Tuesday, November 14, 2006

Brasileiro é aproveitador e dinheirista

Esse blog vai virar neste post um daqueles blogs onde a pessoa escreve sobre a vidinha dela. Mas é temporário. No final, a moral da história.

A CONVERSA

Tive um papo muito revelador com meu pai.

Quando estávamos para sair do escritório dele, ele me veio com essa:

- Filha, tô gostando de ver você...

- Por quê?

- Porque enfim você está tomando tenência.

Por um momento considerei o que ele disse como um elogio. Depois fiquei pensando: "Mas o que é que ele quer dizer com 'tomando tenência'"? Do elogio veio a dúvida, a pergunta, e eis a resposta:

- Porque estou vendo que você está crescendo mesmo, ficando madura, parando com aquelas bobagens de escrever e mudar o mundo.

Como assim?! Como assim?! Mudar o mundo? Escrever?

Por partes: é verdade que eu já pensei em mudar o mundo. Eu planejava entrar na faculdade e contribuir para a "destruição do sistema". Minhas atividades subversivas começariam no meio cultural. Eu seria uma agitadora cultural. No jargão, agitprop. Como sempre gostei de escrever, achava que poderia de algum jeito unir o útil ao agradável. Até uma vez escrevi a letra de uma música para uma banda de amigos meus cujo título era Ditadura de Veludo. Essa "ditadura" consistia em nos obrigar a ser burros e consumistas, enquanto neguinho cagava na nossa cabeça, lá de cima do poder. Um dia vou colocar aqui no blog a letra para apresentar o que eu (supostamente) pensava. Isso tudo, é claro, ficou na cabeça do meu pai. Ele devia me achar uma trouxa. Tinha razão. Tudo bobagem. Mas escrever... Isso aí já é sacanagem. Escrever não é uma bobagem. Pelo contrário. Fiquei ainda mais admirada pelo fato do meu pai ser advogado. Porra, como justamente ele poderia dizer uma coisa dessas? Foi aí que eu disse:

- Pai, concordo que só quem é um bebezão pensa em mudar o mundo, mas escrever não é uma bobagem. Eu gosto disso.

- Até faz bem ter um sonho, minha filha. Escrever pode ser bom. Mas como você vai ganhar dinheiro com isso?

- E eu lá sei? Eu nunca nem pensei em ganhar dinheiro com isso. O que achei esquisito foi você dizer que escrever é bobagem. Eu acho que é uma coisa séria.

- Ainda bem que você não pensa em ganhar dinheiro com isso. Fico preocupado com você porque você é cheia desses idealismos que não levam a lugar algum. Idealismo é bom se você tem dinheiro no bolso.

- Que idealismo?

- Essas histórias de não fazer faculdade para não se corromper, não querer emprego público... Isso é bobagem. Quando eu era novo eu também era cheio dessas coisas. Olha que sou do tempo da ditadura! Sei o que é lutar pela liberdade. (Um comentário sobre meu pai: ele é esquerdista chique, daqueles que dizem com orgulho que são de esquerda, embora a sua própria vida não tenha nada de esquerdista, se é que algum esquerdista viva mesmo conforme o que prega. Já cansei de dizer isso para ele, mas enfim.)

- Prefiro me ferrar toda...

- Você diz isso porque tem a mim e a sua mãe para bancar você. Agora é fácil dizer isso.

- Tenho porque realmente não posso me bancar. Não tenho agora como. Mas não é por isso. Quero fazer o que gosto sem ter que sacrificar minha vocação. Gosto de ajudar você no escritório e tal, mas para mim é mais uma distração. Eu não quero virar secretária mesmo. Se fosse para virar uma, só se fosse uma coisa temporária, que não me prendesse a algo que não tenha nada a ver comigo.

- Se você passasse num concurso público, você ia ter estabilidade e poderia depois pensar no que iria fazer. Não é melhor ter idealismo com dinheiro no bolso e sossegada?

