Friday, November 17, 2006

Calor infernal mitigado pelo alemão inteligentão

Só aqui mesmo. Na mesma semana, um baita friozinho gostoso e um calor horrível de noite. Ou o maior tempo abafado. Para mim, isso é especialmente ruim, porque não agüento variações bruscas de temperatura. Fico logo mal. (*Iniciando contagem regressiva para o próximo resfriado...)

Nem tudo é drama. A cada dia tenho sido agraciada pela companhia de um alemão inteligentão. É da melhor estirpe. Venerável senhor e de humor fleumático (vide René Le Senne em Traité de caractérologie). Ele escrevia em latim e em francês galantes. Era diplomata e acostumado a ter contato com princesas. Estou falando de LEIBNIZ (Gottfried Wilhelm von).

Que cabeleira!, no melhor estilo séc. XVII.

Escrevi em caixa alta o nome do filósofo porque ele bem merecia o epíteto "o Grande", mesmo isso sendo coisa surrada. Não, não era grandão em tamanho, ou se era eu não sei, e ainda menos sei se o era em largura. Mas o era sem dúvida em inteligência. Se tornou principalmente célebre nas matemáticas (criou por exemplo o cálculo infinitesimal e os números binários) e em filosofia. Há quem diga até que foi um dos precursores da física indeterminista, já que não concordava nenhum pouco com a física mecanicista do contemporâneo Newton. Foi talvez o maior racionalista dos últimos 500 anos. O filósofo alemão se tornou conhecido em especial pelas considerações sobre a bondade e a perfeição da criação divina. (Curiosidade estilo rádio-relógio: os escolásticos distiguiam o criar, que era a "atualização" a partir do nada, ou seja, a obra por excelência de Deus, do fazer, que era a produção humana a partir da matéria.) O zé-ruela do Voltaire, não entendendo xongas do que Leibniz quis dizer a esse respeito, se inspirou nessa idéia em particular para criar seu Cândido, um sujeito que come o pão que o diabo amassou mas sempre acha que o mundo é uma coisa linda de morrer. Sobre Voltaire, já disse bem outro alemão ótimo, Goethe: "tem muita razão Madame Genlis quando protesta contra as liberdades e gracejos de Voltaire, pois, em boa verdade, por muito cheios de espírito que sejam, nenhuma melhoria trouxeram ao mundo e nada sobre tal fundamento se pode construir." Quem conhece não confia...

Ler Leibniz é enfrentar gente grande. Não é filosofia da pracinha ou para aparecer no palco. É coisa séria. Não é por exemplo que nem Nietzsche, que a gente lê no metrô e tem a impressão de já saber quase tudo o que ele disse, se bem que Leibniz escreveu muitas cartas em carruagens e talvez alguns dos escritos dele possam ser lidos na ida ao trabalho ou na fila do banco. Variação da explicação: você não precisa se elevar muito para entender Nietzsche. O máximo que precisa é ficar na pontinha do pé. Leibniz não. Você tem que realmente quebrar a cabeça. Não é que ele seja mal escritor. É que ele põe a gente para pensar. Parece até que ele diz assim: "Ja, ja, mein Freund. Se me ouvires, saberás coisas que nem imaginas. Mas tens de te esforçar. Verás então que eram coisas que te estavam na cara."

Esse filósofo é muito rigoroso. Tudo o que ele diz é desdobramento lógico, claro, concreto. Vai limpando terreno aos poucos. É técnico por vocação. Filosofia é coisa técnica mesmo. Essa vocação transparece também porque você pode perceber nas entrelinhas um papo com toda a tradição filosófica, sem excluir nem mesmo a escolástica (leia só Descartes e tente garimpar onde ele travou um papo com os medievais...). Os "modernos" - da época dele - são também alvo de discussão, afinal de contas o sábio, como dizia Aristóteles, parte sempre das opiniões em geral. Descartes, Newton, Hume, toda essa gente e mais um monte é colocada sob análise. Não é à toa que ele é dado às matemáticas. As matemáticas, o rigor técnico e a capacidade filosófica andavam juntinhas na cabeça de Leibniz. Não que ele fosse um pitagórico. É que a abstração metafísica podia ser exemplificada em algumas noções da matemática. Acho que Platão o convidaria para estudar na Academia sem o menor problema!

Nova methodus pro maximis et minimis, itemque tangentibus, quae nec fractas nec irrationales quantitates moratur, et singulare pro illis calculi genus. Primeira obra de Leibniz sobre cálculo diferencial (1604), todinho em latim.

Nenhum dos problemas clássicos da filosofia foram deixados de mão. A relação entre ente e essência, a formação do mundo, a imortalidade da alma, o bem e o mal, a liberdade, a existência, a contigência, a origem fundamental de todas as coisas... Temas eternos e que são sempre úteis. Um belo exemplo de capacidade de investigação foi o modo como encarou um dos problemas clássicos da filosofia, a conciliação entre a liberdade e a Providência, no pequeno texto Sobre a liberdade. Resolveu o problema de um jeito tão elegante quanto curto, o que faz lembrar uma dos lemas dele (que, a bem da verdade, não foi ele quem inventou): deve-se buscar o máximo efeito com o mínimo gasto. Parece um poema. Parece um lindo golpe. É a elegância aplicada à capacidade de investigação. Também escreveu sobre ética, política, religião... e por aí vai. Não escreveu nada em estilo corrido, em cima das coxas ou como mera sacação. Para dizer a verdade, todos os problemas fundamentais da filosofia tiveram alguma boa contribuição do velho sábio.

A Espectadora é leiga mas curiosa. (Se bem que o gatinho se deu mal por causa da curiosidade, tadinho.) Do que já foi lido, ela pode dizer uma coisa: é Aristóteles na Antigüidade, São Tomás na Idade Média e Leibniz na Idade Moderna. São altamente recomendáveis a Monadologia, Novos ensaios sobre o entendimento humano e Discurso de metafísica. Se um dia eu os ler direitinho, escreverei a respeito de cada um.

Leia o alemão. Você vai saber o que é mesmo filosofia e o que é encarar um filósofo de verdade mesmo, não esses zé-ruelas que estão na boca do povo. A briga é boa. Embora você vá apanhar, aprenderá mesmo.

Vai um selinho do Leibniz aí?

Dica: Há um site legal em português sobre Leibniz. É o Leibniz Brasil. Tem uma biografia e algumas das obras dele, além de links para diversas páginas a respeito.

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