o querer. É a vontade. Buscamos os meios para que a gente se satisfaça. Os meios são os corpos, as coisas, que estão à nossa disposição. Sempre o querer é dirigido a um fim predeterminado, e a utilização dos meios à nossa disposição implica em esforço na realização do nosso objetivo. E, é claro, a gente precisa dirigir nossos esforços de modo positivo para conseguir o que quereremos. Então tudo isso que chamo de vontade pode ser reduzido a pelo menos quatro notas: a escolha, a intenção, a vontade mesma e o esforço de fato.

Quando a gente fica grande, vai se tornando cada vez mais independente. Não apenas dos nossos pais, mas de quem quer que seja, na medida do possível. A independência, no sentido de amadurecimento da pessoa, é a capacidade de satisfazer por si a vontade. Essa é a lógica da importância do trabalho. Você trabalha para adquirir, com suas próprias forças, aquilo que deseja.

Mas a capacidade de satisfazer a própria vontade não é, de jeito nenhum, a única etapa do amadurecimento pessoal. É um dos primeiros. É verdade e mentira que o trabalho transforma a pessoa de criança em adulto. Verdade: como já disse, ajuda na independência como amadurecimento pessoal. Mentira: é apenas parte do processo de formação.

Não acho muito complicado entender o que estou dizendo. Um cara pode trabalhar muito mas ser um babaca. Lá no trabalho, até que pode ser responsável, mas pode muito bem ser também irresponsável nas relações amorosas, nas opiniões dadas e tal.

As pessoas geralmente têm uma opinião parcial sobre o amadurecimento. Talvez porque o trabalho seja uma das manifestações mais visíveis da ação do sujeito. Talvez porque seja mais difícil do que parece haver uma pessoa realmente, integralmente madura.

É fácil perceber o problema do amadurecimento parcial. Muito cara crescido simplesmente se tornou uma criança grande. A diferença entre o adulto "mal formado" e a criança é que esta não tem como aquirir por si o que deseja, enquanto o adulto tem os meios. Isso chega a ser perigoso. Crescer também implica em saber dirigir a vontade conforme a verdade. De certa forma, é um controle do desejo para que seja possível se saciar na verdade. Vou dizer de outro jeito. A vontade disciplinada dá como recompensa o mergulho na verdade. Você abdica de certas desordens próprias da sua vida desordenada para ser ordenado pela realidade. Minha gatinha Petruschka é fofa, mas ela não apreende a realidade porque vive só de desejo em desejo. Eu, embora palerma, tenho a capacidade de apreendê-la. Eu posso dirigir a minha vida para a verdade, a Petruschka não. O adulto "mal formado" não consegue dirigir assim a própria vida porque é imaturo. Não consegue abandonar a si mesmo para querer a verdade. É um querer se dirige apenas para si mesmo. Todos os meios que estão à disposição servem para a satisfação mais imediata. Quem está no comando são as vontades mais imediatas. É o corpo quem manda! Vive que nem a minha gatinha, com a desvantagem de não ser fofa que nem ela. É mesmo uma criançona no mundo. O mundo é um enorme playground. Vive como neném mimado.

Dá para forçar um link entre o que estou dizendo e a educação. Um dos problemas da nossa educação é que ela dá meios de estudo para sujeitos que não estão nem estarão nunca amadurecidos para o ofício. O estudo vira só confirmação presunçosa de preconceitos e cacoetes juvenis (os ateus geralmente são mestres nesse tipo de puerícia!). Às vezes calha de o sujeito ter uma pletora de conhecimentos para só utilizá-los em objetivos mesquinhos. Contraditório, né? Mas é o que fazem todos os dias.

Só para concluir, eu diria que o trabalho e o estudo, desacompanhados da formação das outras partes da nossa personalidade, acabam trazendo mais mal que bem. Da mesma forma que o trabalho fornecerá os meios para que o sujeito satisfaça desejos pueris (e isso será conseguido várias vezes às custas das outras pessoas, que serão apenas "meios" para algum objetivo), o estudo fornecerá os meios para que ele satisfaça seus preconceitos juvenis e o amor-próprio, às custas da verdade, da realidade.

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