- Qual a diferença? Se eu vou largar mesmo o emprego público para cair na tal instabilidade, por que vou perder meu tempo num negócio desses? Pai, conta outra, isso é isca. Eu sei que um monte de gente cai nisso, mas eu não. Para mim, isso é se iludir. O cara pensa que vai conseguir a tal estabilidade nesse emprego para depois partir para o que gosta. Duvido. Vai ficar ali mesmo. Se engana. Quem é que vai largar o bem-bom pela confusão? E depois que tiver família? Não que eu vá ter uma...

- Por que não?

- Só estou mencionando, não sei se terei. Mas então, vai que eu tenha uma justamente durante o bem-bom? E para eu me mandar, como vai ser? Não vai ter como. Vou ter que ficar nisso, vegetando. Agora eu tenho opção...

- Que opção? Você não se preparou para nada, não tem curso superior, tem 24 anos e nunca trabalhou. [Nota: aqui ele se refere a emprego com carteira assinada.] Já viu o tamanho das filas para procurar emprego? Você nem sabe o que quer...

- Eu sei o que não quero. É mais fácil saber o que não se quer.

- Isso é filosofia barata de quem não tem o que fazer. Eu estava achando que você finalmente havia mudado um pouco. Mas essa sua cabecinha dura não mudou nada. Sabe a razão de eu ter pedido para você me ajudar? Você acha que eu realmente preciso de ajuda? Não, eu posso me virar. Eu queria que você experimentasse um pouco a sensação do trabalho, sentir o gostinho de ganhar o seu dinheiro depois de um mês na labuta. Ser independente...

- Isso não é ser independente. Me desculpa, mas você finge que me paga salário e eu finjo que trabalho. Não sou mesmo a sua empregada, secretária...

- Que seja, que seja... Eu queria... Quero que você se acostume com a vida real, minha filha. Sei que você vai dizer que não é real isso que estou passando para você. Mas é um estágio. É que nem a mamãe-passarinho ensinando o filhote a voar, minha filha. Estou dando pra você o senso de responsabilidade para você partir para a luta.

- Mas não estou falando disso. Já disse que gosto desse esquema. Por mim, ok. O que estou dizendo é que você não leva a sério uma coisa séria só porque não dá dinheiro ou conforto. Não é só por isso que eu deveria fazer outra coisa.

- Você não está me entendendo. Eu não disse que não é sério...

- Me desculpa, mas você disse sim que escrever é uma bobagem.

- Mas não foi nesse sentido que você entendeu. Eu quis dizer que ganhar dinheiro com isso não é uma boa idéia. Como você vai se sustentar fazendo isso?

- Quem disse que eu quero trabalhar com isso?

- Ah, pelo que você está dizendo eu...

- O que estou dizendo é que pegar emprego para ter conforto e cagar para o resto eu não pego.

- Já disse que não é assim.

- Pai, deixa disso. É armadilha sim, nem vem. Prefiro me foder toda a ficar assim.

- Você tem noção de como trabalho para você ficar desse jeito? Enquanto me mato, você fica com esses devaneios. Diz isso porque não tem mesmo responsabilidade alguma.

- Ah, agora virei a irresponsável! Onde estava o orgulho por mim? É tudo conversa fiada! Você quer bancar o advogado para mim, cheio das suas argumentações e tal para levar a causa, mas sabendo que é tudo bullshit. [Nota: Meu pai DETESTA quando uso esse tom, mas a essa altura eu já estava ficando puta com a conversa-circular.]

- Olha aqui, garota, mais respeito porque ainda sou seu pai! Não admito esse tipo de postura para cima de mim! A única pessoa que tem a perder com essa postura agressiva é você!

- Você diz que o que eu realmente gosto é bobagem, que não vale nada, e eu que estou sendo agressiva? Ah, pára com isso...

- Chega desse assunto! Seu problema é que é muito mimada! Bem que a sua tia sempre me dizia que eu estava criando um bebezão. [Nota: Sempre quando discuto com meu pai e ele se sente ofendido, ele tira isso do baú, essa história da minha tia. Isso porque quando eu tinha uns 6 anos, ela achava que eu estava sendo muito mimada e quando crescesse iria virar um "bebezão".]

- Ah pai...

- "Ah pai, ah pai..." Já vi que vou ter que te carregar nas costas até você aprender o que é a vida.

- Tá bom...

- Isso, fique assim mesmo, cheia de sarcasmos. Aproveita enquanto há tempo. Agora chega desse assunto, estou cansado. Quero relaxar.

Essa conversa foi durante toda a volta para casa. Não trocamos um "ai" depois. Ambos quietos.

MORAL BEM GRANDONA DA HISTÓRIA

Por que resolvi "transcrever" a conversa? Porque achei típica. Não típica só do meu pai, mas das pessoas deste país em geral. As pessoas acham que vocação e talento são bobagens, que o que importa é ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro sem muita possiblidade de ser demitido. Para mim, esse negócio de desemprego é só uma desculpa para as pessoas correrem para emprego público. Se não fosse o desemprego, seria outra coisa. Se não é emprego público, é alguma outra merda que pague bem. É tudo álibi, desculpa para a pequenez espiritual. Crescer para gente assim é sacrificar a vocação no altar do conforto. Crescer é virar um anão espiritual. O pior de tudo é que sentem orgulho disso. Lambem as bolas de quem quer que seja só pelo conforto. Olha o caso desse presidente imbecil que temos. As pessoas ao redor dele, sabendo que ele é um idiota, preferem puxar o saco dele. Gostam até de quando ele os xinga! Puta que pariu, é o fim do mundo! Ninguém nesse cacete tem a coragem de dizer que o rei está nu?

Em vez de haver um crescimento da personalidade do sujeito, o cara, nesse afã de dinheiro, se rebaixa. Chega a ser considerado honroso levar cusparada na cara de alguém considerado poderoso. Em todo emprego, talvez a pessoa tenha que engolir vez ou outra sapo, mas aqui as pessoas acham normal e até saudável se alimentar de sapo day by day. Sabe o resultado disso? É ter uma quantidade pavorosa de caras sem a menor vocação trabalhando em algo que no fundo eles não queriam. Conclusão: monte de gente trabalhando mal. Alguém tem vocação para, sei lá, fiscal do IBAMA? Claro que não. Quando trabalhar nisso, vai com má vontade. Todo mundo está careca de saber como os funcionários públicos tratam mal as pessoas. É principalmente por isso. Imagine então o que acontecerá naqueles empregos importantes, tipo oficial das Forças Armadas. É preciso que haja heróis no Exército. Mas acaba havendo um monte de oportunista barato. Na hora do "vamos ver", para onde essa gente vai? Vai para onde for mais cômodo. O mesmo no caso da medicina e da advocacia. Serão médicos oportunistas e advogados da ocasião, sem vocação.

Só que tem mais, ou, como diriam nesses comerciais de televendas, "e não é só isso". Um ambiente desse tipo está lotado de falsidade. Ninguém é realmente aquilo que se apresenta, ninguém realmente quer aquilo que faz. Tudo é forçado, tudo é aparência. Quando surge alguém para falar mal de tudo isso, as pessoas, com medo de serem desmascaradas, caçam o pobre diabo com fúria sem precedentes!

As pessoas fazem um pacto tácito aqui no Brasil para castrarem-se uns aos outros. Pior que ficam contentes!

Esse país é uma merda mesmo. É difícil sobreviver nisso aqui. E olha que nem estou falando da violência, porque dizem que mais de 50 mil pessoas são assassinadas por ano, o que dá quase duas Guerras do Iraque por ano. (A comparação é do Olavo, pegando as estatísticas do SUS.) O único modo de sobreviver é meter o cotovelo na fuça dos outros. Conforme a opinião geral, é bom se prostituir. É por isso que o que não falta é puta e puto. Nada contra quem realmente seja. Por mim, pode dar para e comer quem quiser. O que não pode é meter pau na própria consciência e na verdade. Pior, obrigando os outros a fazer a mesma coisa!

Sei que parece conversa de adolescente. Não é. Isso é sério.

1 comment:

Glauber Ataide said...

Wonderful isso sobre o sacrifício da vocação para o ideal burguês de vida, o qual foi muito bem expresso por Renato Russo na letra de "Química":

Ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão \ Filhos na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão \
Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão